Sobre poesia, ainda: André Luiz Pinto

André

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Em geral as redes reproduzem o senso comum. Estar exposto é uma constante atual e como constante é mais uma reprodução. Por outro lado, a poesia não se confunde com a exposição, nem sei se haveria como. Ela, no máximo, faz uso desse recurso. Eu ainda concordo com a velha máxima de que a arte busca o universal e de que o universal está em sintonia com o singular, mas não com o particular, ou seja, com o reino das opiniões e que no momento atual atravessa as redes sociais e todos os media. Mas se os fins justificam os meios, é sempre bom lembrar que os meios modificam os fins, e que, se a universalidade é uma prerrogativa da arte (e a meu ver ainda é), trata-se de um universal imanente, submetido a toda mudança histórica.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Bem, Tarso, desculpe a brincadeira, mas, pelo que estou vendo, você não é só um excelente poeta, mas deve ser um excelente advogado. Digo isso porque ler e pensar na sua pergunta tem algo de indutor, que nos leva a responder a partir de uma determinada posição. Parte-se do princípio de que existe uma dificuldade em estabelecer o lugar da poesia e que essa tentativa é em vão. Drummond é irônico, como lembra Ruy Proença na sua resposta, no entanto, ao mesmo tempo há uma ponta de tragédia nesse eterno recomeço, maldição de Sísifo que a todo tempo realiza o eterno trabalho que se destina a seu fim. E a resposta a essa pergunta é não. Não é necessário repetir os mesmos tristes périplos. Há como parar a mó do trabalho e uma forma de parar é simplesmente abrindo mão de escrever, ou escrever abrindo mão de ser escritor. Seria isso decretar o fim da poesia? O fim de ser poeta? Sim, é talvez decretá-la, mas será que ela, a poesia, já não acabou? Será que o engano não está em retomar o que já está morto?

NÓS, OS DINOSSAUROS

 

A poesia

Não há

De vingar

Já se canta loas

A um novo deus

Por demais atraente

A vender sua alma

E a dar seu quinhão

Talvez em cem

Duzentos anos

A poesia desapareça

Trata-se

De um ninho

De um nicho

Reduzidíssimo

Tudo se resolve

Na moeda

Gladiadores fazem a vontade

Dos césares

A poesia será extinta

Poetas a sepultarão

Será eliminada como eliminado pela polícia

Favelado fujão.

E quando rolar (a morte da poesia)

Ninguém vai lamentar

O melhor está para ser consumido

O pior já foi confirmado

Conformatum est.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Sim, como toda arte, poesia é fingimento, balela, blasfêmia. Ninguém percebe o esforço da bailarina soerguida na ponta dos pés, ou do músico que se desdobra com dedos e mãos sobre o instrumento que carrega. Das artes, a poesia é a mais simples, são poucos instrumentos exigidos, em geral democratizados, acessíveis a todos. Tudo tão simples, mas não é. No caso, finge-se que sente dor, mas não sente; finge-se que sente dor, e, de fato, sente. O termo ‘fingimento’ adotado por Pessoa tem exatamente esse truque: o ato de fingir não está aliado à verdade, mas também não está aliado à mentira. O fingimento é um tipo de movimentação que não conta com nenhum valor de verdade simplesmente porque a verdade (portanto, a mentira) está abandonada como critério.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Responder ao que você me perguntou é quase responder à velha pergunta ‘por que você escreve?’ Em primeiro lugar, a gente luta para parar de escrever como quem luta para parar de fumar. Não é fácil, porque não se consegue ver em outra farda a não ser essa. Sinceramente, acho que meus poemas não têm fome de nada, eles não estão nem aí para mim, acho no máximo que eles se nutrem da vida, toda revolta e prazer que tem sido essa história. Eu tenho levado uma coisa cada vez mais a sério: a poesia não é o que você exatamente pensa, antes, ela acontece quando somos capazes de dizer sobre algo que não haveria outro modo de tratar senão daquela maneira. É o pensamento descobrindo através da palavra o que estava pensando. A questão da palavra poética é não deixar escapar. Armando Freitas Filho usou certa feita a frase “dormir na mira”. É um pouco por aí. Meus poemas possuem, contudo, uma questão, já notada por outros: eu busco uma espécie de pré-escrita, de pensamento anterior à palavra, quase uma zona de mistério; o místico que talvez se revela na arte. Há um poema meu em “Primeiro de abril” que trata exatamente disso:

…embora lhes arrancassem

da sombra, casualmente se elegem

logos seus rostos, solenemente

contra os mesmos sinais

ao sono que os acalenta: olhar

agudo, disfarçando bocas internas

como em cristais, abjeto

ao próprio ser; caso o contrário aconteça

e nele se restitua, prenhe de razão

rosas pontiagulhas, através do qual sombra

e corpo se confundem, adquirindo

a nudez necessária para fugirmos em silêncio.

e outro em “Terno Novo” que segue na mesma zona:

Que parto do zero

uma mentira, melhor seria dizer

que veio de uma estrela que alumia a mente.

Sente como é tremenda toda delicadeza

como também toda destreza dessas mãos desamparadas no peito

que respondem ‘fogo!’ antes que o coração comece

a te dizer e até o que pensaste desande a escrever – só por intriga.

Um mínimo lastro de vento é o ponto de partida

do que não sabemos mas escreveu

se na hora de escrever

já não havia.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

A resposta politicamente correta seria: ‘há tantos poetas que não cabe só dizer um’. Deixo essa resposta para os editores e professores universitários. Eu decidi subir a montanha e morar longe da grande cidade. Atos para mim são sempre os de ópera. E há dois poetas que estão me perturbando, Heitor Ferraz e Renato Rezende. Do Renato, “Noiva” é um livro encantador; do Heitor, fica o poema “Explicação”:

Não sei explicar

o que me motivou

a colocar fogo

naquele pinheiro

em frente de casa

 

Não era a beleza

“da chuva vermelha”

Nem a necessidade de calor

numa manhã sem abrigo

 

Havia um fósforo

uma caixa de fósforos

Espero um dia ter a coragem de queimar meus poemas, minhas ideias e meus livros.

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