Nostalgia do futuro

cacto

Viciados em livros são seres perigosos. Publiquei ontem uma selfie em que apareciam livros lá de casa logo atrás da metade da minha cara de quem acabava de correr meia maratona. Pois hoje um amigo me encontra e, sem uma palavra a respeito dos meus méritos de atleta (ah!), diz: “pô, você tem uns exemplares da Cacto 1”. E o pior – ou melhor: eu o compreendi imediatamente, porque partilho da mania de tentar descobrir em toda e qualquer cena quais livros emolduram a cabeça de alguém. Mas neste caso em especial teve uma coincidência a mais: nos últimos meses, semana sim e semana também, tenho encontrado referências à CACTO aqui e ali, não apenas quando se fala das revistas brasileiras de poesia, mas também de poetas que surgiram nela etc. Para quem não conhece, CACTO foi uma revista de poesia que editei comEduardo Sterzi – e uma equipe enorme e incrível de colaboradores, aos quais devemos muito!, além do apoio decisivo de Alpharrabio, Fabricando Ideias, Gráfica Bartira e, no último número, editora Unimarco – entre 2002 e 2004. Os quatro números, juntos, somam 800 páginas de poesia, crítica e tradução de alta intensidade, que reuníamos semestralmente graças à marcação cerrada nos calcanhares daqueles que julgávamos fundamentais para compor um número forte, coeso, denso da revista. Creio que deu certo. Folheando a coleção agora, dá orgulho de ter feito, mas principalmente de imaginar o que os textos ali reunidos viraram nas cabeças dos inimagináveis leitores que cruzaram com algum dos exemplares da revista ao longo de mais de uma década. Não é apenas o orgulho de ter feito a revista lá naquela época, mas o de saber que, ainda hoje, fazê-la, talvez da mesma maneira, seria uma grande coisa – é o que alguns leitores dizem. Volta e meia, Eduardo e eu falamos “bem que podia voltar…”, “quem sabe um número 5…”, “a edição digital dos 4 números…” Talvez porque nossa CACTO ainda continue bela, áspera, intratável, como a imaginamos, talvez porque fazer revistas de poesia seja a missão de todo poeta. Acho que não vamos conseguir – tomara! – escapar dessa missão por muito mais tempo.

PS: para quem não sabe ou lembra, CACTO deve seu nome ao Bandeira:

O CACTO
Manuel Bandeira

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.

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