Do fb

[18/5] É incrível a velocidade da catástrofe. São tantos atos e ameaças conjugados de desmanche, uma implosão do sistema público em tantos setores, uma pancada a cada 10 minutos, que corremos o risco de cair perplexos, atônitos e de mãos atadas diante de tudo isso. São ataques ao SUS, aos programas e direitos sociais, às universidades, ao combate à corrupção, a tudo que deveria, pelo contrário, ser preservado e ampliado de acordo com a Constituição (ainda) vigente. Teremos muito trabalho de resistência pela frente! Um exemplo de hoje, antes que pudéssemos falar bom dia:

Maurício Romão na SERES do MEC

 

[18/5] Já pararam pra pensar que se cada um aqui – eu, você e todos que estiverem ou vierem para o mesmo lado – não aceitar fazer parte do golpe e de todas as suas farsas, nas mais variadas dimensões, por mais que ele ainda continue insistindo, será menor, bem menor do que seus artífices imaginam e precisam que seja? Tal postura envolve até mesmo não pedir a esse “governo” a manutenção de nada, porque ele próprio é que não deve se manter lá. A cada um que diz NÃO, que se posiciona contra, que age contra, que se nega a colaborar, mais demarcadas ficam as linhas do golpe e, quero crer, mais vulneráveis os golpistas estarão. Dá até um certo ânimo pensar assim. E o que esse vídeo tem a ver? Talvez nada, mas é bem bonito e o que é bonito nos deixa mais fortes pra luta – não esqueçam.

 

[18/5] Imensa perda. Um gigante. Minha dívida pessoal pode ser resumida ao incrível “Poesia Russa Moderna”, que Boris traduziu com Augusto e Haroldo de Campos: foi o livro que me prendeu de vez a essa coisa chamada poesia. Volto sempre a ele, como voltarei hoje para celebrar Boris Schnaiderman. Gratidão.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/05/1772709-tradutor-do-russo-boris-schnaiderman-morre-em-sao-paulo-aos-99-anos.shtml

 

[18/5] Eis que aparece um “jurista” dando bronca porque a esquerda diz que colaborar com os golpistas é aderir ao golpe. Qual a dúvida? Aliás, quando vejo alguém chamar aquilo de “governo Temer”, sinto algo parecido com o asco de ouvir o golpe militar ser chamado de “revolução de 64”. Golpe é golpe e quem colabora é golpista. Mas nunca diz que é.

 

[18/5] UM ABRAÇO NO POSSIDONIO

Caros amigos,

Possidonio está chegando perto dos 85 anos. Aqui na Av. Portugal, 397, Santo André, o Antonio Possidonio Sampaio é simplesmente Sampaio ou APS. Ou Dr. Antonio, para alguns. Trabalho com ele há mais de 15 anos e, pela primeira vez nesses anos todos, APS está há quase uma semana sem vir ao escritório (que não seja por causa de férias, claro, coisa que advogado de vez em quando tem!). Está passando por um tratamento complicado, mas ainda assim manteve até dias atrás o hábito de vir ao escritório ler o jornal, conversar um pouco, ver as pessoas, as ruas, sentir o que se passa com elas – ruas e pessoas. Foi com ele e com seu irmão Teles que aprendi que a advocacia não precisa ser um emaranhado de formalidades e distância das pessoas reais, com seus problemas reais, angústias e urgências realíssimas. Pelo contrário, é aí – sem pompas e, se possível, sem gravatas no peito e na língua – que o advogado deve estar. Acho que foi por isso, para continuar dando esse exemplo, que ele continuou fazendo o esforço de vir ao escritório até a semana passada, mesmo cansado, com dores, fraquinho.

Quem o conhece sabe que se trata de uma figura rara, de empolgação rara com questões jurídicas, políticas e culturais. No escritório, no sindicato, no Alpharrabio, em todo canto por onde passa planta amizades e admiração, porque é capaz de contagiar qualquer turma com sua vontade de fazer, de chacoalhar, de manter chamas acesas.

Agora que a chama de Possidonio anda frágil, acho que é hora de suas turmas todas mandarem de volta um pouco da energia que ele espalhou por aí e, tenho certeza, ainda queima quando seus amigos ouvem seu nome. É por isso que escrevo: Possidonio é um homem que ama textos. Leu e escreveu diariamente a vida inteira e fez de tudo para que muitos outros lessem e escrevessem também, até mesmo manter uma biblioteca lá na sua pequena cidade natal no sertão da Bahia – Iaçu. E esse homem de textos ficará muito feliz se receber algumas palavras de vocês e de outros a quem vocês consigam fazer chegar este meu pedido. Peço urgência e prometo que vou fazer chegar até ele as palavras de cada um de vocês, as palavras que se animarem a colocar no papel para manter acesa a prosa com Antonio Possidonio Sampaio.

Agradeço muito desde já, abraços!

Mandem para tarsodemelo@hotmail.com

 

[20/5] Vocês já repararam que, historicamente, toda figurinha autoritária bate logo de frente com qualquer liberdade nos campos da educação, cultura e artes? Assim como toda figurinha sórdida que depende das trevas para tomar a grana de quem participa de seu rebanho quer logo limitar o conteúdo da educação, o sentido da cultura e o espaço das artes? É porque costumam ser atividades naturalmente libertárias, incômodas, imprevisíveis, e, quando de fato o são, tendem a desestabilizar as convicções de que poderosos dependem para se manter no poder – e, claro, eles dependem mais na medida em que são menos legítimos. Taí uma boa razão para não largar essas bandeiras nunca, muito menos neste momento.

 

[22/5] O texto abaixo, do Matheus Pichonelli, foi censurado pelo facebook. Tem forma mais eficaz de dizer que um texto é bom e necessário? Lá vai:

“Sonhei que saía uma nova versão da Bíblia e que nela o personagem principal era um messias reaça que ganhava seguidores no Twitter dizendo:

-Eu trabalhei pra conseguir esse pão e não preciso dividir com ninguém. Não to aqui pra sustentar vagabundo;

-Antes de multiplicar o peixe é preciso ensinar a pescar;

-Maria Madalena vai ser apedrejada? Mas também, andando sozinha a essa hora da noite, alguma coisa ela fez;

-Pai, seja feita a sua vontade. Vou cortar meu cabelo como homem;

-Vou transformar esse vinho em água. Não pense em festa, trabalhe. Gente festiva me irrita profundamente;

-Sou contra, aliás, a descriminalização do vinho;

-Amai-vos uns aos outros. Só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher;

-Eu apoio a terceirização dos apóstolos;

-Virar a outra face? Quero ver se fosse com alguém da sua família;

-Em verdade vos digo: um de vos irá me trair. MAS SEM VIADAGEM KKKK;

-Os fariseus e doutores da lei chegaram onde chegaram por ME-RI-TO-CRA-CIA;

-A César o que é de César; a Deus o que é de César;

-No meu governo vou dar um Ministério aos Vendilhões do Templo;

-Tá com dó de Barrabás? Leva pra casa!”

 

[23/5] Um documento histórico. Muito elucidativo. Para ler e refletir. Os homens de bem (ou de bens) planejando o combate (ao combate) à corrupção. Se metade do que está dito aí for verdade, fica ainda mais evidente por que Dilma tinha que cair: ela não deixava acontecer esse “grande acordo nacional” a que o ministro se refere. De fato, quem vê algo de bom nesse acordo tem motivos para comemorar.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml

 

[23/5] Agora, o que eu queria mesmo era ouvir o áudio do Jucá ou de seja lá quem for dando muita risada de quem passou os últimos meses discutindo tudo isso como questão técnica jurídica… “veja bem, está previsto no artigo tal”, “olha, a acusação tem 3 pilares”, “a pedalada é crime de responsabilidade”, “o rito foi definido pelo STF”… Ai ai ai…

 

[23/5] Era um fim de tarde tranquilo na minha cabeça. 16 de março de 2016. A bateria do celular estava perto do fim, então nem tirei do bolso. Eu ia de ônibus do Itaim Bibi para a República e até achei que aquele trânsito todo era normal. Quando chegou perto da Paulista, o trânsito estancou de vez e tive que descer do ônibus. Aproveitei e segui até a República andando. Andar e pensar um pouco. Seiva, veneno ou fruto: não sei se era o livro da Júlia e o clima tranquilo do lançamento que me distraiam, mas eu não juntava num fato só os manifestantes que havia visto na Paulista, os gritos e buzinas que vinham dos carros, de muitos táxis, de alguns pedestres de verde-amarelo, e os helicópteros parados sobre a região. Chegaram Renan e Carolina, depoisEduardo e Veronica, e eu percebia que a resposta ao “tudo bem?” era estranha, engasgada, “tudo, né?”. Na roda, apenas eu não sabia até então do vazamento criminoso de grampos telefônicos entre o ex-presidente e a presidenta quase ex. Não demorou até que o assunto escapasse das gargantas e virasse meu sossego do avesso. Como assim? Como assim? E de repente aquilo tudo – a Paulista parada, as pessoas xingando, a buzina dos carros, os helicópteros sobre a cabeça, a perplexidade na cara dos amigos – tudo dava um nó. E o nó era no pescoço de Dilma e Lula. Já se passaram dois meses desde então: posso dizer que se consumou o golpe que, naquele dia, ganhava um empurrão absurdo. Hoje, no entanto, um senador-ministro do governo golpista tem suas conversas com um empresário nas manchetes dos jornais. Fala de tudo, dá nomes aos bois: do Executivo atual, da cúpula do Legislativo e do Judiciário, do alto empresariado. Expõe toda a mecânica e os objetivos do golpe. A vida, no entanto, segue? Não sei como está São Paulo hoje. A Paulista talvez esteja parada pelo trânsito da segunda-feira, talvez falte teto para os helicópteros, talvez esteja frio demais para protestos. Talvez aqui nem toda notícia tenha o mesmo peso.

 

[23/5] Tudo bem, o áudio de Jucá apenas reforçou o óbvio: jogou Luminol na cena do golpe. Mas temos que perguntar de hoje em diante: o plano a que Jucá se refere – figurões de todos os poderes unidos para barrar as investigações contra si próprios e seus sócios – terá sucesso? Seus primeiros atos – o “impeachment” e o “governo” Temer – já se consumaram e quase já não se ouve o trivial estardalhaço da Lava-Jato. Cadê toda aquela disposição institucional – da PGR, de Curitiba, do STF etc. – para perseguir e desbaratar quadrilhas? É curioso, aliás, lembrar que o áudio de Jucá já estava com Janot (desde quando?) e só foi revelado numa segunda-feira qualquer. Tem caroço nesse angu?

 

[23/5] O Brasil tem memória? Não sei, mas eu tenho um pouco. Lembram daquela cartinha do Temer Ferido para Dilma, a Má? Pois bem, leiam esta frase: “Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo”. Ela tinha razões para desconfiar dele e do PMDB? E mais: tem como não amar?

 

[23/5] (Quando vaza por aí a raiva toda que esses picaretas têm da Dilma, raiva mesmo, bruta, brutal, e por razões normalmente inconfessáveis, fico com a impressão de que ela talvez seja bem mais necessária naquela cadeira do que eu mesmo costumo crer.)

 

[24/5] DONI. Não domino as margens do sonho. Na verdade, gosto delas assim. Eu folheava os livros de um lançamento em que certamente ele estaria, como estava em todos. Olhava as fotos dos amigos que lá estiveram depois que eu mesmo já era ausência e vi ali a ausência luminosa dele. Na tevê passava Anthony Bourdain vasculhando a comida e os modos de São Paulo, depois os bares em Dublin. E eu lembrava como ele gostava da comida e da bebida dos lugares, principalmente dos lugares, das pessoas, das bebidas. E lembrava que agora ele, mineiro de São Paulo, minerador, tinha uma filha andando pela Irlanda e que talvez ele, assim como ela, tivessem um humor parecido com o tal Bourdain e dissessem sobre São Paulo e Dublin as mesmas coisas. Ele, ela e o cozinheiro erguiam suas Guinness e não queriam falar de nossos dias. E eu lembrava do preço esdrúxulo de uma Guinness aqui perto, mas, ok, um copo dela certamente faria sua felicidade. Um papo ao redor do copo, alguns poemas, toda a risada do mundo. No sonho, se bem recordo, não há saudade.

 

[24/5] Um prato cheio. Imenso. Farto. O Brasil dos últimos meses – e de sempre? – é um baita objeto para jornalistas, escritores, historiadores, cientistas políticos, sociólogos, juristas, economistas, todos. Para todos que exercem tais funções com seriedade, claro. Para viver, no entanto, assusta um pouco.

 

[25/5] Mais um áudio que joga luminol na cena do golpe. Muita gente tem que se explicar, inclusive no STF, na PGR, no Jaburu, na imprensa e, claro, no Senado, um Senado em que estão Renan, Jucá, Aécio, entre outros envolvidos, e será presidido pelo Lewandowski para julgar Dilma, mas parece que a condenação dela em todas as casas e cortes já estava bem definida entre esses senhores nomeados aqui. Por quê? Acredito que era apenas por não estar disposta a (corrijo: ou não ser a pessoa certa para) fazer o grande acordo de sobrevivência impune a que esses políticos e empresários tanto almejam. Ainda.

PS: esta é a frase historicamente mais dolorida de toda a conversa, pelo que diz da nossa “redemocratização” de ontem, pelo que diz da nossa “democracia” de hoje: “como foi feito na Anistia, com os militares, um processo que diz assim: ‘Vamos passar o Brasil a limpo, daqui para frente é assim, pra trás…’ [bate palmas] Porque senão esse pessoal vão ficar eternamente com uma espada na cabeça, não importa o governo, tudo é igual.”

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774719-em-conversa-gravada-renan-defende-mudar-lei-da-delacao-premiada.shtml?mobile

 

[25/5] Linha sucessória da Presidência da República hoje: depois do interino Michel Temer, vem Waldir Maranhão, Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski. Confere? Tirem suas conclusões.

 

[25/5] STF homologou delação. E agora, Janot?

 

[25/5] Nas próximas segunda e terça (30 e 31/5), acontece o ciclo “Defensores e Defensoras: um panorama da resistência”, organizado pela profa. Ariani Sudatti, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC/SP. Alguém aí tem dúvida de que precisamos multiplicar as resistências em defesa dos direitos humanos imediatamente? Bom feriado e até lá!

http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/defensores-e-defensoras-um-panorama-da-resistencia?nocache=1591865860

 

[25/5] Nossa cultura naturaliza a violência sexual – e não há exagero algum em dizer isso. Tanto naturaliza que, não só não percebemos, como defendemos que não há nada demais em piadas como essas que fizemos sobre o político que ia ser comido e o ator que quer f… o país. Mas quando chega a notícia de que, no Rio de Janeiro, um “marido traído” juntou 30 amigos para violentar sua esposa dopada, filmou e divulgou as imagens? Não foi um “louco” ou dois, foram 31 amigos justiceiros vingando – com prazer, com alegria, sem receio – a traição de um parça. Coloque aspas em todas as palavras aí, menos no número: 31 homens se sentem no direito de violentar uma mulher seja lá por qual motivo e esse número dá uma boa mostra de como andam as coisas em nosso país no quesito violência contra a mulher. Estão ao nosso redor os homens que se disporiam a participar de algo assim? Temos o dever de perguntar. Nos últimos dias, coincidentemente, tenho lido “Missoula”, o livro de Krakauer sobre estupros numa cidade universitária dos EUA e a espécie de “sistema social” de proteção dos criminosos e de culpabilização das vítimas. Lá e cá a coisa vai muito mal. Temos que conversar sobre isso.

 

[26/5] Se tem um lado ~bom~ em toda essa porcaria é que os bandidos de todos os níveis – de estupradores a golpistas – não estão muito preocupados em esconder seus crimes: eles mesmos se grampeiam e vazam, fazem selfies no local, legendam as fotos, contam detalhes etc. O dia em que conseguirmos tirar proveito disso contra eles, estamos em vantagem.

PS: a propósito, como será que essas notícias de golpes escancarados e estupros coletivos são lidas pelos estrangeiros que pensam em vir para as Olimpíadas?

 

[27/5] Pra quem queria ver, tudo isso já era bastante evidente. Idiotas como os líderes desses grupos não se alçariam ao destaque que ainda têm sem o apoio dos barões do golpe. Mas que é engraçado ver os detalhes, ah isso é!

E pensar que muita gente foi pra rua encantada pelo “apartidarismo” deles…

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/05/27/maquina-de-partidos-foi-utilizada-em-atos-pro-impeachment-diz-lider-do-mbl.htm

 

[27/5] “Escárnio” é uma palavra que tem vindo muito à cabeça nos últimos dias. E outra é “asco”. Agora o Vladimir Pinheiro Safatle explica a primeira delas:

 

ESCÁRNIO

Vladimir Safatle

Folha, 27/05/2016

 

Esta é a melhor palavra para descrever as duas primeiras semanas de governo provisório. Escárnio produzido por ministros com declarações bombásticas de reformas absurdas e desmentidas no dia seguinte, como se fôssemos obrigados a viver em um estado contínuo de desorientação e desgoverno.

Escárnio de outros ministros grampeados em conversas nas quais o apregoado impeachment moralizador se mostra como a cortina de fumaça para livrar seus pescoços da guilhotina da Lava Jato. Escárnio de um governo que terceirizou sua política econômica para o sistema financeiro.

Governando o país como um açougueiro, seu ministro-banqueiro apresentou ao país um plano de cortes que visa conservar intacto os lucros de seus amigos banqueiros e os rendimentos de seus sócios rentistas.

Diante dos desafios da economia, não passou na cabeça de sua equipe utilizar reservas internacionais, aumentar impostos para os ricos, recriar a CPMF, taxar lucros bancários ou auditar a dívida pública brasileira. Nunca na história recente deste país alguém teve a coragem de apresentar um plano que penalizasse tanto a população mais pobre, que sofrerá nos próximos anos o resultado da limitação dos gastos em educação e saúde, além da retração do Estado como agente indutor de investimentos.

A viabilidade do SUS, um sistema universal para 180 milhões de pessoas e que cobre um território quase do tamanho de toda a Europa, encontra-se ameaçada.

Não por outra razão, seu “ministro da Saúde” afirmou, em um lapso de honestidade, que considerava a manutenção de sua universalidade inviável. Da mesma forma, aqueles que saíram às ruas em 2013 exigindo uma “educação padrão Fifa” terão que se contentar com uma “educação padrão restos a pagar”, marcada até mesmo pelo risco de eliminar o piso nacional de salário para professores.

Enquanto isso, seu ministro da Educação produzia mais um escárnio à comunidade educacional utilizando seu tempo, que deve estar bastante livre, para receber “propostas” de grandes estudiosos da educação nacional como o senhor Alexandre Frota e seus amigos do Revoltados Online. Ao ser questionado sobre a pertinência de tal encontro, o referido ministro saiu-se com a afirmação de que “esse ministério comporta a pluralidade e o respeito humano a qualquer cidadão”.

Então que tal começar por explicar por que um dos primeiros encontros do senhor ministro é com pessoas que nunca pisaram em uma sala para dar aulas, mas que, com uma discussão esdrúxula de “escola sem partido”, visam exatamente impedir que a pluralidade seja ensinada a nossos alunos?

Pessoas que não querem que nossos alunos sejam confrontados a diferentes leituras do mundo, a processos que questionem suas certezas e a representações e opiniões que desenvolvam sua capacidade crítica.

Segundo esses pilares da educação nacional, nossas escolas estariam infestadas de marxistas doutrinando nossos alunos. Não por acaso, esse era o discurso que ouvíamos no início da ditadura militar. Pois foi diretamente de lá que essa discussão retornou.

No entanto, qualquer um que realmente leu os livros que nossos alunos recebem nas escolas públicas sabe que eles conhecerão tanto a visão liberal quanto a visão marxista, descobrirão tanto quem foi Marx quanto quem foi Locke e Adam Smith. Eles terão visões distintas sobre fatos históricos complexos e poderão compor um quadro no qual várias matrizes se apresentam.

Mas talvez essas sumidades queiram mais. Por exemplo, talvez elas queiram que não se fale da tortura na ditadura militar, que se mostre que há também “um outro lado” para o qual torturador é herói.

Bem, segundo essa lógica, poderíamos então ensinar os “dois lados” do nazismo e do “antisemitismo”, por que não? E se é para retirar toda “ideologia” da escola, que tal aproveitar e começar por fechar as escolas confessionais? Afinal, tem algo mais “ideológico” do que religião?

Sugiro também impedir toda discussão sobre ética e moral. Pois conceitos como “liberdade”, “autonomia”, “diversidade”, “igualdade”, “respeito à alteridade” são necessariamente carregados de “ideologia”.

Saint-Just afirmou, no calor da Revolução Francesa: “Aquele que brinca ao ocupar o coração do poder tende à tirania”. Vendo o que o governo interino ofereceu ao país nessas duas primeiras semanas, a única coisa a dizer é: “Eles só podem estar brincando”.

 

[27/5] Diante do horror escancarado, o caminho mais curto é dizer que os 33 estupradores da menina e todos os outros estupradores são monstros, animais, selvagens, em suma, exceções entre nós, sempre tão civilizados. Mas a Taylisi Leite mostra que eles estão bem mais próximos do que imaginamos: aqui ao lado, aqui dentro, íntimos, vivendo do caldo cultural que servimos.

http://www.deminuto.com.br/index.php/2016/05/27/voce-e-conivente-com-o-estupro/

 

[27/5] O vídeo do estupro circulou pelo whatsapp e outros aplicativos. Devo, então, um agradecimento às (poucas) pessoas e aos (poucos) grupos com que troco mensagens: não recebi esse vídeo nem recebo coisas assim. Continuemos assim. E espero que vocês possam dizer o mesmo de outros grupos de que participam. Podem?

 

[28/5] “Você tinha o hábito de fazer sexo grupal?”, esta foi a pergunta do delegado. As capas dos jornais hoje falam de estupro. Os programas de tevê, as redes sociais e as pessoas na rua falam de estupro. Sobre eles ronda a sombra da impunidade. Acabei de ler “Missoula”, do Krakauer, que fala de estupros na universidade e de impunidade. Ontem, enfim, assisti “Spotlight”, grande filme, que fala de estupro de crianças e impunidade na igreja católica. Li há alguns dias “Breves entrevistas com homens hediondos”, do Foster Wallace, que em parte também fala de estupro e de impunidade. Não é casual que essas obras e tantas outras que falam de violência sexual falem da impunidade como sua contraparte, como seu complemento necessário. É como se dissessem: é a nossa capacidade de relativizar e, portanto, deixar de reconhecer (juridicamente, mas não só) os criminosos como tal que faz com que esses crimes se banalizem. Os números citados em “Missoula” e “Spotlight”, bem como aqueles que têm circulado por aqui nos últimos dias são aterradores. Diante deles, ninguém tem direito de dizer que já falaram demais do assunto, ninguém tem direito de procurar nas vítimas qualquer característica que relativize a culpa dos estupradores, ninguém tem direito a deixar a indignação de hoje virar piada ou esquecimento amanhã. A impunidade depende disso.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/28/politica/1464442969_569756.html

 

[29/5] Ótima entrevista da presidenta Dilma:

“A senhora então sustenta que o impeachment foi apenas uma tentativa de se barrar a Operação Lava Jato?

Foi para isso e também para colocarem em andamento uma política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto. Com cortes drásticos de programas sociais. Um programa que não tem legitimidade pois não teve o respaldo das urnas.”

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1775968-cunha-manda-e-governo-temer-tera-que-se-ajoelhar.shtml?mobile

 

[29/5] Vocês veem maldade em tudo! Um réu e seu juiz não podem tomar um drinque na noite de sábado? E isso influenciaria nos julgamentos? Que teoria da conspiração!

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1776013-temer-recebe-presidente-do-tse-no-palacio-do-jaburu.shtml

 

O currículo de Gilmar é uma prova impressionante de que amizades não têm limites!

 

Com Sinval Barbosa:

 

Com Abdelmassih:

http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2014/09/05/gilmar-mendes-deu-a-adbelmassih-a-liberdade-que-as-vitimas-nao-tiveram.htm

 

Com Aécio:

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/ao-barrar-investigacao-gilmar-suspende-ate-depoimento-de-aecio/

 

Com Jucá:

http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/05/gilmar-mendes-diz-nao-ver-tentativa-de-juca-de-obstruir-lava-jato.html

 

Com Riva:

http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/05/gilmar-mendes-diz-nao-ver-tentativa-de-juca-de-obstruir-lava-jato.html

 

Com o PSDB:

http://m.jb.com.br/informe-jb/noticias/2012/07/27/revista-mostra-registros-de-pagamento-a-gilmar-mendes-pelo-mensalao-do-psdb/

 

Com doações privadas:

http://www.cartacapital.com.br/politica/gilmar-mendes-perde-e-stf-veta-doacao-de-empresas-2560.html

 

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