Sobre poesia, ainda: Júlia Studart

julia

  1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

 

Fico pensando sobre o termo “obriga”, o quanto ele diz para a poesia e o quanto ele nos diz diante da poesia. Depois, que é interessante propor um contrário de “obrigar a poesia”: “dar uma tarefa à poesia”. Este segundo movimento tem muito a ver com trabalho, como está naquela frase de esperança e quase simples do Ruy Belo: “os poetas trabalham”. E podemos dizer outra vez, como interrogativa: os poetas AINDA trabalham? Ou podemos dizer outra vez como uma afirmativa que duvida: se os poetas AINDA trabalham. E isso talvez seja um contágio da poesia com o pensamento e quando ela é da dimensão do político, um AINDA. Um pensamento da poesia, um pensamento para a poesia, uma tarefa política no mundo em que estamos, o que esperamos do mundo em que estamos e o quanto suportamos de toda a vida ao nosso redor. Essa história toda de hiperexposição das redes sociais [muita gente falando ao mesmo tempo as mesmas coisas, pouco a dizer e muita roupa íntima] não é nem um retrato nem muito menos uma imagem do que a vida é como acidente ou confusão. Podemos pensar no que a vida tem de mais grave e no que podemos ainda suportavelmente sacrificar. Aquela outra história, agora mais urgente, de transformar o impossível em real ou de dar ao real alguma projeção de impossível talvez seja um ponto que não atravessa as redes sociais, nem de longe; mas imagino que ainda atravessa, com força e de alguma maneira, a poesia, se esta ainda for pensada como um acontecimento do corpo que é capaz de gerar mal-entendidos.

 

  1. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

 

O “tal lugar da poesia” reabre aquilo que Blanchot chamou de o “Dizer inqualificável”, acho que a partir de Levinas. Este que, por sua vez, falava de “uma voz que interrompe o dizer do já dito”. É poeta porque publicou um livro, ou dois, ou três; porque a poesia ainda tem lugar no livro; porque o livro ainda abre um lugar para a poesia; porque a poesia expandiu o suporte; porque o suporte explodiu; porque isso ou aquilo ou porque é um profissional da poesia etc. ou não sei não. Quais são os roteiros e os acessos para esse imenso mal-entendido? O lugar da poesia pode morar e demorar diante da biblioteca que pegou fogo, pode ser isso o inqualificável. Um contrário disso é o sem lugar da poesia que AINDA pode interromper o dizer do já dito, quando repetir é estranhamente uma sobrevivência de qualquer possibilidade de esperança e sem roteiro algum.

 

  1. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

 

Nunca foi, nunca foram. Isto não seria um fingimento de Fernando Pessoa diante de toda sinceridade que lhe era peculiar? O poeta não é aquele que se dissolve e está dissolvido diante de um dia qualquer? Ele mesmo disse que fingir ou mentir é coisa que “dizem” e que, ao contrário, sente com a imaginação sem os usos do coração. É o corpo, é no corpo, é com o corpo em descompasso e dança, quando tudo fica um pouco além do coração “numa diagonal difusa”. E num “exterior em que me esqueço”. E isto se pensarmos que a poesia não é aquilo que finge ou gera apaziguamento nem muito estratégias de ação, mas sim quando ela existe como impedimento e aprendizagem.

 

  1. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

 

Uma fome de muito pouco ou de quase nada. E isto, todas as vezes, é o quase-muito de cada poema. Uma virada e uma volta ao zero, ao antes do zero até. Uma fome do extremo dos dias, uma fome do extremo das falas, uma fome do extremo das imagens e tudo num limite desses extremos como um movimento mínimo de dança – imagino a small dance de um super-homem. Gosto de duas imagens que Everardo Norões construiu quando escreveu sobre o LOGOMAQUIA e que diz um bocado dessa fome que imagino com uma busca de espaço justo diante do monstro social: primeiro, uma “contradição entre som do atrito e da harmonia submetida às limitações da matéria” e um “som metálico do arame no qual se equilibra o funâmbulo de Genet”.

 

  1. http://oglobo.globo.com/cultura/livros/critica-logomaquia-provoca-reflexao-sobre-poder-do-poema-19480904
  2. https://www.7letras.com.br/logomaquia.html

 

  1. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

 

Não sei se todo sentido ou se apenas algum sentido, mas lembro do poema de Lawrence Ferlinghetti: Underwear [Roupa íntima]. Tem umas coisas ali que são sempre movimentos de reabertura e intermitência das imagens. Procedimentos sofisticados com a imaginação e gestos críticos imprevisíveis, como a questão da mancha, a que Lady Macbeth tentava sempre, sem sucesso, limpar de sua roupa ou isso de seguir em frente com dignidade dentro das roupas íntimas como uma mínima tomada de posição diante do mundo, da vida, e não como uma mera fala ininterrupta e vazia.

 

Underwear

 

I didn’t get much sleep last night

thinking about underwear

Have you ever stopped to consider

underwear in the abstract

When you really dig into it

some shocking problems are raised

Underwear is something

we all have to deal with

Everyone wears

some kind of underwear

The Pope wears underwear I hope

The Governor of Louisiana

wears underwear

I saw him on TV

He must have had tight underwear

He squirmed a lot

Underwear can really get you in a bind

You have seen the underwear ads

for men and women

so alike but so different

Women’s underwear holds things up

Men’s underwear holds things down

Underwear is one thing

men and women have in common

Underwear is all we have between us

You have seen the three-color pictures

with crotches encircled

to show the areas of extra strength

and three-way stretch

promising full freedom of action

Don’t be deceived

It’s all based on the two-party system

which doesn’t allow much freedom of choice

the way things are set up

America in its Underwear

struggles thru the night

Underwear controls everything in the end

Take foundation garments for instance

They are really fascist forms

of underground government

making people believe

something but the truth

telling you what you can or can’t do

Did you ever try to get around a girdle

Perhaps Non-Violent Action

is the only answer

Did Gandhi wear a girdle?

Did Lady Macbeth wear a girdle?

Was that why Macbeth murdered sleep?

And that spot she was always rubbing—

Was it really in her underwear?

Modern anglosaxon ladies

must have huge guilt complexes

always washing and washing and washing

Out damned spot

Underwear with spots very suspicious

Underwear with bulges very shocking

Underwear on clothesline a great flag of freedom

Someone has escaped his Underwear

May be naked somewhere

Help!

But don’t worry

Everybody’s still hung up in it

There won’t be no real revolution

And poetry still the underwear of the soul

And underwear still covering

a multitude of faults

in the geological sense—

strange sedimentary stones, inscrutable cracks!

If I were you I’d keep aside

an oversize pair of winter underwear

Do not go naked into that good night

And in the meantime

keep calm and warm and dry

No use stirring ourselves up prematurely

‘over Nothing’

Move forward with dignity

hand in vest

Don’t get emotional

And death shall have no dominion

There’s plenty of time my darling

Are we not still young and easy

Don’t shout

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