Sobre poesia, ainda: André Luiz Pinto

André

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Em geral as redes reproduzem o senso comum. Estar exposto é uma constante atual e como constante é mais uma reprodução. Por outro lado, a poesia não se confunde com a exposição, nem sei se haveria como. Ela, no máximo, faz uso desse recurso. Eu ainda concordo com a velha máxima de que a arte busca o universal e de que o universal está em sintonia com o singular, mas não com o particular, ou seja, com o reino das opiniões e que no momento atual atravessa as redes sociais e todos os media. Mas se os fins justificam os meios, é sempre bom lembrar que os meios modificam os fins, e que, se a universalidade é uma prerrogativa da arte (e a meu ver ainda é), trata-se de um universal imanente, submetido a toda mudança histórica.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Bem, Tarso, desculpe a brincadeira, mas, pelo que estou vendo, você não é só um excelente poeta, mas deve ser um excelente advogado. Digo isso porque ler e pensar na sua pergunta tem algo de indutor, que nos leva a responder a partir de uma determinada posição. Parte-se do princípio de que existe uma dificuldade em estabelecer o lugar da poesia e que essa tentativa é em vão. Drummond é irônico, como lembra Ruy Proença na sua resposta, no entanto, ao mesmo tempo há uma ponta de tragédia nesse eterno recomeço, maldição de Sísifo que a todo tempo realiza o eterno trabalho que se destina a seu fim. E a resposta a essa pergunta é não. Não é necessário repetir os mesmos tristes périplos. Há como parar a mó do trabalho e uma forma de parar é simplesmente abrindo mão de escrever, ou escrever abrindo mão de ser escritor. Seria isso decretar o fim da poesia? O fim de ser poeta? Sim, é talvez decretá-la, mas será que ela, a poesia, já não acabou? Será que o engano não está em retomar o que já está morto?

NÓS, OS DINOSSAUROS

 

A poesia

Não há

De vingar

Já se canta loas

A um novo deus

Por demais atraente

A vender sua alma

E a dar seu quinhão

Talvez em cem

Duzentos anos

A poesia desapareça

Trata-se

De um ninho

De um nicho

Reduzidíssimo

Tudo se resolve

Na moeda

Gladiadores fazem a vontade

Dos césares

A poesia será extinta

Poetas a sepultarão

Será eliminada como eliminado pela polícia

Favelado fujão.

E quando rolar (a morte da poesia)

Ninguém vai lamentar

O melhor está para ser consumido

O pior já foi confirmado

Conformatum est.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Sim, como toda arte, poesia é fingimento, balela, blasfêmia. Ninguém percebe o esforço da bailarina soerguida na ponta dos pés, ou do músico que se desdobra com dedos e mãos sobre o instrumento que carrega. Das artes, a poesia é a mais simples, são poucos instrumentos exigidos, em geral democratizados, acessíveis a todos. Tudo tão simples, mas não é. No caso, finge-se que sente dor, mas não sente; finge-se que sente dor, e, de fato, sente. O termo ‘fingimento’ adotado por Pessoa tem exatamente esse truque: o ato de fingir não está aliado à verdade, mas também não está aliado à mentira. O fingimento é um tipo de movimentação que não conta com nenhum valor de verdade simplesmente porque a verdade (portanto, a mentira) está abandonada como critério.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Responder ao que você me perguntou é quase responder à velha pergunta ‘por que você escreve?’ Em primeiro lugar, a gente luta para parar de escrever como quem luta para parar de fumar. Não é fácil, porque não se consegue ver em outra farda a não ser essa. Sinceramente, acho que meus poemas não têm fome de nada, eles não estão nem aí para mim, acho no máximo que eles se nutrem da vida, toda revolta e prazer que tem sido essa história. Eu tenho levado uma coisa cada vez mais a sério: a poesia não é o que você exatamente pensa, antes, ela acontece quando somos capazes de dizer sobre algo que não haveria outro modo de tratar senão daquela maneira. É o pensamento descobrindo através da palavra o que estava pensando. A questão da palavra poética é não deixar escapar. Armando Freitas Filho usou certa feita a frase “dormir na mira”. É um pouco por aí. Meus poemas possuem, contudo, uma questão, já notada por outros: eu busco uma espécie de pré-escrita, de pensamento anterior à palavra, quase uma zona de mistério; o místico que talvez se revela na arte. Há um poema meu em “Primeiro de abril” que trata exatamente disso:

…embora lhes arrancassem

da sombra, casualmente se elegem

logos seus rostos, solenemente

contra os mesmos sinais

ao sono que os acalenta: olhar

agudo, disfarçando bocas internas

como em cristais, abjeto

ao próprio ser; caso o contrário aconteça

e nele se restitua, prenhe de razão

rosas pontiagulhas, através do qual sombra

e corpo se confundem, adquirindo

a nudez necessária para fugirmos em silêncio.

e outro em “Terno Novo” que segue na mesma zona:

Que parto do zero

uma mentira, melhor seria dizer

que veio de uma estrela que alumia a mente.

Sente como é tremenda toda delicadeza

como também toda destreza dessas mãos desamparadas no peito

que respondem ‘fogo!’ antes que o coração comece

a te dizer e até o que pensaste desande a escrever – só por intriga.

Um mínimo lastro de vento é o ponto de partida

do que não sabemos mas escreveu

se na hora de escrever

já não havia.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

A resposta politicamente correta seria: ‘há tantos poetas que não cabe só dizer um’. Deixo essa resposta para os editores e professores universitários. Eu decidi subir a montanha e morar longe da grande cidade. Atos para mim são sempre os de ópera. E há dois poetas que estão me perturbando, Heitor Ferraz e Renato Rezende. Do Renato, “Noiva” é um livro encantador; do Heitor, fica o poema “Explicação”:

Não sei explicar

o que me motivou

a colocar fogo

naquele pinheiro

em frente de casa

 

Não era a beleza

“da chuva vermelha”

Nem a necessidade de calor

numa manhã sem abrigo

 

Havia um fósforo

uma caixa de fósforos

Espero um dia ter a coragem de queimar meus poemas, minhas ideias e meus livros.

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Sobre poesia, ainda: Pádua Fernandes

padua

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Interessantíssima questão. Não sei bem quem está por trás desse “nós”; sei que ele se engana. Não imagino nem mesmo que se possa saber tudo o que se sente. O inconsciente não foi abolido pelas redes sociais. Esse é um primeiro ponto, de que não escapam, naturalmente, os poetas.

O segundo: a questão teria como pressuposto que a hiperexposição de sentimentos nas redes e sociais e em blogues faz com que poesia não tenha mais lugar para fazer o mesmo? E daí? Se ela quiser apenas reiterar outros discursos, pode fazer isso. Não vejo motivo, porém, para chamar tal reiteração de poesia… Ademais, por que essa seria sua função? Uma visão estreita da poesia, a de que ela existiria só para expressar um eu hipertrofiado. Eu é um outro; se ele quer exposição, mostre os outros. No entanto, vejo vários escritores que só “curtem” ou “repassam” matérias sobre si mesmos, o que talvez seja fruto de duas concepções bastante pobres: a das redes sociais como propaganda e a da literatura como autocelebração. Nos dois casos, o soi-disant poeta rende-se à lógica do mercado.

Outro: a poesia pode estar onde quisermos. Pode estar nas redes sociais e em blogues. No entanto, creio que Sérgio Alcides (Que já respondeu a esta enquete, não? Como não li nenhuma das respostas ainda, ignoro se ele mudou de opinião.) estava certo em um curto artigo de 2014, “Há crise na crítica literária?” (http://libre.org.br/artigo/65/ha-crise-na-critica-literaria-):

Onde então se vê alguma coisa com aparência de crítica, escrita em português do Brasil? Ainda há um punhado de suplementos literários e revistas interessantes, em Minas, no Paraná, em Santa Catarina, em Pernambuco. E também se pode ler crítica na internet, em blogues, mais ou menos articulados pelas redes sociais. Há vários blogues valentíssimos, muitos deles tocados por jovens intelectuais independentes que são críticos genuínos, outros pertencentes a empresas e instituições da área cultural que têm uma perspectiva avançada e responsável.
Mas nem os suplementos nem os blogues podem dar conta sozinhos da tarefa mais ampla da crítica, do ponto de vista heterogêneo e mais conflituoso da sociedade, porque seu raio de atuação tende a descrever comunidades de leitores, que podem até ser a nata da sociedade, mas não chegam a fazer eco numa sociedade que à nata prefere um refrigerante qualquer. E, não fazendo eco, mal dialogam entre si: cada um escreve só para quem já pensa mais ou menos parecido, e quem pensa diferente nem toma conhecimento. Logo, não há dissenso. E sem dissenso não há crise. Nem crítica.

Tantas vezes a hiperexposição que alguns escritores cultivam tem pouco que ver com a literatura, e mais com o marketing. Ou talvez seja algo mais interessante: são autores que fazem da própria hiperexposição sua única poesia, ou melhor, sua única criação, e investem todas suas energias nisso. Uma performance do eu, que pode ser interessante se suas personalidades forem interessantes, o que praticamente nunca é o caso: em geral lemos apenas lamúrias sobre, por exemplo, como a academia é ruim porque não estuda o lamuriante, o que é expresso na curiosa formulação de que a academia é atrasada porque não estuda a poesia contemporânea. Essas queixas, em geral furiosas, partem dos curiosíssimos pressupostos de que poesia contemporânea é igual aos versinhos dos queixosos, e que seus versinhos são realmente contemporâneos. Entendo que esse tipo de lamúria seja mais fruto de ignorância do que de loucura ou de má-fé, pois, em geral, essa espécie de escritor não lê a poesia alheia. Escrevi a partir disso em uma nota do meu blogue, “Não é literatura”: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/02/nao-e-literatura.html

Dessa forma, vemos, confirmando o exame de Sérgio Alcides, uma pletora de páginas para divulgação de livros e coisas análogas que se esgotam em si mesmas, isto é, tratam apenas de si, mônadas pretensamente autossuficientes, não formando nem mesmo comunidades de leitores porque, na verdade, mantêm-se alheias à literatura, campo que não é composto de uma só voz… Dessa forma, esses poetas veem frustrado seu sonho último, que é o de converter-se em mercadoria, além do menos, fungível.

Na contramão disso, temos, em português, o Escamandro (https://escamandro.wordpress.com/) e a Modo de Usar (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/), entre outros portais de poesia.

Como perguntou das redes sociais, e acabei falando da tentativa do uso delas por poetas que tentam se converter em mercadoria, não se pode esquecer que elas têm servido para a hiperexposição do capital e para a “livre expressão” dos robôs, seja para empresas, seja para políticos – em geral não há diferença nos dois. Isso ocorre, por exemplo, em algo perverso como o facebook (cujo princípio é o mesmo do mercado, quem paga ganha mais exposição) e tende apenas a consolidar o status quo. Sugiro a reportagem de Natalia Viana para a Pública, “A direita abraça a rede” (http://apublica.org/2015/06/a-direita-abraca-a-rede/) sobre os efeitos disso em um país, que, como dizia Hélio Oiticica, é bastante fascista. Pena que haja escritores que tentam reproduzir acriticamente esses mecanismos.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Não sei, isso deve ser um problema para eles e para quem segue as altas pesquisas de máquinas do mundo. Quanto a mim e ao que faço, creio que a questão poderia ser a de criar mundos, mas, como isso é demasiado, tento ao menos criar espaços.

Tais espaços devem ser tristes? Drummond, em um poema que prefiro a esse, escreveu “Nem existir é mais que um exercício/ de pesquisar de vida um vago indício,// a provar a nós mesmos que, vivendo,/ estamos para doer, estamos doendo.”; Manuel de Freitas, na sua irônica “Errata”, escreveu “Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.”

Há, porém, a alegria de criar, que encontrou uma de suas expressões mais felizes em um poema de Yeats, “Lapis Lazuli”: “One asks for mournful melodies;/ Accomplished fingers begin to play./ Their eyes mid many wrinkles, their eyes,/ Their ancient, glittering eyes, are gay.” Sei que houve e há quem morra disto, porém, para mim, a criação é uma alegria. Se essa alegria é apenas lícita no exílio, deve-se fazer, então, do exílio um lugar.

Por fim, quero lembrar que esta pergunta não faz muito sentido em sociedades para que a poesia é necessária como a água e a noite, como tantas vezes ocorre com a poesia oral. Ademais, há o papel notável da poesia em muitas sociedades islâmicas (onde há até um prêmio de valor superior ao Nobel para a poesia), inclusive o “Estado Islâmico”, que tem uma celebrada poeta oficial que trata de corpos destroçados, de bombas e alimenta as fantasias mortalmente anacrônicas do fundamentalismo; não podemos esquecer do papel central da poesia na cultura do jihadismo. Não vou citá-la, e sim a Enzensberger e seu poema “Kriegeserklärung”: “das kleine Gehirn/ des patriotischen Dichters schwitzt ihn aus”.

A poesia também teve seu papel na Primavera Árabe, fomentando desejos de rebelião. Esses poetas provavelmente não se queixam do lugar da poesia. A questão tem que ser posta no contexto de cada cultura e de cada tipo de poesia.

No Brasil, creio que os netos e bisnetos distantes de Gil Scott Heron e sua “small talk”, antecessora do rap, também sabem criar espaços e (des)construir o que a pergunta chamou de “lugar da poesia no mundo”.

Sei que muitos poetas brasileiros lamentam a falta de leitores, mas talvez isso venha mais de um desinteresse (em alguns casos, certamente incompetência) editorial e jornalístico do que de rejeição do público. Lembro que no Festival Literário de Paraty, por exemplo, mais de uma vez um poeta foi o autor cujos livros lideraram a lista de vendas. Não pesquisarei, mas lembro que isso ocorreu com uma autora falecida em 1964, a grande Cecília Meireles, com uma autora brasileira contemporânea de longa carreira, Adélia Prado, e, em 2015, com a portuguesa e estreante Matilde Campilho. Em 10 de julho, por sinal, ela entrou em uma lista geral dos mais vendidos em ficção com Jóquei (http://publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=82671).

Há uma demanda para esse tipo de literatura. Ademais, Campilho não estava isolada na lista de Paraty: em segundo lugar, ficou o livro novo de poesia, de Arnaldo Antunes e, em terceiro, Karina Buhr.

No entanto, pode-se objetar, a respeito do sucesso comercial, que Campilho foi tratada como “musa”, o que é bastante machista (os poetas homens não são tratados assim): sua beleza física, mais do que sua poesia, foi explorada pelos meios de comunicação, o que explicaria parte do interesse do público. Arnaldo Antunes e Karina Buhr têm a audiência que acompanha suas carreiras musicais, e isso também estaria por trás das vendas. Mas, e daí? Certo que é a poesia nem precisa vender para ser lida, como sabemos. Basta estar por aí, e a internet ajuda nisso, em criar espaços… Um alargamento do mundo.

Pode também ocorrer o oposto: Benjamin Moser, em texto recentíssimo, “Found in Translation”, revisitou o tema do encurtamento do mundo pela língua inglesa, que teria se tornado uma espécie invasora de biomas estrangeiros, assim como os ratos se tornaram por quase todo o planeta. O reverso da medalha, que confirma essa situação, era de que nestes dois grandes países anglófonos, Estados Unidos e Reino Unido, traduções correspondiam a apenas três por cento do mercado de livros em 2013 (http://www.nytimes.com/2015/07/08/opinion/found-in-translation.html?_r=0). Mundos fechados.

A imagem do rato para esses fatos do imperialismo parece-me muito bem achada. Não sei, no entanto, se se pode dizer o mesmo no tocante apenas à poesia, área em que o mercado editorial não é, de qualquer forma, muito rico, muito menos em traduções. Parece-me, mas isto é mero impressionismo (seria necessário pesquisar o assunto a sério), que as traduções de poesia, em geral, poesia contemporânea, são feitas geralmente por outros poetas e publicadas em editoras de poetas ou em que eles têm uma voz determinante (todos os meus livros de poesia publicados no exterior – em Portugal e na Argentina – enquadram-se nessa explicação), e o fator do imperialismo anglófono (também no mercado literário) pode ser menos determinante do que o gosto dos poetas. Em outras editoras, predomina muitas vezes o departamento de marketing sobre considerações de natureza literária. O marketing, por sinal, virou praticamente a atividade fim em certos grandes estabelecimentos editoriais.

Por outro lado, nos dois portais de poesia que indiquei, Escamandro e Modo de usar, vemos tradução de autores de culturas e idiomas diversos, que, por razões comerciais (redutoras do mundo), jamais seriam lançados por editoras no Brasil. No meio impresso, algo parecido é feito apenas pelas revistas de poesia. Com o fim ou suspensão, no Brasil, de periódicos como Poesia Sempre e Inimigo Rumor, creio que o principal veículo para isso hoje é a portuguesa Telhados de Vidro, da editora Averno, que continua firme após quase doze anos. No seu próximo número, publicarei traduções novas do poeta argentino Julián Axat. Cito um pouco do genial “O menino impunível”, do seu último livro, Rimbaud en la CGT , devido à atualidade do arcaico debate sobre redução de maioridade penal no Brasil:

aos 15 sonhava ser cantor de hip-hop mas era fuzilado em um episódio confuso

aos 14 sonhava que o prendiam em uma cela e no outro dia lia o jornal com a manchete “jovem se suicidou em delegacia”

[…]

aos 10 o sonho repetido era pagar dívidas contraídas por outras gerações

aos 9 sonhava que um candidato a político lhe dava um abraço e depois chefiava um esquadrão que o perseguia […]

Outra dimensão, bem diferente, do encurtamento do mundo: quero ainda lembrar que, principalmente a partir dos anos 1990, creio, cresceu uma poesia que escolheu especialmente o mundo universitário, por meio de jogos intertextuais e de trechos em línguas estrangeiras, além de outros procedimentos, certamente interessantes para trabalhos acadêmicos. Já vi um desses poetas perguntando, no fim da noite, o que fazer para agradar a crítica X, algo em que nunca cogitei. Cada um escolhe seu mundo (ou melhor, cada um faz o que pode), e essa opção é legítima.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Você pode fingir que não é mais, se lhe aprouver. A poesia também aceita isso.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Não uso essas categorias de Murilo Mendes, que é um de meus poetas favoritos, no entanto. Quanto a meus poemas, creio que eles não têm fome, mas são ela mesma, a minha e, talvez, a de quem os lê. Ela é, contudo, muito modesta.

Penso agora em Mandelstam, morto de fome, frio e outras privações por Stálin, em razão da poesia. Ninguém arriscaria tanto se a fome não o obrigasse. Há também poetas da saciedade, mas não os julgo tão interessantes; desses, creio, Alberto Pimenta escreveu: “se restassem deste mundo/ só os livros de poesia/ os arqueólogos mais tarde/ pensariam/ que neste tempo/ não aconteceu nada/ a não ser afiar os cabos das facas”. Quero apropriar para os poetas estes versos da “Elegía” de Francisco Alba: “En la carrera universal del hambre/ salimos con ventaja.

O poema de Murilo Mendes sobre a “ópera do mundo” e a “Babilônia” coberta de dólares testemunha um poeta profundamente afetado pela geopolítica. Por isso, creio que esta pergunta é o reverso da anterior, e provavelmente você a fez como controle, para verificar se o sujeito da pesquisa entra em contradição… Vou-me contradizer, claro, mas, ao contrário de Whitman, sem conter multidões, e sim apenas meu vazio. Vou responder sua pergunta com alguns versos de meus livros:

preciso de um palco para encenar o mundo;

não o mundo, certamente,

sempre tão menor do que um palco (O palco e o mundo)

Redação: O que é globalização

A minha arma é mad in usa

então é pra usar

usa quando explode a cabeça do outro

mas o mad não sei o que diz

mad usa

deve ser algo que explode também (Cinco lugares da fúria)

(o frio veio de seus lábios,

o mundo poderia rachar) (Código negro)

Matou-se no exílio.
A pena não necessita de passaporte.

Jogou-se na linha de trem.
O cosmopolitismo

de nunca mais voltar para lugar algum.
Deixou alguma linha escrita?
Depois do interrogatório,
nada mais escreveu,
somente o sangue lhe marcou o papel,
e igual marca ele deixa agora nos ferros
da cidade estrangeira.
Alguma palavra inteira escrita
pelo corpo destroçado.
Ninguém a lê.
Agora, é estrangeiro para sempre. (Cálcio)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Mas, se é poema, ele faz sentidos, e não simplesmente tem sentido, o que é coisa da prosa. Fazer “todo” o sentido de hoje? É demasiado, talvez nem mesmo a Comédia de Dante em sua época, e muito pouco, porque parte do sentido precisa escapar para outros tempos e o poema continue legível ou interessante. Mas que ele todo faça o sentido de hoje para mim…

Há vários, mas escolho agora este do povo Uitoto (ou Witoto), “Canto das cerimônias canibais em honra do deus Husiniamui” (nesta época de tantos ataques aos povos indígenas, o que ensejou, entre outras campanhas, a Índio é Nós: http://www.indio-eh-nos.eco.br/). A tradução é de Armando Silva Carvalho. Escolhi-o porque parece um retrato geopolítico de hoje:

Ao longe, por trás dos filhos dos homens, frente à minha paisagem sangrenta, onde se ergue o sol, encontram-se os meus filhos-nigai, no meio do teatro sangrento, junto à minha árvore de sangue.

Agitam-se, ferozes, ao longe, esmagam o crânio do prisioneiro e queimam a pena da ave.

Perto do céu, no rio de sangue, encontram-se os rochedos do meu desejo de batalha.

Ao longe, no lugar do povo, os homens agitam-se enraivecidos e esmagam os prisioneiros.

É lá que os fazem cozer.

Sobre “Escuta”, de Eucanaã Ferraz

Sétimo livro de Eucanaã Ferraz, Escuta é cercado por uma série de quatro poemas chamada “Orelhas”. Dois deles abrem o livro e outros dois o fecham. Se assim fazem o retrato evidente da escuta que o título pronuncia, também atraem e repelem o leitor do ambiente tenso que se instala nas páginas desse belo livro.

Há quem diga que toda a poesia é sobre – ou sob ou diante ou contra – o amor e a morte. Com Eucanaã, desta vez, toda a reverência que tais “temas” suscitam é rejeitada por uma consciência que embarca num veículo qualquer – carro, ônibus, avião, mais ainda no próprio corpo e sua imaginação – e se espalha geograficamente para despistar qualquer esforço de trancar a vida nas entranhas.

Durante todo o percurso de Escuta, os poemas aderem a locais precisos do mapa: Leopoldina, Brasília, Alentejo, Umuarama, Santiago, Buenos Aires, entre outros. Mas tudo pode ser engano no tabuleiro armado por Eucanaã, como sugere o poema “Geografia”, em que os países não passam de cores num globo terrestre ao alcance de um beijo, bem como “Nem”, em que o poeta se esquiva do real: “Peço desculpas à população de Maringá cidade/ que sequer conheço”.

Quem passeou por seus livros anteriores – Livro primeiro (1990), Martelo (1997), Desassombro (2001), Rua do mundo (2004), Cinemateca (2008) e Sentimental (2012) – já sabe estar diante de um poeta em que não há antagonismo entre a expressão precisa e uma espécie rara, entre seus pares, de afeto – apego e entrega – dedicado àquilo que quer preservar na memória dos versos.

Num texto sobre o livro anterior de Eucanaã, Leonardo Gandolfi já chamava atenção para o fato de que, nessa poética, “autoconsciência textual não entra em conflito com voz confessional”, porque domina “a oscilação entre um registro que transforma franqueza psicológica em fraqueza de expressão e outro registro que funde nome e coisa, sem distinção entre pensar e sentir”. Nesse sentido, Eucanaã continua “sentimental”, mas me parece que agora tudo se dá de modo ainda mais agudo: “Não é uma questão de língua./ É uma questão de dentes?/ Os nomes tocam nas coisas/ mas não conseguem mordê-las” (“Santiaguino”).

De fato, os versos de Eucanaã agora querem morder. Em Escuta convivem poemas de versos mais longos, que perturbam também em razão de aspectos formais (a ausência de vírgulas, por exemplo, que desorienta o leitor) e poemas mais concisos, de toque rápido, mas igualmente densos, ásperos, tensos por baixo até mesmo da camada de humor que aqui e ali surpreende na leitura. Talvez por isso, o leitor chega ao final de Escuta disposto a acolher o conselho de Eucanaã: “palavras/ tantas vezes obras que pobres não valem a tinta/ de novamente serem ditas; dizê-las, no poema;/ eu te digo que é preciso perdoá-las”.

Saiu aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/224641-com-versos-densos-eucanaa-perturba-e-diverte-em-escuta.shtml

Resumo da dispersão

Quase um mês de silêncio neste blog, logo aqui, sob este título, tudo porque me deixo levar pela velocidade lá do fb, espalho lá meus ruídos e acabo esquecendo de passar por aqui. Vou recolher abaixo um pouco do que publiquei lá, só pra não perder:

[15/junho] Ruminação do dia: como é que a gente convence alguém do erro e da covardia que é a redução da maioridade penal quando, no fundo, o que muitas pessoas querem mesmo – e já aceitam no cotidiano brasileiro – é a pena de morte, mesmo sem julgamento, inclusive para menores? Difícil, né?

[19/junho] BABUINEMO-NOS! É crente tacando pedra em quem é da umbanda, é militonto pixando a porta da casa de jornalista porque entrevistou a presidenta, é senador de oposição fazendo diligência na Venezuela para criar mal-estar pro governo, é estupro coletivo entre adolescentes dentro de escola, é católico ameaçando quem faz “mau uso” da cruz, é a “família brasileira” boicotando perfumaria porque aparecem gays no comercial de tevê, é fiscal incomodado com uma carta de 1928 em que um escritor fala para outro de sua homossexualidade, é professor constrangendo criança porque seus pais votaram na Dilma, é o Congresso disposto a desmanchar o sistema de direitos fundamentais, é arrocho, é ajuste, é austeridade, mas, ao que parece, nem tudo está perdido num eventual futuro:

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2015/06/1644815-bandos-de-babuinos-tomam-decisoes-democraticamente.shtml

[24/junho] Lógica

– Laura, nunca deixei pra fazer lição em cima da hora, não sou como você.

– Então, Henrique, já que você não é ‘como migo’, pega pra mim esse lápis que caiu no chão, porque eu não pegaria para você.

[24/junho] É a presente para GRITAR para vocês que acaba de virar e-book a belezura de livro em homenagem ao gigante Donizete Galvão, que nos deixou (mas não nos deixa e não deixamos que nos deixe) no início de 2014, que tive o prazer de organizar com Reynaldo e Ruy, reunindo 75 poetas para uma conversa multiplicadora com a poesia do Doni. Nem pensem em perder:

http://blog.e-galaxia.com.br/outras-ruminacoes-75-poetas-e-a-poesia-de-donizete-galvao/

[26/junho] Duas coisas para uma sexta colorida:

1) tem gente dizendo que essa onda colorida é besta porque a decisão é lá dos EUA e não muda nada para os brasileiros: muda, muda sim, muda mesmo, porque a força cultural (ideológica, poderia dizer) das decisões de um tribunal relevante como sempre foi a Suprema Corte americana tem todas as condições de influenciar futuras decisões dos juízes pelo mundo, inclusive nesta parte tão reacionária do mundo em que temos vivido, basta ver como é recorrente, nos grandes julgados em matéria constitucional (do STF e de cortes constitucionais pelo mundo), a meditação sobre os fundamentos de decisões que a Suprema Corte tomou historicamente. Que assim seja também agora!

2) enquanto a gente está aqui, com todo gosto, comemorando a decisão dos norte-americanos, vem o Dunga, com a truculência daquilo que no futebol se chama de “cavalo”, e diz “Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar”, mostrando que a turma da CBF tem muito mais defeitos do que costumamos lembrar. Cartão vermelho nele. Já. Entenderam porque a gente tem que comemorar tanto uma decisão que eleva, um pouco que seja, o nível da represa do respeito?

A dunguice: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2015/06/26/dunga-defende-geracao-atual-e-lembra-jejum-de-40-anos-sem-copa-america.htm

[29/junho] PENÚLTIMO é um filme que André Zacchi fez com leituras de poemas do livro “Quando todos os acidentes acontecem”, de Manoel Ricardo de Lima. Tem ali a voz do próprio Mané, a de Davi, Eduardo, Flávia, Ricardo, Carlito, Heitor, Alexandre, Júlia, Marília, a minha e a de mais gente que entrou nesse abraço de pronúncias num livro e tanto:

https://www.youtube.com/watch?v=NLzGZ4Ij-Y0

[2/julho] Não foi na noite de ontem que descobrimos que Eduardo Cunha está disposto a tudo para fazer passar SUAS leis, seus interesses e os de seus patrocinadores. E tenho certeza de que fará ainda pior na votação em segundo turno, porque ele tem mesmo essa postura de trator contra tudo e contra todos. Com gente assim, só temos alguma chance se nos dispusermos a usar armas mais ou menos parecidas com as que ele usa. Porque ele ri das regras em que desesperadamente nos seguramos. Porque dentro das regras do jogo ele tem vantagens imensas e, se tais vantagens não bastarem, ele não hesita em quebrar as regras para alcançar seus objetivos. Por isso, é muito difícil acreditar em saída institucional e pacífica para uma encruzilhada tão grave como esta a que chegamos. Até porque é muito provável que a lista de desejos sórdidos de Eduardo Cunha ainda esteja longe de terminar, ou seja, não vai haver notícia boa enquanto a casa dele não cair.

PS: pode até parecer um erro – ou “injustiça” – colocar todo o peso do que estamos assistindo nas costas individuais de Eduardo Cunha, porque há a decisiva participação e conivência de muitos outros políticos, mas não tenho dúvida de que ele encarna pessoalmente alguns dos nossos males mais profundos. E faz questão, como poucos, de colocá-los em prática. Só isso já justifica que seu nome seja colocado em primeiro plano nas nossas pragas.

[3/julho] CASO MAJU. Faço questão de sujar meu perfil, o seu, o de todo mundo com essa imagem (o print das postagens racistas), com as palavras que estão escritas nela. Todos nós somos culpados por elas. Claro, os autores merecem ser responsabilizados pessoalmente, mas nós todos temos o dever de perguntar: O QUE DEIXAMOS DE FAZER DIARIAMENTE PARA QUE GENTE ASSIM SE SINTA À VONTADE PARA SE MANIFESTAR DESSA FORMA? Porque isso só pode acontecer numa sociedade que tolera – ora em ambientes restritos, ora como “piada” ou “deslize” – manifestações de racismo. Quem se indigna ao ler as palavras dessa imagem não pode deixar passar uma oportunidade de chamar um RACISTA de RACISTA, nem que ele seja seu vô, seu amigo, seu amor. Nem que vá azedar o happy-hour ou o almoço de domingo. Nem que a relação de vocês vá terminar ali. Ou na delegacia.

[6/julho] ETERNO RETORNO E cá estamos novamente forçados pelos golpistas de sempre a tomar a defesa do (in)defensável, não por ele, mas por nós?

[8/julho] TCHAU. Vou dormir. E meu sonho vai ser acordar e não ter mais nenhum “amigo” capaz de procurar um argumentinho sequer para relativizar o linchamento que hoje circula por aqui. Só isso. Se você, por algum instante, cogitou “entender” que alguém seja amarrado num poste e morto a chutes, vamos deixar essa conversa por aqui. Um simples clique em “desfazer amizade” – é o que peço.

[11/julho] A gente pode chegar até aqui lendo livros vermelhos, escritos por homens barbudos do século XIX em diante, mas, se preferirem ir pela Bíblia, sigam a instrução desse argentino:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/07/1653938-em-discurso-anticapitalista-francisco-prega-mudanca-de-estruturas.shtml