Meu grito é melhor que o seu

O debate sobre ~indignação seletiva~ tem um lado sério: a gente sabe mesmo que nem todas as causas comovem por igual e que no choro por Paris há muito de empatia turística: se a solidariedade vem do fato de ter estado lá meses atrás ou de estar com passagens compradas para os próximos meses, então fica mais fácil mesmo “se colocar no lugar das vítimas”… Mas, de outro lado, a quantidade de pressuposições equivocadas sobre o comportamento das pessoas em redes sociais é absurda: quando julgamos alguém porque se manifestou (trocou a foto do perfil, embalou nas hashtags do momento, compartilhou campanhas etc.) sobre a causa A e não sobre a causa B, estamos pressupondo que a pessoa teve iguais condições de se manifestar sobre as duas causas, mas decidiu se manifestar apenas sobre uma – e tiramos daí as piores acusações contra a pessoa – “só quer saber de Paris, não liga pra Síria”, “só se comove com vítimas brancas, não com os jovens negros vítimas da polícia”, e assim vai. Na esfera pessoal, parece o amigo que pergunta “por que você não curtiu minha publicação?” – além do constrangimento (você pode “não ter curtido” porque “não curtiu”!), ele está desconsiderando a própria dinâmica do facebook, em que é praticamente impossível ver todas as publicações de todos os seus ~amigos~, páginas curtidas, sugeridas, mensagens privadas, convites para eventos, jogos, aplicativos e, de quebra, sair dos grupos em que se é colocado contra a vontade (por que, Mark, você permite isso?). Um dia ou dois (pra não dizer horas) longe disso aqui e a maior parte das conversas já vai se tornar incompreensível. Já numa esfera maior, política, a coisa é ainda mais complicada: toda vez que há uma comoção mais ampla com algum fato (mortes, racismo, corrupção etc.), lá vem a mesma censura de sempre: “só se importa com racismo quando é contra atriz da Globo”, “só liga pra morte de classe média” etc. Confesso que não faço o rastreamento, amigo a amigo, do que cada um curte, em quais causas se engajam ou não, tampouco mapeio o histórico de vocês para julgar se seu engajamento de hoje é coerente com o de ontem ou com o do 2010. Imagino como fica triste a vida de alguém que se dedica a isso… De minha parte, tenho preferido ler o facebook em bloco: não me preocupa tanto o que diz cada pessoa, mas o que estão dizendo em conjunto, na velocidade e multiplicidade que são características de uma rede que é alimentada por gente de todos os cantos, nos minutos e humores mais variados, que estão longe de ser oniscientes e onipresentes, por mais que se julguem onipotentes. Em bloco, como um tecido a muitas mãos, o facebook é bem mais legal, ao menos o meu: tem gente engajada em todas as lutas – informação, indignação, solidariedade por Paris, Beirute, Síria, São Paulo, Mariana – enquanto seu fim de semana pode ter sido divertido, tranquilo, longe de quaisquer das violências que, nem por isso, está desprezando. Na verdade, até acho estranho ver que a soma das postagens que saltam na minha tela é tão progressista, humanitária, democrática etc., mas isso é outro papo. A vida vem em ondas, lembram? Acho cruel demais atacar alguém porque, em meio a uma das avalanches monotemáticas do facebook, publicou algo que não tem a ver com aquilo ou, pior ainda, porque ficou quieto, sumiu, “se omitiu”. Fico pensando o tamanho da minha decepção se entrasse aqui buscando coerência – todos de luto e em luta pelas mesmas causas, na mesma intensidade, minuto a minuto desde sempre. Afinal, é isso que buscamos? Todos sentindo a mesma coisa diante de todos os fatos? Ninguém mais em silêncio, ninguém mais sem saber o que dizer? Todos escrevendo postagens imensas como esta!? Aliás, acredito que, se todos aqui falassem as mesmas frases sobre os mesmos fatos ao mesmo tempo, o facebook não duraria uma semana. Pensando bem, não seria um mau negócio.

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