Classe

(1) Lembro da professora que ameaçava com cascudos. Lembro do professor que marcava infinitos pontinhos negativos no diário. Lembro de um que nunca foi meu professor em sala, mas trabalhava na biblioteca e soube dessa minha coisa com livros e letras. Lembro bem da professora que dizia que daquela escola jamais sairia algo que prestasse. Lembro dos amigos, dos afetos, dos desafetos. Lembro da educação física, pão com molho, fila da cantina, inspetores, gargarejo com flúor, cuspir no balde, filas e filas, hino disso, hino daquilo, os cadernos fofos, os cadernos rotos, bic quatro cores, rodinhas de briga na porta, rachar pizzas, batida de uva. Lembro dos anos todos que começaram com o verbo “to be”. Lembro dos que falavam muito alto, dos que falavam muito baixo, dos que quase não falavam, dos que tinham algo a falar, dos que não sei se tinham. De alguma maneira, sou cada um deles, um pouco desse, outro daquele. Nunca vou ser mais do que um reflexo disso tudo – das aulas e de tudo que estava ao redor delas. E sou bem feliz assim. Jamais imaginaria, naqueles tempos, que passaria tantos outros anos dentro de escolas, querendo passar, na verdade, todos os outros que puder. Culpa-mérito deles. Grato, muito grato.

(2) Alguém me disse um dia, e lamento não saber exatamente quem foi (suspeito muito que foi o Eduardo), que ser professor era ler tudo o que puder, tomar notas e discutir os livros e suas notas com outras pessoas que também leram os mesmos livros e tomaram notas de suas leituras. Ainda acho que é algo por aí – ou, ao menos, que esta seria a situação ideal, ao menos para áreas em que os livros – textos e mais textos – são tão essenciais como aquelas em que tenho feito o papel de professor. Não sei se estou certo, mas é interessante imaginar a si próprio como uma espécie de homem-livro, um desses personagens que Bradbury imaginou em seu indispensável “Fahrenheit 451” (que Truffaut levou com perfeição para as telas), que decoravam livros para salvá-los do fogo até o momento em que suas palavras pudessem voltar a morar no papel. Esse misto de desafio ao “sistema” (e ao esquecimento/apagamento) e esperança num tempo melhor talvez já seja um bom motivo para comemorar hoje, mesmo em meio a tantas razões para concordar com as manifestações mais pessimistas. Que salas de aula sejam o lugar em que os livros – e tudo que eles representam – podem escapar da morte é um imenso estímulo a continuar por perto delas.

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