Teatro Brasil

Com um pouco de boa vontade, o observador reconhece que a história do PT é um retrato da história recente do Brasil: as grandes aspirações que o forjaram nos anos 1980, daí em diante, para atender a interesses eleitorais e, em seguida, governamentais, foram sendo submetidas à acomodação com forças políticas dos mais variados matizes, inclusive algumas que ocupavam as posições mais distantes do espectro ideológico, social, econômico, até mesmo antagônicas. Isto não quer dizer que o PT era um partido puro e que teve que se vender para crescer. Não é disso que se trata. Sempre foi um partido complexo e com grandes pretensões, algumas bastante elogiáveis, outras nem tanto. Neste momento, que eu diria que se agravou precisamente no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, o (des)nível da composição de forças – quero dizer, a parcela de “PT clássico” que sobrou na sopa de partidos que se tornou o governo federal – atingiu seu tom mais bizarro. E perigoso. Sequestro do governo? Reação das forças tradicionais? Crescimento da direita? Tudo isso e mais um pouco. Os governos do PT na presidência do país sempre foram mesclas de algo que ainda podíamos reconhecer como sendo aquele partido que surgiu à esquerda no final da ditadura e um monte de outras forças, que em momentos diferentes se sobressaíam, mas não chegavam a sufocar completamente o que havia de “PT clássico” nesses governos. Lula, em especial, foi muito hábil para equilibrar a feição social do partido no alto de uma pilha de interesses contraditórios. Dilma, principalmente neste segundo mandato, assumiu a presidência com um nível de desgaste – perante a população e no embate com sua própria coalizão – que já permitia antever o que seria dos anos de governo – uma corda bem bamba. Observando o quadro atual, parece que, como nunca antes, essas “forças de sustentação” engoliram o governo eleito e se transformaram elas mesmas em “governo”. Esse “governo” não tem legitimidade e, como consequência, algo é ainda pior: não tem qualquer compromisso com os projetos que justificaram os mais de 54 milhões e 500 mil votos que reelegeram Dilma e o PT. Para nossa tragédia, tudo isso acontece num momento em que a manipulação da informação por aqui está em níveis assustadores, fazendo com que todas as críticas e a revolta social não ultrapassem a primeira camada do governo – o PT, a figura da presidenta e a do ex-presidente -, deixando na sombra todo esse arranjo de forças políticas e econômicas que, para atender seus interesses, está disposto a fazer sucumbir tudo aquilo que o eleitorado de Lula e Dilma pretendiam ao votar neles. A cortina que protege o verdadeiro governo do Brasil neste momento é densa demais – e é bem provável que, por causa dela, muitos já estejam me xingando a cada linha deste texto. A grande imprensa brasileira fez um esforço tremendo para recortar com precisão os governos do PT, esconder todas as conexões que seus problemas possam ter com nosso passado e com outras forças vivas no presente, e o deixou nu em cima do palco, pronto para a execração pública. Por isso, os gritos que ouvimos hoje nas ruas contra o PT são gritos que fariam todo sentido em qualquer momento da história do Brasil, mas estranhamente só apareceram agora e tudo indica que, se o PT descer do palco, não mais os ouviremos. Só nos resta torcer para que, após uma vitória contra o partido da vez (na marra ou na próxima eleição), os brasileiros percebamos que o que está por trás da cortina talvez mereça muito mais o nosso combate do que aqueles que estão no palco sendo atingidos pelos nossos tomates. Do contrário, continuaremos sofrendo com todos esses problemas que hoje viraram faixas e gritos, mas essas faixas e gritos estarão muito bem guardados. Como de costume.

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