Sobre poesia, ainda: Danilo Bueno

danilo

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Creio que a poesia não esteja afeita nem à exposição excessiva nem ao caráter mais instantâneo que algumas mídias impuseram para o cotidiano das pessoas. Imagino que a noção entre público e privado tem se redefinido com os novos limites dessas tecnologias e as possibilidades de comunicação que elas engendram. Acredito que a mudança tem seu aspecto positivo, em alguma medida. No entanto, no meu caso, não há hiperexposição, uma vez que ela não se adequa ao meu feitio. Daí, não há o contato com a poesia, pelo menos como eu a reconheço, entre os limites da meditação, da sensibilidade e do estranhamento.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Já há algum tempo compreendi que não escrevo para um público determinado. Essa percepção levou-me a escrever com mais tranquilidade e mais vagar. Já não tenho interesse em fazer meus poemas circularem por publicações de prestígio ou em receber valorações positivas em resenhas. A questão da recepção pouco me interessa atualmente. A poesia, como poder transformador e mágico, moldou minha vida até aqui: tudo o que me aconteceu de maravilhoso foi por meio dela. Não tenho mais nada além para pedir. O poeta age de acordo com sua criatividade e sua insatisfação, de algum modo tentando captar uma forma de expressão que traduza o momento em que vive. Por isso não acho que haja uma relação direta em o “tal lugar da poesia” (que ocupou, pelo menos desde o XIX, com a ascensão do romance, o mesmo lugar marginal) e a necessidade de caminhos tristes que refere o verso. Haverá lugar para a poesia na medida em que haverá lugar para a sensibilidade humana. Outra coisa, o tópico da repetição em oposição ao novo é algo que ocupa pouco minha mente: se for poesia, basta. Estou certo que já terá percorrido um árduo caminho para chegar até ela.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Não, não creio. O fingimento é uma abordagem, existem outras, que, de certa forma, podem compreender um espaço de ficção, autoficcionalização e refazimento da memória; mas que não anulam a tentativa do poema como relato, como resposta objetivada ou até mesmo inconsciente das relações de mundo. Se o poeta, na maioria das vezes, é um fingidor, essa característica não pode defini-lo por completo, pois excluiria a tentativa sempre um tanto arrebatadora de refazer todas as convicções que a(s) voz(es) dos poemas possam porventura engendrar(em).

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Meus poemas são motivados por situações várias. Não há apenas um modo de fazer e de pensar/sentir. Muitas vezes, nascem daquilo que eu escuto por aí, ao acaso. Por outro lado, quando quero objetivar e racionalizar o processo de escrita, procuro não me conformar com a expressividade já conseguida. Em outras palavras: rasgos estilísticos não podem predominar em relação a minha visão de mundo. Se tiver que mudar, cortar, reescrever, reaprender, reler e até mesmo jogar tudo fora, por uma insuficiência qualquer, não acharei que essa busca tenha sido vã. No final, o autoconhecimento e o alargamento da percepção em busca daqueles momentos maravilhosos que compuseram minha experiência com o poético até hoje já seriam motivos suficientes para continuar lendo e escrevendo poesia.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

O poema abaixo foi um dos primeiros que comunicou a experiência poética para mim, por isso ele merece destaque. Eu devia ter uns dez, onze anos. Toda vez que eu o releio, entro novamente em contato com as forças da memória e da contemplação. Escolhê-lo significa, então, valorizar o poder de revisitação que um poema pode suscitar, e, acima de tudo, fruir outra vez o inestimável prazer de sua leitura.

“Ontem”

Até hoje perplexo

ante o que murchou

e não eram pétalas.

De como este banco

não reteve forma,

cor ou lembrança.

Nem esta árvore

balança o galho

que balançava.

Tudo foi breve

e definitivo.

Eis está gravado

não no ar, em mim,

que por minha vez,

escrevo, dissipo.

Carlos Drummond de Andrade

Do livro A rosa do povo (1945)

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Um comentário sobre “Sobre poesia, ainda: Danilo Bueno

  1. G. 14 de setembro de 2015 / 23:25

    Trocaria toda a tecnologia de Steve Jobs por uma tarde com Danilo Bueno.

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