Sobre poesia, ainda: Júlia de Carvalho Hansen

julia_hansen

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Uso bastante o facebook e tenho um blogue desde que eles começaram a existir e não acho que fique tudo exposto não, pelo contrário. O mostrar, por selecionar, é também um esconder. E há o inconsciente, que é sempre um oceano, três milhões de rios, pântanos e desertos.

Eu acho que o problema, ou pelo menos onde a coisa toda me incomoda, não está no que alguém sente e imagina e expõe… O que me assusta é a normalidade como as coisas são expostas e, sobretudo, a normatividade que transborda nas opiniões, que vão formando manadas discursivas voltadas contra/a favor de coisas e pessoas sem muita reflexão. Me assusta e incomoda a tendência gregária das opiniões se filiarem e virarem “verdades” e disso para os grupos de linchadores é um passo. Aí mora uma grande violência do nosso tempo, que é uma violação das singularidades porque, no limite, a opinião só ganha força se for “curtida” por “x” pessoas e contextos.

É estranho, porque parece que há pouco espaço individual, simultaneamente ao egocentrismo que reina. Ao mesmo tempo que fertiliza manadas de linchadores, o excesso de opinião cria uma dissonância constante no ar e a poesia (ou pelo menos a poesia que leio e escrevo) trata da sintonia. E acaba trazendo o universo do singular: a poesia acessa os oceanos que os “opinionistas” e bla-bla-blás não atingem, nem mergulham, sequer de raspão. A poesia é a andorinha, o mergulhão, o tubarão, a própria água e também os continentes de terra. E pode ser o vazio também. Em poesia se pode fazer qualquer coisa e, até mesmo, não fazer.

Utilizo o facebook como espaço de experimentação dos textos. A quantidade de vezes que me perguntam se algo que postei realmente aconteceu me faz acreditar que o pacto ficcional pode ser acessado nessas plataformas. Eu considero isso importante, pois há pouca imaginação discursiva nas mídias que imperam e que operam como “verdade” atualmente. Eu entendo que o acesso ao pacto da ficção desencadeia um processo interpretativo que é de outra ordem e a experiência lírica também. Aliás, “ordem” não é bem a palavra, já que a literatura pode ser a representação do caos, ou ser, sobretudo, sutil. Coisas que a neutralidade da propaganda e dos jornais nunca vai sequer cogitar acessar e se, por acaso, acessar será imediatamente pasteurizada. No meu mundo interior eu luto cotidianamente contra a poesia pasteurizada e é o que mais tem. Mas, pra mim, neutra, normal e normativa são três coisas que a poesia não é.

Entendo, assim, que um uso mais literário das redes sociais pode causar fissuras na normalidade/normatividade e faço uso disso. Mas, ao mesmo tempo, crio fronteiras entre as criações. É muito raro eu vir a publicar num livro algo que eu tenha criado no facebook. O porquê disso não sei dizer, embora meus crivos sejam muito claros para mim.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a «em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos»?

Eu não vejo dificuldade de encontrar o lugar da poesia no mundo e acho que os roteiros são descartados pelos caminhos. Essa sensação de decadência eu prefiro a deixar pros mortos. Nasci pra andar pelos caminhos. E sou da turma dos telúricos: a poesia é o mundo. Isto pra usar, com todo respeito e amor, uma palavra tão querida ao Drummond citado na pergunta.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um «fingimento deveras»?

Acho que a referência é daquelas que foi tão repetida que eu nem sei mais o que tais vesos podem dizer de fato.

“Fingidor” não seria a primeira palavra que eu utilizaria pra nomear poeta. Poeta é intérprete, vocalizador, sobretudo no poder tornar o seu poema qualquer outro ser que não seja si mesmo, mesmo que si mesmo seja. O verso pode ser pedra, arbusto, pode ser um ator dilacerado pelo amor.

A cada dia me vejo mais como uma intérprete. Transformarei a dor na sensação da voz, tanto que dor será para quem a ouvir: escrevo na certeza de que um espinho está entrando na minha mão e atravessando a minha pele: eu escrevo o espinho. Quem o ler, atravessado pelo espinho também será.

Ao mesmo tempo, estão interpretados nos meus versos aqueles que cantaram em mim e, repentinamente, se presentificam.

Não me interesso pelos que cantam em falsete, que não sabem interpretar, nem emprestar a própria voz à de outro canto. Os que têm voz são honestos com aquilo que fingem e a voz interpretada ganha corpo, um corpo vital, capaz de viver por aí sem que o poeta precise assinar para a força de tal poema existir. Da palavra “faca” dizem que não corta, mas o bonito é que ela, quando utilizada pelo lado afiado, sem cortar, corta sim. Afiadores, afinadores, me interessam.

4. «Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta». Do que seus poemas têm fome?

De vida.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Fiquei em dúvida entre um poema do Leonardo Fróes ou um do Mário Cesariny, porque são os poetas que li nos últimos dias. Como o do Fróes em que pensei fala de deus, fico por aqui com o do Cesariny que fala de um alguém mais próximo, “um homem”:

autografia I

Sou um homem

um poeta

uma máquina de passar vidro colorido

um copo uma pedra

uma pedra configurada

um avião que sobe levando-te nos seus braços

que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado à morte!

os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que

existe nele uma árvore miraculada

tenho um pé que já deu a volta ao mundo

e a família na rua

um é loiro

outro moreno

e nunca se encontrarão

conheço a tua voz como os meus dedos

(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)

tenho um sol sobre a pleura

e toda a água do mar à minha espera

quando amo imito o movimento das marés

e os assassínios mais vulgares do ano

sou, por fora de mim, a minha gabardina

e eu o pico do Everest

posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita

e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca

porque tu és o dia porque tu és

a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola

do rei morto, do vento e da primavera

Quanto ao de toda a gente — tenho visto qualquer coisa

Viagens a Paris — já se arranjaram algumas.

Enlaces e divórcios de ocasião — não foram poucos.

Conversas com meteoros internacionais — também, já por cá passaram.

Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra

uma carruagem de propulsão por hálito

os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde

passei uma só vez

tudo isso vive em mim para uma história

de sentido ainda oculto

magnífica           irreal

como uma povoação abandonada aos lobos

lapidar e seca

como uma linha férrea ultrajada pelo tempo

é por isso que eu trago um certo peso extinto

nas costas

a servir de combustível

e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser

escrupulosamente electrocutadas vivas

para não termos de atirá-las semi-mortas à linha

E para dizer-te tudo

dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou

em franca ascenção para ti O Magnífico

na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos

e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem lágrimas à porta das famílias

sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre

lagos de incêndio e o teu retrato grande!

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