Sobre poesia, ainda: Ruy Proença

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Certa vez, ouvi da boca de Ziraldo a seguinte frase, que cito de memória: “no passado, as pessoas se preocupavam com a invasão de privacidade; hoje, se preocupam com a evasão de privacidade”. Esse chiste é muito revelador da sociedade contemporânea. E o triste é que as pessoas se pautam em grande medida por esse diapasão. As pessoas hoje sobrevalorizam a ação, as relações sociais, as redes. E se esquecem de que o mergulho para dentro de si, o olhar introspectivo, o tempo da reflexão e da autorreflexão, o tempo da contemplação são igualmente muito importantes.

Nesse sentido, a hiperexposição gera sim uma necessidade de reação. E a poesia, quero crer, tem o poder de nos levar para o lugar do avesso, de onde podemos enxergar melhor o mundo naquilo que nos é mais essencial, mais visceral. Mas acho que isso não é de hoje. Em outro contexto, já estava lá no poema Os homens, as viagens de Drummond. O homem, “bicho da Terra tão pequeno”, chateia-se na Terra, “lugar de muita miséria e pouca diversão”, e vai em busca da Lua, de Marte, de Vênus, de Júpiter, do Sol, de outros sistemas solares a colonizar e humanizar. E, “ao acabarem todos [os astros colonizados]/ só resta ao homem/ (estará equipado?)/ a dificílima dangerosíssima viagem/ de si a si mesmo:/ pôr o pé no chão/ do seu coração/ experimentar/ colonizar/ humanizar/ o homem/ descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas/ a perene, insuspeitada alegria/ de con-viver.” Mostro esse poema a meus filhos como uma provocação, para que eles reflitam sobre o mundo contemporâneo.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

À parte a ironia contida na expressão “em vão” (se não fosse ironia, o próprio Drummond não escreveria poemas), eu acredito que sim, que os poetas estão um pouco condenados “a sempre repetir os mesmos sem roteiro tristes périplos”. Mas a condenação a este repetir não é negativa. Ao contrário, o fluxo da vida é um constante repetir. E é de pequenos acidentes dentro desse percurso repetitivo que vão surgindo os novos caminhos, vão brotando novos horizontes. Essa é a história da evolução das espécies. E, a meu ver, não seria diferente com a história do conhecimento e da poesia. Ao longo da estrada pedregosa, pequenas descobertas, muitas vezes por puro acaso, fazem toda a diferença. A palavra serendipidade, serendipitia ou serendipismo é maravilhosa por que ela dá conta desse fenômeno das descobertas casuais e extraordinárias que ocorrem quando há um processo de repetição e curiosidade em jogo (ainda que esta curiosidade tenha se transformado em ceticismo no poema A máquina do mundo). En passant, a título de ilustração, numa videobiografia dos Beatles, há um episódio em que John Lennon está tocando a guitarra e percebe que ao se aproximar do amplificador ocorre uma distorção indesejável do som. Ele fica extasiado com aquilo e resolve tirar proveito dessa dissonância. E isso passa a ser um novo e rico recurso técnico nas composições do grupo. Uma descoberta! Da repetição sempre surgirá algo novo, um novo caminho que não estava no script (ou nos “tristes périplos sem roteiro”, como preferia Drummond).

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

A poesia continua sendo, e acredito que sempre será, um espaço de representação do mundo. Na medida em que é representação, ela põe em marcha o teatro do mundo. Fernando Pessoa com seus heterônimos desenvolveu um teatro da fragmentação — ou da multiplicação — do eu. Na poesia contemporânea — e tomo como exemplo Chico Alvim — o poeta levou adiante esse trabalho. No grande teatro público, ele tem dado voz a muitos atores além do eu. O eu-lírico se põe assim (e alguém já terá dito isso) a desempenhar um papel de ventríloquo. Ele capta vozes muitas vezes silenciosas e as amplifica. E essa voz amplificada é um canto de inconformismo, de revolta. Ele expõe as fraturas, os estilhaços, as dores, as enfermidades de um mundo que se quer são, que só se vê no espelho como vencedor. O poeta mostra ao mundo que não; mostra não a imagem que ele [mundo] quer ver, mas a imagem que ele não vê, a imagem distorcida e fiel da realidade.

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

É estranho. Os poetas se alimentam de poesia e, ao mesmo tempo, dão de comer à poesia, ou ao poema. Isso mais parece um ato libidinoso, algo que tem a ver com o amor, seja lá que amor for esse… (“qualquer tipo de amor vale a pena”).

Os poemas são onívoros. E têm um quê de avestruz. Têm fome das coisas mais estranhas. É difícil responder essa questão. Penso que eles são o produto de situações que nos interrogam. Quando estamos em paz conosco, não há necessidade do poema. Mas desde que algo nos convulsione, nos espante, o poema está lá nos convidando a fazer uma travessia. E durante a travessia, que é uma travessia amorosa, e por isso também dolorosa, entramos num espaço em que o impossível é possível. Tentamos pôr ordem nesse caos. A ideia é sair da travessia tendo parido um texto, um organismo, que minimamente transmita a experiência, a vivência do espanto a que fomos submetidos. Acho que o poema se alimenta desse espanto, dessa desestabilização. Mas as formas que ele assume são concretas. Ele fala do homem, da catástrofe, da injustiça, da paixão, do trauma, da opressão, do conflito, do transtorno. Pode falar da alegria. É um território livre. Mas fala por símbolos. Fala por meio de cacos, coisas, seres, cheiros, cores. Fala por meio de linguagem sensorial. Penso nos poemas Fuga da morte e [Havia terra neles], de Paul Celan. Poemas dos mais terríveis de toda a história da poesia. Poemas-limite. Menciono aqui o início do segundo poema, na tradução de Ivete Centeno e João Barrento. Nele, a linguagem mimetiza a situação de paupérie psicológica.: “Havia terra neles, e/ cavavam.// Cavavam e cavavam, assim passava/ o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,/ que, segundo ouviam, queria tudo isto,/ que, segundo ouviam, sabia tudo isto.// Cavavam e não ouviam mais nada;/ não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,/ não imaginavam qualquer espécie de linguagem./ Cavavam.”

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Alguns poetas me surpreendem demais. Tenho citado em outras oportunidades Aglaja Veteranyi e Vislawa Szymborska. Mas gostaria agora de falar não de um, mas de dois poemas (desculpe-me) que li no ano passado.

O primeiro, é de Margaret Atwood, renomada prosadora canadense que envereda pelo caminho da poesia. É de sua autoria o poema Os poetas aguentam firme, que me foi apresentado por outro poeta amigo, Carlos Loria, e que transcrevo a seguir, na tradução de Adriana Lisboa (A porta, Rocco, 2013, p. 42).

OS POETAS AGUENTAM FIRME

Os poetas aguentam firme.

É difícil livrar-se deles,

embora Deus saiba que já se tentou.

Passamos por eles na estrada

de pé com as suas tigelas mendicantes,

um hábito antigo.

Nada dentro delas agora

além de moscas secas e moedas falsas.

Eles olham reto em frente.

Estão mortos ou o quê?

Têm, contudo, a expressão irritante

dos que sabem mais do que nós.

Mais do quê?

O que é isso que alegam saber?

Desembuchem, falamos entre os dentes.

Digam de maneira direta!

Se você tenta obter uma resposta simples,

nesse momento eles se fingem de loucos,

ou então bêbados, ou então pobres.

Vestiram essas fantasias

faz algum tempo,

Esses suéteres pretos, esses andrajos;

agora não conseguem mais tirar.

E estão tendo problemas com os dentes.

Esse é um de seus fardos.

Uma ida ao dentista não lhes faria mal.

Estão tendo problemas com as asas também.

Não temos visto muita coisa de sua parte

no setor de voo esses dias.

Não os vemos mais pairando nos ares, radiantes,

acabaram-se as travessuras aéreas.

Para o que diabos são pagos?

(Suponha que sejam pagos.)

Não conseguem sair do chão,

eles e suas penas enlameadas.

Se voam, é para baixo,

para dentro da terra úmida e cinzenta.

Vão embora, dizemos —

e levem sua aborrecida tristeza.

Não os queremos aqui.

Esqueceram-se de como nos dizer

que somos sublimes.

Que o amor é a resposta:

dessa nós sempre gostamos.

Esqueceram-se de como bajular.

Já não são sábios.

Perderam seu esplendor.

Mas os poetas aguentam firmes.

São tenazes acima de tudo.

Não sabem cantar, não sabem voar.

Só dão pulos e grasnidos

e se debatem contra o ar

Como se enjaulados

e contam ocasionais piadas cansadas.

Quando lhes fazem perguntas a respeito, dizem

que falam o que devem.

Cristo, como são pretensiosos.

Há algo que sabem, porém.

Há algo que sabem, sim.

Algo que estão sussurrando,

algo que não podemos ouvir muito bem.

É sobre sexo?

É sobre poeira?

É sobre medo?

Acho-o importante porque ele expõe muito claramente o lugar do poeta no mundo contemporâneo. O poeta é visto pela sociedade como um pária, um pedinte, habita um inframundo. É um ser destronado. Mas tal qual Lúcifer após a queda, apesar de detestado, ele tem algo a nos dizer. O mundo quer se blindar contra o poeta. Mas, mesmo pária, ele se faz ouvir por entre as fraturas do mundo. E o que ele tem para nos dizer é algo essencial. Algo que nenhuma ordem conseguirá sufocar, por que é algo que está no mais íntimo de cada um de nós. O poeta é uma espécie de subversivo que não deixa a consciência morrer.

O outro poema que gostaria de citar é um poema em prosa sem título, do escritor e poeta inglês John Berger, traduzido por António Cabrita e citado no livro Arte da pequena reflexão, de Fernando Paixão (Iluminuras, 2014, p. 185):

Aquilo que me reconcilia com a minha própria morte é, mais do que outra coisa qualquer, a imagem de um lugar: um lugar onde os teus ossos e os meus fiquem sepultados, atirados para ali, nus, juntos. Disseminados, numa confusão desordenada. Uma das tuas costelas está apoiada contra o meu crânio. Um metacarpo da minha mão esquerda repousa dentro da tua bacia. (Contra as minhas costelas quebradas, o teu seio, parecido com um flor.) As centenas de ossos dos nossos pés estão dispersas como areia. É estranho que esta imagem da nossa proximidade, apenas ligada por fosfato de cálcio, possa produzir um sentimento de paz tão grande. Mas é isso, precisamente, o que acontece. Contigo eu posso imaginar um lugar onde me seja suficiente não ser mais do que fosfato de cálcio.

A grandeza desse poema é nos despertar para a nossa dimensão mineral, nossa dimensão vista da perspectiva de um tempo que extrapola a curta e milagrosa vida orgânica. Ali vemos um fóssil do ato amoroso, uma paleontologia da luxúria. É uma cena dramática, trágica. Mais ainda porque o poeta é capaz de antever a cena. Ele é capaz de vivenciar o drama, a tragédia, a priori, teleologicamente. Então tudo o que somos, em essência, não é mais do que um amontoado de vestígios de fosfato de cálcio?

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