Índio, preto, branco

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No disco novo do Emicida há faixas, muitas, absolutamente magistrais. Letra e música unidas para demolir nossa indiferença. Há dias um de seus versos, da música “8”, me martela: “o sangue índio, o suor preto e as igrejas brancas”. Uma espécie de resumo da formação do Brasil – violência e mais violência para impor uma “ordem” que interessa a uma pequena parcela da sociedade. Nosso passado, nosso mais-que-presente. E hoje ouvi aqui uma frase que ele disse na tevê e me parece rasgar um pouco mais os trapos com que tentamos esconder aquela verdade: o Brasil que se formou e desenvolveu daquela maneira, hoje é o país em que “um táxi não pára para você (negro), mas a viatura pára”. No osso da questão, coisa de grande artista. Coloque essa frase ao lado das notícias sobre o massacre dos índios que resistem no Brasil e sobre os grupos do asfalto atacando ônibus que vão para o subúrbio do Rio (porque acham que a polícia deveria fazê-lo, para manter essa gente indesejada longe das suas zonas de privilégio social), e você terá um retrato preciso da nossa dificuldade de ser melhor que isso – e das razões pelas quais não podemos duvidar que ainda temos chance de ser pior que isso.

Vida nova

Histórias com crianças – as tristes e as felizes – são sempre uma porrada, um exagero de tristeza ou alegria, algo que não controlamos, ou melhor, nem queremos controlar. Desde ontem evito as notícias sobre essa tragédia com o menino e sua mochila voando do 26º andar de um prédio em SP. Na primeira versão que ouvi, havia a insinuação de violência; depois, o rumo foi outro e tudo ficou ainda mais sem sentido e dolorido. A vida é mesmo muito besta. E é por isso que a gente vai querendo cada vez mais se agarrar em algo que faça sentido. Crianças fazem sentido. Toda vida nova faz sentido, antes de se deixar dobrar pelo sem-sentido que é a vida enquadrada nos moldes “maduros” que vão nos engolindo. E crianças parecem acender na nossa cabeça, a cada dia, alguma obrigação de querer recobrar o sentido na vida velha que deixamos surgir nas crianças que fomos. Por isso é que cada morte de uma criança é um golpe terrível na nossa crença de que a vida possa fazer sentido. Por isso é que cada notícia dessas dá na gente uma vontade absurda de parar tudo e correr para abraçar as crianças da nossa vida. E não é porque queremos protegê-las, mas porque sabemos que é ali, na atmosfera, na constelação daquela vida, que nós nos sentimos protegidos. Vejo bem isso quando pula na tela a foto de alguns amigos, gente que conheço antes de ter(mos) crianças por perto, dando toda a letra de que, enfim, encontraram o sentido – ou o fio da meada que leva até ele – que pareciam buscar em suas vidas. O tempo parece parar nas fotos – e eu não tenho como evitar o clichê. Ontem mesmo um amigo me falava que está se organizando para largar suas “conquistas” – carreira, projetos, títulos – em troca de uma vida em que possa levar o filho na escola. Ponto. Não era drama, era sério: o “projeto” mudou, a vida pede outra coisa e faz desabar o sentido que ele atribuía a coisas como carreira, projetos, títulos. Acho bonito ver um marmanjo – doutor, 4 ou 5 idiomas no currículo, um salário bom – dizendo que tudo isso é secundário porque “tá foda dormir fora de casa”. E a gente precisa mesmo de coisas bonitas. O quanto puder. Não sei se tem a ver com o que estou dizendo aqui, mas não posso falar hoje em algo bonito sem lembrar que li essa matéria: http://www.redetv.uol.com.br/jornalismo/da-para-acreditar/em-luto-gorila-nao-consegue-deixar-corpo-do-filho-que-morreu

Recapitulando…

Reparo agora o relaxo que foi minha atividade neste blog no mês que corre… Então vou colar aqui algumas das coisas que escrevi lá no facebook apenas para dar algum sinal a quem pode ter vindo passear neste sítio.

[31.08] FUNDAMENTAL. Em tempos de tanta violência perpetrada e de tanta ameaça de violência apresentada como solução, não podemos nos eximir de pensar sobre nosso mundo a partir desse artigo de Karl Ove Knausgard sobre um “homem comum” que matou 69 jovens na Noruega em 2011 – pelo tanto que explica, pelo tanto que desespera.

<<O que hoje acontece na Síria e no Iraque, com as carnificinas brutais promovidas pelo Estado Islâmico, não se deve a uma súbita transformação dos responsáveis pelos assassinatos em pessoas más, mas ao fato de que os mecanismos da sociedade civil que em geral impedem a população de promover a violência e o assassinato sofreram uma dissolução total, e uma cultura bélica e homicida surgiu para ocupar o vazio deixado.>>

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-107/carta-da-noruega/um-de-nos

[31.08] URNA E FOSSA. Datena, Ratinho, Russomano, Faustão, João Doria, Tiririca, Feliciano, Kid Bengala, Chalita, Chiquinho Scarpa – apenas 5 nomes aqui são de prováveis candidatos a prefeito de SP em 2016. Vejam que engraçado: você pode cortar os nomes que bem entender, a consistência política da lista continua sendo a mesma. Magia? Ou tragédia?

[02.09] MAIS DO MESMO. A gente tem, creio, o direito inalienável de perder o tempo atirando pedras verbais (ou verbivocovisuais…) nos candidatos bizarros que vão aparecendo tempos antes das eleições, mas deve também parar para pensar – ou pensar sem parar, que é sempre melhor – numa outra coisa a respeito das eleições: já começaram a sair algumas pesquisas de intenção de voto e os nomes, salvo raríssimas ou bizarríssimas (Feliciano, por todos) exceções, são exatamente os mesmos (ou seus apadrinhados ou seus filhos ou ex-vices ou coisa que o valha) de muitas eleições das últimas décadas. Da esquerda à direita, de cima pra baixo, do municipal ao federal, a nossa capacidade de renovação – não só de nomes, mas de projetos – é quase nula, nenhuma, ninharia. Sei bem as razões para que isso ocorra, mas não posso deixar de, no mínimo, lamentar, porque não nos faltam problemas novos ou versões mais intensas dos problemas antigos, o que exigiria de nós um grande esforço para buscar novas soluções, novas formas de enfrentamento. É bem difícil acreditar que insistir no mesmo modelo, nos mesmos nomes (o que inclui suas variantes apenas superficiais), nos mesmos projetos, vai levar a lugares diferentes. Se eu fosse candidato, terminaria dizendo “vote em mim”, mas não sou, então digo apenas: pense nisso.

[03.09] A FOTO

Apagá-la

…………….nada apaga

o que nela nos fisga

e, adaga, gira e rasga.

Com as mesmas garras,

sua água agora traga

nossa alma náufraga

vaga após vaga.

[07.09] Não poderia haver notícia melhor para o 7 de Setembro. Num show para brasileiros em Nova Iorque, o cantor Fabio Jr. se enrola na bandeira, discursa, puxa coro xingando a presidenta e faz piada com a amputação sofrida pelo ex-presidente. Agora vai, agora vamos. Demorou, mas os grandes expoentes da ética e da cultura deste país estão se apresentando para a árdua tarefa de resolver nossos imensos problemas. Enfim, teremos uma independência para comemorar. Não tem como dar (mais) errado. http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?noticia=Fabio_Jr_critica_Dilma_e_Lula_durante_festival_para_imigrantes_brasileiros_em_Nova_York&edt=36&id=405972

[08.09] RADIO GA GA. Chuva, trânsito, algumas centenas de quilômetros para procurar entretenimento dentro do carro. Subo e desço a lista de músicas, vasculho os CDs no porta-luvas, passeio pelas rádios e me deparo com programas diversos em que o assunto é a crise. As crises, no melhor dos casos. Suas causas, consequências desejadas, possíveis saídas. Muda um pouco o que vai no recheio dos debates, mas é invariável a virulência. Não há uma pergunta sequer, nenhuma questão aberta, apenas uma enxurrada de certezas: condenações fatais e previsões demolidoras. Sem respirar. Sempre gostei de rádio, mas não ouço tanto. Um dia desses me disseram que o rádio ainda chega em muitos ouvidos, nas casas, em lojas, nos carros. Fico pensando o efeito que tem nos ouvintes, naqueles que ficam mais tempo com o rádio ligado, passar o dia com essa nuvem pesada sobre a cabeça, absorvendo os gritos dos “especialistas” que tomam o microfone, em tom alto o suficiente para que apenas sua voz seja ouvida. Dá pra entender porque esse mesmo tom se espalhou por todos os espaços – do balcão da padaria ao facebook, da sala de aula à mesa do domingo. As mesmas ondas, as mesmas frequências. Eu podia ser irônico e dizer que é impossível que não dê certo um país em que todos têm a receita exata para solucionar seus mais profundos problemas. Mas não é a hora da ironia. Porque, na verdade, é bem difícil mesmo acreditar em melhoras num país em que problemas tão profundos – e sempre “renovados” – não conseguem nem ao menos abalar as mais superficiais e velhas certezas. Já era tempo de girar o dial para além dos seus limites, para além dos nossos limites.

[11.09] LAURA. Se tem uma coisa ridícula é fazer declaração de amor no facebook, principalmente no dia do aniversário e começando com “hoje é o dia dele” ou “dela”. Mas o que eu posso fazer se hoje é mesmo o dia dela, eu sinto um amor que sufoca se não for declarado e estou pouco me importando, até mesmo faço questão – há seis anos! – de ser ridículo pra retribuir um pouco dessa coisa imensa e ainda sem nome que o sorriso dela me causa?

[14.09] Resenha-relâmpago: um poeta colossal para qualquer língua, que, para nossa sorte, nasceu e viveu incomensurável em português. Cabe na sua mochila, mas seu espanto talvez não caiba numa vida ou duas. E tudo isso agora vai escrito sobre folhas leves, entre capas maleáveis, escondido sob um título que parece não estar nem aí: “Nova reunião: 23 livros de poesia”. Não se deixe enganar pelos despistes nem pelos atalhos. Nada do que disseram (ou disserem) a seu respeito d(ar)á conta do que ele mesmo disse em seus versos. Ou seja: leia, leia e leia. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13887

[15.09] QUERELA. Já era esperado que a turma que se julga à direita, à esquerda e, principalmente, acima (superioridade intelectual, moral, ideológica) dos eleitores da Dilma não perderia a chance de tripudiar de eventual naufrágio do governo (ainda que estejam no mesmo barco) ou de sua desfiguração completa, a ponto de se converter rapidamente em quase tudo que se poderia esperar do partido vencido no segundo turno. Direito deles – rir, zoar, xingar. E “mérito” do governo, que não tem sequer sinalizado com algo defensável (bem pelo contrário!) em meio à surra empreendida pelos feitores de sempre deste país. Tudo indica que vai sobrar para todo mundo, já está sobrando, vai sobrar mais. Mas nada disso importa. A impressão que se tem aqui é apenas de que chegou o momento da revanche: quem não votou diz “se ferrou” (ou algo assim) para quem votou – enquanto se ferra também. O Brasil, mais uma vez, é apenas pretexto para uma disputa em que ele não importa. Estamos cada vez mais parecidos com os políticos e seus patrocinadores todos que amamos odiar. Se lá no alto, entre os poderosos, o país é uma mina a ser explorada até a última pedra, aqui embaixo não há algo muito diferente disso: vamos bater até não dar mais, até não ter mais no que bater. Você abre a tela e dá de cara com diversas postagens que, sob a feição de “piada” ou “protesto”, são agressões – sim, agressões. Talvez quem publique – diretamente ou compartilhando – que o eleitor de Dilma é burro, bandido, idiota, canalha, daí pra baixo, queira mesmo agredir até aqueles com quem, no geral, convive bem ou cordialmente, pouco ligando para colocar essa convivência em risco. Faz parte da revanche: primeiro, os dois gritam; depois, um grita e o outro tapa os ouvidos. E se afasta. Sem papo. Para uma turma ou outra, uma briga pode até ser saudável. Mas, para o país, vai ser bem difícil ver algo bom nascer daí. E quem vai adorar isso é justamente a pequena turma (realmente) do andar de cima. Mais uma vez.

[16.09] Chegaram aqui, abraçadas por um plástico-bolha, 25 fotos de Eduardo Gageiro da época da Revolução dos Cravos, cada uma delas acompanhada por um texto escrito por gente como Gastão Cruz, José Saramago, Eugénio de Andrade e Manuel António Pina. Coisa linda. “25 textos de autores portugueses sobre fotos de Abril” (Avante!, 1999) é o catálogo de uma exposição em homenagem aos 25 anos desde o mês inesquecível na história de Portugal e de nós todos. No bilhete da amiga, a frase: “um registo de uma época de lutas de um povo firme e leal aos ideais da liberdade e da democracia”. Passei pelos textos e pelas fotos (em que quase sempre os rostos têm uma força incrível e nos convocam a lutar também) com essa afirmação na cabeça. Não apenas pelo que diz de Portugal e daquele tempo, mas pelo que me provoca a pensar sobre o sentido que cada uma dessas palavras – lutas, povo, ideais, liberdade, democracia – assumiu aqui deste lado do Atlântico, nos dias cinzentos em que é difícil acreditar que, em nossa vila morena, possa se erguer algo parecido com a “terra da fraternidade” de que fala a canção que nos toca ao olhar essas fotos.

[16.09] [Ao ler um poeta novo – e novo é todo aquele poeta que você ainda não conhece, mas principalmente todo aquele de quem você se aproxima, mesmo na milésima vez, disposto a ser surpreendido – vem a estranha sensação de que tudo que foi dito de outras formas (teóricas, científicas, documentais etc.) já está gravado em algum verso por aí. Mas de forma mais precisa, tanto quanto exigente. Se atendermos às suas exigências, teremos acesso à sua precisão e a algo que está para além disso e só pode ser dito repetindo as próprias palavras do poema. Talvez, daí em diante, todas aquelas outras formas de dizer já não nos contentem mais. E a vida passe a ser uma busca sem fim por mais e mais palavras que tenham a mesma intensidade daquelas.]

[17.09] A gente sabe que uma medida isolada – proibir doações de empresas para partidos e candidatos – não vai ser a solução de todos os nossos males políticos, mas é sem dúvida um passo importantíssimo a ser comemorado, porque a feição democrática dessa medida pode influenciar e apressar as outras medidas de que necessitamos para que as eleições possam ser algo mais verdadeiro e que contamine menos os mandatos com a lógica do toma lá, dá cá. Tomara. Apesar de você, Gilmar, amanhã há de ser outro dia.