Do fb pra cá: agosto

 

[1/8] «A senhora sofreu preconceito no Brasil?

Deborah – Antes de responder, queria explicar que, diferentemente dos Estados Unidos, onde a luta é entre brancos e negros, no Brasil a batalha é entre negros e não negros. Aqui, quanto menos negro você for, melhor. As pessoas deixam de usar o cabelo com cachos e roupas afros para parecer menos preto. Eu sou negra, minhas roupas são coloridas e amo bijuterias. As pessoas me olham diferente, porque não estão acostumadas a conviver com uma pessoa como eu. O preconceito aparece no dia a dia. No hotel, durante o café da manhã, perguntaram cinco vezes se eu estava hospedada aqui, porque era a única negra sendo servida. Em Salvador, estava à beira-mar com um amigo quando um desconhecido perguntou quanto eu custava. Na cabeça dele, eu só podia ser uma prostituta. Não me entenda mal, eu adoro o Brasil, mas vocês precisam enxergar que são preconceituosos, mais do que gostariam de admitir. Isso não é demérito do brasileiro, apenas. Moro na Califórnia, onde, em tese, as pessoas são descoladas. Toda vez que vou à praia com meu neto de 4 anos e meio, vejo famílias guardando os objetos pessoais, como se meu neto, um bebê de sunga, fosse roubá-los.»

http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/08/os-atletas-negros-deveriam-boicotar-olimpiada-no-brasil.html

 

[2/8] (Mais de sete bilhões de pessoas no planeta, mais de quatrocentos milhões na América do Sul, mais da metade delas no Brasil. Passeio por aqui entre quatro mil e tantos amigos e, por vezes, é muito bom estar dentro desta caverna, agarrado aos mitos que alimentamos. Mesmo quando não é bom, é intenso, pleno, absorvente. Até um ponto em que temo não erguer mais a cabeça e ver o quanto há lá fora. E espanta que essa imagem tão batida ainda perturbe tanto.)

 

[2/8] Você pode ser da turma preocupada com os danos ou com as medalhas das Olimpíadas; da turma ansiosa ou furiosa com o impeachment; da turma que acha que nunca houve tanta ou nunca se ouviu tanto falar de corrupção. Seja de que turma for, só acho que você não tem razões para negligenciar que, enquanto a gente brinca de acender e apagar tocha, em Brasília estão avançando sem muitos percalços alguns projetos de lei e emendas constitucionais com potencial para aniquilar a Saúde e a Educação Públicas, a Previdência e a Assistência Sociais, entre outros setores fundamentais para a sobrevivência do país. Uma “reforma” radical contra os trabalhadores, que não toca, nem de raspão, nos interesses privilegiados do grande capital por aqui. Tente se informar. Era o que eu queria dizer pra vocês antes do boa-noite, mas talvez não seja uma boa hora pra dormir.

 

[3/8] Crônica, meus caros, é aquele tipo de texto que mais se parece com uma foto perfeita. E perfeita não quer dizer bonita. Quer dizer: o melhor retrato de algo que todos descartariam, mas que você faz questão de guardar. Não substitui o poema, o conto, o ensaio, o romance, nem pretende. Vai por outro caminho, mas muitas vezes chega primeiro. Nessa arte temos um grande passado e um presente também admirável – nele se destaca, já há um bom tempo, o Antonio Prata. Desde sempre as crônicas vão parar nos lugares mais suspeitos, a começar pelo fato de que eram feitas para durar tanto quanto o jornal do dia, mas agora contam, quando são fortes, com a sobrevida dos compartilhamentos nas redes sociais. Ocorre também de passarem a morar em livros, de virarem músicas, filmes e, quem sabe, transmutarem-se em poemas, contos, ensaios, romances… Enfim, nascem agarradas a um dia preciso do calendário, mas são imprevisíveis. Por que eu escrevi tudo isso? É que no vídeo ao lado (abaixo?) uma crônica do Antonio Prata virou um curta emocionante, tão emocionante que quase não percebi que, na verdade, o que o grande cronista faz, com palavras, é tirar um retrato da nossa vida igual a esse que o taxista gostaria de ter de sua esposa – sem pose, sem maquiagem. Vá lá, vá.

https://www.youtube.com/watch?v=QhhsJyodPHs

 

[4/8] Logo cedo, num café distante, vejo um marmanjo andando com os olhos fixos no celular. No celular e em mais nada. Ele volta pra perto da mesa em que estava e fala algo sobre pokemons. Um marmanjo absorto, um celular, pokemons pelo ar. E eu fico pensando na existência de um Comitê Supremo de Dominação da Humanidade, em que 3 ou 4 seres tão criativos quanto sarcásticos disputam, entre gargalhadas, quem consegue ir mais longe na demonstração de seus poderes. Um marmanjo absorto, um celular, pokemons pelo ar. Ou foi o tal Comitê que pensou nisso ou lá muito invejam quem o fez. Só acho.

 

[4/8] Para assistir com calma, grave aí. Uma inteligência rara.

https://www.youtube.com/watch?v=I7arqW5luKc

 

[5/8] AMOR CELULAR. Esse papo todo do povo caçando alucinações com seus smartphones pelas ruas me fez pensar numa coisa. Na verdade, em muitas… Vi muitos dizendo que quem criticava a onda era inimigo da tecnologia etc. De minha parte, não me considero inimigo da tecnologia. Talvez devesse ser, mas não sou. A gente trabalha e aprende e sofre e se diverte num computador manhã, tarde, noite e madrugada. Em paralelo às horas todas de trabalho e também às de sono, às de distração, às de locomoção, está lá ao alcance da mão esse outro computadorzinho que, de vez em quando, serve como telefone. Não tem muito como fugir disso, mas tenho admirado cada vez mais as pessoas que convivem bem com a parafernália de hoje, em especial aquelas que chegam ao ponto de desprezar completamente o circo todo que nos prende aos celulares. Mas, ao menos por enquanto, sei que é muito difícil ser um desses. Não só para mim, para a maior parte de nós. A vida não tem deixado. E é justamente nisso que pensei de ontem pra hoje. Já fui daqueles que dizem que as pessoas estavam idiotizadas pelo celular, andando pelas ruas com a cabeça enfiada sabe-lá-deus em que besteira, rolando a tela infinita das redes sociais ou trocando mensagens que bem poderiam deixar de trocar. Burrice minha, rabugice, mau humor que cega. Pois tenho cada vez mais achado bonito ver as teias que essas geringonças permitem. Se eu olho com pressa, vejo que a pessoa vidrada no celular perde a oportunidade de falar com quem está ali, ao seu lado, ainda que desconhecido. Mas a pressa não é para quem quer ver bem. Com pouco mais de calma consigo ver um fio que liga aquela alma ali, que talvez tenha passado ou vá passar 10, 12, 14 horas bem longe das pessoas de que gosta, e a vida toda de que ela gostaria de estar perto. Chego a rir sozinho quando alguém no banco ao lado tecla pra alguém lá longe que só queria dizer bom-dia. É quase uma subversão do afastamento a que a rotina nos obriga. Acho bonito isso. Acho bonito esse fio. Um fio ligando gente em situações as mais diversas, nos momentos mais imprevisíveis, com os ânimos mais variados, um aqui no ônibus voltando exausto do trabalho, o outro lá na portaria sonolenta do prédio que ninguém mais visita. Um aqui, outro lá longe. Um trabalhando em São Paulo, o outro lá na cidade natal em que alguém faz falta. Um aqui, o outro num continente distante. Nunca me comovi muito com isso, até começar a desenvolver a habilidade de ler, como quem não quer nada, o que vai sendo escrito por quem está ao alcance dos olhos. Perdão, mas não resisto. Frases quebradas, respostas para perguntas que não li, kkkkkkkkk’s infinitos, carinhas e mais carinhas. Quantas vezes eu mesmo já não pedi pra que me mandassem fotos das crianças e quem mandou nem sabia que estava salvando meu humor lá longe, lá onde aquela foto vai bater como um abraço? Quantos desconhecidos ou amigos distantes já não salvaram uma hora perdida com aquela postagem qualquer que irrompeu no dia? Se eu exagerasse, diria que, se cada aparelho desses carrega em si a capacidade de nos adestrar e colocar para ~produzir~ 24 horas por dia, está neles também uma forma de não deixar que a rotina do trabalho decida o que vai ser dessas mesmas 24 horas. Alienação contra alienação, sei lá. A troca de qualquer coisa por esses canais compensa um pouco as horas fora de casa, os cafés postergados, as cervejas não marcadas, as viagens que não cabem no bolso ou na agenda. Uma frase, uma foto, um poema, uma piada. É bem isso o que, a meu ver, absolve esses aparelhinhos do tanto de mal que fazem: conversar. Conversar para sabotar a distância que a vida imprime ao convívio que mais prezamos. Ou mesmo dizer algo sem alvo, sem saber para quem, e chegar na hora certa-errada para alguém que passava por ali. Um papo estranho, entre estranhos, mas que foi fundamental por um momento. Ando achando bonito tudo isso. Estou chegando perto dos 40, deve ser a idade.

PS: o anarcomonge Carlos Augusto Lima, com mais precisão, disse isso ou mais que isso ontem por aqui: “Um aplicativo que te ajudasse a identificar pessoas ao seu redor, ou a seu lado, que estão sentindo alguma dor ou passando por algum sofrimento, mesmo que não expressem, mesmo que finjam, que disfarcem as coisas aos risos. Então a sua missão é estender a mão e ajudar, acolher essas pessoas. O que você ganha não é de se medir, de monetarizar. Não sei nem se é de ganhar. Bom jogo!”

 

[5/8] Que o destaque das Olimpíadas seja o grande REMETAROF!

 

[6/8] Tanto riso, ó, tanta alegria. E pensar que amanhã, mais tardar na segunda, o Brasil real volta lá do submundo do tapete que o esconde agora.

 

[6/8] É por isso que a gente fica ranzinza… a festa é bonita, todo mundo se empolga e acaba esquecendo que o esporte predileto do capital é o salto sobre direitos. Ou o arremesso de garantias. Ou a exploração sem obstáculos. Escolha.

http://oglobo.globo.com/economia/proposta-de-reforma-trabalhista-preve-negociacao-ate-de-ferias-13-salario-19864000?utm_source=WhatsApp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

 

[8/8] UTILIDADE PÚBLICA

Variações para camisetas e cartazes “Fora, Temer” em tempos de repressão:

Vaza, querido.
Já é tarde, demo.
Tá aqui ainda, satanás?
Desinfeta a cadeira, coiso.
Tchau, Michel.
Vade retro, vice.
Desocupa, traste.

 

Duvido que a Guarda Nacional vai se ligar no protesto.

De todo modo, se quiser algo mais refinado, lembre-se que Guimarães Rosa tem uma variedade incrível de tratamentos para o Coisa Ruim em sua obra: Arrenegado, Cão, Cramulhão, Indivíduo, Galhardo, Pé-de-Pato, Sujo, Homem, Tisnado, Coxo, Temba, Azarape, Diá, Dito Cujo, Mafarro, Pé-Preto, Canho, Duba-Dubá, Rapaz, Tristonho, Não-Sei-Que-Diga, O-Que-Nunca-Se-Ri, Sem-Gracejos, Muito-Sério, Sempre-Sério, Austero, Severo-Mor, Romãozinho, Rapaz, Dião, Dianho, Diogo, Pai-da-Mentira, Pai-do-Mal, Maligno, Tendeiro, Mafarro, Manfarri, Capeta, Capiroto, Das Trevas, Pé-de-Pato, Bode-Preto, Morcego, Xu, Dê, Dado, Danado, Danador, Dia, Diacho, Rei-Diabo, Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás, Satanazin, Satanão, Dos-Fins, Solto-Eu, o Outro, o Ele, o O, o Oculto…

O mundo saberá do que você está falando.

 

[8/8] PODÍAMOS SER OURO TAMBÉM.

Os atletas são o que sobrou de mais parecido com heróis no nosso tempo. Associar suas performances a heroísmo é, portanto, quase natural. Pode ser ingênuo, pode ser cínico, pode ser cruel. E deve ser por isso que, mesmo com tantas razões para sermos duramente críticos e até boicotarmos o grande evento em que desempenham seus superpoderes, vibramos durante os poucos segundos ou minutos em que eles despejam os anos de treinos e privações de que se constrói em carne, osso e músculos um herói ou heroína desses. E isso chega a ser ainda mais duro: quanto piores as condições que enfrentaram, mais heroicos nos parecem. Parecem? Talvez possamos dizer: mais heroicos são. Sad but true. Na infinita maioria dos esportes das Olimpíadas, sabemos, não há qualquer investimento de longo prazo. Nos últimos anos, por conta da realização dos jogos aqui, houve um investimento maior, mas os relatos mostram bem que se trata de um período isolado. E é por isso que cobramos mais os jogadores do futebol masculino, que vivem numa realidade totalmente diferente da dos demais atletas. Do lado olímpico da balança, falamos de esportes com pouca ou nenhuma expressão comercial. Logo, falamos de treinar sem grana, falamos de voltar para a vida de sempre com a medalha ou sem ela. Felipe Wu ganhou medalha de prata treinando tiro na garagem de casa. E ele não é exceção: se puxar a ficha de cada um dos atletas ali (falo dos brasileiros, mas há histórias muito parecidas na maior parte dos países), perceberemos que nossa delegação é quase toda de heróis, gente talhada na adversidade. Gente com sangue nos olhos. Gente como Rafaela Silva, que acaba de ganhar a medalha de ouro. Quando ligamos a tevê já sabemos o que ela enfrentou até ali, a infância na Cidade de Deus, que entrou pro judô por meio de um projeto social, das dificuldades de seu pai, dos ataques racistas que sofreu ao perder outra luta etc. Daí pra frente é só ligar o vídeo e começar a torcer com o coração na boca, vibrando por uma heroína negra cujo sobrenome é Silva e manda para o chão a alemã, a sul-coreana, a húngara, a romena e a mongol que se colocaram entre ela e a medalha de ouro, de-ashi-barai pra cá, uchi-mata pra lá, essas artes todas que vieram de tão longe da favela em que cresceu. Esse nó, ao menos para mim, é difícil de desatar. Saber das dificuldades superadas – não só sociais, econômicas, mas também lesões graves e outros perrengues – altera totalmente minha forma de torcer. Não é só a técnica, a perfeição do movimento, a força incomum, a concentração invejável – os atletas que aplaudo são feitos de muitas faltas. E são tão (ou mais!) admiráveis por tudo que batalharam antes quanto pela batalha que a tevê transmite. É clichê, mas não consigo olhar para Rafaela sem imaginar que, na queda de suas adversárias, cai também tudo aquilo que podia ter impedido sua carreira. Indo além, não consigo olhar para Rafaela sem imaginar que, quando uma brasileira tão brasileira derruba todas as adversidades daqui e as adversárias do mundo, é também um modo de dizer que podemos mais. Vocês já ouviram isso mil vezes, mas a pergunta me parece sempre muito viva: por que não vamos até onde Rafaela e seus pares nos convocam? Por que não vamos heroicamente até o ponto em que ser atleta não seja tarefa para heróis? Em que (sobre)viver não seja desafio para heróis? Taí algo importante pra pensar durante as horas todas de torcida dos próximos dias.

 

[8/8] A gente comemora a decisão que impede repressão a protestos políticos pacíficos nas Olimpíadas, mas fica meio engasgado porque (1) sabe que ela pode cair a qualquer momento e, mais que isso, (2) é bem ruim viver um momento em que se depende do Judiciário dizer É PROIBIDO PROIBIR…

 

[9/8] Já ouvi dizer que a melhor forma de esconder um texto é publicá-lo numa revista acadêmica, mas não imaginava que era tão grave: vi hoje pela primeira vez um texto meu que saiu na Revista do Depto. de Direito do Trabalho da FDUSP… em 2008. Antes tarde…

 

[10/8] Derrotas também brilham. O jornalismo tapado destaca na manchete: “atleta lamenta derrota”. Ora bolas! O que esperavam? De outra parte, me parece que a beleza dessas lutas não está – apenas, nem essencialmente – na vitória, não está na medalha, na coroa, no pódio. A beleza delas está na própria luta, no decorrer das lutas todas, nas lutas mesmo e em tudo que exige luta. Aplaudo, claro, se vier alguma conquista após a luta, mas não é aí, no “após”, que está o que mais merece aplauso. No “após” está o que o atleta buscou, mas não o que eu, torcedor, busco. Eu quero ver a luta, o jogo, o mergulho, não a glória pendurada no peito ou elencada na fria tabela ao final do dia. É no “durante” que a luta – de quem agarra, de quem corre, de quem mira, de quem salta – me encanta. É no “durante” que o atleta brilha, mesmo que ao final apenas um ganhe. Não há medalha que brilhe mais que isso para mim.

 

[11/8] solidão de manhã poeira tomando assento rajada de vento som de assombração coração sangrando toda palavra sã a paixão puro afã místico clã de sereia castelo de areia ira de tubarão ilusão o sol brilha por si açaí guardiã zum de besouro um ímã branca é a tez da manhã

https://www.youtube.com/watch?v=9Sp2HT40TFY&feature=share

 

[11/8] Impressão grave de que vai chegando o dia de todos admitirem que apenas os mais pessimistas tinham alguma razão…

 

[12/8] PAÍS SUSPENSO
Leio o noticiário, converso com os amigos, acompanho o que dizem por aí. E tenho a impressão de que estou parado no acostamento de uma estrada muito movimentada, com muitas pistas nos dois sentidos, tentando ver ao mesmo tempo tudo o que passa à minha frente, mas os olhos cansados captam cada vez menos do que se passa.
Para um lado, passa veloz o processo de legitimação jurídica do golpe contra a presidenta Dilma – usurpação de poder que se esconde por trás da ideia de uma responsabilização rigorosa da presidenta por suas “pedaladas”. Para o outro lado, um processo cada vez mais evidente de anistia – ou, no mínimo, de “aliviar o lado” – dos políticos e empresários envolvidos nas operações de que tanto se falou até pouco. Para lá e para cá, as ações e pretensões demolidoras dos titulares de ministérios estratégicos para o desenvolvimento social do país. Enfim, uma confusão imensa.
É estranho que isso tudo esteja acontecendo de uma só vez. Desde a reeleição de Dilma vínhamos sendo preparados para essa pancada, mas eis que a pancada chegou e é pior do que podíamos esperar. Assim eu vejo. Na Educação, na Saúde, no Direito do Trabalho, nas Relações Internacionais, no “combate ao terrorismo”, no “redirecionamento” do Orçamento Público, na “partilha” do Pré-Sal, em tudo: por mais que esperássemos que Temer e seu bando atacariam pesado, confesso que folheio o jornal com estupor diante da velocidade e profundidade do desmanche. E tudo isso talvez seja ainda mais dolorido por conta do passado recente que tivemos.
Os anos dos governos Lula e do primeiro (e único) mandato de Dilma não foram a perfeição que gostaríamos. Tiveram problemas de todo tipo e vocês estão cansados de saber quais são, ainda que alguns prefiram destacar A e outros prefiram destacar B; ainda que alguns considerem que os “prós” desses governos são seus “contras”, e vice-versa. Mas a forma como observo esse passado coloca em contraste um momento em que percebíamos avanços e outro – o atual – em que os retrocessos são patentes.
Posso ilustrar com uma perspectiva bem pessoal. Eu e muitos amigos da mesma faixa etária vivemos nos últimos 10 anos uma fase muito – digamos – otimista. É a fase em que fiz mestrado, doutorado, comecei a lecionar. Quase todo mês tinha notícia de um amigo que havia sido aprovado num concurso pra professor em alguma universidade pública, em vários cantos do país. Passei a conviver também com a saudade de amigos que iam estudar fora do país. Para além da academia, um monte de gente tendo filhos e fazendo planos, montando suas casas, colocando no mundo sonhos variados.
Não sou bobo de achar que essa era a realidade do país todo, tampouco acredito piamente em tabelas e gráficos, mas muitos deles corroboram uma percepção de avanço nos indicadores sociais – educação, distribuição de renda, emprego etc. – que está concentrado entre 2003 e 2010, principalmente. Enfim, não era um mar de rosas, mas também não era a tormenta que vivíamos antes, nem a que se apresenta agora.
Creio que é esse contraste com um otimismo tão recente (que pode bem ter muito de ilusório – e tem) que torna ainda mais cinza o céu das nossas expectativas atuais. Os amigos que falavam de “novos projetos” agora falam cada vez mais de sobrevivência. Quem antes falava em expandir direitos sociais agora se preocupa com a preservação de liberdades essenciais – poucos de nós acreditaríamos, alguns anos atrás, que teríamos a Força Nacional nos estádios das Olimpíadas tomando cartazes e prendendo quem se manifestasse tão singelamente contra algum político, seja ele qual for.
O país agora parece suspenso. Chegamos estrangulados à eleição presidencial de 2014 e, de lá em diante, arrastamos um peso imenso, brigamos muito, nos assustamos demais, até aquele fatídico 17 de abril em que paramos para assistir, um a um, aos nossos 511 (2 faltaram) representantes na Câmara Federal votarem o impeachment da presidenta como se fizessem uma caricatura, a pior possível, de si próprios. Mais uma vez: sabíamos que, ao tirar a tampa daquela panela, a sopa estaria intragável, mas eu, ao menos, não apostava que seria tanto. Não sei se aquele dia acabou. Não sei.
Os jornais de hoje destacam um possível acordo entre o presidente da Câmara Rodrigo Maia e o presidente interino Michel Temer para adiar a votação da cassação de Eduardo Cunha até o momento em que o quórum lhe favoreça. Não duvido. E este é um caso exemplarmente trágico: se conseguirem “aliviar o lado” de Eduardo Cunha, diante de tudo que se provou contra ele, é porque podem mesmo vir a anistiar todos os seus “sócios”.
Se seguir assim, o país pode até sair de sua suspensão, mas não vai ser agradável descobrir que sob os pés temos um abismo.

Enquanto der, meus caros, tenham um bom final de semana.

 

[14/8] O tempo em dois lances olímpicos

  1. Quem gosta de tênis queria que um jogo como esse Murray/Del Potro fosse eterno. Mas 4 horas, pensando bem, é a eternidade.
  2. Bolt é igual ao Tyson no auge: horas, dias, meses de espera por alguns segundos de queixo caído. Ou melhor: depois daqueles segundos, o queixo precisa de anos para voltar ao normal.

 

[14/8] Os amigos têm dito que ando muito pessimista desde que Temer e sua turma tomaram o poder. Estou. E pensar que até pouco tempo eu brincava de me situar numa fresta otimista da crítica jurídica, aquela que acredita(va) em alguma possibilidade de resistência política e conquistas pontuais importantes com os instrumentos que o direito oferece. Mas é que, enquanto vejo uns atletas na tevê, leio as notícias e vou sentindo um aperto na parte do cérebro que eu dedico ao futuro. Cortes profundos no orçamento público (na Saúde, na Educação, nos projetos sociais), projetos de lei e emendas à Constituição que atacam pontos estratégicos daquela sociedade “livre, justa e solidária” que vínhamos buscando, repressão cada vez mais organizada contra críticas ao que se impõe. Já viram as notícias sobre o aumento da pobreza na Argentina por conta das medidas do governo Macri? O outro lado delas é o noticiário sobre concentração de riqueza numa fatia mínima da sociedade. O que se passa aqui é, a meu ver, o passo inicial de um movimento econômico bem parecido, ou seja, em breve teremos esses indicadores que os argentinos ora lamentam, mas numa escala ainda maior, proporcional ao tamanho do Brasil e seus problemas históricos. Simplificando bastante, podemos distinguir, dentro dos marcos do capitalismo, modelos econômicos voltados a distribuir ou concentrar riqueza. Sempre me esforcei em ver na Constituição a prevalência de um modelo distributivo, mas Temer e sua turma também o viam e, por isso, sabem onde atacar e estão atacando com uma velocidade desnorteante. Não me parece haver dúvida de que o compromisso de Temer é com aqueles que querem a riqueza em menos mãos ainda, até mesmo em mãos estrangeiras. Os golpistas não têm o menor pudor em bater publicamente no SUS, no SAMU, na CLT, na aposentadoria, na Universidade Pública, nos programas assistenciais etc. Fazem-no com um descompromisso e uma irresponsabilidade que só têm aqueles que não foram eleitos nem se preocupam em ser. Fica difícil, do meio dessa ofensiva, dizer que dias melhores virão. Daí, da mesa de Temer, não virão. Se quisermos, teremos que ir buscá-los!

 

[15/8] O ponto de encontro festivo das delegações estrangeiras no Rio é chamado de Bar do Bin Laden, vende refeição a 14 reais, cachaça, caipirinha e litrão de cerveja. Tem como dar errado?

 

[16/8] Notas para quando eu for um sábio chinês de um século distante.

  1. Aprenda na fogueira o que fazer na vida: confie que a mínima brasa, se protegida, cuidada, estimulada, arderá e espalhará seu fogo ao redor. (A continuar.)

 

[16/8] Status: dedicado à formação do velho sábio chinês. Sino-em-si. Si-sino. Sínico.

 

[19/8] Imagina que louco você sair do seu triplex pra dar uma pedalada até seu sítio, mas você descobre que pedaladas não existem, então vai andando. Quando chega no lugar, o sítio não está lá. Daí volta pro triplex e ele também sumiu, mas na parede está pichado: tudo que é sólido desmancha no ar. Mundo doido, viu?

 

[20/8] (Se tantos estão há tanto tempo procurando tanto com tanta vontade em tantos lugares e, no entanto, nada acham, é provável que os tantos que esperam tanto daí estejam fazendo papel de tontos?)

 

[21/8] O texto tem quase 10 anos: considerem.

https://grupodepesquisatrabalhoecapital.wordpress.com/2016/08/20/a-precarizacao-dos-ideais-por-tarso-menezes-de-melo/

 

[22/8] Segunda-feira pós-olímpica.

E pensar que, de hoje em diante, ninguém mais
vai correr, saltar, remar, jogar por nós.

Hora de descer da arquibancada.

Como nunca.

 

[22/8] Os direitos sociais amargam a fúria do deus-mercado. Não é que estivéssemos num paraíso. Longe disso. Mas, no meio do perrengue de sempre, arrastado por séculos, dava pra ver alguns fios, algumas setas, uma brasa indicando mudança para melhor. “Melhor”, no nosso caso, inclusive pelo que diz a Constituição esperançosa que temos, é tudo que alcance mais gente. São direitos sociais atendidos para mais gente, são também direitos penais atingindo mais gente, digo, não a ~subgente~ de sempre, mas a “gente fina” que nunca foi incomodada pela lei aqui. Tínhamos, de alguma maneira, alguns passos importantes nesse sentido. E agora vemos, em poucos dias, o país dar passos firmes, alguns de cromo, outros de coturno, no sentido contrário: aquele de que fugíamos lentamente. É uma lógica simples e simplesmente terrível num país tão desigual: quem pode pagar tem, quem não pode pagar não tem. Ponto. E essa lógica vale para tudo. Educação, saúde, moradia, alimentação, política, tudo. Em resumo: estar vivo. No meu modo de ver, um país é melhor, dentro do estreito horizonte do capital, na medida em que mais impede que a lógica crua do mercado (pagar é poder) se imponha aos setores essenciais da vida. E mais ainda quando estende e estende o que passa a considerar essencial. Viver melhor só pode ser por aí. Toda luta que importa, a meu ver, é nesse sentido da “desmercadorização” (saudosa Ellen Wood!). Mas não é uma luta simples: os avanços que pudemos ver, por exemplo, na educação e na saúde públicas nos últimos governos foram feitos lado a lado com “avanços” no sentido oposto, ou seja, tentando conciliar o inconciliável. Numa imagem: agradando a dois deuses que se detestam. E desde os gregos sabemos que há deuses mais astutos e cruéis que os outros. É contra o deus-mercado, seus asseclas e caprichos mortais que temos o dever da insurgência. [trecho de um artigo que eu prometo que vou escrever… ;)]

 

[25/8] CARNIÇA

 

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ram (michelte
mergilmarmen
deseduardocu
nhasergiomo
roaecione) nojo
rnal (vesredeglo
borenancalhei
rosalexandredemo
raesjoseser
rarodrigoja
not) comouru
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[25/8] Um passeio rápido pelo site do TRE e me deparo com várias cidades enormes, com mais de 500, 600, 700 mil habitantes, em que não há mulheres encabeçando as candidaturas para as prefeituras em 2016. Tenho a impressão de que isso explica, em parte, o que está acontecendo em Brasília agora e, claro, aponta para mais um dos desafios que se erguem à frente.

 

[26/8] Não acho que venha de lá algo diferente da alegria dos coxinhas, mas vejo nesse “julgamento” – desde seu início, mas com mais clareza agora – algumas lições importantes. Ouvi, dias atrás, José Eduardo Cardozo dizer que, numa palestra recente, após expor a fragilidade da tese jurídica em que se baseia o processo de impeachment, um aluno lhe perguntou por que, se sabia que o “julgamento” não seria modificado por um qualificado debate jurídico (não é aplicação da lei, é justiçamento político), continuava se esmerando em cumprir todo o rito com defesas técnicas etc.

A resposta de Cardozo foi muito bonita, mais ou menos assim: lembrou de um professor que lhe disse que o advogado, mesmo num caso em que saiba que sua defesa não alterará a decisão injusta, deve fazê-la com todo o cuidado possível, porque ao menos ela servirá para registrar, para além do processo, a injustiça que ali se cometeu.

Pois bem, isso até me animou um pouco a acompanhar o “julgamento” do Senado com menos raiva e melancolia. Ao final, junto com o resultado, teremos o registro a que Cardozo se referiu – é pouco, é triste, é menos do que o país precisa, mas pode servir para escolhermos outros caminhos para nosso futuro.

Aliás, nesse balaio duas pessoas se tornaram mais admiráveis: a presidenta Dilma, ré de um processo com mais furos jurídicos que uma peneira, demonstrando uma incrível resistência pessoal e política numa situação diante da qual 99,9% dos seus pares já teriam escolhido algum atalho; e o seu advogado, José Eduardo Cardozo.

 

[28/8] Faz todo o sentido no golpismo: se seus apoiadores não ligam nem para seu próprio analfabetismo político, por que ligariam para o analfabetismo da população? A escola golpista não será apenas “sem partido”; no fundo, ela será uma “escola sem escola”.

 

[28/8] Sonhei que na segunda o Chico entrava no Senado de braços dados com a Dilma e o coro todo cantava “Divina Dama” do Cartola e um carnaval sem fim tomava Brasília e o Brasil e o planeta e assim a pior segunda seria a segunda mais linda e ninguém ligava mais pro calendário.

https://www.youtube.com/watch?v=B64_PgwsckU&feature=youtu.be

 

[28/8] Pensando aqui sobre a opção golpista pela perpetuação do analfabetismo, ouvindo Chico Buarque desde cedo, me deparo com uma estrofe que, olha, sei lá, vou te falar, tenha a santa paciência, que exagero, valha-me deus:

 

«No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto»

(De “A bela e a fera”)

 

[29/8] Hoje é dia de velar o voto. O voto de 54.501.118 brasileiros em Dilma Rousseff será finalmente rasgado entre hoje e amanhã. Os 54.501.118 eleitores de Dilma e todos que nela não votaram – no Brasil e no mundo – mas têm algum respeito pelas regras do jogo (teatro?) democrático devem hoje ficar diante das notícias de Brasília como quem está diante de um cadáver. Um cadáver que não poderemos sepultar. E ele já fede. Fede muito. Vai feder mais. A céu aberto.

Vocês devem lembrar em quem votaram para o Senado em 2014. Meu candidato não se elegeu. Meu deputado, no entanto, foi eleito e não passa um dia sem acusar o golpe, mesmo que a Presidenta não seja do seu partido ou coligação. Ao velar o voto em Dilma é importante ter em mente o que tem sido feito dos seus outros votos (e, claro, isso deve pesar sobre seus votos futuros!). É importante ter em mente de que lado estão as pessoas que você admira: amigos, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas, professores etc. Eles aplaudem o golpe? Eles vão rir mais de uma eventual gagueira de Dilma hoje do que chorar a morte dos 54.501.118 votos e de boa parte de nossos sonhos e ilusões?

De tudo isso, só não posso dizer que estou surpreso com os algozes. Renan, Caiado, Aécio, Cristovam, Magno, Anastasia, Perrela, Alvaro Dias, Marta, Aloysio, José Anibal e tantos outros: nunca esperei nada melhor de vocês!

Enfim, hoje é dia de luto. É bem provável que os últimos dias desse processo espúreo sejam os primeiros de um país em que a política não será mais a mesma. Mas isso não quer dizer que será melhor. Pelo contrário.

 

[29/8] A guerrilheira dos discursos hesitantes virou atiradora de elite hoje no Senado. Não deixou vírgula a reparar. Não deixou alvo sem bala. Gigante. O voto do povo hoje vira aplauso e ambos são muito merecidos por ela. Aliás, votem como bem entenderem os senadores, Dilma hoje colocou na testa de muitos brasileiros uma certeza: se a cadeira da Presidência deve ser ocupada por alguém disposto a negociar tudo para manter o cargo, a vender o país para agradar seus aliados e sua classe, a abrir mão de seus princípios para se salvar, a alugar suas prerrogativas para atender interesses podres, aquela não é a cadeira para Dilma. Se ela for retirada definitivamente de lá (e tudo indica que será), o azar é nosso, de nós que vamos ter que viver num país que está nas mãos de quem não apenas despreza seus males, como deles se alimenta.

 

[29/8] Por recomendações médicas que dei pra mim mesmo, não assisti a Dilma nas últimas horas. Tenho hipersensibilidade a discursos senatoriais. 2 minutos de Aécio, 1 minuto de Caiado, 30 segundos de Agripino, 10 segundos de Alvaro Dias ou Cristovam Buarque… e pimba: coceira, vermelhidão, taquicardia. Não sei se perdi algo, mas tenho meus ídolos do dia:

  1. Dilma
    2. Francisco & Luiz
    3. Biotônico da Presidenta
    4. Senadores que não se inscreveram
    5. botãozinho de cortar microfone

PS: Perrella foi de helicóptero?

 

 

[29/8] Ao comentário final da Janaína, sobre Bicudo, Dilma devia mandar o singelo:

– Quem?
– Quem o quê?
– Quem perguntou?

E fechava o dia com chave-de-ouro.

 

[30/8] Amanhã no Senado teremos ainda pela frente muitas palavras jogadas ao ar: debate entre advogados de acusação e defesa, com réplicas e tréplicas; pronunciamentos de dez minutos para cada senador inscrito; além deles, dois senadores falam a favor e dois contra o impeachment para encaminhar a votação e, por fim, a votação no painel eletrônico. Estarei entre os muito surpresos se o resultado não for o golpe, mas, de todo modo, a segunda-feira de Dilma não terá sido em vão.
Vi gente falando das gaguejadas e confusões de nomes nas respostas dela. Acho incrível. A gente passa a vida se preparando, ensaiando as falas no chuveiro, no espelho, no trânsito, e muitas vezes falha, gagueja, esquece, embaralha em aulas, audiências, bancas, debates, até numa declaração qualquer pra um dos amores da vida. E nenhuma dessas ocasiões costuma durar 12, 13 horas, tampouco são precedidas de períodos tão torturantes e cercadas de tanta agitação e desgaste.
Com boa vontade, filtrando as questões repetitivas, os discursos nonsense e as repetições a que Dilma foi forçada, o saldo me parece simples: os votos de amanhã não serão fruto de um processo legítimo, com um objeto delimitado e respeito às previsões legais. Porque, para a maior parte dos senadores, como para grande parte da audiência que os apoia, Dilma deve ser punida pelo “conjunto da obra”, por “estelionato eleitoral”, “quebrar o país”, enfim, qualquer dessas acusações elásticas o suficiente para envolver qualquer desejo dos grupos políticos que só toleram a democracia na medida em que ela seja veículo para seus interesses. Do contrário, não têm o menor pudor em se livrar dela, digo, delas: da democracia, da Dilma, da ideia de um país em que mais gente viva melhor.
Boa noite!

PS: o Senado e a Paulista de hoje são duas faces cada vez mais evidentes da mesma moeda podre; não há solução democrática para uma que possa desprezar a outra.

 

[30/8] Hoje estou em dieta de informação e de falação, mas fui tentar ver o vídeo da “advogada” falando no Senado… depois os senadores se drogam durante a sessão e vocês não sabem o porquê!?!

 

[30/8] «Os acusadores de Dilma Rousseff vão à tribuna e parece que colocam o seu partido no banco dos réus. Colocam o “conjunto da obra” e se prendem muito pouco à análise da real acusação que efetivamente contra ela é dirigida. E por que o fazem assim? Porque são pretextos. São pretextos. Pretextos irrelevantes. Pretextos que são utilizados retoricamente porque apenas se quer afastar uma mulher que incomoda. Que incomodou as elites. Que incomodou ao ganhar a eleição. Que incomodou ao não permitir que a Lava Jato fosse obstada. Uma mulher que incomoda. Uma mulher. Aliás, me permitam dizer, com toda franqueza e com toda sinceridade. Vejo aqui, no plenário do Senado, ex-ministros da sra. Presidenta Dilma Rousseff, alguns que permanecem leais a ela, outros que foram trilhar outro caminho. E eu falo como ex-ministro também. Algum dos senhores, algum dia, recebeu alguma proposta, alguma determinação, alguma orientação de Dilma Rousseff para que infringissem a lei, para que desrespeitassem a Constituição, para que desviassem dinheiro público? Me permitam responder pelos senhores: não! E sabem por quê? Porque ela não faz isso. Se há uma pessoa que é absolutamente correta e íntegra no sistema político brasileiro corrompido às medulas é Dilma Rousseff. Ela nunca tolerou, nunca, nenhum ato de corrupção, nenhum ato de desvio ou a suspeita. Me desmintam senhores ministros se o que eu falo aqui é inverdade. Nunca! Aliás, bastava Dilma Rousseff cheirar algum equívoco e ela ligava e ia – como lembra Gleisi Hoffmann – na jugular dos seus ministros. E sempre disse: “Não aceito isso, não façam isso porque senão vocês vão se ver comigo”. “Ah, mas ela é autoritária! Ah, mas ela é muito dura!” Muito dura? Mulheres, quando são corretas, íntegras e sabem enfrentar situações da vida como essas, são “duras”. Mulheres, quando se equiparam nas suas disputas aos homens, são “autoritárias”.»

O advogado José Eduardo Cardozo se superou a cada etapa desse processo. Que seus argumentos não saiam vencedores é mais uma prova de que não há nada de jurídico nesse espetáculo. Cada minuto desse vídeo vale muito a pena:

http://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2016/08/dilma-esta-sendo-julgada-por-ter-vencido-as-eleicoes-afirma-jose-eduardo-cardozo

 

[31/8] Muito obrigado, Companheira.

«Até no lixão nasce flor!» (MB)

 

[31/8] Para meus amigos do lado esquerdo

Não nos iludamos. Olhem fundo para além de todo o ritual desviante: o recado que nossos senadores deram hoje, com o apoio pesado da maior parte das autoridades, empresários e corporações de mídia deste país, ao rasgar em rede nacional os 54.501.118 votos para o segundo mandato da Presidenta Dilma Rousseff, é muito claro e violento. É como se dissessem: “não venham pelas urnas, não digam que têm direitos, não nos peçam para respeitar regras e princípios, porque isso aqui é nosso, a Constituição é nossa, o país é nosso, serve a nós, continuará servindo apenas a nós, nossos interesses e nossos patrocinadores. Se quiserem chegar a algum lugar, procurem outro caminho”. Pela primeira vez, foram sinceros. Sejamos mais que isso: mais que sua plateia, mais que suas vítimas. Mais do que temos sido.

 

[31/8] De resto, por hoje, para sarar de tanta palavra torta e vazia, de tanto gesto cruel, melhor se agarrar naquilo que há de mais bem feito neste país e trabalhar para, com urgência, ajudar o tempo a transformar as velhas formas do (sobre)viver por aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=7s0yAJA8AnA

 

[31/8] Neste momento, uma presidenta ELEGÍVEL deixa o cargo para que um vice-presidente INELEGÍVEL assuma o cargo. Sim, é exatamente este o sentido da decisão no impeachment. Parabéns.

 

[31/8] E ela saiu citando o jovem Vlad:

 

E ENTÃO, QUE QUEREIS?
Vladímir Maiakóvski

 

“Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta as ondas.”

 

(Dilma, no seu pronunciamento pós-golpe.)

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