Lá do fb

(Confesso. Talvez seja a displicência que me faz tratar tão mal este blog assim, ficando semanas em silêncio e vindo aqui de vez em quando para colar as coisas que escrevo lá no facebook, com sua dinâmica maluca, mas com um poder de contato-contágio que é brutalmente superior ao do blog, que, por sua vez, é bem melhor como repositório. Mas gosto de fazer esses retornos no tempo do fb, rolando a própria página para perseguir o que me fez escrever durante um certo período. Revela um tempo perdido, mas também o que fui capaz de impedir que se perdesse no tempo.)

 

[7/12] Pelo silêncio:

A Samarco agradece ao Cunha

A Vale agradece ao Cunha

O Estado Islâmico agradece ao Cunha

A PM agradece ao Cunha

Generaldo agradece ao Cunha

O Vasco agradece ao Cunha

O dólar agradece ao Cunha

O vilão da tevê agradece ao Cunha

E, claro, Cunha agradece a si próprio:

cadê a cassação que estava vindo?

Só as vítimas não têm o que agradecer

 

[8/12] É de cair o queixo. Podemos dizer que, com essa carta, passamos a um novo estágio da crise política: um racha entre presidência e vice-presidência, entre o partido do governo e o maior partido de sua coalizão, que vai embaralhar um pouco mais os embates do processo de impeachment. Mas tem algo mais aí: por trás do tom de “você nunca me quis bem”, Temer se lança agressivamente em rota de colisão com Dilma. Se sua aventura não der certo, será trágico. Se der, será ainda pior. Só resta, por ora, uma certeza: não há qualquer exagero em chamar de golpe o que acontece no Brasil neste momento.

 

[8/12] Vice-presidente.

Viu-se presidente.

Vil, seu presidente.

 

[8/12] Vocês podem fazer todas as piadas do mundo com a carta do Temer, mas nunca vão fazer alguém rir tão gostoso quanto o Cunha ao ler o Regimento da Câmara, a Constituição, todas nossas leis. Ali a zuêra é monstra. Contentem-se.

 

[8/12] Tive que escrever isso em resposta a “comentaristas” de postagens minhas, mas acho que vale para o que espero, em geral, quando entro aqui:

~~~ Se algum dia já fui falar besteira nas postagens de alguém, peço desculpas, mas não lembro. Então, é pedir demais que desprezem minhas opiniões se o máximo que elas suscitarem em vocês for raiva, ódio, coisas assim? Não escrevo aqui para pautar nada nem atacar ninguém daqui, apenas para ajudar a pensar, inclusive a mim mesmo. Os seres humanos dizem abertamente “tirar o PT”, mas não se envergonham de falar que isso é a mesma coisa que “impedimento constitucional da presidenta”… Vir dizer que eu “não vivo neste mundo” ou “viajo” não é uma reação que me interesse. Nossas opiniões podem continuar muito bem em paralelo (é isso que quero dizer quando desfaço uma amizade aqui!). Xingue lá, eu tento entender aqui. Passar bem. Longe. ~~~

Boa noite, boa sorte.

 

[8/12] Não demorou e o STF já começou a assumir um papel que será indispensável, não apenas no processo de impeachment, mas também na Comissão de Ética (e além), enquanto Cunha ocupar a cadeira de presidente da Câmara, inventando regras de ocasião a cada votação. Recorrer ao STF numa situação assim não se trata de “judicialização da política”, mas de garantir a sobrevivência de todas as instituições mais ou menos democráticas.

 

[9/12] CUNHA virou, por méritos próprios, o nome preferido dos que gritamos contra o golpe neste momento, pelo tanto que transparece de ilegalidade o atual presidente da casa que faz leis. Normal. Mas não é justo com seus numerosos colegas – ou melhor: cúmplices – que tanto se esforçam para estar à altura dos desejos do chefe da quadrilha. Ele pode até ser o maestro espalhafatoso desse golpe, mas tem muito mais gente ali que merece ser lembrada nominalmente por todos que se envergonham de ver como, em tão pouco tempo, essa corja tem demolido os castelinhos democráticos que acreditávamos ter, de uma vez por todas, erguido. Anotem.

 

[10/12] FURAZÓIO. Depois da carta de rompe-laços do Temer pra Dilma, Serra chama Katia Abreu de namoradeira e leva uma taça de vinho ou algo assim na cara. Só nos resta torcer para que essa crise acabe logo e o amor volte a brilhar em Brasília. Daí aparece a Luciana Genro defendendo “derrotar o impeachment”, mas para fazer “eleições gerais em 2016”. Mui amiga: com um “a favor” desse, quem precisa de “contra”? É ansiedade pra participar de debates de novo? É falta de coragem pra jogar o jogo da oposição golpista? Ou é mais uma prova da alucinação coletiva que estamos vivendo?

 

[10/12] Talvez hoje mais do que nunca, precisamos de poesia. E nesse encontro entre as palavras de Leonardo Fróes e a voz de Alberto Pimenta há quase um exagero. Receita: três vezes ao dia até desaparecem os sintomas. http://chaodafeira.com/livros/sibilitz/

 

[12/12] Terminando o ano com a entrega de outro trabalho-prazer incrível: fiz com o Fabrício Marques uma antologia de poetas brasileiros nascidos de 1980 em diante, pra sair no Peru (em e-book). Por mais que seja chato ter que escolher entre tanta gente boa e deixar alguns de fora, foi uma experiência riquíssima conviver com essas vozes e, de alguma maneira, fazer com que falassem juntas. Em breve!

A antologia sai em edição bilíngue, português/espanhol, graças ao trabalho de tradutores como Luis Aguilar e Leo Gonçalves, entre outros.

antologia

[12/12] Até onde vai a voz dos Racionais?

“Playboy bom é chinês, australiano,

fala feio, mora longe, não me chama de mano”.

racionais

[13/12] 13.12.1968 – a, i, cinco

13.12.2015 – a, i, cínico

 

[13/12] “Se toda a literatura brasileira viesse a desaparecer e sobrasse apenas o Machado de Assis, ela estaria bem representada” – disse o Carlos Drummond de Andrade (segundo nos diz a Inês Oseki-Dépré na rev. Grampo Canoa).

Suponho que Machado, se o ouvisse, diria: “a recíproca é verdadeira, Carlos”.

 

[13/12] MAIS UMA VEZ: nem se trata de defender o governo (coisa difícil!), mas de defender o país contra quem se beneficiará diretamente do impeachment (os derrotados da eleição recente), contra quem não percebe ou não liga para os prejuízos que as manobras de Cunha e sua gangue causam e, também, contra todos que apostam em soluções autoritárias. É contra eles que ainda faz sentido falar ‪#‎dilmafica.

 

[14/12] Já é hora. Compre um fichário. Anote o nome de todos os políticos que lembrar. Diariamente, registre os fatos a seu respeito. Leia todas as fichinhas de vez em quando. Dentro de pouco tempo, você terá bem mais dificuldade para debater, votar, curtir, compartilhar. E isso é bom. Muito bom.

 

[15/12] Repare nos detalhes da manchete:

“Depois de 8 seções

Conselho de Ética

por 11 votos a 9

aprovou o parecer

preliminar

contra Cunha.”

Depois vocês não entendem porque eu acho extraordinário que o STF tenha mandado a polícia entrar em suas casas!

 

[17/12] Vocês ficam criticando a PM porque ela diz que tinha menos pessoas do que pudemos ver nas manifestações. Absurdo. Até parece que vocês não sabem que o conceito de “pessoa” que a PM admite é bem, bem restrito. Gente de camiseta vermelha ou falando em democracia, por exemplo, não conta – não é “pessoa” no sentido pleno. É alvo.

 

[17/12] Tudo bem fazermos nossas piadinhas sobre vida com ou sem uatizapi, mas eu fico mesmo imaginando como se sente poderosa a autoridade que pede e ainda mais a que determina um bloqueio dessas dimensões (não preciso explicar que o aplicativo hoje é usado também para coisas importantes?) dentro de um processo criminal entre tantos. Que a empresa não cumpra uma decisão judicial é algo gravíssimo, mas que isso autorize o bloqueio de todo o serviço deveria nos deixar alertas. Falamos tanto em liberdade de expressão e comunicação, mas vamos aceitar decisões que desprezam o fato de que tais ferramentas, por mais que tenham dono, servem a um interesse público fundamental, o que faz com que o prejuízo à empresa seja mínimo se comparado ao prejuízo dos usuários? Qualquer coisa, liga no meu fixo.

 

[22/12] Eu não devia ter visto isso… Não tem nada a ver com ser fã ou não do Chico Buarque, com ser ou não petista. Tem a ver com o que penso sobre esse tipo de ~gente~ que o cerca, baba de raiva e xinga de lixo por causa de suas posições políticas. Tem a ver com a certeza de que nunca quero estar do lado em que essa ~gente~ estiver, porque é impossível imaginar que estejam sendo sinceros ao defender um país melhor, justamente porque um país melhor, a meu ver, não tem ~gente~ que cerca, baba e xinga quem quer que seja.

 

[23/12] Já faz mais de 6 horas que vi o vídeo do ataque ao Chico e ainda não me sai da cabeça uma impressão: não há nada ali que impeça um desfecho mais trágico, alguém derrubando o cantor com um soco, os outros chutando sua cabeça até desfalecer e depois uns tênis bonitos espalhando sangue Buarque de Holanda pelas ruas do Leblon. Um fim terrível para uma cabeça brilhante, mas temos sido mais terríveis que brilhantes. Nada me tira da ideia que esse poderia ser o vídeo que estaríamos vendo hoje. E não me sinto exagerando. Vai passar, talvez.

 

[23/12] ATÉ LÁ. Numa noite, Chico Buarque é chamado de merda por uns caras no Leblon. Noutro dia, o presidente do STF só aceita receber o presidente da Câmara se for na frente da imprensa. 2015 termina, mas não desacelera o pêndulo que nos joga entre o pessimismo e o otimismo. Violência de um lado, mas de outro mais uma indicação de que as coisas do poder às vezes mudam. São fatos e mais fatos que me permitem apenas uma aposta: o país-de-sempre está sendo revirado pela força de um país-que-não-conhecemos. E, mesmo em meio a tanta tempestade, há a sombra de uma esperança de que o que virá daí seja bom – um país melhor, menos violento, menos desigual. Quando vejo alguém conseguindo debater sem agredir, discordar sem aniquilar, estudar pra opinar, ouvir pra falar, fico com a impressão de que aquela esperança ganha força. Que 2016 (e sempre) seja o tempo de olhos, ouvidos e poros abertos, porque as ações – e falar, mesmo aqui, é agir – que virão daí podem trazer consigo dias melhores.

 

[25/12] CBH. O assunto já se esticou demais, mas uma coisa ainda me chama atenção na postura de tratar o fato como “um bate-boca de bêbado na porta do bar que só teve repercussão porque um deles era o Chico Buarque”. A gente sabe que o PT recebe (e merece) críticas não só à direita, mas também à esquerda, mas de um lado e de outro há um nível assustador de ódio que embaça tudo e faz boa parte das duas posições darem as mãos e se confundirem. Com isso, a meu ver, perde-se a oportunidade da crítica de um lado e de outro. Acho triste ver gente que poderia estar fazendo essa crítica séria, porque discorda do Chico por outras razões, se mostrar tão cego de certezas quanto os playboys do Leblon. E se sentindo muito mais confortável no papel de quem grita palavrões do que no de quem tenta argumentar.

 

[26/12] Chegou aqui a aguardada poesia completa de Orides Fontela (1940-1998), da Hedra. Além dos 5 livros conhecidos, uma linda série de poemas inéditos. O pacote certo para quem busca a obra pequena-imensa de uma grande poeta. Isto é o que você encontra da página 19 em diante, mas antes de chegar aí o leitor se depara com uma apresentação (do organizador) que dedica a maior parte de suas palavras a “situar” Orides em oposição vantajosa em relação a todo ~o resto~ da poesia de sua época e depois. Orides é apresentada como a verdadeira “revitalizador(a) do verso modernista brasileiro”, ofuscada por uma infinidade de “diluidores” que se tornaram mais populares que ela porque eram mais “palatáveis” (e chega a remeter a um texto em que Leminski é apresentado como “o Paulo Coelho da poesia” – não, obrigado). Não me interessa discutir se o crítico tem ou não razão na forma esquemática como define os papéis de cada poeta nos últimos 50 e tantos anos, mas fico pensando se uma grande poeta como Orides não merecia ter, na apresentação de sua obra ao eventual novo leitor, palavras que exaltassem seus poemas incríveis pelo que são (e são incríveis mesmo!), e não pelo que deixam de ser, segundo o crítico, todos os demais poetas. Já era hora de aprendermos a pegar sem tantos ranços as obras desses muitos grandes poetas que t(iv)emos a honra de ver nascer e escrever aqui, para ler com honestidade, com leveza, com vontade-de-dialogar, não para mostrar como se encaixam aqui, como se desencaixam ali. Menos esquemas, menos linhas sucessórias, menos competições para ocupar o posto de “melhor” e de “verdadeiro” – e mais tempo para conviver com as palavras de artistas como a Orides. No texto a que me refiro, há antes a preocupação de bater, no atacado, na poesia contemporânea e amarrar Orides a meia dúzia de fatos de sua época, interpretados como quis o crítico. A meu ver, entrar por aí é quase apequenar Orides. Mas, para nossa sorte, o que o leitor vai encontrar da página 19 em diante é uma poeta que merece o futuro, não apenas o de todos que ainda não a leram, mas dos muitos que já reconhecem a força, a precisão, a delicadeza com que Orides lançava suas poucas palavras no papel, abrindo abismos em cada página. A meu ver, é apenas disso que não podemos abrir mão.

 

[30/12] Lembremos com otimismo: um aumento da passagem de ônibus em 2013 e uma “reestruturação” das escolas em 2015 deram ensejo às movimentações políticas populares mais interessantes dos últimos tempos por aqui. O ano velho termina acendendo o estopim de embates ainda mais intensos no ano novo? É o que parece.

 

[30/12] 2015: livros. O ano por aqui começou desovando uma reunião dos meus livros de poemas e terminou com um grande projeto coletivo de crítica do direito. Duas pontas que parecem tão distantes e que, na minha cabeça torta, cada vez mais se misturam. Precisam se misturar. Entre um projeto e outro, a participação em trabalhos de autores que admiro e o mergulho alucinante no universo de um poeta que, como poucos, nos levou a transitar entre o quarto e a rua, entre “meu” mundo e “nosso” mundo. Por enquanto, é apenas um calhamaço de folhas em espiral que só existe na minha estante. Mas já já vai estar aí. Que 2016 seja leve e entre outros livros!

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