Sobre a reedição de “Mein kampf”

Taí um debate espinhoso: a reedição de “Mein kampf”, daquele cara do bigodinho que queria dominar o mundo e decidir quem era bom o bastante pra conviver no que sobrasse aqui – em resumo, “seus iguais”. Por princípio, quem leva a sério a liberdade de expressão – e sabe da importância que ela tem para uma sociedade democrática – não admite controle sobre o que dizem as pessoas, nos jornais, nos livros, em redes sociais, em qualquer lugar, em qualquer tempo. A regra clássica, nas sociedades democráticas, é: diga o que quiser, mas será responsabilizado pelos danos que causar. Fora disso, por causa da ameaça de algum dano, apenas excepcionalmente se admite restrição (prévia) à liberdade de expressão, em geral fazendo constar da legislação sanções que, no mínimo, desestimulam a expressão de opiniões e informações que ofendam ou possam ofender quem quer que seja. Isto porque admitir restrição à liberdade de expressão (o que inclui, por exemplo, impedir a publicação de livros que difundam o ódio contra este ou aquele grupo social) implica assumir riscos imensos, porque qualquer restrição se basearia numa determinação prévia dos limites do que pode ou não ser expresso, ou melhor, do que é ou não ofensivo e, assim, do que pode e do que não pode ser ofendido.
Não faltam espinhos aí, a começar pelo fato de interpretarmos de modos muito diversos o mundo presente e de sermos ainda mais discordantes quando se trata de dizer como deveria ser o mundo futuro. Não há como definir tais limites sem tomar partido. No caso de “Mein kampf”, no entanto, não é difícil perceber quais são os limites desrespeitados pela obra, que, na verdade, é a base do discurso de ódio colocado em prática por seu autor quando assumiu o poder, com todas as consequências terrivelmente concretas que conhecemos. Não se trata, portanto, da manifestação de um pensamento que ainda não sabemos aonde quer chegar, mas, muito pelo contrário, de um pensamento que já mostrou suas garras e, por isso, foi repudiado expressamente pelos direitos que se erigiram após a Segunda Guerra.
Não falo aqui, é claro, para aqueles que desconfiam dos crimes atribuídos ao nazismo e muito menos para aqueles que concordam com ele. São casos perdidos. Falo, em especial, a quem, como eu, se sente incomodado ao ter que dizer: “este livro não pode gozar de liberdade de expressão como um livro qualquer” – porque liberdades não são defendidas para autorizar discursos de ódio, tampouco a comercialização irresponsável de um discurso que é criminoso, ofensivo da legislação internacional e nacional dos direitos humanos. (Poupo-os de explicar em detalhes porque, por exemplo, a afirmação da superioridade de uma raça sobre todas as demais é incompatível com qualquer noção humanitária.)
Em cada lugar do mundo em que esse livro vier a circular, por óbvio, ele terá um efeito, a depender da forma como a edição for tratada, claro, mas também do ambiente político em que o livro vier a pousar. No Brasil, por exemplo, nas recentes manifestações pelas ruas, compareceram grupos ostentando lemas e símbolos nazistas (pelo que sei, não têm sido punidos); nas redes sociais são encontrados diversos grupos neonazistas pregando o ódio em frontal ofensa à legislação (pelo que sei, também não têm sido punidos); há até mesmo políticos que, no exercício de seus cargos, defendem posições de ódio típicas do nazismo. Tudo isso cria um caldo terrível para a recepção do livro por aqui e, a meu ver, é justamente por isso que se deve cobrar dos editores (como, ademais, de todo o circuito dos livros: livrarias, imprensa etc.) muita seriedade e responsabilidade na forma como o livro chegará ao mercado no Brasil. É muita falta de escrúpulo embarcar nessa onda neonazista e, ainda mais, tentar amplificá-la para vender mais livros, e isso não pode ser menosprezado.
Enfim, é por essas razões que apoio o boicote, proposto por alguns escritores e professores, às editoras brasileiras que já se adiantaram a uma divulgação no mínimo irresponsável do livro por aqui. Embarcar na onda neonazista é neonazismo, seja por convicções ideológicas, seja por interesses comerciais.
Aliás, há um precedente aqui no Brasil, de que vocês devem lembrar, conhecido como Caso Ellwanger, julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 2003. O STF, então, tinha que decidir se a edição de livros com teses antissemitas devia ser considerada como estímulo à discriminação dos judeus e, ainda, se valia para o judaísmo a imprescritibilidade que a Constituição prevê para o crime de racismo. Por maioria, o tribunal manteve a condenação do editor gaúcho:
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp…
Nada impede, portanto, que os editores de “Mein kampf”, principalmente aqueles que tratarem desse livro como de um produto qualquer, inofensivo ou a ser interpretado livremente, sem considerar o que já existe de consolidado (juridicamente, ao menos) a seu respeito, venham a ser responsabilizados também. Ódio é sério.

PS 1: para saber sobre o boicote, veja o perfil do Ricardo Lisias no facebook.
PS 2: para saber sobre as edições brasileiras que estão sendo feitas, há uma boa matéria aqui: http://www.suplementopernambuco.com.br/…/1530-em-debate-as-…

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Sobre a enquete (Sobre poesia, ainda)

Foi em março de 2015 que comecei com essas entrevistas do SOBRE POESIA, AINDA aqui no blog. Dos cerca de 50 convites que fiz, tive 25 respostas ao longo do ano passado: Dirceu Villa, Eduardo Sterzi, Guilherme Gontijo Flores, Adriano Scandolara, Carlos Felipe Moisés, Paulo Ferraz, Heitor Ferraz Mello, Reynaldo Damazio, Dalila Teles Veras, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Carlos Ávila, Carlos Augusto Lima, Sergio Cohn, Fernando Fiorese, Lucas Bronzatto, Helio Neri, Danilo Bueno, Ruy Proença, Pádua Fernandes, André Luiz Pinto, Casé Lontra Marques, Ricardo Aleixo, Prisca Agustoni e Júlia Hansen. Desde o início eu temia que insistir nas mesmas 5 perguntas poderia fechar demais a conversa, mas a cada resposta que chegou pude constatar que o universo de cada um desses poetas era mesmo capaz de levar a enquete para um alcance que eu jamais poderia (ou quereria) prever. Começo 2016 com mais um poeta – Thiago Ponce de Moraes – que estica as possibilidades da enquete e, assim, me faz acreditar que devo continuar com a tarefa: encher a paciência de alguns convidados e convidar outros poetas para a roda, porque a vontade de fazer um livro com essas ideias é cada vez mais forte. Acho que merece.

Sobre poesia, ainda: Thiago Ponce de Moraes

thiago

  1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Nada obriga a poesia a nada. E, no entanto, parece que a poesia sempre está a procurar outra coisa para fazer. Que está a procurar fazer a mesma coisa outra vez, pela primeira vez, retornando para casa. Uma casa que não se sabe onde está, nem se nela um dia já esteve. Talvez o mais importante dessa passagem seja mesmo o procurar – sendo aí um procurar sem fim, na ambiguidade que qualquer busca em poesia proporciona. Inaugurando o fazer esta coisa, inaugurando o fazer desta coisa sem causa ou casa. A mim parece que a poesia está sempre a caminho, está sempre a alastrar-se, contaminando e contaminando-se de mundo, de outras escritas e formas de vida: numa espécie de viagem para a qual não há mapa possível; numa espécie de mapa no qual não há nada escrito, nada demarcado – e, por isso, há ainda possibilidade para tudo; para buscar, para encontrar, para perder – outra coisa ou a mesma; a si mesma ou ao outro.

Acredito que não haja uma relação de causa e efeito entre a hiperexposição generalizada e o poema. Claro está que o poema pode se valer disso – como pode se valer de toda e qualquer coisa que está aí – tanto quanto pode ignorar veementemente essa, por assim dizer, característica de nossos tempos. Ocorre que não há nada a priori estabelecido para o poema: ele pode muito bem fazer nascer a temporalidade que for, num anacronismo deliberado e riquíssimo que recupere ruínas e as erga em seu esfacelamento frente a nossos olhos. O poema elege seu aqui e seu agora, num gesto de forte coesão histórica, e apresenta sua presença a partir daí. Lembro sempre de Ricardo Reis e de suas odes em pleno século XX. Em uma carta, disse certa vez Fernando Pessoa a esse respeito: “os poemas de Ricardo Reis são em verdade contemporâneos por dentro da idade eterna da Natureza”.

  1. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a «em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos»?

Costumamos ouvir, numa afirmação genérica bastante difundida, que “não há lugar para a poesia num mundo como esse”; ou, nessa mesma frequência, ouvimos questionamentos sobre o porquê da poesia hoje. Inclusive, esse tipo de discurso movimenta discussões sobre “mercado editorial”, “recepção das obras”, “leitores de poesia” etc. Mesmo Adorno chegou a cogitar sua (da poesia) inviabilidade frente a tanta barbárie – se bem que depois de ler Paul Celan reviu sua posição.

O bom de admitir que não existe o «tal lugar da poesia» é justamente perceber que a poesia pode estar em todo e qualquer lugar. E que, em vez da estabilização – que é tão cara a toda nossa tradição de pensamento –, temos o instável não-lugar da poesia, um lugar a caminho, para o qual não há roteiros, o qual não é possível circunscrever, pois está sempre em ultrapassagem de si próprio – ou a alargar fronteiras que, no desbordarem-se, anexam novos territórios, paisagens e rumos indefiníveis indefinidamente. Lembro das palavras de Celan, mais uma vez: “o poema afirma-se à margem de si próprio; para poder subsistir, evoca-se e recupera-se incessantemente, num movimento que vai do seu Já-não ao seu Ainda-e-sempre”. Eis o seu lugar, o lugar da poesia, esse quase não ser mais si, mas também (estar à beira, diante do abismo da linguagem, em pura vertigem), esse deslocamento no tempo a fundar um espaço – que faz viver com suas palavras e imagens, com seus traços e riscos; com seu ritmo.

  1. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um «fingimento deveras»?

O poeta é um fingidor que finge com verdade, genuinamente, do contrário não fingiria. O fingimento que o poeta finge ficciona e funda as feições daquilo que chamamos de real; então o poema: que se nos apresenta encenando sua própria presença; que faz nascer em nós sensações que não sabíamos ter; que imita o que não estava lá, fazendo com que agora esteja e seja a partir de sua enunciação. Nesse sentido, o poema, como forma de vida-arte (indiscernível) que é, é um fingimento que não reproduz o visível, mas torna visível, à maneira do que diz Paul Klee. Um «fingimento deveras». Inaugural.

  1. «Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta». Do que seus poemas têm fome?

De vida, da vida de outros poemas, de outras formas de vida. De algo como a linguagem e suas falhas; da impotência comunicativa da linguagem. De algo como um ribombar, um estremecer qualquer – um som de pronúncia desconhecida, um grito, um súbito estatelar-se.

Com Celan, ainda uma vez mais, o poema é o lugar onde todos os tropos e metáforas querem ser levados ad absurdum. Os poemas têm fome de vida; portanto, de absurdo: de indizível e de ilegível; de impronunciável, de inexprimível. O absurdo que é atravessar tudo, atravessar-se: travessia que não exige saídas ou entradas, roteiros ou acordos prévios – riobaldianamente: “Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! — só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou (…). O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”. O poema tem fome do absurdo que é a vida – essa travessia pelo absurdo real que é o haver vida – já o sabia Cabral: “O que vive choca,/ tem dentes, arestas, é espesso./ O que vive é espesso/ como um cão, como um homem,/ como aquele rio”.

  1. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Acredito que precisemos apreciar mais o desconhecimento, o mistério que toda a vida (o poema, os demais objetos de arte, o ordinário dos dias) nos lega; e, mais que isso, buscar estar numa posição de não-domínio sobre as coisas, de perda de controle. Frente ao poema, frente à arte, frente à vida: saber dizer menos sobre, querer dizer menos sobre. Deixar-se atravessar por essas coisas, sem a necessidade de organizá-las, higienizá-las, estabilizá-las.

Escolher apenas um poema é tarefa ingrata, vai na direção contrária das coisas que acabo de dizer (se digo o que penso ter dito, afinal). Muitos poemas me parecem, hoje, «fazer todo o sentido» – porque perfazem diversos sentidos sempre e não somente um. Para efeito do jogo, escolho. Entre os tantos pensados, optei por aquele que mais parece dialogar com cada uma das questões aqui colocadas – e com os caminhos que algumas “respostas” tomaram.

Seja este então o porquê (difuso, necessariamente) de escolher o poema 1052 de Emily Dickinson – poeta que viveu reclusa grande parte de sua vida, tendo publicado apenas alguns poucos poemas, apesar de sua vastíssima obra –, em tradução que fiz há alguns anos:

 

I never saw a Moor –

I never saw the Sea –

Yet know I how the Heather looks

And what a Billow be.

 

I never spoke with God

Nor visited in Heaven –

Yet certain am I of the spot

As if the Checks were given –

 

Eu nunca vi um Urzal –

Eu nunca vi o Mar –

Mas já sei eu como é a Urze –

E o que é um Ondear.

 

Nunca falei com Deus

Nem visitei os Céus –

Mas sei chegar ao sítio Teu

Qual Mapa eu tivesse –

Livros

Não há melhor contato com os livros do que aquele que se dá em bibliotecas e livrarias: pegar o volume, olhar as capas, ler as orelhas, xeretar índices e uma ou outra página. Não resta dúvida de que as lojas virtuais, de fato, encurtam o mundo e, muitas vezes, o preço, mas acredito que são perfeitas apenas para o leitor que sabe exatamente o que quer comprar, deixando muito a desejar para o leitor que faz questão de não saber exatamente o que quer ler. O leitor que gosta de passar pelas prateleiras e ser surpreendido, porque sabe que foi assim que conheceu alguns dos melhores livros da sua vida. Lendo a lista dessa matéria – e a promessa larga que vai no título: “enxergar a América” – não tenho como não pensar na falta que faz uma livraria internacional por aqui (falo de São Paulo, mas acho que é uma deficiência nacional), em que seja possível folhear o que foi lançado há pouco na França, na Alemanha, na Argentina, nos EUA, no Japão, na Itália, na África do Sul, no México, em Portugal e mesmo pelas editoras de outras regiões do Brasil, como as pequenas editoras e as universitárias. Sei que deve haver um infinito de complicações comerciais para isso, mas não deixo de lamentar: uma lista como a do El País, sem livrarias que façam esses livros chegarem aqui para que o leitor folheie antes de comprar, é mais um pequeno índice de nossa grande tragédia. Não acredita? Entre num site qualquer e tente comprar 4 ou 5 dos livros indicados. Os diários do Piglia, por exemplo, lançados pela Anagrama, de Barcelona, que tem um catálogo incrível!, aparece à venda no site da Cultura por 138,90 reais mais frete e chega depois de 11 semanas… Tudo bem: você pode ter dinheiro de sobra e nada de urgência, mas ainda assim deveria perguntar se não é possível existir um esquema melhor para quem quer, apenas, ler um livro que a imprensa tem destacado e, mais que isso, quer ter contato com os livros que a imprensa jamais destacará. Eu acho isso triste. São Paulo e outras capitais daqui se orgulham de filiais das mais requintadas boutiques do planeta – de carros, joias, roupas, eletrônicos etc. –, mas tem livrarias cada vez mais carregadas dos mesmos livros das mesmas grandes editoras nacionais (e das edições importadas dos livros que já fazem sucesso aqui traduzidos), cercados de quinquilharias de todo tipo associadas ao universo dos mesmos livros. No mundo dos best-sellers e blockbusters, em silêncio as poucas livrarias “internacionais” ou importadoras estão sumindo, junto com as livrarias em que circulávamos com mais surpresa que enfado. Será que sou o diferentão que acha tudo isso muito triste?

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/28/cultura/1451342305_456771.html?id_externo_rsoc=FB_CM

A queda do céu

queda do céu

Vou chover no molhado, porque, desde meados do ano passado, vi muita gente boa aplaudindo o lançamento desse livro aqui no Brasil. Mas apenas agora comecei a ler e faço questão de registrar: “A queda do céu” é um livro incrível. Indispensável. Vale muito pelo que ensina sobre os yanomamis, mas vale ainda mais pelo que explica sobre a forma como nós – o “povo da mercadoria” – vivemos.
http://m.oglobo.globo.com/cultura/livros/em-queda-do-ceu-davi-kopenawa-bruce-albert-apresentam-pensamento-yanomami-17264840

Ellen Meiksins Wood (1942-2016)

Ellen_Meiksins_Wood

Soube agora, em post do João Alexandre Peschanski, que Ellen Wood morreu ontem. Que triste, que perda enorme. A professora de Ciência Política do Glendon College (da Universidade de York, Toronto, de 1967 a 1996) está longe da fama de um ídolo pop, mas merecia um dia de Bowie, em que a gente ficasse trocando as ideias dela por aqui, assobiando seus “hits” por aí etc. (Pelo jeito, não terá, porque sequer encontro a notícia no google.) Para mim, é nada menos que a autora de alguns dos mais admiráveis ensaios que li na vida. É dela, por exemplo, a ideia de que mais gosto em minha tese de doutorado, mas ela não tem culpa pelos equívocos que certamente cometi a partir daí… Desde que me caíram nas mãos, leio os textos de Ellen Wood de um jeito até estranho, assentindo com a cabeça a cada linha, mas isso também não é culpa dela. Nas encruzilhadas que a elaboração de uma tese costuma ter, a leitura de Ellen Wood abria caminhos que eu jamais teria aberto sozinho. Além disso, Ellen Wood sempre foi, para mim, a prova de que profundidade e seriedade no debate intelectual pode passar bem longe de se confundir com hermetismo, preciosismo, dogmatismo, principalmente para quem não quer perder de vista o que realmente importa nas lutas sociais. Aqui no Brasil, pelo que conheço, foram lançados os seguintes livros: “Em defesa da história” (coletânea organizada com John B. Foster, Zahar, 1999), “A origem do capitalismo” (Zahar, 2001), “Democracia contra capitalismo” (Boitempo, 2003) e, mais recentemente, “Império do capital” (Boitempo, 2014). É possível ler muitos de seus textos, no original, em publicações como “New Left Review” e “Monthly Review”, na internet. Indico com entusiasmo, por todos, a leitura desse livro brilhante que é “Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico”, reunião de ensaios que, de certo modo, iluminam as principais questões a que Ellen Wood dedicou toda sua vida. A clareza com que enfrenta e supera alguns dos impasses teóricos (internamente ao marxismo ou no confronto com outras correntes) para atacar as questões do nosso tempo sempre foi, para mim, um exemplo a ser seguido. Não tenho dúvida de que continuará viva por aqui. Gratidão, Ellen Wood.