Disciplina é liberdade

miyagi 1

«ano novo/ anos buscando/ um ânimo novo» (Paulo Leminski)

 

(Perdoem-me por algumas confissões que só em janeiro talvez caibam.)

O grande barato do fim/início de ano deve ser mesmo fazer resoluções: vou fazer isso, nunca mais fazer aquilo. Normalmente, as tais resoluções para o ano novo são críticas com relação ao ano (pessoal) que termina – e isso é sempre bom – e apostas na capacidade de agir melhor em diversos setores da vida: relacionamentos, trabalho, estudos, alimentação, atividade física etc. Li muitas resoluções interessantes aqui, algumas estranhas, outras engraçadas, várias impossíveis. E todas elas me fizeram lembrar uma coisa ainda mais esquisita: gosto de filmes sobre guerreiros, principalmente antigos (os guerreiros, nem tanto os filmes), mais especificamente samurais. Hein?

Seguram-me acordado pela madrugada, sem esforço, os infinitos samurais da trilogia “Musashi” ou dos clássicos de Akira Kurosawa, mas também as versões mais heterodoxas possíveis do cinema norte-americano (com Keanu Reeves, Tom Cruise e outros). Pensando bem, mais do que a energia e a obstinação dos guerreiros, acho que o que mais me prende a esses filmes é a figura dos “mestres”: seja o Senhor Miyagi (de “Karate Kid”) ou o Mestre Yoda (de “Star Wars”), Pai Mei (de “Kill Bill”) ou o Mestre Shifu (de “Kung Fu Panda”), vejo sempre o guerreiro, em seus momentos mais impressionantes, como a projeção de uma força que vem do mestre, com seu invariável jeitão sábio, desprendido, muitas vezes com aparência frágil.

O que isso tem a ver com as resoluções de ano novo? Ora, os mestres desses filmes e de tantos outros são, quase sempre, a realização do conjunto das resoluções de que mais gosto (e pouco cumpro!): estão sempre calmos, serenos, falam pouco, ouvem tudo, dominam sua arte, agem com precisão, sabem a melhor solução para problemas imensos ou sabem exatamente como buscá-la. Ou até mais: sabem também conviver com os problemas que não têm solução, sem deixar que se alastrem criando problemas em todos os lados da vida. Qualquer mestre tem um pouco disso tudo: tem as armas, sabe usá-las, sabe a hora de usá-las. No fundo, aparecem na tela como os mais livres dos seres, porque são solitários e desprendidos, mas fundamentalmente porque são disciplinados. “Disciplina é liberdade”, lembram?

Rios de tinta já foram gastos – na filosofia, nas religiões, no exército, na autoajuda, em todo canto – para definir e defender a importância da disciplina para a vida. Gastaram a palavra, concordo, talvez porque normalmente mascaram sob o aspecto de decisão pessoal o que, na verdade, é a imposição de regras definidas por superiores, na medida de seus interesses. Os mestres dos filmes, claro, têm um pouco ou muito disso, mas nada nos impede de tentar pensar sobre disciplina como uma capacidade de agir nos estritos limites do que consideramos correto, justo, necessário, porque daí pode vir, por exemplo, uma clareza maior para criticar o que nos é imposto, cobrado, “dado”.

Pois bem, em tempos de tamanha dispersão, em que nossa atenção é arrastada para lá e para cá pelas telas de que estamos cercados, não me parece desprezível buscar agir de acordo com suas próprias decisões. Não ignoro que a margem de manobra é mínima, ou seja, que o campo do que nos compete decidir, em meio aos entrelaçamentos profundos da vida social, é bastante reduzido, frágil, precário. Em outras palavras: a maior parte do que afeta nossas vidas não nos compete decidir, mas nem por isso podemos dizer que não há nada que possamos fazer, em nível algum, para mudar a forma como vivemos. Vale para cada um de nós, vale ainda mais para todos nós juntos – eu creio. Os mestres dos filmes que citei, como metáforas, mostram bem o que estou tentando dizer aqui. Como metáforas, friso, porque não é o caso de buscar um mestre lá fora ou uma doutrina a que se aferrar, porque daí normalmente vai vir outra dominação.

Não lembro quando começou essa minha admiração por figuras como o Senhor Miyagi e seus pares, nem entendo com perfeição porque acho que ali está a chave do que acho que deveria fazer nos 1440 minutos do dia. Uma noite dessas, justamente vendo um filme, imaginei que foram os anos de imersão na obra do Leminski (e é por isso que o coloquei na epígrafe) que criaram terreno para que essas figuras caíssem na minha mente com algum sentido para além do que representam nos filmes. Foi Leminski quem me convenceu que poesia (e vida) tem algo a ver com “a ternura que vai/ no fio da lâmina samurai” e que escrever poemas (e viver) é uma espécie de artesanato que exige um permanente estado de atenção ao singelo, ao fugaz, ao frágil, porque é ali que pode se revelar o que verdadeiramente buscamos. Ou não.

Nunca me livrei muito (nem pretendo) dessas convicções lá da adolescência, até porque, em grande medida, desde então reencontro, nos poetas todos que mais admiro, muitos traços em comum com o Bashô retratado por Leminski, com o próprio Leminski e com esses mestres do cinema – sábios, pacientes, dedicados, a vida inteira aperfeiçoando os mesmos gestos, porque é neles que a vida inteira se encontra. Por mais que seus jardins sejam diversos em aparência, todos esses jardineiros dão a mesma lição – seguir cumprindo, por décadas, as tarefas que ninguém lhes impôs. Pelo contrário, cumprem as tarefas que impuseram a si próprios (mesmo entre tantas outras tarefas) porque nelas se realizam, nelas realmente sentem estar vivos, nelas são livres. Nelas está seu “ânimo novo”, sempre e sempre.

Acho que disciplina bem pode ser isso. E é dela que o sucesso de quaisquer resoluções de ano novo depende. Se a resolução é a grande decisão que tomamos uma vez por ano, a disciplina é a pequena-imensa decisão que devemos tomar a cada gesto, porque é sobre ela que qualquer grande tarefa vai se sustentar. Isso é difícil, mas não é à toa que a vida dos mestres dos filmes é sempre marcada por exigências mentais e físicas radicais. Só nas distorções mais graves alguém usa “zen” para dizer “à toa”… O caminho é árduo e este não é um privilégio de 2015 ou de 2016 – é a vida como costuma ser.

(Eu comecei o texto pedindo perdão, né? Se alguém chegou até aqui, reitero.)

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