Vida nova

Histórias com crianças – as tristes e as felizes – são sempre uma porrada, um exagero de tristeza ou alegria, algo que não controlamos, ou melhor, nem queremos controlar. Desde ontem evito as notícias sobre essa tragédia com o menino e sua mochila voando do 26º andar de um prédio em SP. Na primeira versão que ouvi, havia a insinuação de violência; depois, o rumo foi outro e tudo ficou ainda mais sem sentido e dolorido. A vida é mesmo muito besta. E é por isso que a gente vai querendo cada vez mais se agarrar em algo que faça sentido. Crianças fazem sentido. Toda vida nova faz sentido, antes de se deixar dobrar pelo sem-sentido que é a vida enquadrada nos moldes “maduros” que vão nos engolindo. E crianças parecem acender na nossa cabeça, a cada dia, alguma obrigação de querer recobrar o sentido na vida velha que deixamos surgir nas crianças que fomos. Por isso é que cada morte de uma criança é um golpe terrível na nossa crença de que a vida possa fazer sentido. Por isso é que cada notícia dessas dá na gente uma vontade absurda de parar tudo e correr para abraçar as crianças da nossa vida. E não é porque queremos protegê-las, mas porque sabemos que é ali, na atmosfera, na constelação daquela vida, que nós nos sentimos protegidos. Vejo bem isso quando pula na tela a foto de alguns amigos, gente que conheço antes de ter(mos) crianças por perto, dando toda a letra de que, enfim, encontraram o sentido – ou o fio da meada que leva até ele – que pareciam buscar em suas vidas. O tempo parece parar nas fotos – e eu não tenho como evitar o clichê. Ontem mesmo um amigo me falava que está se organizando para largar suas “conquistas” – carreira, projetos, títulos – em troca de uma vida em que possa levar o filho na escola. Ponto. Não era drama, era sério: o “projeto” mudou, a vida pede outra coisa e faz desabar o sentido que ele atribuía a coisas como carreira, projetos, títulos. Acho bonito ver um marmanjo – doutor, 4 ou 5 idiomas no currículo, um salário bom – dizendo que tudo isso é secundário porque “tá foda dormir fora de casa”. E a gente precisa mesmo de coisas bonitas. O quanto puder. Não sei se tem a ver com o que estou dizendo aqui, mas não posso falar hoje em algo bonito sem lembrar que li essa matéria: http://www.redetv.uol.com.br/jornalismo/da-para-acreditar/em-luto-gorila-nao-consegue-deixar-corpo-do-filho-que-morreu

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