Do fb pra cá: até o dia em que SP escolheu caviar no menu eleitoral

[22/9] Eu ia escrever “se Mantega foi preso no hospital enquanto acompanhava sua esposa numa cirurgia de câncer, a prisão do Lula será…”, mas não consigo imaginar algo mais cruel, abusivo e triste do que isso que aconteceu hoje. Não vou nem bater na tecla da seletividade, porque é evidente, mas mesmo com os políticos que mais detesto eu não aplaudiria tamanho abuso, simplesmente porque não acredito que, ao ferir direitos dessa forma, apenas uma pessoa e sua família sofram. Sofremos todos que reconhecemos de verdade a importância dos direitos ofendidos. Temos subestimado o fascismo da Lava-Jato: sob a aparência do cumprimento implacável da lei, o que há, de fato, é o ataque a todo e qualquer direito fundamental do inimigo. Sim, é de “inimigo” que se trata, porque o nível da violência é (in)digno de uma guerra, mas também porque nitidamente há “amigos” que não são atingidos. Aliás, até em guerras se exige respeito a hospitais…

 

[22/9] INVENTAR LA FELICIDAD. Com muita alegria (apesar de, apesar de) comunico que está no ar a antologia de poesia que fiz com Fabrício Marques para a @Vallejo and Company, do Peru, a convite do poeta e editor Mario Pera. Nela estão 12 poetas brasileiros nascidos a partir de 1980, em edição bilingue português/espanhol, traduzidos por uma equipe incrível. É só baixar o e-book, de graça. Antes, há apenas duas coisinhas que julgo importante destacar aqui: essa antologia não quer ser mais do que um belo livro de poemas – não tivemos qualquer pretensão de bater o martelo sobre quem fica e quem não fica da vasta e rica produção poética dessa geração. Pelo contrário, nosso intuito é fazer com que o leitor, atraído por esses 12, investigue por si próprio o universo que representam. Nós mesmos, Fabrício e eu, durante o processo de elaboração da antologia e depois de fechá-la, fomos descobrindo muitos outros e outras poetas tão fortes quanto os/as que aqui apresentamos. E, por fim, algo que me parece fundamental para ler nossa antologia neste momento: antes de entrar, medite sobre seu título. Inventar a felicidade, reinventá-la, multiplicá-la conosco: eis a missão em que os poetas aqui se engajam. O melhor que pode resultar dela, portanto, é que se encontrem com os leitores nessa mesma missão tão necessária, que vai além da poesia, mas de que ela não pode ser dispensada. Nem nos dispensar. Estamos precisando muito.

http://www.vallejoandcompany.com/inventar-la-felicidad-muestra-de-poesia-brasilena-reciente-vallejo-co-2016/

 

[24/9] «A que você está se referindo quando diz que a literatura “é outro papo”?

Raduan: Só um exemplo — suponho que até mesmo um executivo, por mais enquadrado que seja, tenha um instante em que ele pense em escapar de sua rotina burocrática, ou em que ele perca suas referências, ou mesmo que delire, ou lhe passe até pela cabeça atirar-se pela janela do apartamento. Isso me faz lembrar daquele bancário linha justa, personagem do Hermann Hesse, que dá um desfalque no banco em que trabalhava e se refugia numa aldeia italiana do Adriático. Quando as formas de controle da individualidade se aprimoram, impossível imaginar hoje o que acontecia antigamente num cais de porto. Um anônimo qualquer, em troca de trabalho, embarcava num navio com destino desconhecido, sem qualquer formalidade burocrática. Esses instantes de sentimento de evasão, de delírio, de angústia exasperada em relação a uma ordem que enquadra e oprime, esses instantes ainda não abandonaram nosso imaginário. Pensando em situações como essas é que tenho dificuldade para entender certos procedimentos transplantados pra literatura, quando se recorre inclusive a cálculos de raiz quadrada, como fez um crítico na sua análise de um romance, tentando transferir pro seu trabalho o prestígio das matemáticas. No fundo, um burocrata como tantos outros, que ajudam a antecipar o dia em que teremos de sair às ruas com um número estampado no peito, restando a clandestinidade como único espaço onde poderemos exercer nosso humanismo agonizante.»

Sempre um espanto voltar às lâminas e rebarbas dessa entrevista oceânica:

http://blogdoims.com.br/entrevista-com-raduan-nassar-2/

 

[24/9] Fernando Haddad: eu queria muito votar em São Paulo. Não apenas em contraposição aos candidatos que estão à frente nas pesquisas, mas pelo exemplo raro de qualidade, coragem e compromisso mais com o que entende ser melhor para a cidade do que para sua campanha e carreira política. Pense nisso.

 

[25/9] O economista aqui tem imensos méritos: não é pouca coisa se destacar num dos momentos mais medíocres que já vivemos, mostrando como levar nossa mediocridade um passo à frente (o que nos leva, como sociedade, um passo atrás!). Não vi ainda o filme, mas o texto claramente prescinde do filme para apresentar seu ataque aos mecanismos econômicos de promoção de alguma justiça social. O filme é pretexto. O que o texto quer mesmo é exemplificar como teremos dificuldade para sair da lama em que estamos metidos, porque há uma pequena parcela dos brasileiros – talvez os 5% em que o autor orgulhosamente se coloca – que está disposta a tudo, inclusive a boçalidades como a de um texto assim, para manter seus privilégios. O mais triste é ver gente que construiu sua vida e até a de seus filhos beneficiado por políticas e direitos tão importantes (na habitação, no trabalho, na previdência) aplaudindo o desmanche de um país que nunca chegou a ser grande coisa, isto é, aplaudindo um futuro que será ainda pior do que o presente de que tanto se queixa. Podia dizer que tive ~vergonha alheia~ ao ler esse texto, mas na verdade desci mais um degrau na escada da tristeza.

http://m.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2016/09/1816631-conjunto-de-distorcoes-explica-poder-de-barganha-de-clara-de-aquarius.shtml

 

[26/9] Enquanto a gente se enrosca aqui com escolas sem partido, reformas educacionais sem debate qualificado, salas de aula como antessala do trabalho precarizado etc., esse vídeo do Michael Moore, contrastando o modelo educacional da Finlândia com o dos Estados Unidos, dá muito mesmo o que pensar.

https://www.youtube.com/watch?v=CLhxOufPH6E

 

[27/9] ENCANTATÓRIA

Luiza Neto Jorge

 

Custa é saber

como se invoca o ser

que assiste à escrita,

como se afina a má-

quina que a dita,

como no cárcere

nu se evita,

emparedado, a lá-

grima soltar.

 

Custa é saber

como se emenda morte,

ou se a desvia,

como a tecla certa arreda

do branco suporte

a porcaria.

 

[27/9] Ouvi o jingle do Dória no rádio. Parece um mantra do mal. Do Malzão brabo. Repete a palavra trabalhador a cada duas palavras. E bem rapidinho, pra não dar tempo de pensar em nada. É um bombardeio para que nossa pobre cabecinha faça a associação daquele figura de cera a uma palavra que, sem muita lavagem cerebral, o eleitor jamais faria. E deve estar funcionando, porque só os degustadores de caviar não o colocariam à frente nas pesquisas. Mas hipnose, creio eu, uma hora cai.

 

[27/9] PAÍS À VENDA

[um soneto]

 

Startup de abismos

Crowdfunding de ossos

Outsourcing de tédio

Coaching de fracasso

 

Benchmarking de tragédia

Suicidal coworking

Networking com Mefisto

Budget pele adentro

 

Joint venture idolatrada

Sob a sola da brainstorm

(B2B meu feedback)

 

Burn rate: sol a pino

Outro player vai ao chão

Gap, gap, deadline

 

[27/9] Granulado de escárnio sobre o bolo da tragédia.

http://justificando.com/2016/09/27/tj-anula-julgamentos-que-condenaram-pms-envolvidos-no-massacre-do-carandiru/

 

[27/9] Receita: play nesse vídeo duas vezes por dia até desaparecem os sintomas de golpe. Você vai se sentir melhor. Boa noite.

https://www.youtube.com/watch?v=Ig91Z0-rBfo&feature=youtu.be

 

[28/9] Vivendo num país em que a reforma da Educação é influenciada pelo Alexandre Frota e o presidente golpista presta contas ao Faustão, em que desembargador chama massacre de legítima defesa e um ministro do STF chama golpe de tropeço na democracia, entre outras notícias do mesmo nível, é fácil entender porque fico feliz ao chegar em casa e me deparar com poesia escrita do outro lado do mundo, em outras línguas, há muitos séculos, não? É pra lá que eu vou. Até.

 

[30/9] Está chegando o romance escrito por Renato Russo na adolescência, antecipando em seus cadernos muito do que a Legião Urbana faria pelo país até hoje. Sou suspeito, mas é tão incrível quanto as letras que o consagraram.

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2016/09/42nd-st-band-leia-trecho-do-livro-de-renato-russo-da-legiao-urbana.html

 

[1/10] Independente do resultado, respeito o voto do eleitor paulistano, desde que ele rime com cidade, qualidade, seriedade, felicidade…

 

[2/10] Pesquisas de boca de urna do Instituto DataTarso indicam que 99% dos eleitores de Marta e Erundina acham que o número de suas candidatas ainda é 13. O restante 1% dos eleitores não soube responder.

 

[2/10] Na primeira eleição sem financiamento por empresas, teremos a vitória dos candidatos milionários? Ou seja, trocamos dinheiro de CNPJ por CPF, nada mais?

 

[2/10] Ontem alguém escreveu que, se dependesse de sua timeline, o Haddad seria eleito no primeiro turno. Mas não haverá sequer um segundo turno em São Paulo. Pois é, há um abismo entre nossos discursos aqui e o que os eleitores sentem em suas realidades. E as urnas são um retrato disso. É hora de ficar quieto (mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo) e pensar o que temos feito de errado, muito errado, para que Geraldo Alckmin consiga passar ileso a todas as acusações de incompetência e desonestidade que pesam contra seu governo, chegando a ser reeleito em primeiro turno em 2014, a eleger Dória em primeiro turno em 2016 e a se projetar para a presidência da República com muita força em 2018. Não adianta agora partir para o ataque baixo a quem votou em Dória, como os eleitores tucanos fazem contra os eleitores petistas quando perdem. Quem sabe o que significa essa vitória em São Paulo não pode se dar ao luxo de desdenhar os mais de 3 milhões de eleitores que decidiram tirar Haddad da prefeitura já no primeiro turno. Eles disseram algo hoje. Disseram algo em alto e bom som. Temos que fazer todo o possível para conseguir ouvir, entender bem o que significa tudo isso e, aí sim, construir um quadro político em que seja impossível outro desabamento como o de hoje.

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