Sobre poesia, ainda: Pádua Fernandes

padua

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Interessantíssima questão. Não sei bem quem está por trás desse “nós”; sei que ele se engana. Não imagino nem mesmo que se possa saber tudo o que se sente. O inconsciente não foi abolido pelas redes sociais. Esse é um primeiro ponto, de que não escapam, naturalmente, os poetas.

O segundo: a questão teria como pressuposto que a hiperexposição de sentimentos nas redes e sociais e em blogues faz com que poesia não tenha mais lugar para fazer o mesmo? E daí? Se ela quiser apenas reiterar outros discursos, pode fazer isso. Não vejo motivo, porém, para chamar tal reiteração de poesia… Ademais, por que essa seria sua função? Uma visão estreita da poesia, a de que ela existiria só para expressar um eu hipertrofiado. Eu é um outro; se ele quer exposição, mostre os outros. No entanto, vejo vários escritores que só “curtem” ou “repassam” matérias sobre si mesmos, o que talvez seja fruto de duas concepções bastante pobres: a das redes sociais como propaganda e a da literatura como autocelebração. Nos dois casos, o soi-disant poeta rende-se à lógica do mercado.

Outro: a poesia pode estar onde quisermos. Pode estar nas redes sociais e em blogues. No entanto, creio que Sérgio Alcides (Que já respondeu a esta enquete, não? Como não li nenhuma das respostas ainda, ignoro se ele mudou de opinião.) estava certo em um curto artigo de 2014, “Há crise na crítica literária?” (http://libre.org.br/artigo/65/ha-crise-na-critica-literaria-):

Onde então se vê alguma coisa com aparência de crítica, escrita em português do Brasil? Ainda há um punhado de suplementos literários e revistas interessantes, em Minas, no Paraná, em Santa Catarina, em Pernambuco. E também se pode ler crítica na internet, em blogues, mais ou menos articulados pelas redes sociais. Há vários blogues valentíssimos, muitos deles tocados por jovens intelectuais independentes que são críticos genuínos, outros pertencentes a empresas e instituições da área cultural que têm uma perspectiva avançada e responsável.
Mas nem os suplementos nem os blogues podem dar conta sozinhos da tarefa mais ampla da crítica, do ponto de vista heterogêneo e mais conflituoso da sociedade, porque seu raio de atuação tende a descrever comunidades de leitores, que podem até ser a nata da sociedade, mas não chegam a fazer eco numa sociedade que à nata prefere um refrigerante qualquer. E, não fazendo eco, mal dialogam entre si: cada um escreve só para quem já pensa mais ou menos parecido, e quem pensa diferente nem toma conhecimento. Logo, não há dissenso. E sem dissenso não há crise. Nem crítica.

Tantas vezes a hiperexposição que alguns escritores cultivam tem pouco que ver com a literatura, e mais com o marketing. Ou talvez seja algo mais interessante: são autores que fazem da própria hiperexposição sua única poesia, ou melhor, sua única criação, e investem todas suas energias nisso. Uma performance do eu, que pode ser interessante se suas personalidades forem interessantes, o que praticamente nunca é o caso: em geral lemos apenas lamúrias sobre, por exemplo, como a academia é ruim porque não estuda o lamuriante, o que é expresso na curiosa formulação de que a academia é atrasada porque não estuda a poesia contemporânea. Essas queixas, em geral furiosas, partem dos curiosíssimos pressupostos de que poesia contemporânea é igual aos versinhos dos queixosos, e que seus versinhos são realmente contemporâneos. Entendo que esse tipo de lamúria seja mais fruto de ignorância do que de loucura ou de má-fé, pois, em geral, essa espécie de escritor não lê a poesia alheia. Escrevi a partir disso em uma nota do meu blogue, “Não é literatura”: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/02/nao-e-literatura.html

Dessa forma, vemos, confirmando o exame de Sérgio Alcides, uma pletora de páginas para divulgação de livros e coisas análogas que se esgotam em si mesmas, isto é, tratam apenas de si, mônadas pretensamente autossuficientes, não formando nem mesmo comunidades de leitores porque, na verdade, mantêm-se alheias à literatura, campo que não é composto de uma só voz… Dessa forma, esses poetas veem frustrado seu sonho último, que é o de converter-se em mercadoria, além do menos, fungível.

Na contramão disso, temos, em português, o Escamandro (https://escamandro.wordpress.com/) e a Modo de Usar (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/), entre outros portais de poesia.

Como perguntou das redes sociais, e acabei falando da tentativa do uso delas por poetas que tentam se converter em mercadoria, não se pode esquecer que elas têm servido para a hiperexposição do capital e para a “livre expressão” dos robôs, seja para empresas, seja para políticos – em geral não há diferença nos dois. Isso ocorre, por exemplo, em algo perverso como o facebook (cujo princípio é o mesmo do mercado, quem paga ganha mais exposição) e tende apenas a consolidar o status quo. Sugiro a reportagem de Natalia Viana para a Pública, “A direita abraça a rede” (http://apublica.org/2015/06/a-direita-abraca-a-rede/) sobre os efeitos disso em um país, que, como dizia Hélio Oiticica, é bastante fascista. Pena que haja escritores que tentam reproduzir acriticamente esses mecanismos.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Não sei, isso deve ser um problema para eles e para quem segue as altas pesquisas de máquinas do mundo. Quanto a mim e ao que faço, creio que a questão poderia ser a de criar mundos, mas, como isso é demasiado, tento ao menos criar espaços.

Tais espaços devem ser tristes? Drummond, em um poema que prefiro a esse, escreveu “Nem existir é mais que um exercício/ de pesquisar de vida um vago indício,// a provar a nós mesmos que, vivendo,/ estamos para doer, estamos doendo.”; Manuel de Freitas, na sua irônica “Errata”, escreveu “Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.”

Há, porém, a alegria de criar, que encontrou uma de suas expressões mais felizes em um poema de Yeats, “Lapis Lazuli”: “One asks for mournful melodies;/ Accomplished fingers begin to play./ Their eyes mid many wrinkles, their eyes,/ Their ancient, glittering eyes, are gay.” Sei que houve e há quem morra disto, porém, para mim, a criação é uma alegria. Se essa alegria é apenas lícita no exílio, deve-se fazer, então, do exílio um lugar.

Por fim, quero lembrar que esta pergunta não faz muito sentido em sociedades para que a poesia é necessária como a água e a noite, como tantas vezes ocorre com a poesia oral. Ademais, há o papel notável da poesia em muitas sociedades islâmicas (onde há até um prêmio de valor superior ao Nobel para a poesia), inclusive o “Estado Islâmico”, que tem uma celebrada poeta oficial que trata de corpos destroçados, de bombas e alimenta as fantasias mortalmente anacrônicas do fundamentalismo; não podemos esquecer do papel central da poesia na cultura do jihadismo. Não vou citá-la, e sim a Enzensberger e seu poema “Kriegeserklärung”: “das kleine Gehirn/ des patriotischen Dichters schwitzt ihn aus”.

A poesia também teve seu papel na Primavera Árabe, fomentando desejos de rebelião. Esses poetas provavelmente não se queixam do lugar da poesia. A questão tem que ser posta no contexto de cada cultura e de cada tipo de poesia.

No Brasil, creio que os netos e bisnetos distantes de Gil Scott Heron e sua “small talk”, antecessora do rap, também sabem criar espaços e (des)construir o que a pergunta chamou de “lugar da poesia no mundo”.

Sei que muitos poetas brasileiros lamentam a falta de leitores, mas talvez isso venha mais de um desinteresse (em alguns casos, certamente incompetência) editorial e jornalístico do que de rejeição do público. Lembro que no Festival Literário de Paraty, por exemplo, mais de uma vez um poeta foi o autor cujos livros lideraram a lista de vendas. Não pesquisarei, mas lembro que isso ocorreu com uma autora falecida em 1964, a grande Cecília Meireles, com uma autora brasileira contemporânea de longa carreira, Adélia Prado, e, em 2015, com a portuguesa e estreante Matilde Campilho. Em 10 de julho, por sinal, ela entrou em uma lista geral dos mais vendidos em ficção com Jóquei (http://publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=82671).

Há uma demanda para esse tipo de literatura. Ademais, Campilho não estava isolada na lista de Paraty: em segundo lugar, ficou o livro novo de poesia, de Arnaldo Antunes e, em terceiro, Karina Buhr.

No entanto, pode-se objetar, a respeito do sucesso comercial, que Campilho foi tratada como “musa”, o que é bastante machista (os poetas homens não são tratados assim): sua beleza física, mais do que sua poesia, foi explorada pelos meios de comunicação, o que explicaria parte do interesse do público. Arnaldo Antunes e Karina Buhr têm a audiência que acompanha suas carreiras musicais, e isso também estaria por trás das vendas. Mas, e daí? Certo que é a poesia nem precisa vender para ser lida, como sabemos. Basta estar por aí, e a internet ajuda nisso, em criar espaços… Um alargamento do mundo.

Pode também ocorrer o oposto: Benjamin Moser, em texto recentíssimo, “Found in Translation”, revisitou o tema do encurtamento do mundo pela língua inglesa, que teria se tornado uma espécie invasora de biomas estrangeiros, assim como os ratos se tornaram por quase todo o planeta. O reverso da medalha, que confirma essa situação, era de que nestes dois grandes países anglófonos, Estados Unidos e Reino Unido, traduções correspondiam a apenas três por cento do mercado de livros em 2013 (http://www.nytimes.com/2015/07/08/opinion/found-in-translation.html?_r=0). Mundos fechados.

A imagem do rato para esses fatos do imperialismo parece-me muito bem achada. Não sei, no entanto, se se pode dizer o mesmo no tocante apenas à poesia, área em que o mercado editorial não é, de qualquer forma, muito rico, muito menos em traduções. Parece-me, mas isto é mero impressionismo (seria necessário pesquisar o assunto a sério), que as traduções de poesia, em geral, poesia contemporânea, são feitas geralmente por outros poetas e publicadas em editoras de poetas ou em que eles têm uma voz determinante (todos os meus livros de poesia publicados no exterior – em Portugal e na Argentina – enquadram-se nessa explicação), e o fator do imperialismo anglófono (também no mercado literário) pode ser menos determinante do que o gosto dos poetas. Em outras editoras, predomina muitas vezes o departamento de marketing sobre considerações de natureza literária. O marketing, por sinal, virou praticamente a atividade fim em certos grandes estabelecimentos editoriais.

Por outro lado, nos dois portais de poesia que indiquei, Escamandro e Modo de usar, vemos tradução de autores de culturas e idiomas diversos, que, por razões comerciais (redutoras do mundo), jamais seriam lançados por editoras no Brasil. No meio impresso, algo parecido é feito apenas pelas revistas de poesia. Com o fim ou suspensão, no Brasil, de periódicos como Poesia Sempre e Inimigo Rumor, creio que o principal veículo para isso hoje é a portuguesa Telhados de Vidro, da editora Averno, que continua firme após quase doze anos. No seu próximo número, publicarei traduções novas do poeta argentino Julián Axat. Cito um pouco do genial “O menino impunível”, do seu último livro, Rimbaud en la CGT , devido à atualidade do arcaico debate sobre redução de maioridade penal no Brasil:

aos 15 sonhava ser cantor de hip-hop mas era fuzilado em um episódio confuso

aos 14 sonhava que o prendiam em uma cela e no outro dia lia o jornal com a manchete “jovem se suicidou em delegacia”

[…]

aos 10 o sonho repetido era pagar dívidas contraídas por outras gerações

aos 9 sonhava que um candidato a político lhe dava um abraço e depois chefiava um esquadrão que o perseguia […]

Outra dimensão, bem diferente, do encurtamento do mundo: quero ainda lembrar que, principalmente a partir dos anos 1990, creio, cresceu uma poesia que escolheu especialmente o mundo universitário, por meio de jogos intertextuais e de trechos em línguas estrangeiras, além de outros procedimentos, certamente interessantes para trabalhos acadêmicos. Já vi um desses poetas perguntando, no fim da noite, o que fazer para agradar a crítica X, algo em que nunca cogitei. Cada um escolhe seu mundo (ou melhor, cada um faz o que pode), e essa opção é legítima.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Você pode fingir que não é mais, se lhe aprouver. A poesia também aceita isso.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Não uso essas categorias de Murilo Mendes, que é um de meus poetas favoritos, no entanto. Quanto a meus poemas, creio que eles não têm fome, mas são ela mesma, a minha e, talvez, a de quem os lê. Ela é, contudo, muito modesta.

Penso agora em Mandelstam, morto de fome, frio e outras privações por Stálin, em razão da poesia. Ninguém arriscaria tanto se a fome não o obrigasse. Há também poetas da saciedade, mas não os julgo tão interessantes; desses, creio, Alberto Pimenta escreveu: “se restassem deste mundo/ só os livros de poesia/ os arqueólogos mais tarde/ pensariam/ que neste tempo/ não aconteceu nada/ a não ser afiar os cabos das facas”. Quero apropriar para os poetas estes versos da “Elegía” de Francisco Alba: “En la carrera universal del hambre/ salimos con ventaja.

O poema de Murilo Mendes sobre a “ópera do mundo” e a “Babilônia” coberta de dólares testemunha um poeta profundamente afetado pela geopolítica. Por isso, creio que esta pergunta é o reverso da anterior, e provavelmente você a fez como controle, para verificar se o sujeito da pesquisa entra em contradição… Vou-me contradizer, claro, mas, ao contrário de Whitman, sem conter multidões, e sim apenas meu vazio. Vou responder sua pergunta com alguns versos de meus livros:

preciso de um palco para encenar o mundo;

não o mundo, certamente,

sempre tão menor do que um palco (O palco e o mundo)

Redação: O que é globalização

A minha arma é mad in usa

então é pra usar

usa quando explode a cabeça do outro

mas o mad não sei o que diz

mad usa

deve ser algo que explode também (Cinco lugares da fúria)

(o frio veio de seus lábios,

o mundo poderia rachar) (Código negro)

Matou-se no exílio.
A pena não necessita de passaporte.

Jogou-se na linha de trem.
O cosmopolitismo

de nunca mais voltar para lugar algum.
Deixou alguma linha escrita?
Depois do interrogatório,
nada mais escreveu,
somente o sangue lhe marcou o papel,
e igual marca ele deixa agora nos ferros
da cidade estrangeira.
Alguma palavra inteira escrita
pelo corpo destroçado.
Ninguém a lê.
Agora, é estrangeiro para sempre. (Cálcio)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Mas, se é poema, ele faz sentidos, e não simplesmente tem sentido, o que é coisa da prosa. Fazer “todo” o sentido de hoje? É demasiado, talvez nem mesmo a Comédia de Dante em sua época, e muito pouco, porque parte do sentido precisa escapar para outros tempos e o poema continue legível ou interessante. Mas que ele todo faça o sentido de hoje para mim…

Há vários, mas escolho agora este do povo Uitoto (ou Witoto), “Canto das cerimônias canibais em honra do deus Husiniamui” (nesta época de tantos ataques aos povos indígenas, o que ensejou, entre outras campanhas, a Índio é Nós: http://www.indio-eh-nos.eco.br/). A tradução é de Armando Silva Carvalho. Escolhi-o porque parece um retrato geopolítico de hoje:

Ao longe, por trás dos filhos dos homens, frente à minha paisagem sangrenta, onde se ergue o sol, encontram-se os meus filhos-nigai, no meio do teatro sangrento, junto à minha árvore de sangue.

Agitam-se, ferozes, ao longe, esmagam o crânio do prisioneiro e queimam a pena da ave.

Perto do céu, no rio de sangue, encontram-se os rochedos do meu desejo de batalha.

Ao longe, no lugar do povo, os homens agitam-se enraivecidos e esmagam os prisioneiros.

É lá que os fazem cozer.

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