Livros

Não há melhor contato com os livros do que aquele que se dá em bibliotecas e livrarias: pegar o volume, olhar as capas, ler as orelhas, xeretar índices e uma ou outra página. Não resta dúvida de que as lojas virtuais, de fato, encurtam o mundo e, muitas vezes, o preço, mas acredito que são perfeitas apenas para o leitor que sabe exatamente o que quer comprar, deixando muito a desejar para o leitor que faz questão de não saber exatamente o que quer ler. O leitor que gosta de passar pelas prateleiras e ser surpreendido, porque sabe que foi assim que conheceu alguns dos melhores livros da sua vida. Lendo a lista dessa matéria – e a promessa larga que vai no título: “enxergar a América” – não tenho como não pensar na falta que faz uma livraria internacional por aqui (falo de São Paulo, mas acho que é uma deficiência nacional), em que seja possível folhear o que foi lançado há pouco na França, na Alemanha, na Argentina, nos EUA, no Japão, na Itália, na África do Sul, no México, em Portugal e mesmo pelas editoras de outras regiões do Brasil, como as pequenas editoras e as universitárias. Sei que deve haver um infinito de complicações comerciais para isso, mas não deixo de lamentar: uma lista como a do El País, sem livrarias que façam esses livros chegarem aqui para que o leitor folheie antes de comprar, é mais um pequeno índice de nossa grande tragédia. Não acredita? Entre num site qualquer e tente comprar 4 ou 5 dos livros indicados. Os diários do Piglia, por exemplo, lançados pela Anagrama, de Barcelona, que tem um catálogo incrível!, aparece à venda no site da Cultura por 138,90 reais mais frete e chega depois de 11 semanas… Tudo bem: você pode ter dinheiro de sobra e nada de urgência, mas ainda assim deveria perguntar se não é possível existir um esquema melhor para quem quer, apenas, ler um livro que a imprensa tem destacado e, mais que isso, quer ter contato com os livros que a imprensa jamais destacará. Eu acho isso triste. São Paulo e outras capitais daqui se orgulham de filiais das mais requintadas boutiques do planeta – de carros, joias, roupas, eletrônicos etc. –, mas tem livrarias cada vez mais carregadas dos mesmos livros das mesmas grandes editoras nacionais (e das edições importadas dos livros que já fazem sucesso aqui traduzidos), cercados de quinquilharias de todo tipo associadas ao universo dos mesmos livros. No mundo dos best-sellers e blockbusters, em silêncio as poucas livrarias “internacionais” ou importadoras estão sumindo, junto com as livrarias em que circulávamos com mais surpresa que enfado. Será que sou o diferentão que acha tudo isso muito triste?

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/28/cultura/1451342305_456771.html?id_externo_rsoc=FB_CM

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