Sobre poesia, ainda: Lucas Bronzatto

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Meus versos saíram da gaveta já neste tempo de hiperexposição, e não tenho um “antes” para comparar como escritor, o que talvez me limite pra responder a esta provocação. Pra mim tudo sempre caminhou junto, inicialmente usando as redes sociais para difundir o que escrevia no blog e depois usando as redes sociais como via de difusão diretamente. Mas não acho que esta hiperexposição obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer. Percebo que existe sim um interesse por poesia, seja no formato poema tradicional ou em outras formas de expressão. Ainda que nas redes sociais as pessoas leiam tudo de maneira apressada, ainda que tudo que é visual, curto e direto chame mais a atenção e “viralize”, há pessoas menos impacientes que param para ler poemas fora destes padrões, e que se deixam levar pelas sensações ou reflexões que provocam. E não se trata apenas de gente que escreve, o que me parece mais interessante nisso tudo. Sinto que há espaço, ainda que pequeno, neste turbilhão todo.
Por que não se confundem? Tenho um pouco de dificuldade de separar o que é poesia do que não é poesia. Não me preocupo muito com essa distinção, por isso acho que às vezes as duas coisas se confundem um pouco. Às vezes um comentário sobre algum link compartilhado ou sobre uma foto (ou a própria foto), ou um pensamento solto, produzem sensações semelhantes às que os versos de um poema causam e conseguem às vezes parar este tempo acelerado que é a vida real (e que se expressa, também, no modo como muita gente encara e se relaciona com as redes sociais, subindo a descendo alucinadamente a barra de rolagem, sem olhar para os lados, sem respirar direito, procurando sei-lá-o-ques que preencham seus vazios). Se qualquer uma dessas expressões – sejam literárias ou não – conseguem fazer o leitor tirar o olho da tela, seja pra olhar pra cima pra pensar sobre o que leu, seja porque as palavras o fizeram lembrar que há coisas mais importantes além da janela, enfim, se as palavras conseguem jogar o leitor pra fora da tela, para um tempo distinto do tempo das redes e da vida, parece que aí há algo feito pela poesia, há algo para a poesia fazer.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Se a viagem se limitar apenas ao continente da literatura, ao mercado ou ao meio literário, aos espaços tradicionalmente reconhecidos como “da poesia”, aos “casarões e bibliotecas inacessíveis a olho nu e prateleiras de livrarias que crianças não alcançam com os pés descalços” (emprestando do Sérgio Vaz estes lugares frequentados por esta dama triste), a viagem será mesmo um périplo (uma navegação em torno de algo, que por fim volta ao mesmo ponto, uma circum-navegação). E parece que este mundo de máquina hoje já dispõe de roteiros pra quem opta por este périplo.
Mas há outros mares que me atraem mais, nos quais a poesia parece estar mais viva. Falo dos saraus, manifestações e ocupações artísticas/políticas espalhados pelas cidades, nas ruas, espaços públicos, botecos, bibliotecas comunitárias, nas periferias e nos centros. Por estas rotas a navegação pode não ser um périplo. Nestes lugares os poemas ganham novas vidas, nas bocas de quem nunca imaginou que um dia ia ler e/ou escrever poemas, nas bocas de quem grita e resiste às opressões, na soma com outras artes e podem empurrar @s poetas e suas linguagens para novos rumos. Ao se deixarem ser ocupados por outras vozes, outras artes, outros lugares menos “nobres” e às vezes menos silenciosos, ao ocuparem junto, ao descerem do Olimpo e buscarem o caminho dos mortais e não o dos imortais, quem sabe o destino final desta viagem não seja novamente a própria literatura. Mas se de tanto discutir literatura e de lerem seus poemas para outr@s poetas, ficam ocupad@s demais para as ocupações, para as praças e ruas, se passam seu (pouco) tempo disponível procurando o “lugar da poesia” em ambientes assépticos, @s poetas não conseguirão perceber a vida nova que a poesia ganha nestes lugares. Retornarão a si mesm@s, ao lugar de sempre, encastelad@s. Se há algum roteiro pra encontrar este tal lugar da poesia – se é que temos que buscá-lo – estes lugares cheios de vida e luta precisam constar nas cartas de navegação.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Depende de qual dor @ poeta finge. O bombardeio de (des)valores que alguns veículos de comunicação, grupos e pessoas deformadoras de opinião fazem parece ter deixado confusa a percepção de dor de parte das pessoas por aí. A linha entre o que é dor e o que não é dor, o limiar de dor se tornou complexo. O olhar para fatos e situações do cotidiano está orientado por uma série de “filtros”, que acomodam os incômodos de modos muito particulares. Por exemplo, algumas histórias de dor da periferia, semelhantes a outras de moradores de bairros ricos e que geraram comoção nacional, geram apedrejamento ou indiferença coletiva (pra ficar em poucos exemplos recentes, as histórias do Amarildo, da Cláudia Silva Ferreira, do Rafael Braga, do menino Eduardo assassinado pela polícia no Alemão, da Veronica). Há uma diferença de ênfase que a mídia dá, mas há também essa questão dos “filtros” inculcados nas pessoas, que dão legitimidade às explicações que a grande mídia/Estado dá, majoritariamente a partir do olhar/interesses da classe dominante. “Filtros” que parecem deixar o limiar de percepção de dor na sociedade seletivo quanto à classe social, etnia, gênero e orientação sexual. Por isso muitas vezes @ poeta que se propõe a escrever com os pés e mãos imersos nesta realidade acaba sendo um/a fingidor/a, talvez em outro sentido, tendo que fingir que é dor uma dor que deveras sente e que tanta gente finge que não é dor. Dores que deveras sente, severamente deturpadas ou silenciadas por quem detém o poder da informação e que @ poeta pode trazer à tona nesta forma de fingimento, a poesia. E/ou trazer olhares diferentes das explicações mal fingidas e filtradas pelo olhar da classe dominante, que às vezes até os dominados reproduzem e difundem. E talvez se chocar com os tais “filtros”, talvez colocar uma pulga atrás da orelha de quem lê e sente na dor lida a dor que não tem, ou que tinha de um jeito deturpado.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

De contradições, principalmente. Atualmente, as perturbações que me alimentam são os véus colocados pra esconder a essência dos fatos do cotidiano. De novo cai na questão da deformação de opiniões, dos “filtros”, de que falei na pergunta anterior. O capitalismo e as formas de dominação e opressão decorrentes das relações sociais que este sistema cria são sustentados também por uma cadeia de difusão de ideias e de explicações para os fatos que ajudam a dar legitimidade à exploração de uma classe por outra. E aí há um monte de véus, uma sucessão de balelas e de narrativas inventadas pra induzir as pessoas a naturalizarem a exploração, a opressão e a “humilhação demais que não cabe no refrão” que @ “trabalhador/a que corre atrás do pão” sofre todos os dias. Pra mim existe aí uma espécie de trincheira que a arte pode entrar, ajudando a desvelar a essência por trás da aparência dos fatos. Ajudando, com suas múltiplas linguagens, a explicitar como são hipócritas e absurdas certas explicações pintadas nos véus. Minha arte poética de barbárie ultimamente tem sido: “feito um defeito desfeito, deixar transparecer nos versos feitos as causas dos efeitos, como um desilusionista”. Meus poemas atualmente estão nesta trincheira e andam com fome destes véus. Infelizmente, deste alimento há fartura.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

“Da Paz”, do Marcelino Freire, especialmente nesta interpretação da Naruna Costa no Sarau do Binho: https://www.youtube.com/watch?v=2g7DHBABdDI . Sei que o pedido era de um poema, mas acho que esta prosa traz muitas coisas que disse nas perguntas anteriores. Entre outras coisas, é uma interpretação em um desses lugares “cheios de vida e luta”, que pode levar a poesia para caminhos menos repetitivos. Volta e meia este vídeo vem à minha mente, já faz um tempo que faz “todo o sentido” pra mim. Novamente estamos diante de um bombardeio midiático que induz a crer que apenas as manifestações políticas “pacíficas” são legítimas e que as não pacíficas não são de “gente de bem”. “Da Paz” atinge este véu.

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