Do fb pra cá: setembro

[1/9] Não sei se lembram do velho Atsi Plog, ditador de Lisarb, que no distante ano de 6102 proibiu que o povo dissesse as palavras como até então diziam, como todos seus antepassados mais admiráveis diziam. A intenção de Atsi Plog, com essa medida, era criar um abismo entre o mundo em que seu povo via sentido e o mundo que ele então instaurava à força. Desde então, todos em Lisarb falam de trás pra frente, mas ainda hoje o povo sabe o que quer dizer de verdade quando pronuncia o nome de Atsi Plog.

 

[1/9] Um mandato inviabilizado para ser chamado de inviável

Estão circulando por aí alguns textos contra o golpe que, a meu ver, têm um erro grave nos seus pressupostos. Um deles chega a afirmar: “o desastre que foi o segundo governo Dilma”. Mas esta afirmação me parece em tudo contraditória com a de que ontem o governo Dilma sofreu um golpe. Fixemo-nos na figura de Aécio, como uma constante desde o primeiro turno da eleição em 2014 até ontem, e é evidente que Dilma não chegou a ter, nem em parte, segundo mandato. Essa corja, em verdade, praticamente não a deixou nem mesmo concluir o primeiro…
Foi essa corja que deu a pauta do que seria o governo Dilma dali em diante até o dia em que seria derrubado. Se Dilma deve ser avaliada é apenas pelo que fez até o momento em que o golpe foi colocado em marcha, no final de 2014, porque desde então o Brasil é o palco de uma luta contra a supremacia do voto.
Lembro que, na noite da reeleição, facebook, twitter e whatsapp se transformaram em palco para ofensas violentas contra os eleitores de Dilma e campanhas pela anulação das eleições. Não houve um minuto de folga nesse ataque, não houve posse verdadeira. Os atos de governo de Dilma, desde então, não passaram de tentativas de composição (algumas bem desastradas em atendimento a chantagens) e foram impugnados em todas as sedes possíveis: pela imprensa, por juízes da primeira instância ao STF, por procuradores, por manifestações orquestradas, por patos de borracha.
O segundo mandato de Dilma, que nunca houve, foi enterrado ontem, mas estava morto há bem mais tempo. E, para não ter dúvida, seu coveiro foi justamente o seu assassino.

 

[2/9] Muitos foram surdos aos gritos de “não vai ter golpe” e “fora temer”, talvez porque o alvo imediato e mais evidente do ataque – Dilma, seu governo, seu partido, os votos que recebeu – não lhes despertava qualquer compaixão. No entanto, salvo nos casos mais pervertidos (daqueles que torcem para os ratos), deveriam ter exercitado a capacidade de imaginar o que viria do golpe em diante. Se faltou imaginação antes, agora ela é desnecessária: já são muitos e muito graves os relatos da violência que o braço policial do golpe vem cometendo não apenas contra manifestantes, mas também contra advogados e jornalistas no exercício de suas funções. Tudo isso enquanto o braço político surrupia velozmente nossos direitos sociais. Restou-nos o aqui-agora da resistência a um poder que despreza qualquer regra. Restou-nos a condição da presa que, entre as garras da fera, luta para não ser devorada.

 

[2/9] nosso dia vai chegar teremos nossa vez não é pedir demais quero justiça quero trabalhar em paz não é muito o que lhe peço eu quero um trabalho honesto em vez de escravidão deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance de onde vem a indiferença temperada a ferro e fogo? quem guarda os portões da fábrica? o céu já foi azul mas agora é cinza o que era verde aqui já não existe mais quem me dera acreditar que não acontece nada de tanto brincar com fogo que venha o fogo então esse ar deixou minha vista cansada nada demais nada demais

[mais de trinta anos depois, na mesma ou numa fábrica ainda pior]

https://www.youtube.com/watch?v=2IS19rCcGQo

 

[2/9] Depois do passa-moleque que nossos queridos políticos deram na maior parte do eleitorado brasileiro, não há, para mim, nada mais melancólico que as propagandas relativas às eleições do próximo mês. Vejo um fosso imenso entre o que me preocupa agora e o otimismo gestor de que elas tratam. E duvido que essa sensação vá embora antes de voltarmos às urnas…

 

[2/9] Um minuto da sua atenção, por favor.

Lembram que, há dois dias, tiramos uma presidenta do cargo porque ela usou créditos suplementares sem autorização do Congresso?

Lembram que foi o Senado que a julgou?

Lembram que nenhum chefe do Executivo antes dela foi punido pela mesma conduta?

Pois bem, o Senado hoje garantiu que nenhum outro chefe do Executivo venha a ser punido da mesma forma, ao aprovar a Lei 13.332/16, que começa assim: “Fica autorizada a abertura de créditos suplementares…”. Vejam vocês mesmos:
http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/09/02/sancionada-lei-que-altera-regras-para-remanejar-orcamento

Sabem o nome disso? Regime de exceção.

Se preferirem: golpe.

 

[2/9] Diante da lei, Kafka? Nos corredores das Faculdades de Direito sempre rolou a ideia de que, para quase toda pergunta, um jurista competente começará sua resposta com um DEPENDE. Durante um tempo até achei isso bonito, ligava o direito à vida, à complexidade das relações reais entre as pessoas, que não são nada matemáticas… mas, de repente, não mais que de repente, aquele DEPENDE, contra nossas mais ingênuas expectativas, revelou-se como a porta pela qual todos os monstros entram e saem do castelo de ilusões em que estamos confinados. Quando me toquei disso, fui até o espelho, olhei para alguém que se parece comigo e disse: não caia mais nessa.

 

[4/9] «Quero escrever e a pena se me acanha, vacila-me o espírito, e não acho uma palavra para começar. / Bem errada é essa crença de que a intensidade do sentimento inspira o escrito, e que a impressão dá mais vigor à pena. / Entendia o contrário, e entendia bem, aquela menina e moça quando dizia que falava desordenadamente de suas mágoas, porque desordenadamente aconteciam elas; e que não era possível pôr ordem onde a má ventura pôs a desordem. / As impressões ainda vivas dos casos tristes de que se entremeou a tela da semana atuam em mim, como no leitor, e ambos maldispostos, nem um escreve, nem o outro lê a atenção e a placidez habituais.» (Machado de Assis, numa crônica de 11 de dezembro de 1861)

 

[4/9] (Brinco com meus amigos que não temos nenhuma boa razão para acreditar que Homero, Cervantes e Shakespeare tenham mesmo existido, como indivíduos de carne e osso, que nasceram num determinado dia e noutro morreram, tendo deixado colossos de palavras entre um dia e outro nos seus tempos. Não vai nenhuma teoria aí, apenas uma forma de elogiar o espanto que causam em mim. Vale o mesmo para Machado: folheio aqui a edição recente de suas obras completas e acho impossível encaixar, entre 21.06.1839 e 29.09.1908, sobre as costas de um homem apenas, todos aqueles textos. Besteira da minha parte, ainda mais besteira quando, após cruzar os romances incríveis, os infinitos contos e a poesia cuidadosa, tudo em grandes quantidades, chego ao quarto volume, dedicado às crônicas, e vejo colada em cada texto uma data bem precisa, como a dar um nó entre a mesquinharia do calendário e aquela figura pronta para voar além de qualquer tempo, de qualquer língua, de qualquer limite.)

 

[5/9] CANGURUS. Algo que me chamou atenção na manifestação de ontem foi a presença de muitas mães e alguns pais carregando crianças com panos bonitos enrolados ao corpo. As crianças nos cangurus significam muito ali e, em nenhum momento, aquele gesto parecia ser um ato de coragem ou irresponsabilidade das mães e pais, porque o clima era de paz total. Um passeio. Mas em SP (e não só) a polícia tem dado um jeito de trazer o perigo para dentro dos passeios mais pacíficos. Só torço para que os cangurus tenham conseguido sair do Largo da Batata antes da PM começar a tocar o terror.

 

[5/9] “Governo nenhum que destrói direitos diz que vai destruir direitos. […] A ideia do governo não é estabelecer o negociado sobre o legislado para avançar nos direitos, é para reduzir os salários, é para flexibilizar a jornada de trabalho, é para intensificar o banco de horas, é para fazer com que haja redução da jornada com redução do salário.” Prof. Ricardo Antunes revelando o “atalho para o abismo social” que se esconde por trás da temerária “ponte para o futuro”:

http://www.jb.com.br/pais/noticias/2016/09/04/brasil-vai-entrar-numa-epoca-de-manifestacoes-sindicais-e-sociais-diz-sociologo/

 

[5/9] Vocês acham que um vice-presidente que não teve que expor seu “projeto” aos eleitores, uma vez consolidado o golpe que ajudou a orquestrar para chegar à presidência, pode simplesmente fazer passar, goela abaixo, num susto, o mais amplo ataque aos direitos de que a vida atual e futura dos trabalhadores depende? Se sua resposta for NÃO, vá para as ruas também.

 

[5/9] Será que quando a vida bater no fundo do poço

a gente encontra uma imensa vontade

de sair de lá e lutar pra nunca mais voltar?

 

[6/9] Jorge Luiz Souto Maior em texto antológico, pra ler, reler, fazer ler, levar no bolso em tempos de golpe.

http://www.jorgesoutomaior.com/blog/contragolpes-para-resistir-e-avancar

 

[6/9] ÁPORO
Drummond

 

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se

 

[7/9] “Há um processo anti-social e anti-sindical em curso que está fragilizando nossos cinturões de proteção social. As constituições estão sendo deixadas de lado. Elas só são observadas quando não há crise do capital. A democracia só serve quando não há crise do capital”, disse o jurista espanhol Antonio Baylos Grau.

http://www.sul21.com.br/jornal/para-o-capital-democracia-virou-uma-consulta-formal-nao-vinculante-denuncia-jurista/

 

[7/9] Relendo Macunaíma hoje

 

Supressão & Repressão
os males do Brasil temerário são

 

[7/9] A tevê aberta não mostrou, mas na abertura das Paralimpíadas REMETAROF fez muito sucesso!

 

[8/9] Tratores tratoram.

http://m.folha.uol.com.br/mercado/2016/09/1811465-governo-quer-aumentar-limite-de-jornada-diaria-de-8h-para-12h.shtml

PS: deixa eu ressaltar uma coisinha sobre a gravidade dessa proposta: além de todos os problemas que as longas jornadas podem causar ao trabalhador, tem um aspecto ainda mais perverso para a sociedade. Quando cada trabalhador pode trabalhar mais horas, menos postos de trabalho são necessários. Simples assim. O outro nome da jornada maior é maior desemprego. Façam as contas. É por isso que a tendência, nos países que levam direitos SOCIAIS a sério, é reduzir a jornada, com ganhos de empregabilidade e até de produtividade. Mas pra quê melhorar se podemos piorar?

PS ao PS: Caros, não temos ainda os detalhes da desregulamentação para fazer uma precisa análise jurídica, mas não acho que seja necessário. Aliás, acho que é isso o que eles querem, que comecemos a debater essa destruição de direitos até naturalizá-la. Tenho me manifestado mais pelo que significam esses diversos ataques simultâneos a limites muito caros que os direitos colocam para a exploração do trabalho. É, a meu ver, uma estratégia política de colocar tudo sobre a mesa para derrubar o quanto puder. A limitação de jornada de trabalho é justamente o ponto fundamental do conflito entre os interesses do capital e do trabalho (vejam a atenção que Marx dedica, no livro I d’O Capital, à legislação sobre a jornada). Mas em termos práticos, se der pra apostar, isso vai significar a consagração do fim da hora EXTRA, que infelizmente já vinha sendo destruída por bancos de hora e por “gerências”, com o triste consentimento, em grande parte, até mesmo da Justiça do Trabalho. Mas, além disso, a matéria se refere à possibilidade de contratação do trabalho por horas trabalhadas… é a uberização da mão de obra para todos os setores, dispensando terceirização, pejotização etc. Simplesmente, a ideia de “vínculo” associado a uma determinada remuneração fixa vai pro espaço. Ou seja, é um duplo ataque, nas duas pontas: quem estiver empregado faz horas infinitas; quem não estiver aceita os “bicos” que aguentar…

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