Quase-diário de um (e)leitor em tempos de golpe

 

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Se eu tivesse juízo, diria pra mim mesmo diante de tudo que temos vivido: “Não sou capaz de opinar”. Mas não tenho muito. E ainda tive coragem de rolar meu perfil do facebook desde o início de março, desde a data em que publiquei pela última vez algumas linhas neste blog, para ver com o que consumi o tempo que poderia gastar aqui ou nas outras tarefas todas que sempre me esperam… Eis que um monte de desabafos, piadas, poemas, músicas, reflexões que publiquei, se não fez algum sentido, ao menos serviu para dar uma prova de que os dias têm sido duros, bem duros, mas há neles algum aprendizado e sempre o diálogo que fortalece. Não sei se escrever é a forma menos dolorosa de lidar com tudo isso (talvez seja a mais), mas é uma das formas inevitáveis para quem acredita que é justamente trocando ideias que podemos saltar da lama em que estamos metidos. É bastante coisa, e fica mais organizado aqui. (Se vocês lembrarem das principais notícias de cada dia, ficam um pouco menos malucas minhas referências…)

 

[4/3] A (in)saciedade do espetáculo.

 

[4/3] SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA

Mario Faustino

 

Sinto que o mês presente me assassina,

As aves atuais nasceram mudas

E o tempo na verdade tem domínio

sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,

Corro despido atrás de um cristo preso,

Cavalheiro gentil que me abomina

E atrai-me ao despudor da luz esquerda

Ao beco de agonia onde me espreita

A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina

E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas

De apóstolos marujos que me arrastam

Ao longo da corrente onde blasfemas

Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,

Há luto nas rosáceas desta aurora,

Há sinos de ironia em cada hora

(Na libra escorpiões pesam-me a sina)

Há panos de imprimir a dura face

À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,

Os derradeiros astros nascem tortos

E o tempo na verdade tem domínio

Sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio,

Amen, amen vos digo, tem domínio

E ri do que desfere verbos, dardos

De falso eterno que retornam para

Assassinar-nos num mês assassino.

 

[4/3] Como são surpreendentes os dias da vida de raras figuras: acordam (são acordados) aparentando ruína, mas dali a algumas horas estão mais firmes do que nunca. Desconhecemos, os mortais, seu combustível.

 

[5/3] Desintoxicai-vos, irmãos, com uma dieta à base de pérolas:

 

[6/3] «A thing of beauty is a joy for ever:

Its loveliness increases; it will never

Pass into nothingness; but still will keep

A bower quiet for us, and a sleep

Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.»

 

«O que é belo há de ser eternamente

Uma alegria, e há de seguir presente.

Não morre; onde quer que a vida breve

Nos leve, há de nos dar um sono leve,

Cheio de sonhos e de calmo alento.»

 

[Trecho de ‘Endymion’, de John Keats,

trad. Augusto de Campos]

 

[7/3] H. HEINE (1797-1856) sobre as agruras da formação jurídica: «A brisa fresca da manhã soprava pela estrada e os pássaros cantaram alegremente; ‘peu à peu’, começava a contagiar-me com tal frescor e alegria. Eu precisava mesmo desse refresco. Havia passado os últimos tempos enfurnado na Faculdade de Direito, sem pôr o pé para fora daquele curral das Pandectas. Era como se os casuístas romanos tivessem revestido meu espírito com uma teia pardacenta; meu coração se espremia entre os parágrafos de ferro dos sistemas egoístas da Jurisprudência. Ainda ecoavam em meus ouvidos coisas como ‘Triboniano, Justiniano, Hermogeniano… Tantansoniano’. Ao ver um casal de namorados sob uma árvore, logo os tomava por uma edição de mãos dadas do Corpus Iuris Civilis» (em “Viagem ao Harz”, trad. Maurício Mendonça Cardozo, Edit. 34, 2013).

 

[9/3] É preciso estar atento e forte.

 

[9/3] (O mais espantoso de ouvir e reouvir Elomar durante semanas seguidas não é abrir a janela do apartamento e procurar um sertão em meio a um infinito de prédios, asfalto, carros, buzinas, guindastes, nuvens de chumbo, ódio e carbono. O que espanta, mesmo, é encontrá-lo – o sertão – justamente aí. Intacto, impávido, implacável. E mais: íntimo.)

 

[10/3] Sem dúvida, o pior legado desses tempos de acirramento político, polarização ideológica e violência gratuita é a conotação negativa que nos vem à mente quando, no balcão da padaria, pedimos um simples, mas adorável salgado. Temos que superar isso, com urgência.

 

[10/3] Vão prender o Hegel?

PS: com base na Teoria do Domínio do Fato, dá pra prender, por baixo, uns 20 filósofos anteriores a ele e uns 200 posteriores. As conexões são evidentes e, portanto, independem de prova.

 

[10/3] Questão do próximo concurso do MP

1) Os autores do “Manifesto Comunista” são:

(A) Marcos & Belutti

(B) Marx & Hegel

(C) Kant & Engels

(D) Marx & Engels

(E) MST

(Fui dar uma olhada na petição… o fundamento é uma (des)leitura de Nietzsche… no máximo, dá pra fazer piada, mas é bem triste que a coisa chegue até aí.)

 

[11/3] Resumo preciso da ópera, por Vladimir Safatle: “a assimetria produz uma insegurança profunda a respeito das intenções em jogo, o que é um convite à desagregação completa dos pactos no interior da combalida democracia brasileira”.

 

[11/3] Vejam como são as coisas. Ouvi dizer por aqui, dia desses, que Toquinho havia dito que não há mais poetas no Brasil. Confesso que pulei o tópico… não tenho lá nenhuma paciência para generalizações, ainda mais quando é gritante seu divórcio com a realidade. Mas eis que vem um poeta, um desses poetas que lamentavelmente o Toquinho jogou pra fora do Brasil com sua afirmação, o Caio Meira, e, mais do que responder, pega cinco ou seis retas e faz um castelo, em que cabe Toquinho, o Brasil, seus poetas e todos aqueles que dizem sem saber. Não mexa com essa gente, Toquinho.

http://www.caiomeira.com/nao-ha-mais-poetas/

 

[11/3] Quando nos conduzimos mais por ódio e medo que pelo conhecimento, todos se tornam inimigos de todos e possíveis soluções ficam ainda mais distantes. Se você concorda e se preocupa com isso, leia (com calma) e tente fazer seus amigos lerem (com calma) o que diz o Matheus Pichonelli neste texto fundamental.

Bom final de semana, inclusive o domingo.

https://br.noticias.yahoo.com/marx-hegel-e-o-ocaso-da-intelig%C3%AAncia-182811734.html?soc_src=social-sh

 

[13/3] Já é noite de domingo. 1%, digamos, dos brasileiros foi às ruas hoje para dar um recado – basta, fora, cadeia – ao governo. De verde e amarelo. Enquanto vejo as fotos das manifestações e a imprensa disputando o significado dos protestos, imagino que os gritos chegaram até os ouvidos do Planalto, do Congresso, do Supremo. Por trás desses gritos sinto uma grande convicção de que, amanhã, eles podem se transformar em medidas concretas (renúncia, impeachment, prisão) e, com isso, em melhorias imediatas da vida. Daqui, do sofá em que estamos eu e os outros brasileiros, gostaria de acreditar nessas transformações quase mágicas, mas o que vejo é um abismo imenso entre esse sonho de uma vida melhor e a energia que sai das manifestações para ser absorvida sabemos bem por quais interesses. Um abismo que se abre a golpes de intolerância, ingenuidade, oportunismo. E não há ponte curta ou segura para cruzá-lo.

 

[14/3] Procurando um alento? Lembre-se: o mundo é cheio de insignificâncias, pequenezas, mediocridades, mas também de coisas boas, grandiosas, admiráveis. Acima delas, tem algo assim: https://www.youtube.com/watch?v=LG5EdoxBVt0

 

[14/3] O depoimento de Lula em Congonhas tem mais de 100 páginas. Lamentavelmente, sei que muita gente vai ter “opinião formada” (e imutável) sobre todas aquelas páginas sem que, ao menos, tenha se dado ao trabalho de ler. O ódio é tanto que haverá quem fique com raiva de mim só por estar sugerindo que leiam as palavras de Lula com atenção. É uma pena, não gosto que me odeiem… Mas eu li o depoimento todo: entre infinitas perguntas sobre detalhes de cada acusação que ocupa a capa dos jornais nos últimos dias, o que ressalta é a segurança das respostas e o clima de descontração em que até mesmo o delegado se envolve. A cada pergunta, o que aparece é um homem que não foge das questões, mesmo quando beiram ou ultrapassam o ridículo. Cada um aí que vier a ler vai interpretar de uma maneira, mas eu gostaria que, se o ódio permitir, fizessem a seguinte questão: e se ele estiver falando a verdade?

 

[14/3] Saiu a decisão do processo de São Paulo. Estranhamente, a juíza não fala de Marx, nem Engels, Hegel ou Nietzsche. Pelo que li, a única coisa que o MP disse que foi levada em consideração é “vai catar coquinho”, mas lá em Curitiba.

 

[14/3] No momento maluco que vivemos, é difícil acreditar que o debate sobre política vá se sofisticar muito. Só tem espaço pra pancada. Quando a poeira baixar (espero que logo!), acho que esse texto pode ser um bom ponto de partida para a crítica do que se tornou a política por aqui:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/14/opinion/1457966204_346156.html?id_externo_rsoc=FB_CM

 

[15/3] O que a gente não faz pela democracia… foi difícil cruzar o arquivão do Delcídio, mas vamos lá: se pudermos dizer que há três guerras em andamento (por mais que, no fundo, sejam a mesma-mesminha), uma guerra política, outra jurídica e outra de informações, acho que a delação coloca lenha principalmente na última, que me parece já não ter como ferver mais. Veremos. Se Delcídio for fazer na Lava-Jato o papel de Roberto Jeferson na AP 470, que ao menos tenhamos a sorte de ver cada uma de suas palavras comprovada e levada às necessárias consequências. Boa noite!

 

[16/3] (Olho pela janela e vejo apenas uma certeza em pé neste momento: a imprensa de sempre vai, como sempre, dizer as coisas de sempre e fazer com que seus leitores de sempre, como sempre, concordem e repitam o que sempre dizem. E quando retiro as camadas de propaganda e distorção de cada matéria em busca de informações, fico com muito pouco nas mãos. Muito pouco. No contato com tal imprensa, portanto, tenho partido de um pressuposto: não há qualquer atitude, a não ser a renúncia [ou o suicídio, para alguns], que Dilma possa tomar que será ~aplaudida~ por aqueles que agem e torcem pelo fim antecipado de seu mandato. Nenhuma, nenhuminha. Portanto, creio que Dilma pode desistir de acalmar as cornetas e, assim, tentar governar, a começar pelo enfrentamento dos inimigos mais íntimos do governo, para escapar do atoleiro em que se encontra desde a eleição de 2014. Se afundar de vez, não custa dizer, que seja lutando.)

 

[16/3] O mundo desabando e eu distraidão… não fui, confesso, o dedicado estudante de direito que deveria ter sido, mas o pouco que estudei não vai me deixar dormir bem no dia em que um juiz de primeiro grau divulga pra imprensa um grampo que envolve a Presidenta da República, atropelando o STF só porque o processo dos seus sonhos não vai muito bem das pernas. Um juiz que despacha no balcão do Jornal Nacional? Não, obrigado. O conteúdo é ilegal? Ilegal é o grampo e, mais ainda, sua divulgação é uma ofensa à Constituição e a tudo que ela significa. Qualquer discussão sobre o conteúdo dos grampos tem os mesmos vícios da sua divulgação festiva e irresponsável. Ou levamos a sério algumas garantias ou amanhã, junto com as condenações que tantos desejam, virá a nossa condenação – se é que ela já não veio – a viver num país sem lei. Você acha que já vive num “país sem lei”? Aguarde, gente como Moro e outros tucanos, se conseguirem realizar o golpe já em marcha, vão mostrar que as coisas podem ser bem piores.

 

[17/3] Um golpe já foi dado – resta saber qual será seu alcance. Se, desta vez, há um agente comum entre os golpistas – a rede Globo -, o outro agente é mais surpreendente: um juiz do andar de baixo da jurisdição, mas disposto a afrontar toda a legislação e todas as instituições que deveria respeitar, no intuito específico de atacar um único partido, ou melhor, um único político. No grampo que entregou à imprensa o que há é apenas e tão-somente política, sim, POLÍTICA, a mais importante das atividades a que alguém pode se dedicar. Falar ao telefone com seus aliados, coordenar as ações, buscar apoio onde puder, atacar os adversários – tudo isso faz parte da política. Não se dirige um país (nem uma casa!) sem poder falar ao telefone coisas que nem todos devem ouvir. Perseguir até esse nível, ofendendo as regras básicas, quem está fazendo política é criminalizar a política como um todo e, assim, inviabilizar a democracia. Nem deveríamos, portanto, discutir o conteúdo do grampo, mas mesmo ali o que se encontra é a confirmação de que a nomeação do ex-presidente para a Casa Civil tem objetivos muito mais amplos do que “fugir à jurisdição do Moro”, ainda que não tenhamos mais razão alguma para chamar de “jurisdição” o que o juiz global tem feito e, de outra parte, muita razão para que qualquer cidadão queira escapar do alcance da vara de um militante sem limites. Aliás, os próximos dias dirão se ele tem limites ou não, isto é, se a democracia por aqui tem futuro ou não.

 

[17/3] Duas dicas de sobrevivência na selva das inimizades, um conselho do Poderoso Chefão e um lembrete:

1) leia, ouça, assista a tudo o que puder. Tudo, tudo, tudo. E escreva apenas quando as ideias e as palavras lhe estiverem sufocando.

2) dê sua opinião como uma postagem nova no seu perfil: “conversemos” assim, em paralelo, sem enfrentamentos diretos na caixa de comentários. Seja o que for que diga, é mais digno do que ficar tentando contorcer as frases alheias e atribuir significados mirabolantes ao que os outros dizem. Por exemplo: não faça seu amigo ter que explicar mil vezes que “defesa da legalidade” não é a mesma coisa que “defesa de bandido”.

3) “Nunca odeie seus inimigos; atrapalha o raciocínio” (Don Vito Corleone).

4) o barco é um só.

Até mais, volto quando possível.

 

[17/3] O trabalho me faz conhecer gente muito estudada, muito instruída, que circula por conceitos e dados com uma desenvoltura impressionante. Professores de diversas áreas – além da turma do direito, convivo com economistas, sociólogos, historiadores, cientistas políticos etc. Nos últimos tempos, cada vez mais recebo desses amigos “não jurídicos”, inclusive na caixa de mensagens privadas do facebook, no whatsapp, na mesa do almoço, perguntas e mais perguntas sobre questões tipicamente jurídicas, como questões de organização judiciária e tramitação processual. O juiz de primeiro grau grampeou a presidenta? Outro juiz invalidou um ato de competência dela? Há uma chuva de “como assim?” em todos os cantos, principalmente naqueles bastante habituados aos movimentos da história e de suas lutas. Nem Freud nem Marx parecem conseguir explicar, mas apenas o artigo x da lei tal e suas cambaleantes interpretações.

É algo que me parece muito curioso, para não dizer preocupante, e leio da seguinte maneira: esses professores, por mais que entendam muito de outros aspectos da vida política, estão sendo obrigados, dia a dia, a entender das tramas jurídicas para acompanhar os movimentos da política. Se já identificávamos, há bastante tempo, uma “judicialização da política” (ou seja, a absorção de decisões de natureza política por instituições criadas para decidir questões jurídicas), temos andado cada vez mais rápido para um outro momento, em que cada vez mais se transformam as salas dos fóruns e tribunais em sede de decisões políticas fundamentais e, como consequência, se reforça a “demonização da política” a que temos assistido.

Poderíamos até vislumbrar aí uma nova oportunidade de negócios para os advogados, um novo sentido para aquele famoso adesivo da OAB: “Consulte sempre um advogado”. Mas esse não é apenas um problema dos meus amigos ou do nosso país. É um desequilíbrio entre os poderes que preocupa toda a teoria política moderna, a indicar que, sob as feições mais destacadas da crise, vamos também alimentando outros monstros, outros retrocessos.

Dureza, hein?

(Agora eu juro que vou sumir daqui, a começar pela busca do jantar perdido de ontem…)

 

[18/3] Diz o Vladimir Safatle: “é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação”.

 

[18/3] Já convivemos melhor. Uma música falando em comunista, ideologia e muito, muito vermelho. E ninguém bateu em ninguém. Fica a dica.

 

[18/3] Manifestações grandiosas como a de domingo e a de hoje são fundamentais para qualquer sociedade em qualquer momento, mas ainda mais num momento delicado como o que estamos vivendo. A de hoje, em especial, dá uma ideia do que pode ser a democracia, do que pode ser uma sociedade politizada, mais horizontal, mais igual em termos de poder, riqueza, direitos, valores, comunicação etc. Torço para que hoje, como foi no domingo, todos voltem para casa ou sigam para onde quiserem semqualquer violência. O receio, no entanto, é grande, porque há muitos jornalistas, justamente nos órgãos de maior alcance, dispostos a incendiar a polarização e, lamentavelmente, magistrados que, desde gabinetes que pairam de janelas tapadas bem acima dessas multidões, estão dispostos a desfazer com liminares os atos da Presidência da República. A luta vai continuar e quero crer que agora ela está se tornando mais transparente, mais ampla, mais honesta. Veremos. Resulte no que resultar e será melhor para o país do que a paralisia que est(áv?)amos amargando. Bom final de semana.

 

[19/3] (Sim, o hiperjuiz pode mandar prender o ministro suspenso, agora que o tucano de toga fez seu papel de vingador partidário. Pode, sim, mesmo que ele não seja réu, porque sabemos que o hiperjuiz não liga pra esses detalhes. Se bobear, ele manda prender a presidenta junto, porque, afinal, se houve obstrução, quem fez foi ela, não? Mas e os fatos, mas e as provas, mas e a lei, mas e a Constituição? O hiperjuiz voa com sua capa preta acima disso tudo. Mas até o hiperjuiz sabe que decretar a prisão do ministro suspenso pode ser o ápice da sua saga, mas não será o último capítulo da novela. Dentro da Corte Suprema, há togas de muitas cores, nem todas dispostas a um jogo sem regras. E dali pra fora, nas ruas, já ficou claro pra muita gente que nada vai ser de graça – o preço do golpe é alto. Custa uma democracia e mais alguns vinténs.)

 

[19/3] Me avisem aí, quando a poeira baixar, e couber algum outro assunto, que eu só queria pedir uma salva de palmas para esse colosso que é a poesia completa do Sebastião Uchoa Leite (1935-2003).

 

[21/3] 7 DA MATINA. Coisas que combinam com café: pão na chapa, pão de queijo, misto quente. Coisas que não combinam: o pai contando pra família estupefata que o taxista contou que um dia, quando a polícia federal chegou, o político jogou sacos de dinheiro pela janela detrás do apartamento, voou grana pra todo lado e que agora tem gente lá de casinha simples comprando carrão. Evite.

PS: e estamos a 1km do local dos fatos…

 

[21/3] (Esperando ansiosamente o dia em que a defesa de garantias gerais não se confunda, em alguma estranha medida, com a proteção de pessoas específicas. Mas acho que esse dia só virá quando deixarem de ofender garantias gerais com o intuito de atingir pessoas específicas.)

 

[21/3] (O povo está sumindo. Tem amigos que se foram daqui, tem outros que passam em silêncio e outros que vêm e encontram a porta fechada. A gente agora deixa o café pela metade, troca o almoço por silêncio e espera as notícias da sexta pra saber com quem pode tomar a cerveja do sábado. Tenho falado o quanto posso, em todo canto, com gente pró e contra, mas já não encontro tanto pró que queira conversar com um contra ou vice-versa, e não apenas sobre aquilo que faz deles pró e contra. Nos rostos de todos, dos que não andam com sangue nos olhos, o que há é um sorriso amarelo, de quem diz sem convicção que pior que está não fica.)

 

[22/3] ~hojefaztrezeanosqueMARLIeeunoscasamos~mastrabalheiummontedehoras~entãonãotivetemponemdecurtircomeladatatãoespecial~alémdeserperigosofazerqualquermençãoatalnúmeronosdiasatuais~eporissomandoessamensagemcifradaparaelaquenãotemfacebook~dizendopranãosepreocuparporque~comoficaremosvelhinhosjuntos~teremosmuitosoutrosanoseanosabraçadospracomemorarcomalegria~comcerteza~

 

[23/3] Num dia fico sabendo que, numa escolinha em SP, crianças de 3 anos – sim, 3 anos – estão fazendo “atividades sobre política”, coincidentemente pró-impeachment… E que noutra escola as crianças, um pouco maiores, são convocadas para as manifestações verde-amarelas ensaiando hinos e palavras de ordem. Depois fico sabendo que militantes do golpe convocam suas tropas para cercar a casa da família do ministro do STF que julgam ser inimigo, inclusive publicando seu endereço na internet. E agora leio essa matéria aqui, cheia de exemplos de que não apenas a intolerância chegou às escolas, como há muitos pais e professores que entendem que ali é o lugar dela também.

Não há muito o que dizer. Má-fé, ignorância, irresponsabilidade, truculência estão na moda. Mas quando a moda passar? Os adultos que estão colocando lenha nessa fogueira infantil e os militantes que estão dispostos a atacar a família dos juízes não fazem ideia da extensão que podem dar para essa época que, imagino, muitos de nós não veem a hora de terminar.

Se o ataque for nesse nível, se convencermos as crianças de que toda discordância deve virar inimizade e acreditarmos que nossas frustrações devem ser respondidas com violência, pode passar o furor dos processos atuais e teremos uma herança terrível para arrastar daqui em diante. E ela certamente será bem pior do que tudo que vimos até aqui – em todos os níveis.

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160322_salasocial_polarizacao_criancas_if?ocid=socialflow_facebook

 

[23/3] (eu queria morar no canal OFF

bermuda, sandália, camiseta

no frio rolaria na neve

desertos os quadrinhos da agenda

saltar louco no ar sem amarras

 

eu queria morar no azul da tela

que contemplo por trás do pó

e gordura

ao som de um liquificador

que se esgana nesta esquina

entre os pedidos todos urgentes

do esporte radical que é estar vivo)

 

[24/3] Alguém aí tem a manha de decretar sigilo de todas as polêmicas, angústias e picuinhas até segunda-feira? Grato desde já. Bom finalzão de semana.

 

[25/3] Li dois terços desses livros (e outros de outras editoras) e continuo não entendendo muita coisa, mas ainda assim recomendo muito.

15 livros para entender o Brasil hoje

 

[25/3] Lição de casa democrática: leia as duas matérias abaixo e avalie se é exagero chamar de GOLPE o que está se passando no Brasil.

 

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/nao-ha-nenhuma-prova-contra-o-ex-presidente-afirma-juiz-da-lava-jato-sobre-lula/

 

http://m.folha.uol.com.br/poder/2015/11/1710334-aliados-propoem-troca-de-cassacao-de-cunha-por-impeachment-de-dilma.shtml?cmpid=compfb

 

[27/3] (Leve a sério o que diz aquele seu interlocutor que é capaz de falar dez minutos sobre política sem recorrer a qualquer frase de efeito, dessas que caem bem às faixas revoltadas e aos carros de som das manifestações. E tente ser um interlocutor assim de quem estiver por perto de você. Não é fácil, mas é a única saída que importa.)

 

[28/3] Depois da carta do Lobão pedindo desculpas (marotas) para Caetano, Gil e Chico, podemos criar esperanças de ler uma carta de Aécio para Dilma aceitando o resultado das eleições de 2014? Uma carta de Cunha para os brasileiros admitindo que não se sente muito bem na posição de acusador num processo de impeachment? E, afinal, que outras ~cartas de reconciliação nacional~ podemos agora esperar?

 

[28/3] «O caso dos 15 jovens activistas, a cumprir prisão domiciliária, e duas outras que respondem em liberdade, remonta a 20 de Junho de 2015, quando foram surpreendidos durante uma acção de formação, que as autoridades consideraram preparação para actos de rebelião e atentado contra o presidente José Eduardo dos Santos. […] Segundo a acusação, ficou provado que os debates realizados pelos activistas não serviam apenas para ler os livros, mas que estes planeavam como concretizar os actos de rebelião. “Não há qualquer dúvida que os arguidos estavam a preparar actos de rebelião porque os mesmos não pretendiam apenas ler um livro. Os arguidos queriam aprender como destituir o poder”, disse.»

http://www.redeangola.info/activistas-condenados/

 

[28/3] Em qualquer contexto político minimamente saudável a frase “PMDB desembarcá do Governo” seria motivo de festa, muita festa.

 

[30/3] (E tudo indica que o colosso de esforços antidemocráticos de quem não votou na dupla Dilma-Temer será premiado com a tomada do poder pela dupla Temer-Cunha, que certamente colocará esta nação acima de todo mal. Enfim, a ordem. Enfim, o progresso.)

 

[30/3] «oh que beleza sem gramática, que ferocíssimo esplendor:

rosa encarnada pelo ar acima

que é funda curva absurda,

rosa ascendida acesa desde a terra desmanchada,

escrita sobre o papel estrito

— e que o papel arda

que a extrema flor do cacto suba entre folhas espessas e coroas de espinhos,

mas que seja enfim mais peremptória ainda

a rosa irreversível»

 

De Herberto Helder (1930-2015), em “Letra aberta”, que acaba de sair em Portugal e, pelo que li, deve sair mais à frente no Brasil pela Tinta-da-China.

 

[30/3] É incrível o número de argumentos usados, desde 27.10.2014, para relativizar e, mais que isso, desfazer o resultado das eleições democráticas. O mandato que mais de 54,5 milhões de brasileiros confirmaram está sendo tomado com base nas tais “pedaladas fiscais”, mas não encontrei até hoje um eleitor da Dilma no segundo turno que diga: “me arrependi do meu voto após saber das pedaladas fiscais”. Ou seja, é bem provável que Dilma continue contando com o voto de seus mais de 54,5 milhões de eleitores do segundo turno (com o meu, por exemplo), que terão que amargar, com ela, essa derrota fora de época, contra as regras do jogo, com base numa conduta – as fatídicas pedaladas – que em nada alteraria a vontade por trás do voto.

Das pessoas que conheço e vejo defender a interrupção imediata do mandato de Dilma, seja com que fundamento for, posso afirmar que são as mesmas que não se conformaram com o resultado da eleição lá naquele domingo de 2014 (e muitos que não se conformaram com o resultado das últimas quatro eleições presidenciais…) e desde então torcem para qualquer chance de Dilma cair. Não foram poucas as que ouvi dizer que “qualquer coisa é melhor que Dilma”.

Eu até entendo que não aceitem ter perdido, mas não posso crer que querem mesmo um país melhor (e melhor, pra mim, é sinônimo de mais democrático, em todos os setores da vida) quando fazem vista grossa para o atropelamento da vontade desses mais de 54,5 milhões de votos de Dilma e não levam em consideração quais serão os beneficiários imediatos desse golpe, mesmo que entre eles esteja alguém como Eduardo Cunha. Obsessão tem limites – ou deveria ter.

 

[31/3] Uma das razões para suportarmos continuar nesta coisa é estar por perto das afeições que criamos com algumas pessoas, mesmo com aquelas com quem pouco ou nada convivemos daqui pra fora. Mika e Tiago são desse meu acervo de afeições intensas daqui. Livros, crianças, ideais deixam essas pontes mais fortes. Quando uma dor cai assim pesada sobre suas vidas, é inevitável que caia também sobre quem quer ver tudo bem com eles. Não sei rezar, mas minha cabeça hoje só sabe pedir que o sorriso da Manu esteja sempre por perto.

 

[1/4] Estranhos tempos em que cabe a um filósofo dar uma lição fundamental de direito (além de política) a um professor que foi, até mesmo, ministro do STF.

 

[1/4] MANU

 

dizem que deuses fazem tudo

 

um deus que desfizesse

talvez tivesse hoje a minha fé

 

[4/4] Uma entrevista indispensável com o Prof. Ricardo Antunes, da UNICAMP – sobre hoje, mas especialmente sobre amanhã:

«Para que não se resuma tudo ao pessimismo e mesmo à melancolia, temos um mosaico de lutas e movimentos sociais, experiências novas. Houve um avanço muito significativo de movimentos moleculares das classes populares e trabalhadoras. Como fazer para que tais movimentos atinjam um nível de organicidade que os aproxime mais, ao invés de isolá-los? Como avançar numa nova política radical, como soldar novos laços de solidariedade e de pertencimento de classe, ao invés de ficarmos na política de fracionamento e fragmentação? É o desafio que se coloca na próxima quadra.»

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11554%3A2016-04-02-16-38-22&catid=34%3Amanchete

 

[4/4] Fugi dessa história o quanto pude. A notícia aparecia em alguma página, eu não clicava. Alguém tocava no assunto, eu fugia. Ando fraco demais pra essas pancadas. Mas acabei assistindo: uma menina sofre um câncer no cérebro e decide fazer um canal no youtube ajudando outras pessoas a enfrentarem o tratamento; ela faz sucesso, chega à tevê e… alguém invade sua conta e apaga todos os vídeos. Apaga todos os vídeos. Apaga. Todos. Os vídeos. Da menina. Nosso ônibus passou há tempos do ponto Banalidade do Mal. Não consigo imaginar o que a pessoa que fez isso com a Careca TV não seria capaz de fazer. Não consigo imaginar o que a sociedade em que vivemos não seria capaz de destruir, apagar, dinamitar. Espero que seja um problema da minha imaginação.

 

[7/4] Olhando bem, pra todo lado, a gente percebe que, aconteça o que acontecer, sempre temos mais a construir e reconstruir do que a conservar aqui nestas terras… de minha parte, a certeza é que quero estar do mesmo lado de pessoas como a pequena gigante Sara.

PS: e jamais do lado de quem “pensa” assim: “A população se acostumou a reivindicar. Tudo aquilo que antigamente era fruto do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho, passou à categoria de ‘direito’. E de ‘direito fundamental’, ou seja, aquele que não pode ser negado e que deve ser usufruído por todas as pessoas.”

 

[8/4] OS JUSTOS

Jorge Luis Borges

 

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra exista música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.

O que afaga um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra exista Stevenson.

O que prefere que os outros estejam certos.

Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o mundo.

 

(“A cifra”, 1981, trad. Josely Vianna Baptista)

 

[8/4] Vão chegando as terríveis notícias sobre os assassinatos e as perseguições de todo tipo a militantes políticos de bandeira vermelha. Quem acompanha os movimentos sociais e a defesa dos direitos humanos sabe que essa nunca deixou de ser a realidade brasileira – no campo, na periferia, onde quer que alguém se levante contra a forma como o mundo se organiza em favor de poucos, bem poucos, e contra uma maioria a quem cabe apenas morrer calada ou ser morta para se calar. A situação aí sempre foi terrível. Entretanto, temos aprendido a duras penas que mesmo o que já é péssimo pode piorar: o acirramento ideológico dos últimos tempos, tudo indica, vai achar suas vítimas lá onde elas sempre estiveram – na violenta pobreza urbana e rural do Brasil. Se há lado bom nisso tudo, é apenas saber que para grande parte dos brasileiros LUTO sempre foi também um verbo, como mostra com perfeição o documentário DEFENSORXS do coletivo Nigéria.

 

[11/4] Michel tem pressa, muita pressa. Michel já mandou cartinha de rompe-laços. Michel já negocia os ministérios. Dilma, caso seja vencida na Câmara, continua no cargo até a votação no Senado, quando será afastada para aguardar o julgamento, aí sim, do impeachment. Mas Michel não se aguenta. A chance única de ser presidente sem ter encabeçado a candidatura é de deixar Michel fora de controle. Já mandou separar terno e gravata, camisa e sapato. Já penteou o cabelo e preparou a voz. E já gravou e divulgou o discurso de quase-posse para “falar à Nação” depois da votação da Câmara. Duvida? Então ouça:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/04/1759725-temer-divulga-audio-em-que-fala-como-se-impeachment-estivesse-aprovado.shtml

 

[11/4] Vejam como são as coisas: se Dilma tiver votos na Câmara na mesma quantidade de anos de prisão que o PGR entende que o Cunha merece (184!), o golpe emperra e o Temer volta pra cadeirinha dele. Curioso, né?

 

[13/4] Sonhei que o Brasil estava melhorando, que agora o Congresso trabalhava de segunda a domingo e que o futebol estava suspenso até resolvermos todos os problemas. Que o novo presidente só pensava nos interesses do povo e os parlamentares estavam acima de qualquer suspeita. Que policiais, promotores e juízes iam às últimas consequências, punindo quem tivessem que punir. E a imprensa, minuto a minuto, mostrando sem cortes os grandes debates e operações, inclusive contra seus donos e patrocinadores.

Acordei. Era só um golpe.

 

[13/4] “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” – tenho lembrado bastante dessa frase nos últimos dias, de autoria (se me lembro bem) do Darcy Ribeiro. Abro as notícias sobre as manobras bizarras de Cunha e sua gangue e fico imaginando o orgulho de quem diz que vale tudo para derrubar Dilma, o orgulho de quem finge não estar vendo de que se alimenta o golpe, de quem finge não estar vendo que o golpe é um golpe. E é muito baixo. Se no domingo todos que estão torcendo pelo sucesso do golpe terminarem o dia felizes, é com essa frase na cabeça que vou levantar para uma segunda-feira que, se será triste para quem preza a democracia, nem por isso será o último dia da história e das nossas lutas.

 

[14/4] Quanto mais chove no noticiário, mais me protejo com aquilo que homens e mulheres fizeram e fazem de mais admirável. É meu antídoto contra o desânimo. Doses pesadas têm sido necessárias diariamente. Quando a barra pesa demais, por exemplo, teclo 3 letras mágicas – “g”, “i” e “l” – e clico no primeiro vídeo que aparece. É tiro e queda. Tudo volta a fazer sentido. Ou paro de exigir das coisas que façam sentido. [Por favor, só continue se quiser exageros.] Gil é um caldeirão. Nele está tudo aquilo que começou lá em Homero e que não terá fim. É nisso que creio enquanto ouço. Gil absorve e multiplica. Tudo o que chamamos de Brasil, para o bem, para o mal. Nele aprendemos, aliás, que bem e mal não são lá essas coisas. Em Gil estão todas as coisas do espírito e da matéria. Em Gil se aprende a pisar na terra de outro modo, ser da terra, e também a olhar pro céu com outros olhos – ser do céu aqui. É possível criar uma religião ao redor de Gil, mas nem ele nem nós precisamos de uma. Repare: a corda do violão conversa de outro modo com os dedos de Gil. A voz de Gil arrasta a alegria e o sofrimento de séculos para nossos ouvidos. Tudo que se fez sob o selo da música veio morar no corpo de Gil. Gil é a África viva em qualquer continente a que chegue. Gil é o Brasil que nunca existiu, que talvez não venha a existir, mas o país de Gil é o melhor país do mundo. O país de Gil é o Sertão, o Japão, a Jamaica, o Mississipi, a estrela mais distante e o quintal qualquer. Eu queria tocar violão por causa do Gil. Canto escondido por causa do Gil. (Assisto comovido ao programa da Bela Gil.) O dia seria intragável se Gil não estivesse ao alcance. Gil seria impensável sem o Brasil. O Brasil seria impossível sem Gil. Vale a pena tentar salvar o Brasil por ser a terra em que Gil foi possível – constato, e já saio dançando.

 

[14/4] http://www.sul21.com.br/jornal/clima-de-caca-as-bruxas-contra-ideias-de-esquerda-e-muito-preocupante-alerta-sociologo/

 

[15/4] 52 milhões para Cunha? Notícia fresquinha. Mais uma do “malvado favorito” que os “brasileiros de bem” estão apoiando contra a corrupção.

Sim, o simples fato de que esteja na presidência da Câmara é o suficiente para que o processo do impeachment não pudesse seguir.

Sim, o fato de que ele esteja fazendo o papel de algoz de Dilma permite que chamemos a tudo isso por um nome só: golpe!

PS: justiça seja feita, ele ao menos parcela em 36x!

 

[15/4] (Eu queria ser aquele cara otimista, dizer com convicção que, se Dilma cair, o amanhã será bem melhor. Eu queria ser aquele cara sarcástico e dizer cinicamente para quem apoia o golpe: “nossa, agora Temer e Cunha vão dar um jeito nessa corrupção!”. Eu queria ser aquele cara inocente e dormir satisfeito porque a Lava-Jato não perdoará ninguém. Eu queria ser o pessimista radical, dar de ombros e dizer “tanto faz”, porque tudo está mesmo perdido. Eu queria ser aquele golpista inconsequente e só ver à frente um claro objetivo – a queda da presidenta. Eu queria ser aquele governista cheio de esperanças e acreditar que há um eixo a ser retomado amanhã ou depois. Eu queria ser o cara que sabe exatamente o alvo a ser atingido para derrubar todos nossos males. Mas fico aqui, entre perdido e perplexo, “melancólico e [nem tão] vertical”, girando entre os dedos as duas ou três certezas com que pretendo ajudar a reconstruir um mundo que, assim ou assado, desaba sem dó diante de meus olhos.)

 

[16/4] Um pronunciamento preciso. Quem é contra o golpe tem aqui mais algum alento para continuar a luta – amanhã e sempre. Quem é a favor do “impeachment” e tiver o mínimo de sobriedade para ver o vídeo, deve reconhecer que nele está uma mulher de uma força incrível, eleita por 54.501.118 e que até este momento não é objeto de qualquer acusação de crime que justifique o encerramento precoce de seu mandato.

Ela, seu governo e seu partido merecem o tratamento que todos políticos, governos e partidos merecem – a cobrança permanente do povo e a submissão às regras da democracia. Goste ou não do governo, ninguém tem direito de inventar saídas para negar o poder que foi dado pelas urnas.

Estamos desde a eleição de 2014 assistindo ao nítido travamento parlamentar de um governo para fixar nele a imagem da incompetência e da inviabilidade. O nome desse processo longo e doloroso para todo o país é, sim, golpe. Deixar que Dilma seja engolida pela turma comandada por Cunha, Temer e outros do mesmo nível é deixar que um golpe seja dado, é deixar o país nas mãos sujas de golpistas, que não hesitaram em fazer o país pagar caro pelo seu desejo de tomar o poder legítimo da presidenta. E não vão hesitar em continuar fazendo o país pagar suas contas.

 

Não vai ter golpe? Espero que não. Mas se tiver, não vai ter sossego pra golpista. Como disse a presidenta, a palavra “golpe” estará para sempre marcada na testa de quem atentou contra o voto popular.

 

[16/4] Ouço essa canção algumas vezes por semana e toda vez fico admirado com sua perfeição. E como toda grande obra de arte, o seu sentido vai se revelando mais preciso, mais forte e curiosamente mais inapreensível a cada vez que ouço, dependendo do que acontece ao meu redor, dependendo do que acontece dentro de mim. É um parque de diversões para nossa sensibilidade, para nossa inteligência, para nosso desejo de vida nova. Oiça. https://www.youtube.com/watch?v=-pbC1QNXTEI

 

[16/4]

Declaración del Secretario General de la OEA, Luis Almagro, tras reunión con la Presidente Constitucional del Brasil, Dilma Rousseff:

 

[…] Además, es necesario resaltar que un régimen presidencial como el brasileño -y la gran mayoría de los de nuestro hemisferio, salvo el Caribe anglófono-, no puede operar de buenas a primeras como si fuese un régimen parlamentario, intentando la destitución, en este caso de la primera mandataria, por un cambio en la correlación de fuerzas políticas en la coalición gubernamental.

En efecto, la sostenibilidad del sistema presidencial no pasa exclusivamente por el Poder Legislativo y las alianzas que se generen en ese entorno. Esta es una realidad que es útil en materia de eficiencia para legislar y gobernar, pero que no sustituye el apoyo popular y soberano generado en el momento del voto a la actual Presidente. No se puede alterar esa ecuación de soberanía popular por variables de carácter político partidario de oportunidad. Si el constitucionalista hubiera deseado establecer un tipo de solución parlamentaria o semi-parlamentaria, entonces la hubiera estructurado de esa forma y serían completamente diferentes las lógicas de formación de Gobierno, la conformación de gabinete, la responsabilidad política y la salida del Gobierno, por ejemplo.

No emitimos un juicio de cual sistema –presidencial o parlamentario- es mejor, porque ello depende del pacto social y político de cada sociedad. Pero la organización del sistema constitucional brasileño es clara y, por esa razón, ha establecido los límites constitucionales para el ejercicio de un juicio de destitución. Desconocer esos límites afecta a la propia estructura de funcionamiento del sistema, así como distorsiona la fuerza y operatividad que deben tener la Constitución y las leyes. […]

http://www.oas.org/es/centro_noticias/comunicado_prensa.asp?sCodigo=C-044%2F16

 

[17/4] A sessão da Câmara abre às 14h e a previsão é de que a votação comece às 16h. Pelos meus cálculos, 513 deputados chamados um a um, se durar 1 minuto cada, exigirão quase 9 horas de votação, ou seja, até 1 da manhã da segunda-feira. Confere? Bom domingo pro Brasil!

 

[17/4] Quem votou nele? – é a única coisa que consigo me perguntar diante da tevê neste momento.

 

[17/4] Tudo bem, eu ando aqui defendendo a democracia, mas ser lembrado dessa forma trágica que, no caso concreto, ela é exercida por esses 513 brasileiros… é muito cruel com meu pobre otimismo.

 

[17/4] Os golpistas venceram hoje. Um punhado de golpistas deu mais um passo para rasgar os mais de 54 milhões de votos de Dilma. Relembro a frase de Darcy Ribeiro que publiquei aqui dias atrás: “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Sigamos: tristes, mas dispostos a enfrentá-los em todos os campos em que for preciso. Todos.

 

[18/4] Boa noite. (Noite propícia para o botão DESFAZER AMIZADE. Vale pra mim, vale pra quem se sente incomodado com o que publico. Se o facebook não serve pra nada, que ao menos seja um cantinho agradável pra gente trocar ideias com quem está indo pro mesmo lado. Jamais pra dar cotovelada em quem está na contramão. Não percamos tempo.)

 

[18/4] Três coisinhas e eu prometo que só volto daqui a alguns dias:

 

  1. Converse com seus amigos sobre o que significa um deputado homenagear, em plenário, perante todo o país, um comprovado torturador da ditadura militar. É pra gente assim que estamos entregando o país?
  2. Cadê aquela turma que disse que o governo estava pagando 400 mil por voto contra o impeachment? O dinheiro acabou ou nossos nobres deputados não aceitaram a oferta (por valor ou por valores)?
  3. O Anhangabaú estava uma delícia hoje e dá pra (re)construir um país a partir de tudo que havia lá. Ao trabalho.

Beijos.

 

[18/4] A gente discursa elogiando o poder da informação e da educação, mas sofre calado porque sabe que, na verdade, o buraco é mais embaixo. No fundo, no fundo, duvidamos das ferramentas culturais que poderiam fazer alguém se envergonhar de entrar pra história ao lado de Cunha, Bolsonaro e de toda a corja da bala, da bíblia e do boi. Mudar essa mentalidade não é mais fácil que malhar em ferro frio, ainda mais quando a baixeza dos ataques conseguiu colocar todo o debate num nível tão rasteiro.

 

[18/4] Uma estranha tontura, para além da indisposição que já vinha carregando. Já faz tempo que sinto no corpo os efeitos dessas pancadas que chegam pelas telas, pelos rádios, na fila do pão. Mas de ontem pra hoje tudo parece ainda mais intenso, mais insuportável. Eu prometi que passaria uns dias sem escrever, mas é apenas escrevendo que minha cabeça parece um pouco mais minha, mesmo quando tudo martela sem descanso.

 

*

 

PNEUMOTÓRAX

Manuel Bandeira

 

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

 

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

– Respire.

 

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

*

 

Lamento sempre que algum amigo decide viver fora do Brasil, principalmente quando o considero entre as pessoas de que um país cheio de problemas precisa para ser um país melhor. Mas hoje, revendo alguns dos discursos dos deputados e lembrando os rojões dos batedores de panela, me sentiria bem pouco sincero se dissesse pra alguém “fica, cara, vai melhorar”.

 

*

 

Nuno Ramos, que um tempo atrás já disse “suspeito que estamos fodidos”, disse ontem algumas palavras que viraram uma teia de que não consigo me desenredar: “Eu acho que o Brasil talvez leve décadas para se recuperar dessa estupidez. Acho que alguma coisa na sacralidade institucional foi profundamente ferida. A minha sensação é de estupor, de espanto. Me bateu uma tristeza funda, porque agora eu não sei se vou viver para ver as instituições se solidificarem de novo. A partir de agora, parece que a ilusão que a gente teve de democratização foi embora”.

 

*

 

Por todos os lados, gente que continua achando que a derrota de ontem foi de quem usa camiseta vermelha. Daí que minha única certeza hoje é querer estar por perto apenas de quem também está sofrendo, perplexo, com raiva. É ali que há alguém precisando de mim, é ali que há alguém de que preciso.

 

*

 

Where do I begin?

 

[18/4] Registro aqui, aos amigos, que aquela equação “pessimismo na teoria, otimismo na ação” está bem desequilibrada hoje, mas vai passar. Nosso desânimo faz parte das expectativas dos golpistas – e temos o dever de decepcioná-los.

 

[19/4] Ela está triste e estamos tristes com ela, por ela, ao vê-la ter que encarar – com admirável coragem e resistência – o golpe de que é vítima. Se tiver que ir embora, Presidenta, e parece que vai, pode seguir de cabeça erguida – não por este segundo mandato que foi impedida de começar, nem só pelo primeiro mandato, mas por toda sua história de luta.

Se algo ameniza a tristeza é a convicção de que, do lado sorridente da história, estão exemplos bem acabados do pior que este país já foi capaz de gerar, como Temer, Cunha, Bolsonaro, seus sócios, associados e admiradores. Lixo, lixo, lixo.

E não há decepção diante desse tipo de lixo, porque dele nada se espera. No domingo fizeram o que todos vimos: uma vergonha completa mesmo para quem, torcendo pelo “sim”, tem ainda algum bom senso. E já na segunda-feira começaram a desarmar as bombas sobre as quais estão sentados. Tudo indica que a bandalheira apenas começou.

Devo confessar a vocês que algum estudo e muita observação sempre me fizeram desconfiar de que a democracia, não só entre nós, se pode ser a mais linda das formas de governo, é também a mais frágil. E talvez a mais ilusória.

Pensei até em escrever para o deputado em que votei – Ivan Valente – pedindo desculpas por ter ajudado a colocá-lo naquele covil. Ele não merece. Jean não merece. Outros poucos não merecem.

Não vou dizer que não sabia, mas o escracho de centenas de deputados em fila nunca será apagado do lugar que reservo na memória para os fatos que não gostaria que se repetissem. Toda vez que tiver que votar lembrarei deles, toda vez que tiver que lutar será contra eles.

 

[19/4] Levo amizade a sério. Levo política muito a sério. Nunca, no entanto, encho à toa a paciência dos meus amigos com política. Mas foi triste demais ver gente de que gosto naquele link “amigos que curtem Jair Bolsonaro”. E entendo que, com suas convicções, lamentem ver a defesa da democracia e de “coisas piores” que sempre faço. Bolsonaro (com seus clones) sempre esteve bem além da linha do aceitável, até porque o cargo de deputado pressupõe a existência de democracia, e ele atenta o tempo todo contra a democracia, então não preza e não merece seu próprio cargo. É simples: a representação do povo jamais pode estar nas mãos de quem entende que o poder deve estar concentrado em poucas mãos muito longe das mãos do povo. Mas no último domingo Bolsonaro conseguiu ir além do além, ao dedicar seu voto ao torturador de Dilma. Um dos piores relatos da ditadura brasileira, para mim, sempre foi o de uma mãe que foi torturada – eu ia dizer “brutalmente”, mas é sempre bem mais que isso – na presença de seus filhos de 4 e 5 anos, na sede do DOI-CODI, por ordem e para prazer de Brilhante Ustra, o que já foi até mesmo reconhecido pelo Judiciário. É justamente este o homenageado do deputado. Do lado em que eles estiverem, faço questão de não estar. Se estiverem do lado deles, faço questão de que me contem no outro lado.

 

[20/4] Bela, recatada e do lar do fim do mundo:

 

[25/4] Há fatos por aqui que servem, sozinhos, para resumir a história do país. Penso, por exemplo, no que representa um grupo de políticos e empresários articulados ao redor de um deputado ladrão para dar um golpe em 54 milhões de votos – todas as linhas de nossa história se enredam aí, de um lado e de outro. O parlamentar que, na vigência mesmo que capenga da democracia, dedica a sua atuação a um torturador – eis uma aula com todos os elementos do que é o Brasil, ou melhor, por que o Brasil é, em grande parte, o Brasil que muitos querem transformar. Mais de dois terços dos deputados dedicando seus votos a qualquer coisa quando o correto seria não dedicá-los, mas fundamentá-los – está estampada aí a nossa cara. Outro exemplo: a ciclovia sobre o mar que, novinha, não resiste aos golpes das ondas, e os corpos das vítimas abandonados aos pés dos banhistas – é possível ver o Brasil desde 1500 encapsulado aí. É o Brasil do 7 a 1 – a festa que organizamos (com sucesso no palco, mas cheia de cadáveres no armário) para mostrar ao mundo nosso antitriunfo. É o Brasil do trator de última geração que engole índios, da usurpação de quaisquer direitos, da intolerância carnavalizada, do machismo que não se envergonha, do reacionarismo minuto a minuto na tela, da vassoura insistente a varrer nossas mazelas para debaixo de um tapete que já não esconde nada. Nada. Racismo, escravidão, extermínio. Privilégios, condecorações, vida gourmet. O país em que a expressão “persistência do intolerável” pode fazer todo o sentido.

 

*

 

É, a semana não começa leve. Mas talvez seja isso que tento dizer: nossa relação com o Brasil não pode ser leve, não pode ser suave, tranquila, favorável. Sair do Brasil que nos maltrata – ora com suas notícias, ora como personagem de suas notícias – exige que sejamos graves. Chatos. Impertinentes. Não temos o direito de desprezar, esquecer, fingir, deixar pra lá. Quando você percebe que o absurdo toma cada vez mais o noticiário e as conversas casuais (isto é, se já não soa tão absurdo assim o que é absurdo), é hora de reconhecer que, mesmo nas limitadas esferas em que cada um aqui pode exercer alguma influência, não estamos colocando força suficiente. É sobre isso que a crônica do Antonio Prata não deixa dúvida: não temos apenas avançado pouco, mas corremos o sério risco de andar pra trás, a passos largos.

 

[25/4] LICENÇA. Eu ia sair de fininho lá pras bandas do silêncio, mas reza a etiqueta que, como prova de apreço pelos amigos que publicam coisas boas aqui, devemos dizer um até-logo ou coisa que o valha. Volto assim que a listinha de tarefas deixar, mas tô ligado (e sondando o sondável). Qualquer coisa, uso email, celular, mensagens instantâneas, correio, telefone fixo e papo reto. Como diria o Carlos: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

 

[28/4] Gente, ando de folga daqui, um tanto porque a agenda está pesada e outro porque a paciência está no volume morto, mas tive que passar pra dizer como ando encafifado com a mudança de tom da imprensa nos últimos dias: Faustão dá palanque para petista, Fantástico dá voz a vítimas da ditadura, Veja frita Cunha na capa e o editorial do Globo diz uma pérola como esta: “A expectativa é que, passado o impeachment, o Supremo acelere definições sobre acusações a parlamentares encaminhadas à Corte pela Lava-Jato, entre os quais Eduardo Cunha, Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e vários políticos também de outros partidos. Será um desdobramento saudável para as instituições republicanas”. Cara de pau bastante previsível, claro: o golpe já passou (e é pior do que poderíamos imaginar!) e agora é hora de “deixar pra lá”, “panos quentes”. Ao lado dessas maravilhas da democracia repentina, notícias diárias de perseguição a professores e militantes por causa de suas ideias. O que vejo aí é a conjugação de duas medidas duríssimas contra a população: na mídia, desfazer a feição parcialíssima que ajudou a cozinhar o golpe; e nas ruas e escolas repreender com ainda mais brutalidade qualquer contraposição ao “novo governo”, bem como aos “velhos governos” (ladrões de merenda, p. ex.) que ao “novo” se filiam. Disso só pode resultar algo bem parecido com um regime de exceção. Exagero? Espero que sim.

[29/4] Nunca havia entendido bem a expressão “abaixo da crítica”, mas a cada aparição de Janaina Paschoal me parece mais evidente que há um talento admirável para levar o debate para níveis tão baixos, tão alucinadamente baixos que impede que seus críticos acompanhem a viagem. E, claro, impede também que quem precisa se defender de suas acusações consiga estabelecer algum contraditório minimamente razoável. Em suma, a crítica e a defesa ficam sem objeto, porque o que deveria ser seu objeto é apenas uma sucessão espalhafatosa de frases de efeito desconexas. Deste ponto de vista, não havia mesmo pessoa melhor para redigir uma petição contra a qual, de antemão, não se aceitaria crítica ou defesa, uma petição que não seria julgada, mas apenas aclamada, aos berros, “por deus, por minha família, pelo meu estado, pelo meu torturador predileto”. Ok, os golpistas venceram, mas o prazer e a honra de não estar do lado de Janaina e seu time é algo que jamais poderão roubar.

 

[1/5] Com muita alegria divido com vocês a publicação bilíngue de meus poemas mais recentes no site Vallejo & Co., do Peru (e do mundo!). Agradeço ao Fabrício Marques pelo convite, ao Mario Pera pela edição e, muito especialmente, ao Joan Navarro pelas traduções e a Veronika Paulics pela revisão. \o/

http://www.vallejoandcompany.com/13-1-poemas-de-tarso-de-melo/

 

[1/5] “Muitas vezes, mesmo antes da internet, as pessoas iam procurar aquilo que confirma suas crenças, ou que reconheciam como pertencentes ao seu mundo. Isso, eu acho que faz parte. É mais do que natural. O que acho que aumentou foi a diversidade de oferta de possibilidades de discursos, para as pessoas não terem de se identificar com um discurso. Isso ampliou bastante.

E ampliou, também, de certa maneira, uma espécie de independência com relação à própria produção da informação, porque ficou mais fácil: hoje todo mundo pode, de alguma maneira, produzir informação. É claro que você não pode produzir informação na mesma escala que a grande mídia produz. Mas muitas vezes, do ponto de vista qualitativo, você pode produzir, com poucos recursos, uma informação que pode bater de frente com aquela que é feita pelas grandes corporações, e pode apresentar uma outra versão dos acontecimentos, uma outra análise dos acontecimentos. Isso é possível! Antigamente não era possível, porque era preciso ter muito capital para isso. É uma mudança gigantesca.”

Entrevista fundamental do Prof. Laymert Garcia dos Santos, da UNICAMP, sobre nossa (des)conjuntura política e o papel que a comunicação alternativa (diga-se: alternativa aos grandes grupos empresariais de comunicação) deve exercer.

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/654/para-laymert-pais-ja-vive-estado-de-excecao

 

[1/5] Muito triste. Ao ler os argumentos de quem pediu e os de quem deferiu a proibição de uma assembleia acadêmica, fazendo uso de toda a isentíssima “técnica jurídica”, só conseguia lembrar das atrocidades históricas que já foram cometidas sob a feição de “aplicação rigorosa da lei”. Que minha memória tenha andado por aí não é um bom sinal.

 

[5/5] – Se fosse ele, cortava a merenda dessa molecada toda!

– Que merenda?

– Então mandava logo fechar a escola!

– De novo?

 

[5/5] Diante da liminar do STF que afasta Eduardo Cunha do mandato e da presidência da Câmara, podemos afirmar que:

(a) o Ministro Teori demorou tanto porque não teve tempo de julgar essa questão menor da República

(b) estava correto quem disse ao telefone que o STF estava acovardado

(c) o STF não se constrangeu de segurar essa liminar durante toda a parte do processo de impeachment conduzida por Eduardo Cunha

(d) daqui a algumas horas nós vamos engolir a derrubada dessa liminar

(e) Cunha concordou em sair dos holofotes para se ~defender~ melhor nos bastidores

(f) todas as anteriores

 

[5/5] Ementa acróstica do STF hoje:

 

Gângster

Ocupando

Lugar de

Presidente?

Enfim vimos.

 

[9/5]

business man

make as many business

as you can

you will never know

who I am

 

your mother

says no

your father

says never

 

you´ll never know

how the strawberry fields

it will be forever

 

(p.leminski)

 

[10/5] Você passa o dia enroscado em trabalhos e apanhando do noticiário oco de Brasília, mas sua forma de terminar a noite é pouco recomendada: lê um texto sobre as vítimas de Belo Monte, vê um entrevista com a família do Amarildo e folheia um livro sobre os novos ataques neoliberais pelo mundo. É uma forma bem eficiente e dolorosa de deitar convicto de que o buraco é muito mais fundo do que as manchetes de ontem e de amanhã deixam ver.

 

[11/5] Nem tudo que devemos admirar e aprender com Carlos Felipe Moisés é poesia (no sentido singelo de palavras sobre ou sob o papel), mas a parte mais incrível do que foi capaz de transformar em poemas está no volume “Dádiva devolvida”, que vocês conseguem comprar da Lumme, escrevendo para o Francisco no endereço info@lummeeditor.com. Corram.

 

[11/5] (O sol já golpeou o frio da madrugada.

Daí em diante, se há algo a contemplar,

não é da ordem dos astros. É desastre.)

 

[11/5]

Vocês viram algum nome de mulher na lista dos ministros de Temer?

 

Parece mesmo que, por trás do “tchau, querida”, há um retumbante “tchau, queridaS”, apoiado até mesmo por quem perde com ele.

 

Aliás, quem não perde?

 

[11/5] «Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito que tem sido

[…] Vejam como as águas de repente ficam sujas

Não se iludam, não me iludo

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

[…] Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei

Transformai as velhas formas do viver»

 

[12/5] A LUTA CONTINUA. Eu podia ser cínico e dizer: agora sim tivemos uma votação que reflete a vontade dos brasileiros de bem, agora sim teremos um governo honesto, agora sim teremos um governo competente, eficiente, capaz. Mas não é hora de deixar dúvidas: acredito mesmo é que entramos num período que tem tudo para ser dos mais terríveis da história do Brasil, porque começa com um golpe contra as urnas e coloca no comando o que há de pior na classe política brasileira, com sede de vingança não apenas contra Dilma, Lula e PT, mas principalmente contra o modelo de país livre, justo e solidário que se desenhou na Constituição há menos de 30 anos. É este o alvo dos principais ataques. Tem que ser este, portanto, o objeto mínimo de nossa resistência mais astuta e incansável. Teve golpe? Vai ter luta!

 

[12/5] «O macho adulto branco sempre no comando

E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo

Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita

Riscar os índios, nada esperar dos pretos»

 

[12/5] Há quem não saiba que foi um golpe: informe.

Há quem não concorde que foi um golpe: debata.

Há quem não ligue que foi um golpe: alerte.

Há quem comemore que foi um golpe: combata.

 

[12/5] Cadê sua indignação?

 

[12/5] Se você não se incomoda com o fato de Temer assumir o governo tendo cometido os mesmos atos que justificaram o afastamento de Dilma; se você não se incomoda com o fato de Temer ter trabalhado intensamente para derrubar Dilma e assumir seu lugar; se você não se incomoda com o fato de Temer estar negociando os ministérios da mesma forma ou ainda pior do que se condenou nos governos anteriores; se você não se incomoda com um ministério em que não há mulheres, não há negros, não há nem mais os ministérios que se dedicavam a mostrar a importância dessas questões historicamente trágicas em nosso país; se você não se incomoda com os ministros de Temer que são investigados pela Lava-Jato e passaram a ter foro privilegiado (mas se incomodou com a nomeação de Lula); se você não se incomoda ou nem mesmo leu as propostas da “Ponte para o Futuro” que nortearão o governo Temer no rumo da ~austeridade~ com aqueles que sempre perdem em qualquer crise — véi, na boa, confessa: você não liga pra corrupção, conchavos, miséria, autoritarismo, preconceitos, nada disso. Você só não gosta do PT nem admite que um nordestino e uma mulher tenham sido presidentes do “seu” país. Fica mais fácil assim.

 

[13/5] Repare a pressa de Michel. Ela é essencial para seu projeto. A pressa de Michel já aparecia em sua carta (argh!), depois no áudio vazado e nas articulações do pós-golpe que fazia à luz do sol. A pressa de Michel estava no entalhe midiático da primeira dama bela, recatada, do lar. Tudo porque a pressa de Michel é imensa e indispensável para levar a cabo seu projeto. Michel talvez diga que sua pressa se deve à gravidade da crise, mas não é. A pressa de Michel é o bote que tira vantagem do país atordoado, é a batida de carteira depois de uma trombada que distrai. Michel e sua turma não vão deixar esfriar nada, têm poucas horas para atacar todos os seus alvos – e é por isso que a turma de Michel tem que ser a pior possível (“equipe de notáveis”? adjetivos são ocos e alguém bem pode ser um notável pilantra!). E é por isso que hoje o perfil dos meus amigos está de cabelo arrepiado com a velocidade com que declarações e atos de nossas autoridades mudaram de rumo: investigações suspensas, processos arquivados, desmentidos de todo tipo. A pressa de Michel é essencial para os golpistas porque eles sabem que seu projeto não foi votado, não tem nem nunca terá a legitimidade do voto da maioria da população brasileira. Nem Michel acredita nessa história de “quem votou no PT, votou no PMDB também”. Nem Michel! E é por isso que ele sempre foi a liderança de um partido especializado em ocupar o poder sem ser cabeça de chapa, sem dar a cara, porque a cara de Michel e sua turma não agradam, porque a cara de Michel e sua turma é mais impopular – digo: antipopular, contra o povo – do que eles conseguem esconder. Ninguém ganha eleições no Brasil com uma “ponte para a futuro” sob a qual – já disse o André Dahmer – os pobres brasileiros terão que se abrigar. Michel tem que espancar logo, como um Mike Tyson no auge, uma sequência de golpes incontáveis para não ter reação. Se deixar esfriar, se não agir com pressa, o caldo pode entornar. De um lado, a infinidade de investigações que levam a si próprio e a seus sócios pode chegar até o pescoço do seu “governo”. De outro, o povo pode começar a perceber e se organizar contra os ataques. Passando o rodo de uma vez, quando a gente se tocar, levantar os olhos da tela do facebook e olhar em volta, tudo já terá sido engolido. Golpe é golpe. Só vai nos restar a satisfação sem graça de andar por aí repetindo “eu não disse?” para um interlocutor que não mais estará ao nosso lado. Ou talvez nunca tenha estado.

 

[13/5] O sanduba tá bom. Farto, preço honesto. Vem com fritas e Coca, mas cercado de papo político: “são tudo bandido também, mas pelo menos tiraram aqueles vagabundos”. Servido?

 

[13/5] “Eu conheço o bicho humano. É o único animal que tropeça 20 vezes na mesma pedra. Cada geração aprende com aquilo que vive, não com o que as outras viveram”. Já postei aqui essa lição do Mujica, mas é sempre bom ouvir e ouvir e ouvir de novo:

 

[13/5] “É verdade que o país ainda está longe de alcançar os objetivos expressos no texto constitucional, tais como erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais. Mas também é verdade que avanços têm sido perpetrados neste caminho, desde a redemocratização. Por isso, é preciso defender inabalavelmente as recentes e, por isso, frágeis conquistas, e anunciar que toda e qualquer medida que implique em retrocessos será deflagradora de profunda repulsa e denúncia por parte dos movimentos de direitos humanos.”

Nota pública fundamental da Conectas Direitos Humanos:

http://www.conectas.org/pt/noticia/45639-retrocessos-inaceitaveis

 

[13/5] Lembrete: “In our age, the mere making of a work of art is itself a political act” (W. H. Auden, “The Poet and the City”).

 

[14/5] ~dias tão estranhos~

 

[14/5] Os “secundas” estão mostrando a todos nós que a luta pela educação tem condições de ocupar, com centralidade, o lugar que outras lutas populares tiveram em épocas recentes no Brasil. Se na virada dos 70 para os 80 a luta dos metalúrgicos foi capaz de transcender os limites da reivindicação trabalhista e passar a ser um elemento-chave na luta por democracia; se daí em diante a luta dos sem-terra passa a ser também uma luta por melhor alimentação, produção sustentável e, claro, também por uma sociedade mais justa e democrática em todos os setores; a cada embate dos estudantes com as autoridades fica mais evidente a força que o debate sobre educação pode ter numa transformação de nossa sociedade para muito além dos portões das escolas. A gente repete, meio no automático, que a educação é fundamental, mas percebe mesmo é que o fundamental para uma sociedade problemática é que a educação esteja sempre lado a lado com o questionamento da lógica que se impõe aos estudantes dentro e fora das escolas. É isso que a moçada está fazendo. No ritmo deles. E me parece que não vão ligar nem um pouco para quem vá lá dizer como deveriam lutar ou não lutar. O baile é deles. Num momento de profundo retrocesso como o que estamos vivendo, é um grande alento ver surgir, com tanta força e alegria, gente nova que quer vida nova.

 

[15/5] O atraso tem pressa – incrível, não?

 

[16/5] Marchas, panelaços, apitaços, vomitaços. Parece pouco, pode ser, mas é muito importante tudo que puder lembrar – nas ruas, janelas, telas – que o governo está nas mãos de golpistas. Sigamos fazendo o barulho que estiver ao nosso alcance.

 

Boa semana de luta!

 

PS: Por que o panelaço contra Temer é diferente do panelaço contra Dilma? Não bati panela, mas entendo quem o fez hoje. Vejo um problema nesse tipo de panelaço que virou moda aqui: fazer barulho para não ouvir o que seu “oponente” está dizendo. O ideal, a meu ver, seria ouvir para depois contestar. Dilma, que foi eleita por 54 milhões de brasileiros, tinha todo o direito de ser ouvida em seus pronunciamentos. Devia e deve ser respeitada quando estiver falando, porque respeitá-la é respeitar todos que nela votaram. Mas esta não é a situação de Temer, que saltou de vice a presidente por força de um golpe contra a pessoa e o partido que mobilizaram a votação vencedora. Temer não tem legitimidade para exercer o cargo e, portanto, não temos qualquer razão para respeitar seus pronunciamentos. Quando Temer fala como presidente não temos razão alguma para ouvi-lo como presidente: o cargo não é dele, a cadeira não é dele, a caneta não é dele. Quando pega o microfone e fala como presidente, Temer tenta esconder sua ilegitimidade, então é bem razoável sufocar sua fala mansa e seu mandato falso.

 

[16/5]

Passamos mais de uma década dizendo que não era um problema de “mais corrupção” (houve muita, sim, como sempre), mas de “mais fiscalização e punição” que dava a impressão de estarmos diante do governo mais corrupto de todos os tempos, quando em verdade estávamos diante dos governos que mais se deixaram fiscalizar e punir em nossa história.

Da montagem do ministério de notáveis suspeitos às declarações de Alexandre de Moraes hoje ([o MP de SP] “Investiga vários casos. A única diferença em relação ao governo federal é que o governo de SP é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalo”), passando pela imediata extinção da Corregedoria Geral da União, tudo indica que o interregno Temer vai se distinguir pelo contrário: fiscalizar menos, punir ninguém, proteger os seus e, assim, passar a impressão de que a corrupção morreu junto com o governo golpeado. E a grande imprensa, com certeza, terá prazer em ser parceira dessa empreitada. Voltaremos a não saber da existência, então voltaremos a achar que não existe.

 

O que vejo à frente me parece tão ruim que só espero estar errado, bem errado!

 

[16/5] SAI DA TOCA, BRASIL – A série de textos que Alexandra Lucas Coelho escreveu sobre o Brasil nas últimas semanas é pra imprimir e guardar no bolso. Pra pensar e pensar. Alexandra é de e vive em Portugal, mas está longe de ser a “observadora distante” de nossa improvável realidade, seja porque morou no Rio durante um tempo, seja porque dialoga intensamente com o que há de mais vivo na cultura brasileira. É ler pra crer.

(1) https://www.publico.pt/…/notic…/sai-da-toca-brasil-1-1730002

(2) https://www.publico.pt/…/notic…/sai-da-toca-brasil-2-1730587

(3) https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/sai-da-toca-brasil-3-1731036

 

[17/5] Diante do noticiário, você costuma se

(t) assustar

(e) desesperar

(m) enojar

(e) revoltar

(r) todas as anteriores

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Um comentário sobre “Quase-diário de um (e)leitor em tempos de golpe

  1. dalila teles veras 18 de maio de 2016 / 14:25

    Que bacana, Tarso! Diário fantástico destes dias que não são dias, mas décadas. Aqui, ficam mais “protegidos” e ao mesmo tempo disponibilizados a qualquer momento. O face é descartável e tudo some por lá. Parabéns da leitora dalila

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