Sobre poesia, ainda: Hélio Neri

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia de procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Digo que nada pode impedir a poesia de continuar. Toda essa hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos e imaginamos no tempo real das redes sociais, blogs etc., não dá ou não pode ser equiparada com a poesia, ainda porque acredito que o que define a poesia é o conjunto de vários elementos e não apenas um ou outro e, imaginando que hiperexposição, redes sociais, internet, sendo também elementos: a poesia já se utiliza disso (igual a tudo que existe), daí porque acredito que não dá para confundir uma com a outra (embora, a escrita é também a exposição de pensamentos, imaginações, sentimentos e não menos livre de todo tipo de interpretação), mas é só isso: no meu entendimento, a poesia pede uma elaboração mais afinada com o que se pretende expressar, por vezes uma elaboração mais apurada (mesmo que erudita ou não), falo de um cuidado maior, um envolvimento maior, algo a mais, e é justamente esse algo a mais que vai poder definir a poesia (ainda que esse algo a mais pode não ser tão fácil de encontrar ou de definir), mas é aí, penso eu, que mora o segredo da poesia.

2. A dificuldade para encontrar “o tal lugar da poesia” no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmo sem roteiro tristes périplos”?

O “tal lugar da poesia” no mundo é aqui mesmo nesta terra, em meio a tudo que nela ocorre: caos, destruição, guerras, derramamento de sangue, arrogância, ódio, estupidez etc., e mais, ao que se refere à questão, digo que está relacionada à reflexão que envolve o significado e sentido de se fazer poesia e é uma questão que vai sempre existir, independente de como estiver o mundo, por isso de total importância, tanto para quem se interessa, quanto para quem não se interessa por poesia, serve para sacudir o coreto, deixar o poeta ainda mais aflito em seu habitat natural, de conflitos e dúvidas, levando-o sempre a divagações e questionamentos, dentre os quais, aquele que o preocupa mais e o quem tem mais importância e relevância: o preço do arroz, feijão, açúcar, o mundo ao redor ou a sua poesia? Por outro lado, alguém imaginando, em meio a tudo que ocorre nesta terra, como poderia ainda existir poesia ou alguém querendo ainda fazer poesia? Aí eu digo: o mesmo motivo para que exista poesia até hoje é o mesmo motivo para que não exista, ou seja: todos os motivos e nenhum (questão de ponto de vista!). Portanto, tudo que posso dizer da minha parte: a poesia existe para que se possa respirar.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Levando em consideração: o mundo que aí está não é o mundo que cada um quer para si, e também, esse mundo que se apresenta, que é vendido a todos, não passa de um engodo e, tudo que se faz como forma de bem comum ou em prol de um mundo melhor, uma vida melhor, sonho melhor, ser humano melhor é também um engodo e, de longe, dá pra perceber o que há por trás de cada discurso, cada propaganda, cada boa intenção, que a vida – toda ela – é um faz de conta e que, talvez, todo esse engodo seria tão-somente uma necessidade, porque de outra forma não seria possível viver ou então, apenas mais desculpas, mais desculpas, mais desculpas, sendo assim, levando em consideração a genialidade de Fernando Pessoa, a poesia, de tudo que está aqui nesta terra, se constitui como a mais legítima de todas as criações.

4. Tenho de que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam: /Nem tudo o que penso agora / Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Dizer que tudo não cabe num poema, mas tudo pode ser usado na poesia. Meus poemas têm fome e sede de viver, o que eu quero é a vida dentro do verso, uma das questões que me empurra a fazer poesia é a possibilidade de buscar algo novo e ter a chance de encontrar, pensar no universo de possibilidades que a poesia pode oferecer, sempre almejando um passo à frente, ainda que se equivocando, quebrar a cara uma, duas, três, mil vezes, mas ainda querer seguir adiante, prosseguir, a poesia para mim proporciona isso, o desejo de ir além, mesmo que depois de tudo, de todo empenho e dedicação, ter a sensação de que não saiu do lugar, não avançou um dedo, mas para mim é isso, uma sensação instigante e, no mais, todas as ferramentas, munições e tudo que se necessita para a poesia estão aqui nesta terra – torta, e é esta terra torta que serve de alimento para a poesia.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente “fazer todo o sentido”. Por quê?

Ta aí a questão mais conflitante. Escolhi este poema porque para mim tem muito a ver com o que penso sobre poesia e porque eu acho que é um poema que se defende muito bem. Poema de Carlos de Oliveira – poeta português.

COLAGEM

(com versos de Desnos, Maiakovski e Rilke)

Palavras,

sereis apenas mitos

semelhantes ao mirto

dos mortos?

Sim,

conheço

a força das palavras,

menos que nada,

menos que pétalas pisadas

num salão de baile,

e no entanto

se eu chamasse

quem dentre os homens me ouviria

sem palavras?

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Um comentário sobre “Sobre poesia, ainda: Hélio Neri

  1. Alexandro Fernando da Silva 4 de maio de 2015 / 09:45

    A via da poesia é o olho no olho. O destino, o coração!

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