Sobre poesia, ainda: Ruy Proença

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Certa vez, ouvi da boca de Ziraldo a seguinte frase, que cito de memória: “no passado, as pessoas se preocupavam com a invasão de privacidade; hoje, se preocupam com a evasão de privacidade”. Esse chiste é muito revelador da sociedade contemporânea. E o triste é que as pessoas se pautam em grande medida por esse diapasão. As pessoas hoje sobrevalorizam a ação, as relações sociais, as redes. E se esquecem de que o mergulho para dentro de si, o olhar introspectivo, o tempo da reflexão e da autorreflexão, o tempo da contemplação são igualmente muito importantes.

Nesse sentido, a hiperexposição gera sim uma necessidade de reação. E a poesia, quero crer, tem o poder de nos levar para o lugar do avesso, de onde podemos enxergar melhor o mundo naquilo que nos é mais essencial, mais visceral. Mas acho que isso não é de hoje. Em outro contexto, já estava lá no poema Os homens, as viagens de Drummond. O homem, “bicho da Terra tão pequeno”, chateia-se na Terra, “lugar de muita miséria e pouca diversão”, e vai em busca da Lua, de Marte, de Vênus, de Júpiter, do Sol, de outros sistemas solares a colonizar e humanizar. E, “ao acabarem todos [os astros colonizados]/ só resta ao homem/ (estará equipado?)/ a dificílima dangerosíssima viagem/ de si a si mesmo:/ pôr o pé no chão/ do seu coração/ experimentar/ colonizar/ humanizar/ o homem/ descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas/ a perene, insuspeitada alegria/ de con-viver.” Mostro esse poema a meus filhos como uma provocação, para que eles reflitam sobre o mundo contemporâneo.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

À parte a ironia contida na expressão “em vão” (se não fosse ironia, o próprio Drummond não escreveria poemas), eu acredito que sim, que os poetas estão um pouco condenados “a sempre repetir os mesmos sem roteiro tristes périplos”. Mas a condenação a este repetir não é negativa. Ao contrário, o fluxo da vida é um constante repetir. E é de pequenos acidentes dentro desse percurso repetitivo que vão surgindo os novos caminhos, vão brotando novos horizontes. Essa é a história da evolução das espécies. E, a meu ver, não seria diferente com a história do conhecimento e da poesia. Ao longo da estrada pedregosa, pequenas descobertas, muitas vezes por puro acaso, fazem toda a diferença. A palavra serendipidade, serendipitia ou serendipismo é maravilhosa por que ela dá conta desse fenômeno das descobertas casuais e extraordinárias que ocorrem quando há um processo de repetição e curiosidade em jogo (ainda que esta curiosidade tenha se transformado em ceticismo no poema A máquina do mundo). En passant, a título de ilustração, numa videobiografia dos Beatles, há um episódio em que John Lennon está tocando a guitarra e percebe que ao se aproximar do amplificador ocorre uma distorção indesejável do som. Ele fica extasiado com aquilo e resolve tirar proveito dessa dissonância. E isso passa a ser um novo e rico recurso técnico nas composições do grupo. Uma descoberta! Da repetição sempre surgirá algo novo, um novo caminho que não estava no script (ou nos “tristes périplos sem roteiro”, como preferia Drummond).

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

A poesia continua sendo, e acredito que sempre será, um espaço de representação do mundo. Na medida em que é representação, ela põe em marcha o teatro do mundo. Fernando Pessoa com seus heterônimos desenvolveu um teatro da fragmentação — ou da multiplicação — do eu. Na poesia contemporânea — e tomo como exemplo Chico Alvim — o poeta levou adiante esse trabalho. No grande teatro público, ele tem dado voz a muitos atores além do eu. O eu-lírico se põe assim (e alguém já terá dito isso) a desempenhar um papel de ventríloquo. Ele capta vozes muitas vezes silenciosas e as amplifica. E essa voz amplificada é um canto de inconformismo, de revolta. Ele expõe as fraturas, os estilhaços, as dores, as enfermidades de um mundo que se quer são, que só se vê no espelho como vencedor. O poeta mostra ao mundo que não; mostra não a imagem que ele [mundo] quer ver, mas a imagem que ele não vê, a imagem distorcida e fiel da realidade.

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

É estranho. Os poetas se alimentam de poesia e, ao mesmo tempo, dão de comer à poesia, ou ao poema. Isso mais parece um ato libidinoso, algo que tem a ver com o amor, seja lá que amor for esse… (“qualquer tipo de amor vale a pena”).

Os poemas são onívoros. E têm um quê de avestruz. Têm fome das coisas mais estranhas. É difícil responder essa questão. Penso que eles são o produto de situações que nos interrogam. Quando estamos em paz conosco, não há necessidade do poema. Mas desde que algo nos convulsione, nos espante, o poema está lá nos convidando a fazer uma travessia. E durante a travessia, que é uma travessia amorosa, e por isso também dolorosa, entramos num espaço em que o impossível é possível. Tentamos pôr ordem nesse caos. A ideia é sair da travessia tendo parido um texto, um organismo, que minimamente transmita a experiência, a vivência do espanto a que fomos submetidos. Acho que o poema se alimenta desse espanto, dessa desestabilização. Mas as formas que ele assume são concretas. Ele fala do homem, da catástrofe, da injustiça, da paixão, do trauma, da opressão, do conflito, do transtorno. Pode falar da alegria. É um território livre. Mas fala por símbolos. Fala por meio de cacos, coisas, seres, cheiros, cores. Fala por meio de linguagem sensorial. Penso nos poemas Fuga da morte e [Havia terra neles], de Paul Celan. Poemas dos mais terríveis de toda a história da poesia. Poemas-limite. Menciono aqui o início do segundo poema, na tradução de Ivete Centeno e João Barrento. Nele, a linguagem mimetiza a situação de paupérie psicológica.: “Havia terra neles, e/ cavavam.// Cavavam e cavavam, assim passava/ o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,/ que, segundo ouviam, queria tudo isto,/ que, segundo ouviam, sabia tudo isto.// Cavavam e não ouviam mais nada;/ não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,/ não imaginavam qualquer espécie de linguagem./ Cavavam.”

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Alguns poetas me surpreendem demais. Tenho citado em outras oportunidades Aglaja Veteranyi e Vislawa Szymborska. Mas gostaria agora de falar não de um, mas de dois poemas (desculpe-me) que li no ano passado.

O primeiro, é de Margaret Atwood, renomada prosadora canadense que envereda pelo caminho da poesia. É de sua autoria o poema Os poetas aguentam firme, que me foi apresentado por outro poeta amigo, Carlos Loria, e que transcrevo a seguir, na tradução de Adriana Lisboa (A porta, Rocco, 2013, p. 42).

OS POETAS AGUENTAM FIRME

Os poetas aguentam firme.

É difícil livrar-se deles,

embora Deus saiba que já se tentou.

Passamos por eles na estrada

de pé com as suas tigelas mendicantes,

um hábito antigo.

Nada dentro delas agora

além de moscas secas e moedas falsas.

Eles olham reto em frente.

Estão mortos ou o quê?

Têm, contudo, a expressão irritante

dos que sabem mais do que nós.

Mais do quê?

O que é isso que alegam saber?

Desembuchem, falamos entre os dentes.

Digam de maneira direta!

Se você tenta obter uma resposta simples,

nesse momento eles se fingem de loucos,

ou então bêbados, ou então pobres.

Vestiram essas fantasias

faz algum tempo,

Esses suéteres pretos, esses andrajos;

agora não conseguem mais tirar.

E estão tendo problemas com os dentes.

Esse é um de seus fardos.

Uma ida ao dentista não lhes faria mal.

Estão tendo problemas com as asas também.

Não temos visto muita coisa de sua parte

no setor de voo esses dias.

Não os vemos mais pairando nos ares, radiantes,

acabaram-se as travessuras aéreas.

Para o que diabos são pagos?

(Suponha que sejam pagos.)

Não conseguem sair do chão,

eles e suas penas enlameadas.

Se voam, é para baixo,

para dentro da terra úmida e cinzenta.

Vão embora, dizemos —

e levem sua aborrecida tristeza.

Não os queremos aqui.

Esqueceram-se de como nos dizer

que somos sublimes.

Que o amor é a resposta:

dessa nós sempre gostamos.

Esqueceram-se de como bajular.

Já não são sábios.

Perderam seu esplendor.

Mas os poetas aguentam firmes.

São tenazes acima de tudo.

Não sabem cantar, não sabem voar.

Só dão pulos e grasnidos

e se debatem contra o ar

Como se enjaulados

e contam ocasionais piadas cansadas.

Quando lhes fazem perguntas a respeito, dizem

que falam o que devem.

Cristo, como são pretensiosos.

Há algo que sabem, porém.

Há algo que sabem, sim.

Algo que estão sussurrando,

algo que não podemos ouvir muito bem.

É sobre sexo?

É sobre poeira?

É sobre medo?

Acho-o importante porque ele expõe muito claramente o lugar do poeta no mundo contemporâneo. O poeta é visto pela sociedade como um pária, um pedinte, habita um inframundo. É um ser destronado. Mas tal qual Lúcifer após a queda, apesar de detestado, ele tem algo a nos dizer. O mundo quer se blindar contra o poeta. Mas, mesmo pária, ele se faz ouvir por entre as fraturas do mundo. E o que ele tem para nos dizer é algo essencial. Algo que nenhuma ordem conseguirá sufocar, por que é algo que está no mais íntimo de cada um de nós. O poeta é uma espécie de subversivo que não deixa a consciência morrer.

O outro poema que gostaria de citar é um poema em prosa sem título, do escritor e poeta inglês John Berger, traduzido por António Cabrita e citado no livro Arte da pequena reflexão, de Fernando Paixão (Iluminuras, 2014, p. 185):

Aquilo que me reconcilia com a minha própria morte é, mais do que outra coisa qualquer, a imagem de um lugar: um lugar onde os teus ossos e os meus fiquem sepultados, atirados para ali, nus, juntos. Disseminados, numa confusão desordenada. Uma das tuas costelas está apoiada contra o meu crânio. Um metacarpo da minha mão esquerda repousa dentro da tua bacia. (Contra as minhas costelas quebradas, o teu seio, parecido com um flor.) As centenas de ossos dos nossos pés estão dispersas como areia. É estranho que esta imagem da nossa proximidade, apenas ligada por fosfato de cálcio, possa produzir um sentimento de paz tão grande. Mas é isso, precisamente, o que acontece. Contigo eu posso imaginar um lugar onde me seja suficiente não ser mais do que fosfato de cálcio.

A grandeza desse poema é nos despertar para a nossa dimensão mineral, nossa dimensão vista da perspectiva de um tempo que extrapola a curta e milagrosa vida orgânica. Ali vemos um fóssil do ato amoroso, uma paleontologia da luxúria. É uma cena dramática, trágica. Mais ainda porque o poeta é capaz de antever a cena. Ele é capaz de vivenciar o drama, a tragédia, a priori, teleologicamente. Então tudo o que somos, em essência, não é mais do que um amontoado de vestígios de fosfato de cálcio?

Tarso de Melo, poeta

FÓSFORO

Em minha mais recente visita à Alpharrabio (que comentei aqui), saí de lá com este livro:

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Li alguns poemas, coloquei o volume na cabeceira (poucos são os escolhidos, o criado-mudo é pequeno) e fui aos poucos convivendo com a poética de Tarso de Melo. Mal o conheço, trocamos meia dúzia de palavras na vida. Melhor assim, distanciamento faz bem quando temos de falar mal. Ou falar bem.

                Não sou grande leitor de poesia, confesso, e boa parte dos poetas contemporâneos me parecem monótonos, repetitivos, engraçadinhos ou, na melhor das hipóteses, epígonos. A poesia sempre me pareceu um jeito meio preguiçoso de expor um ponto de vista (perdão, Euterpe!), o que me fez optar pela prosa como porta principal de percepção deste e de outros mundos. Ainda assim, de vez em quando a leitura de um poema pega na veia, me deixa extasiado. Pode ser Lorca, Kaváfis ou Ademir…

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Sobre poesia, ainda: Danilo Bueno

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Creio que a poesia não esteja afeita nem à exposição excessiva nem ao caráter mais instantâneo que algumas mídias impuseram para o cotidiano das pessoas. Imagino que a noção entre público e privado tem se redefinido com os novos limites dessas tecnologias e as possibilidades de comunicação que elas engendram. Acredito que a mudança tem seu aspecto positivo, em alguma medida. No entanto, no meu caso, não há hiperexposição, uma vez que ela não se adequa ao meu feitio. Daí, não há o contato com a poesia, pelo menos como eu a reconheço, entre os limites da meditação, da sensibilidade e do estranhamento.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Já há algum tempo compreendi que não escrevo para um público determinado. Essa percepção levou-me a escrever com mais tranquilidade e mais vagar. Já não tenho interesse em fazer meus poemas circularem por publicações de prestígio ou em receber valorações positivas em resenhas. A questão da recepção pouco me interessa atualmente. A poesia, como poder transformador e mágico, moldou minha vida até aqui: tudo o que me aconteceu de maravilhoso foi por meio dela. Não tenho mais nada além para pedir. O poeta age de acordo com sua criatividade e sua insatisfação, de algum modo tentando captar uma forma de expressão que traduza o momento em que vive. Por isso não acho que haja uma relação direta em o “tal lugar da poesia” (que ocupou, pelo menos desde o XIX, com a ascensão do romance, o mesmo lugar marginal) e a necessidade de caminhos tristes que refere o verso. Haverá lugar para a poesia na medida em que haverá lugar para a sensibilidade humana. Outra coisa, o tópico da repetição em oposição ao novo é algo que ocupa pouco minha mente: se for poesia, basta. Estou certo que já terá percorrido um árduo caminho para chegar até ela.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Não, não creio. O fingimento é uma abordagem, existem outras, que, de certa forma, podem compreender um espaço de ficção, autoficcionalização e refazimento da memória; mas que não anulam a tentativa do poema como relato, como resposta objetivada ou até mesmo inconsciente das relações de mundo. Se o poeta, na maioria das vezes, é um fingidor, essa característica não pode defini-lo por completo, pois excluiria a tentativa sempre um tanto arrebatadora de refazer todas as convicções que a(s) voz(es) dos poemas possam porventura engendrar(em).

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Meus poemas são motivados por situações várias. Não há apenas um modo de fazer e de pensar/sentir. Muitas vezes, nascem daquilo que eu escuto por aí, ao acaso. Por outro lado, quando quero objetivar e racionalizar o processo de escrita, procuro não me conformar com a expressividade já conseguida. Em outras palavras: rasgos estilísticos não podem predominar em relação a minha visão de mundo. Se tiver que mudar, cortar, reescrever, reaprender, reler e até mesmo jogar tudo fora, por uma insuficiência qualquer, não acharei que essa busca tenha sido vã. No final, o autoconhecimento e o alargamento da percepção em busca daqueles momentos maravilhosos que compuseram minha experiência com o poético até hoje já seriam motivos suficientes para continuar lendo e escrevendo poesia.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

O poema abaixo foi um dos primeiros que comunicou a experiência poética para mim, por isso ele merece destaque. Eu devia ter uns dez, onze anos. Toda vez que eu o releio, entro novamente em contato com as forças da memória e da contemplação. Escolhê-lo significa, então, valorizar o poder de revisitação que um poema pode suscitar, e, acima de tudo, fruir outra vez o inestimável prazer de sua leitura.

“Ontem”

Até hoje perplexo

ante o que murchou

e não eram pétalas.

De como este banco

não reteve forma,

cor ou lembrança.

Nem esta árvore

balança o galho

que balançava.

Tudo foi breve

e definitivo.

Eis está gravado

não no ar, em mim,

que por minha vez,

escrevo, dissipo.

Carlos Drummond de Andrade

Do livro A rosa do povo (1945)

Machado, sempre

machado

A obra de Machado de Assis talvez seja o maior colosso da língua portuguesa; e certamente é um dos maiores dessa língua sobre todas as línguas que chamamos de literatura universal. É justo tratá-lo como Bruxo: basta abrir, ao acaso, qualquer página de suas obras completas (para meu gosto, ao menos hoje, indico os livros de contos, que estão aqui de graça: http://machado.mec.gov.br/obra-completa-menu-principal-173/166-conto) e constatar que há algo ali de anormal, de incontrolável, de outra órbita. Críticos, biógrafos, todos seus mais dedicados leitores bem se esforçaram e se esforçam em delimitar o “campo Machado de Assis” (o que leu, o que viu, o que viveu) e entregar o mapa para a aparição desse fenômeno entre 1839 e 1908 na cidade do Rio de Janeiro, mas todo esse esforço parece que apenas abre ainda mais as fronteiras do espanto de quem pega algum de seus livros (os contos, as crônicas, os romances, tudo…) nas mãos e simplesmente – ou não tão simplesmente – lê. Algo ali escapa a qualquer inventário, a qualquer receita, a qualquer cálculo. Coisa de bruxo. Hoje, por exemplo, vindo de alguns dias de “surto machadiano” (quando caio novamente em suas teias e vou sorvendo, ao acaso, o biotônico de sua inteligência para me recompor de algo, aqui ou ali, que me faz mal e desanima e trava), dei com esse conto que copio abaixo: “Ex cathedra” (que está em Histórias sem data, de 1884). Durante esses surtos, por mais que já tenho lido e relido muitas das páginas com que me deparo, a porrada é sempre nova. Sempre. Não vou falar mais nada. Vá lá. (Por que essa indicação numa manhã qualquer de maio de 2015? Não sei. Mas tem que ter porquê?)

EX CATHEDRA

Machado de Assis

— Padrinho, vosmecê assim fica cego.

— O quê?

— Vosmecê fica cego; lê que é um desespero. Não, senhor, dê cá o livro.

Caetaninha tirou-lhe o livro das mãos. O padrinho deu uma volta, e foi meter-se no gabinete, onde lhe não faltavam livros; fechou-se por dentro e continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manhã, de tarde e de noite, ao almoço e ao jantar, antes de dormir, depois do banho, lia andando, lia parado, lia em casa e na chácara, lia antes de ler e depois de ler, lia toda a casta de livros, mas especialmente direito (em que era graduado), matemáticas e filosofia; ultimamente dava-se também às ciências naturais.

Pior que cego, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na Tijuca, que ele começou a dar sinais de transtorno cerebral; mas, como eram leves e poucos, só em março ou abril de 1874 é que a afilhada lhe percebeu a alteração. Um dia, almoçando, interrompeu ele a leitura para lhe perguntar:

— Como é que eu me chamo?

— Como é que padrinho se chama? repetiu ela espantada. Chama-se Fulgêncio.

— De hoje em diante, chamar-me-ás Fulgencius.

E, enterrando a cara no livro, prosseguiu na leitura. Caetaninha referiu o caso às mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum tempo, que ele não andava bom. Imagine-se o medo da moça; mas o medo passou depressa para só deixar a piedade que lhe aumentou a afeição. Também a mania era restrita e mansa; não passava dos livros. Fulgêncio vivia do escrito, do impresso, do doutrinal, do abstrato, dos princípios e das fórmulas. Com o tempo chegou, não já à superstição, mas à alucinação da teoria. Uma de suas máximas era que a liberdade não morre onde restar uma folha de papel para decretá-la; e um dia, acordando com a idéia de melhorar a condição dos turcos, redigiu uma constituição, que mandou de presente ao ministro inglês, em Petrópolis. De outra ocasião, meteu-se a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar se realmente eles podiam ver, e concluiu que sim.

Digam-me se, em tais condições, a vida de Caetaninha podia ser alegre. Não lhe faltava nada, é verdade, porque o padrinho era rico. Foi ele mesmo que a educou, desde os sete anos, quando perdeu a mulher; ensinou-lhe a ler e escrever, francês, um pouco de história e geografia, para não dizer quase nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe ensinar crivo, renda e costura. Tudo isso é verdade. Mas Caetaninha fizera quatorze anos; e, se nos primeiros tempos bastavam os brinquedos e as escravas para diverti-la, era chegada a idade em que os brinquedos perdem de moda e as escravas de interesse, em que não há leituras nem escrituras que façam de uma casa solitária na Tijuca um paraíso. Descia algumas vezes, raras, e de corrida; não ia a teatros nem bailes; não fazia nem recebia visitas. Quando via passar na estrada uma cavalgada de homens e senhoras, punha a alma na garupa dos animais, e deixava-a ir com eles, ficandolhe o corpo, ao pé do padrinho, que continuava a ler.

Um dia, estando na chácara, viu parar ao portão um rapaz, montado numa bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era ali a casa do doutor Fulgêncio.

— Sim, senhor, é aqui mesmo.

— Podia falar-lhe?

Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao gabinete, onde achou o padrinho remoendo, com a mais voluptuária e beata das expressões, um capítulo de Hegel. — Mocinho? Que mocinho? — Caetaninha disse-lhe que era um mocinho vestido de luto. — De luto? repetiu o velho doutor fechando precipitadamente o livro; há de ser ele. Esquecia-me dizer (mas há tempo para tudo) que, três meses antes, falecera um irmão de Fulgêncio, no Norte, deixando um filho natural. Como o irmão, dias antes de morrer, lhe escrevera recomendando o órfão que ia deixar, Fulgêncio mandou que este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que estava ali um mocinho de luto, concluiu que era o sobrinho, e não concluiu mal. Era ele mesmo.

Parece que até aqui nada há que destoe de uma história ingenuamente romanesca: temos um velho lunático, uma mocinha solitária e suspirosa, e vemos despontar inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região poética em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o Raimundo veio montado, foi reconduzida por um preto ao alugador; passo também por alto as circunstâncias da acomodação do rapaz, limitando-me a dizer que, como o tio, à força de viver lendo, esquecera inteiramente que o mandara buscar, nada havia em casa preparado para recebê-lo. Mas a casa era grande e abastada; uma hora depois, estava o rapaz aposentado num lindo quarto, donde podia ver a chácara, a cisterna antiga, o lavadouro, basta folha verde e vasto céu azul.

Creio que ainda não disse a idade do hóspede; tem quinze anos e um ameaço de buço; é quase uma criança. Logo, se a nossa Caetaninha ficou alvoroçada, e as mucamas andam de um lado para outro, espiando e falando do “sobrinho de sinhô velho que chegou de fora”, é porque a vida ali não tem outros episódios, não porque ele seja homem feito. Essa foi também a impressão do dono da casa; mas, aqui vai a diferença. A afilhada não advertia que o ofício do buço é virar bigode, ou, se pensou nisso, fê-lo tão vagamente, que não vale a pena de o pôr aqui. Não assim o velho Fulgêncio. Compreendeu este que havia ali a massa de um marido, e resolveu casá-los; mas viu também que, a menos de lhes pegar nas mãos e mandar que se amassem, o acaso podia guiar as coisas por modo diferente.

Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou por um lado com uma de suas opiniões recentes. Era esta que as calamidades ou os simples dissabores nas relações do coração provinham de que o amor era praticado de um modo empírico; faltava-lhe a base científica. Um homem e uma mulher, desde que conhecessem as razões físicas e metafísicas desse sentimento, estariam mais aptos a recebê-lo e nutri-lo com eficácia, do que outro homem e outra mulher que nada soubessem do fenômeno.

— “Os meus pequenos estão verdes, dizia ele consigo: tenho três a quatro anos diante de mim, e posso começar desde já a prepará-los. Vamos com lógica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o teto… em vez de começar pelo teto… Dia virá em que se aprenda a amar como se aprende a ler… Nesse dia…”

Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi às estantes, desceu alguns tomos, astronomia, geologia, fisiologia, anatomia, jurisprudência, política, lingüística, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extratou daqui e dali, até formular um programa de ensino. Compunha-se este de vinte capítulos, nos quais entravam as noções gerais do universo, uma definição da vida, demonstração da existência do homem e da mulher, organização das sociedades, definição e análise das paixões, definição e análise do amor, suas causas, necessidades e efeitos. Em verdade, as matérias eram crespas; ele entendeu torná-las dóceis, tratando-as em frase corriqueira e chã, dando-lhes um tom puramente familiar, como a astronomia de Fontenelle. E dizia com ênfase que o essencial da fruta era o miolo, não a casca.

Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. Não os convidou a aprender. Uma noite, olhando para o céu, disse que as estrelas estavam brilhando muito; e o que eram as estrelas? acaso sabiam eles o que eram as estrelas?

— Não, senhor.

Daqui a iniciar uma descrição do universo era um passo. Fulgêncio deu o passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou encantados e eles pediram a viagem toda.

— Não, disse o velho; não esgotemos tudo hoje, nem isto se entende bem senão devagar; amanhã ou depois…

Foi assim, sorrateiramente, que ele começou a executar o plano. Os dois alunos, assombrados com o mundo astronômico, pediam-lhe todos os dias que continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha ficasse um tanto confusa, ainda assim quis ouvir as outras coisas que o padrinho lhe prometeu.

Não digo nada da familiaridade entre os dois alunos, por ser coisa óbvia. Entre quatorze e quinze anos a diferença é tão pequena, que os portadores das duas idades, não tinham mais que dar a mão um ao outro. Foi o que aconteceu.

No fim de três semanas pareciam ter sido criados juntos. Só isto bastava a mudar a vida de Caetaninha; mas Raimundo trouxe-lhe mais. Não há dez minutos, vimola olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que passavam na estrada. Raimundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a montaria, apesar da relutância do velho, que temia algum desastre; mas este cedeu e alugou dois cavalos. Caetaninha mandou fazer uma linda amazona, Raimundo veio à cidade comprar-lhe as luvas e um chicotinho, com o dinheiro do tio — já se sabe — que também lhe deu as botas e o demais aparelhos masculinos. Daí a pouco era um gosto vê-los ambos, galhardos e intrépidos, abaixo e acima da montanha.

Em casa, brincavam à larga, jogavam damas e cartas, cuidavam de aves e plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram brigas de mentira, só para fazerem as pazes depois. Era o pico do arrufo. Raimundo vinha às vezes à cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia esperá-lo ao portão, espiando ansiosa. Quando ele chegava, brigavam, porque ela queria tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que ele vinha cansado, e ele queria dar-lhe os mais leves, alegando que ela era fraquinha.

No fim de quatro meses, a vida era totalmente outra. Pode-se até dizer que só então é que Caetaninha começou a usar rosas no cabelo. Antes disso vinha muita vez despenteada para a mesa do almoço. Agora, não só se penteava logo cedo, mas até, como digo, trazia rosas, uma ou duas; estas eram, ou colhidas na véspera, por ela mesma, e guardadas em água, ou na própria manhã, por ele, que ia levar-lhas à janela. A janela era alta; mas Raimundo, pondo-se na ponta dos pés, e levantando o braço, conseguia dar-lhe as rosas em mão. Foi por esse tempo que ele adquiriu o sestro de mortificar o buço, puxando-o muito de um e outro lado. Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar tão mau costume.

Entretanto, as lições continuavam regularmente. Já tinham uma idéia geral do universo, e uma definição da vida, que nenhum deles entendeu. Assim chegaram ao quinto mês. No sexto, começou a demonstração da existência do homem. Caetaninha não pôde suster o riso, quando o padrinho, expondo a matéria, perguntou-lhes se eles sabiam que existiam e por quê; mas ficou logo séria, e respondeu que não.

— Nem você?

— Nem eu, não, senhor, concordou o sobrinho.

Fulgêncio iniciou uma demonstração em regra, profundamente cartesiana. A seguinte lição foi na chácara. Chovera muito nos dias anteriores; mas o sol agora alagava tudo de luz, e a chácara parecia uma linda viúva, que troca o véu do luto pelo do noivado. Raimundo, como se quisesse copiar o sol (copiam-se naturalmente os grandes), despedia das pupilas um olhar vasto e longo, que Caetaninha recebia, palpitando, como a chácara. Fusão, transfusão, difusão, confusão e profusão de seres e de coisas.

Enquanto o velho falava, reto, lógico, vagaroso, curtido de fórmulas, com os olhos fixos em parte nenhuma, os dois alunos faziam trinta mil esforços para escutá-lo, mas vinham trinta mil incidentes distraí-los. Foi a princípio um casal de borboletas que brincavam no ar. Façam-me o favor de dizer o que é que pode haver extraordinário num casal de borboletas? Concordo que eram amarelas, mas esta circunstância não basta a explicar a distração. O fato de voarem uma atrás da outra, ora à direita, ora à esquerda, ora abaixo, ora acima, também não dá a razão do desvio, visto que nunca as borboletas voaram em linha reta, como simples militares.

— O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo eu já expliquei…

Raimundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para ele. Um e outro pareciam confusos e acanhados. Ela foi a primeira que baixou os olhos ao regaço. Depois, levantou-os, a fim de os levar a outra parte, mais remota, o muro da chácara; na passagem, como os de Raimundo ali estivessem, ela encarou-os o mais rapidamente que pôde. Felizmente, o muro apresentava um espetáculo que a encheu de admiração: um casal de andorinhas (era o dia dos casais) saltitava nele, com a graça peculiar às pessoas aladas. Saltitavam piando, dizendo coisas uma à outra, o que quer que fosse, talvez isto — que era bem bom não haver filosofia nos muros das chácaras. Se não quando, uma delas voou, provavelmente a dama, e a outra, naturalmente o garção, não se deixou ficar atrás: esticou as asas e seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os olhos à grama do chão.

Quando a lição acabou, daí a alguns minutos, ela pediu ao padrinho que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o braço e convidou-o a dar um giro na chácara.

— Está muito sol, contestou o velho.

— Vamos pela sombra.

— Faz muito calor.

Caetaninha propôs irem continuar na varanda; mas o padrinho disse-lhe misteriosamente que Roma não se fez num dia, e acabou declarando que só dois dias depois continuaria a lição. Caetaninha recolheu-se ao quarto, esteve ali três quartos de hora fechada, sentada, à janela, de um lado para outro, procurando as coisas que tinha na mão, e chegando ao cúmulo de ver-se a si mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raimundo. De uma vez aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chácara; mas atentou bem, reconheceu que era um par de besouros que zumbiam no ar. E dizia um deles ao outro:

— Tu és a flor da nossa raça, a flor do ar, a flor das flores, o sol e a lua da minha vida.

Ao que respondia o outro:

— Ninguém te vence na beleza e na graça; o teu zumbir é um eco das falas divinas; mas, deixa-me… deixa-me…

— Por que deixar-te, alma destes bosques?

— Já te disse, rei dos ares puros, deixa-me.

— Não me fales assim, feitiço e gala das matas. Tudo por cima e em volta de nós está dizendo que me deves falar de outra maneira. Conheces a cantiga dos mistérios azuis?

— Vamos ouvi-la nas folhas verdes da laranjeira.

— As da mangueira são mais bonitas.

— Tu és mais linda que umas e outras.

— E tu, sol da minha vida?

— Lua do meu ser, eu sou o que tu quiseres…

Era assim que os dois besouros falavam. Ela ouviu-os cismando. Como eles desaparecessem, ela entrou, viu as horas e saiu do quarto. Raimundo estava fora; ela foi esperá-lo ao portão, dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e separaram-se duas ou três vezes. Da última vez foi ela que o trouxe à varanda, para mostrar-lhe um enfeite que julgava perdido e acabava de achar. Façam-lhe a justiça de crer que era pura mentira. Entretanto, Fulgêncio antecipou a lição; deu-a no dia seguinte, entre o almoço e o jantar. Nunca a palavra lhe saiu tão límpida e singela. E assim devia ser; tratava-se da existência do homem, capítulo profundamente metafísico, em que era preciso considerar tudo e por todos os lados.

— Estão entendendo? perguntava ele.

— Perfeitamente.

E a lição seguiu até o fim. No fim, deu-se a mesma coisa da véspera; Caetaninha, como se tivesse medo de ficar só, pediu-lhe para continuar ou passear; ele recusou uma e outra coisa, bateu-lhe paternalmente na cara, e foi encerrar-se no gabinete.

— “Para a semana”, pensava o velho doutor, dando volta à chave, “para a semana entro na organização das sociedades; todo o mês que vem e o outro é para a definição e classificação das paixões; em maio, passaremos ao amor… já será tempo…”

Enquanto ele dizia isto, e fechava a porta, alguma coisa ressoava do lado da varanda — um trovão de beijos, segundo disseram as lagartas da chácara; mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovão. Quanto aos autores do ruído nada positivo se sabe. Parece que um maribondo, vendo Caetaninha e Raimundo unidos nessa ocasião, concluiu da coincidência para a conseqüência, e entendeu que eram eles; mas um velho gafanhoto demonstrou a inanidade do fundamento, alegando que ouvira muitos beijos, outrora, em lugares onde nem Raimundo nem Caetaninha pusera os pés. Convenhamos que este outro argumento não prestava para nada; mas, tal é o prestígio de um bom caráter, que o gafanhoto foi aclamado como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a razão. E daí pode ser que fosse assim mesmo. Mas um trovão de beijos? Suponhamos dois; suponhamos três ou quatro.