Sobre poesia, ainda: Casé Lontra Marques

casé

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Há inúmeras possibilidades para a poesia (e não só para a poesia); talvez o seu acontecer (o acontecer da poesia) se vincule mesmo à propiciação de caminhos. Acredito que a criação poética — ou pelos menos a criação poética que me movimenta — esteja mesmo marcada pelo compromisso, quem sabe até pela compulsão de “procurar outra coisa para fazer” sempre. E também, assim, procurar outra coisa em cada fazer, explorando ainda o que se faz e o que deixa de se fazer em cada coisa. Esse “procurar” é um transpor e um transfigurar, um decompor e um deportar. É inclusive um repor e um redesenhar. Mas o quê? Isto: o falar e o ser falado. Mais: o calar e o ser calado. Ou: o viver, o desviver. O respirar.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A experiência da poesia me parece a da falta de lugar. E essa falta tanto fere quanto funda o desejo (assim como a necessidade) de se erigir coordenadas ainda que provisórias — diante e a partir da precariedade. Os atos poéticos transportam e transbordam o lugar e o não-lugar. Ao mesmo tempo em que se constituem nessa/dessa falta, tais atos (que podem também ser somente anúncios ou sombras de atos ainda por vir ou já soterrados) se configuram como um excesso. De lugar e de não-lugar, sim. É na oscilação entre aquela falta e esse excesso que a poesia se abre para um habitar — mas um habitar que exila. Gosto da ênfase em “sem roteiros”. E tal ênfase se ampara na sintaxe, no deslocamento da sintaxe usual. Ou melhor: no destroncamento da sintaxe consensual. E o que se repete? A inevitabilidade da transformação. Há nisso alguma tristeza (e dói). Mas também há algum êxtase (e a dor então se vê povoada por outras tramas ou voltagens afetivas).

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

De algum modo. Mas o continuar da poesia faz dobras e o “fingimento”, o seu “fingimento” se diferencia de si: esse “fingimento”, assim, fricciona o próprio fingir e disso nascem ficções (e mais ficções…). O ser que finge — de dentro e para além da poesia — também finge um fingir. E o seu continuar instaura uma forma algo especial de insistência: o fingir que continua se alheia, não é mais o próprio fingir. Ele se torna um fingir alheio. Insistentemente: ele se torna um fingir que é fingir o outro ou fingir um outro. E sobretudo um fingir outro.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

De uma vontade de vida, eu acho. Meus poemas têm fome de uma vontade de vida. E têm fome também da delicadeza, da violência que é a vida. E têm fome ainda do medo de um dia não estar mais na vida.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Indico um poema que é na verdade um livro, um poema-livro: “Pintura para primeiros barcos”, de Alexandre Moraes. Por quê? A poesia — e a literatura, de modo geral, ou a arte, de modo mais geral ainda, ou também a filosofia, por exemplo — que me comove e convoca, que me perturba e expande é aquela que participa da urgência, de uma urgência: a urgência tanto de sobreviver (comum ao que é orgânico) quanto de subsistir (comum ao que é inorgânico). Transcreverei logo mais o início da obra mencionada, que tem um subtítulo: “O livro das implosões”. Qual a premência desse texto hoje ou para hoje? A tentativa de pensar/sentir, de tocar/intuir o que nos escapa, nos cinde, nos ultrapassa. E nesse esforço fazer ressoar o que aí-aqui está, esteve ou poderia estar, propondo (e provocando) outras maneiras — não apenas humanas — de persistir: agora.

PINTURA PARA PRIMEIROS BARCOS [FRAGMENTO]

esta é uma implosão

com os olhos atentos

(e fortes)

respiração simples

incolor

dentro das normas e leis dos pulmões

por entre os dedos

no correr cego dos dias

com a intensidade da água e do gozo —

esta é uma circuncisão com os olhos e

o corpo destes mundos todos no mundo —

alcançar um corpo

um sentido

respiração do que sempre esteve por escrever

entro em estado de palavras desejosas

amanheço em estado de respiração

então

abraço

o movimento

tenso

e

forte

saio cortando a noite por entre as células

desamarro

os olhos

a cara

em rua

por um mar até perder

os braços

o lábio

o barco

os olhos caindo pelo chão

escorrendo aos bueiros

corpo

deslizando

as pernas

dedos

mastigando

o rumor de cimento

tijolo

barro

a casa

o mundo

o barco

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Teatro Brasil

Com um pouco de boa vontade, o observador reconhece que a história do PT é um retrato da história recente do Brasil: as grandes aspirações que o forjaram nos anos 1980, daí em diante, para atender a interesses eleitorais e, em seguida, governamentais, foram sendo submetidas à acomodação com forças políticas dos mais variados matizes, inclusive algumas que ocupavam as posições mais distantes do espectro ideológico, social, econômico, até mesmo antagônicas. Isto não quer dizer que o PT era um partido puro e que teve que se vender para crescer. Não é disso que se trata. Sempre foi um partido complexo e com grandes pretensões, algumas bastante elogiáveis, outras nem tanto. Neste momento, que eu diria que se agravou precisamente no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, o (des)nível da composição de forças – quero dizer, a parcela de “PT clássico” que sobrou na sopa de partidos que se tornou o governo federal – atingiu seu tom mais bizarro. E perigoso. Sequestro do governo? Reação das forças tradicionais? Crescimento da direita? Tudo isso e mais um pouco. Os governos do PT na presidência do país sempre foram mesclas de algo que ainda podíamos reconhecer como sendo aquele partido que surgiu à esquerda no final da ditadura e um monte de outras forças, que em momentos diferentes se sobressaíam, mas não chegavam a sufocar completamente o que havia de “PT clássico” nesses governos. Lula, em especial, foi muito hábil para equilibrar a feição social do partido no alto de uma pilha de interesses contraditórios. Dilma, principalmente neste segundo mandato, assumiu a presidência com um nível de desgaste – perante a população e no embate com sua própria coalizão – que já permitia antever o que seria dos anos de governo – uma corda bem bamba. Observando o quadro atual, parece que, como nunca antes, essas “forças de sustentação” engoliram o governo eleito e se transformaram elas mesmas em “governo”. Esse “governo” não tem legitimidade e, como consequência, algo é ainda pior: não tem qualquer compromisso com os projetos que justificaram os mais de 54 milhões e 500 mil votos que reelegeram Dilma e o PT. Para nossa tragédia, tudo isso acontece num momento em que a manipulação da informação por aqui está em níveis assustadores, fazendo com que todas as críticas e a revolta social não ultrapassem a primeira camada do governo – o PT, a figura da presidenta e a do ex-presidente -, deixando na sombra todo esse arranjo de forças políticas e econômicas que, para atender seus interesses, está disposto a fazer sucumbir tudo aquilo que o eleitorado de Lula e Dilma pretendiam ao votar neles. A cortina que protege o verdadeiro governo do Brasil neste momento é densa demais – e é bem provável que, por causa dela, muitos já estejam me xingando a cada linha deste texto. A grande imprensa brasileira fez um esforço tremendo para recortar com precisão os governos do PT, esconder todas as conexões que seus problemas possam ter com nosso passado e com outras forças vivas no presente, e o deixou nu em cima do palco, pronto para a execração pública. Por isso, os gritos que ouvimos hoje nas ruas contra o PT são gritos que fariam todo sentido em qualquer momento da história do Brasil, mas estranhamente só apareceram agora e tudo indica que, se o PT descer do palco, não mais os ouviremos. Só nos resta torcer para que, após uma vitória contra o partido da vez (na marra ou na próxima eleição), os brasileiros percebamos que o que está por trás da cortina talvez mereça muito mais o nosso combate do que aqueles que estão no palco sendo atingidos pelos nossos tomates. Do contrário, continuaremos sofrendo com todos esses problemas que hoje viraram faixas e gritos, mas essas faixas e gritos estarão muito bem guardados. Como de costume.

Chacina

24 pessoas são baleadas numa noite da Grande SP. 18 morrem. O Secretário de Segurança vem a público levantar a possível relação entre a chacina e a punição de policiais da Rota justamente por causa de outras mortes “suspeitas”. Se o Secretário se apressou em destacar essa linha de investigação, é bem provável que saiba do que está falando – e talvez já tenha até mesmo reforçado sua segurança pessoal… Era mais que o suficiente para estarmos muito preocupados. Mas não. Estamos entre o comentário que afirma “se fosse pai de família, gente de bem, não estava em bar à noite” e as matérias de jornal que dão destaque para os antecedentes criminais das vítimas, como se dissesse “mereceram”. Tudo indica que estamos prontos para o pior – e estranhamente achamos que esse pior nunca vai nos atingir. Bruta ingenuidade.

Dódio

Abaixo de toda acusação de preconceito que aparece por aqui surgem comentários que apoiam ou relativizam o preconceito. Por pior que seja, há sempre um defensor do “direito de ofender”, prezando mais uma vaga e irresponsável noção de “liberdade de expressão” do que todos os outros valores que são indispensáveis para uma sociedade em que se possa falar de qualquer tipo de liberdade. Em cima do palco social em que se explora o preconceito, cuspindo no microfone, encontramos gente sem escrúpulo, disposta a falar qualquer coisa para tirar sabe lá qual proveito, mas à sua frente, na sorridente plateia, quando não falta escrúpulo, falta informação, respeito e, também, autocrítica – vontade de ser melhor, de ser mais digno. Porque rir de uma piada preconceituosa é uma espécie de alarme para perceber em si que nem todos os preconceitos, por mais íntimos que sejam, estão superados em nossa consciência – ou num nível ainda mais profundo de nós mesmos. E, claro, todos os preconceitos são sempre uma forma de idiotice (aliás, dizem que os gregos usavam a expressão “idiota” para falar daqueles que colocavam sua razão privada acima das questões da vida pública…). Há quem não perceba o quanto é preconceituoso – e deveria se esforçar para fazê-lo. De outra parte, quem se percebe preconceituoso e luta para mudar, confronta sua própria idiotice (em que todos estamos metidos, em alguma medida) e tem muitas chances de vencer. Já aqueles, muitos, que percebem seus preconceitos e conformam-se ou até mesmo se esforçam para fundamentá-los, ah, esses não têm muito jeito: são idiotas convictos. Condenam-se a isso – e parecem felizes enquanto riem da tristeza dos outros. Deles: podia dar dó, mas dá ódio.

Pais

Feliz dia dos pais, das mães, dos tios, tias, avôs, avós, irmãos, irmãs, amigos, amigas, feliz dia de todo mundo que percebe em cada criança uma chance nova da humanidade se tornar melhor e faz de tudo ao seu alcance para que essa melhora se realize.

Ódio

Pensando cá com meus botões sobre essa coisa do ódio, dos palavrões aos berros que não querem deixar falar o “inimigo” político, fico com a impressão de que demos um salto: passamos de uma sociedade em que tudo era assunto, menos política, para uma sociedade em que a política (institucional) é o único assunto, da tevê ao elevador. Não veria problemas nisso, claro, a não ser pelo fato de que esse salto foi tão radical que, entre um ponto e outro, o desprezo se transformou em ódio. Sem escalas. Saltamos, na verdade, passando bem por alto de algumas etapas muito importantes: a compreensão da realidade política brasileira, por exemplo, absolutamente embaçada nesse momento pela poeira dos fogos de artifício que a mídia não cansa de acender. O saldo dessa aventura é que, sabemos, todo excesso cobra uma severa ressaca, ou seja, provavelmente, vamos em breve saltar de volta para o ponto de partida – o desprezo – sem qualquer conquista. Pelo contrário: com perdas significativas. Quero estar errado.

Duas questões bestas

1. O que faz alguém acreditar que o melhor a fazer, em todas as suas manifestações públicas, é deixar muito claro que qualquer opinião minimamente divergente da sua é sempre uma prova de falta de inteligência e caráter de quem possa vir a emiti-la?
2. Qual é a importância, para o debate público, da opinião de quem despreza completamente a possibilidade de se deixar convencer por qualquer outro argumento desse mesmo debate público?