Sobre poesia, ainda: Thiago Ponce de Moraes

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  1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Nada obriga a poesia a nada. E, no entanto, parece que a poesia sempre está a procurar outra coisa para fazer. Que está a procurar fazer a mesma coisa outra vez, pela primeira vez, retornando para casa. Uma casa que não se sabe onde está, nem se nela um dia já esteve. Talvez o mais importante dessa passagem seja mesmo o procurar – sendo aí um procurar sem fim, na ambiguidade que qualquer busca em poesia proporciona. Inaugurando o fazer esta coisa, inaugurando o fazer desta coisa sem causa ou casa. A mim parece que a poesia está sempre a caminho, está sempre a alastrar-se, contaminando e contaminando-se de mundo, de outras escritas e formas de vida: numa espécie de viagem para a qual não há mapa possível; numa espécie de mapa no qual não há nada escrito, nada demarcado – e, por isso, há ainda possibilidade para tudo; para buscar, para encontrar, para perder – outra coisa ou a mesma; a si mesma ou ao outro.

Acredito que não haja uma relação de causa e efeito entre a hiperexposição generalizada e o poema. Claro está que o poema pode se valer disso – como pode se valer de toda e qualquer coisa que está aí – tanto quanto pode ignorar veementemente essa, por assim dizer, característica de nossos tempos. Ocorre que não há nada a priori estabelecido para o poema: ele pode muito bem fazer nascer a temporalidade que for, num anacronismo deliberado e riquíssimo que recupere ruínas e as erga em seu esfacelamento frente a nossos olhos. O poema elege seu aqui e seu agora, num gesto de forte coesão histórica, e apresenta sua presença a partir daí. Lembro sempre de Ricardo Reis e de suas odes em pleno século XX. Em uma carta, disse certa vez Fernando Pessoa a esse respeito: “os poemas de Ricardo Reis são em verdade contemporâneos por dentro da idade eterna da Natureza”.

  1. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a «em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos»?

Costumamos ouvir, numa afirmação genérica bastante difundida, que “não há lugar para a poesia num mundo como esse”; ou, nessa mesma frequência, ouvimos questionamentos sobre o porquê da poesia hoje. Inclusive, esse tipo de discurso movimenta discussões sobre “mercado editorial”, “recepção das obras”, “leitores de poesia” etc. Mesmo Adorno chegou a cogitar sua (da poesia) inviabilidade frente a tanta barbárie – se bem que depois de ler Paul Celan reviu sua posição.

O bom de admitir que não existe o «tal lugar da poesia» é justamente perceber que a poesia pode estar em todo e qualquer lugar. E que, em vez da estabilização – que é tão cara a toda nossa tradição de pensamento –, temos o instável não-lugar da poesia, um lugar a caminho, para o qual não há roteiros, o qual não é possível circunscrever, pois está sempre em ultrapassagem de si próprio – ou a alargar fronteiras que, no desbordarem-se, anexam novos territórios, paisagens e rumos indefiníveis indefinidamente. Lembro das palavras de Celan, mais uma vez: “o poema afirma-se à margem de si próprio; para poder subsistir, evoca-se e recupera-se incessantemente, num movimento que vai do seu Já-não ao seu Ainda-e-sempre”. Eis o seu lugar, o lugar da poesia, esse quase não ser mais si, mas também (estar à beira, diante do abismo da linguagem, em pura vertigem), esse deslocamento no tempo a fundar um espaço – que faz viver com suas palavras e imagens, com seus traços e riscos; com seu ritmo.

  1. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um «fingimento deveras»?

O poeta é um fingidor que finge com verdade, genuinamente, do contrário não fingiria. O fingimento que o poeta finge ficciona e funda as feições daquilo que chamamos de real; então o poema: que se nos apresenta encenando sua própria presença; que faz nascer em nós sensações que não sabíamos ter; que imita o que não estava lá, fazendo com que agora esteja e seja a partir de sua enunciação. Nesse sentido, o poema, como forma de vida-arte (indiscernível) que é, é um fingimento que não reproduz o visível, mas torna visível, à maneira do que diz Paul Klee. Um «fingimento deveras». Inaugural.

  1. «Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta». Do que seus poemas têm fome?

De vida, da vida de outros poemas, de outras formas de vida. De algo como a linguagem e suas falhas; da impotência comunicativa da linguagem. De algo como um ribombar, um estremecer qualquer – um som de pronúncia desconhecida, um grito, um súbito estatelar-se.

Com Celan, ainda uma vez mais, o poema é o lugar onde todos os tropos e metáforas querem ser levados ad absurdum. Os poemas têm fome de vida; portanto, de absurdo: de indizível e de ilegível; de impronunciável, de inexprimível. O absurdo que é atravessar tudo, atravessar-se: travessia que não exige saídas ou entradas, roteiros ou acordos prévios – riobaldianamente: “Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! — só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou (…). O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”. O poema tem fome do absurdo que é a vida – essa travessia pelo absurdo real que é o haver vida – já o sabia Cabral: “O que vive choca,/ tem dentes, arestas, é espesso./ O que vive é espesso/ como um cão, como um homem,/ como aquele rio”.

  1. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Acredito que precisemos apreciar mais o desconhecimento, o mistério que toda a vida (o poema, os demais objetos de arte, o ordinário dos dias) nos lega; e, mais que isso, buscar estar numa posição de não-domínio sobre as coisas, de perda de controle. Frente ao poema, frente à arte, frente à vida: saber dizer menos sobre, querer dizer menos sobre. Deixar-se atravessar por essas coisas, sem a necessidade de organizá-las, higienizá-las, estabilizá-las.

Escolher apenas um poema é tarefa ingrata, vai na direção contrária das coisas que acabo de dizer (se digo o que penso ter dito, afinal). Muitos poemas me parecem, hoje, «fazer todo o sentido» – porque perfazem diversos sentidos sempre e não somente um. Para efeito do jogo, escolho. Entre os tantos pensados, optei por aquele que mais parece dialogar com cada uma das questões aqui colocadas – e com os caminhos que algumas “respostas” tomaram.

Seja este então o porquê (difuso, necessariamente) de escolher o poema 1052 de Emily Dickinson – poeta que viveu reclusa grande parte de sua vida, tendo publicado apenas alguns poucos poemas, apesar de sua vastíssima obra –, em tradução que fiz há alguns anos:

 

I never saw a Moor –

I never saw the Sea –

Yet know I how the Heather looks

And what a Billow be.

 

I never spoke with God

Nor visited in Heaven –

Yet certain am I of the spot

As if the Checks were given –

 

Eu nunca vi um Urzal –

Eu nunca vi o Mar –

Mas já sei eu como é a Urze –

E o que é um Ondear.

 

Nunca falei com Deus

Nem visitei os Céus –

Mas sei chegar ao sítio Teu

Qual Mapa eu tivesse –

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