Fique esperto

Se há um assunto sobre o qual aprendo muito no fb é feminismo, sempre por força das postagens de algumas amigas (como Daniela e Renata, por exemplo). Nos mais diversos assuntos sobre os quais se manifestam, mais e mais percebo como não tenho (temos?) ideia da extensão da violência contra a mulher na nossa sociedade. E hoje apareceu por aqui uma entrevista da Camille Paglia, que se diz “100% feminista”, mas chega a afirmar, tratando de algo tão sério quanto estupro, que a vestimenta da mulher “indica um nível de disponibilidade sexual” e que as mulheres maduras devem entender que “o mundo da beleza” não lhes pertence… Simples assim. Não dá nem pra linkar a entrevista aqui, porque, como disse a Daniela, trata-se de “um desserviço, ela diz que mães de filhos adotivos não são mães, que casamento igualitário não pode ser chamado de casamento, que mulheres deveriam ser mães para serem mulheres, que mulheres depois dos 50 não deveriam mostrar o corpo, que o feminismo é ódio aos homens”. De fato, a entrevista é catastrófica e quero aproveitá-la apenas para registrar um hábito muito caro ao jornalismo brasileiro: encontrar o ex-comunista que virou anticomunista, o torturado que elogia a ditadura e, agora, a “100% feminista” disposta a aconselhar as mulheres a pararem de “culpar os homens por seus problemas”. É tudo que a grande imprensa gosta: um traidor, um delator, um desertor, um “ex” que vira “anti”, um “radical” que vira “moderado”. Alguém que fala com a autoridade do “eu errei”, do “eu já fui, então posso falar”, do “meninos, eu vi”. Vale para o “ex-assalariado” que está feliz da vida com as vantagens de ser terceirizado, para o ex-grevista que lamenta ser proibido de trabalhar pelos grevistas, enfim, para toda exceção que ajude a deslegitimar a regra. Num momento em que o conservadorismo assalta todas as prateleiras de nossa sociedade, é perfeito encontrar alguém que não identificamos como conservador para ratificar o discurso conservador, reacionário, retrógrado, ou seja, aquele discurso do qual jamais vieram direitos. Pelo contrário: é o discurso de que se valem aqueles que querem negar direitos, avanços, conquistas. Fiquem alertas diante dessa estratégia: quando se dá destaque a quem “desistiu” de uma luta, o que se faz apenas é ensinar o caminho da desistência para quem ainda luta. Ou pior: para quem ainda poderia vir a lutar. E, no noticiário brasileiro, isso nunca é por acaso. Nunca.

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