Sobre poesia, ainda: Prisca Agustoni

prisca

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Para mim a poesia continua no lugar dela, no lugar que ela vem ocupando desde sempre… um lugar não engessado, mas móvel, que se adequa e se aproxima e se afasta do seu eixo de interesse… ou seja, o sentido desse algo que lhe escapa. Eis porque acredito que ela esteja em boa saúde hoje, na era da hiperexposição de tudo o que pensamos, sentimos, imaginamos… talvez porque estamos, apesar dessa exposição maciça e obsessiva, muito longe de nós mesmos, ou pelo menos daquilo que em nós pede tempo, silêncio e certo esquecimento para acontecer.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A tristeza me parece um sentimento decorrente da nossa condição humana como um todo, seres mortais cientes desse limite. De onde a procura desse “tal lugar” (da poesia, da arte, da transcendência via outros caminhos…) para tornar nossa tristeza menos triste, mais festiva, mais vital. Uma resistência, talvez, diante do que já carregamos ao sair do jardim da infância. A mochilinha está bem pesada ao entrar na idade adulta, mas alguns atalhos nos ajudam a criar sentido. Criar algo que é intrinsecamente “inútil” e “belo” (sem querer definir aqui questões relativas à construção do “belo” na arte e na poesia, pois isso é assunto que rende livros…), sentir-se artesão da palavra para que com ela saibamos provar a emoção (comoção) do que é belo (pelo menos para nós) é algo que nos transporta para outro lugar. Não sei qual seja esse lugar, mas sei por certo que para mim é um lugar delicioso de ficar.

Agora, claro, quando falo em “belo” não me refiro à mera ideia de uma forma bonita, de uma canção bonita, de um jogo de encaixes de palavras bonitas, e sim à equação muitas vezes dissonante e tensa entre determinado sentido que queremos dar ao poema e a maneira escolhida para que esse sentido se revele… em acordo ou desacordo com as tendências do nosso momento poético e da voz dos que nos influenciam e das concepções de poéticas que abraçamos.

Por outro lado, ao me referir a algum lugar delicioso de ficar, não se trata de nenhum locus amenus pós-moderno, alienado do real. Ao contrário, para mim faz sentido viver nessa delícia toda – que é o ato criativo – dentro do movimento que é a realidade na qual vivo, penso, observo, interfiro, e que me obriga constantemente a rever minhas posições, minhas convicções, inclusive estéticas.

Há dias em que parece até um milagre ainda conseguir esse artesanato todo com uma linguagem que no cotidiano se vê maltratada (não me refiro aqui a nenhuma “gramaticalidade” da língua, e sim ao desgaste vivenciado pelo sistema linguístico como um todo, numa sociedade que blatera muito e diz pouco e cumpre menos ainda). Além disso, ainda retirar prazer dessa prática artesanal de juntar palavras, apesar do que acontece do lado de fora da janela… Vejo nessa corda bamba a razão do meu otimismo em relação à poesia. Ela não é necessária num mundo onde o necessário é negligenciado. Ela é incontornável, pois se alimenta dessa dissonância. Existe a partir dela. Nasce dela. E não depende da nossa opinião, se ela é mais ou menos necessária. Ela é, ponto e acabou.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

A vida é uma bela encenação, me parece… a gente constrói esse palco onde nos movemos, atuamos, evoluímos (nos melhores dos casos), amamos, choramos, enfim… mas como diria o Leopardi (poeta italiano romântico e bastante niilista…), a Natureza gira sua roda independente da gente… por que digo isso? Porque acredito que muitas das coisas mais importantes (e bonitas) que a gente faz ao longo da vida não são as que mudam o curso da História (até porque para isso a gente precisa do recuo temporal que nos permita aguçar o olhar crítico), nem as que se “comprovam” a partir do que seria o contrário do fingidor: produtividade, endereço, conversas, emprego, legião de amigos ou fãs, formação escolar, formação religiosa, comprovante de renda… todos elementos necessários, claro, para a nossa vida em sociedade, mas menos, talvez, para a nossa vida íntima de pessoa que deseja evoluir (e está comprometida com isso).

Nesse sentido, me parece que o grau de invenção que a gente coloca na vida é o que a torna “verdadeira”: uma cantiga que a gente cantarola para uma criança pequena constrói (inventa quase ex nihilo) seu universo imaginário, sua redoma afetiva, sua redoma sonora, embora a gente saiba muito bem que, ao crescer, essa criança vai ter que enfrentar a vida crua, fora da redoma encantada da cantiga. Mas o grau de fingimento que essa criança terá absorvido lá atrás será fundamental – acredito – para enfrentar os muitos “deveras” que cruzará pelo caminho… isso não vale somente para o universo infantil. Quando a gente experimenta uma emoção afetiva ou estética ou mística, uma paixão intensa, o mesmo fenômeno ocorre… a gente vira outra coisa, não só carne, osso, massa muscular, cpf etc., mas algo mais, e parece que tocar o céu com um dedo se torne de repente algo possível, mesmo que, aos olhos de quem não é fingidor, isso soe como pura ficção, relato enfeitado de real maravilhoso…. Cada uma acredita na ficção que lhe é mais cara, não é?

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Fome de escuta, de um silêncio atento e, acima de tudo, fome da fome. Não é tautologia… acredito mesmo na necessidade de sempre se ter fome. Pois da barriga cheia, para mim, não nasce o movimento que impulsiona a crítica, a curiosidade que aguça o olhar, a pergunta, o salto da percepção, a vontade e a determinação de dizer.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Sempre difícil condensar um avental rico de sentidos num só poema. Mas escolho esse texto da poeta polonesa Wislawa Szymborska, autora que admiro profundamente, e o dedico com muito carinho aos que estão contribuindo para o recrudescimento de uma visão medieval sobre o uso (e abuso) do corpo e da mente alheias, tentando cercear a autonomia do sujeito através de gaiolas ideológicas e naturalistas.

Gosto muito desse poema, pois ele expressa meu desejo para uma sociedade mais pornográfica (no sentido contido no texto) e menos castradora – sim, castradora, pois em tempos onde há muito corpo pré-moldado e siliconado, muita perna, muita gratuidade, muita nudez (nada contra o corpo nu em si nem contra quem opta por essa utopia corporal), há sempre menos liberdade de pensamento, de sentimento, de rebeldia inclusive pornográfica. Pois esse corpo nu exposto é fácil de controlar, usar, explorar, chupar e jogar fora, cercear (vide comentário meu anterior). Agora, quero ver castrar a pornografia do pensamento, quando esta se tornar (um dia, quem sabe…) um vício incontrolável na sociedade… (a tradução é de Regina Przybycien, na edição da Cia. das Letras, de 2011):

OPINIÃO SOBRE A PORNOGRAFIA

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

o tatear indecente de temas delicados,

a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite

se juntam aos pares, triângulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.

Seus olhos brilham, as faces queimam.

Um amigo desvirtua o outro.

Filhas depravadas degeneram o pai.

O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos

da árvore proibida do conhecimento

do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

toda essa pornografia na verdade simplória.

Os livros que os divertem não têm figuras.

A única verdade são certas frases

marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,

com que escandalosa simplicidade

um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.

As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.

Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.

Dessa maneira um pé toca o chão,

o outro balança livremente no ar.

Só de vez em quando alguém se levanta,

se aproxima da janela

e pela fresta da cortina

espia a rua.

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