O futuro de Lula e o nosso

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Na última semana, passado o primeiro turno das eleições municipais, o noticiário político sucumbiu de vez ao viés policial/judicial. Nele, com o destaque de sempre, a cada vez mais provável prisão de Lula mostra-se como o ponto culminante da maior perseguição política, judicial, policial e midiática que este país já assistiu, um longo e destrutivo processo que envolveu a desvirtuação do pouco de democracia que vínhamos construindo, tanto nas instituições responsáveis por “fazer justiça”, quanto nas urnas como expressão da vontade popular.

Quando falamos em golpe, portanto, estamos falando de algo cujas dimensões são muito mais traumáticas para o futuro do país do que temos tido coragem de admitir, mesmo diante de um noticiário que não nos deixa ter dúvida de que o país está de volta às mãos daqueles que sempre se beneficiaram da desigualdade social por aqui.

Com alguns arranhões excepcionais, a verdade é que os caciques da direita continuam sendo tratados por seus pares, bem como pelo Judiciário, pelo Ministério Público, pela Polícia e pelas corporações da mídia, com a mesma deferência de sempre. E eles trabalharam muito bem para chegar a este momento em que podem impor seus interesses sem qualquer resistência partidária ou institucional à altura, porque cuidaram de levar o PT à lona (claro, não sem uma grande “colaboração” de membros importantes do próprio partido) e, no mesmo ato, atingiram algo ainda mais grave: criminalizaram até mesmo a ideia, o discurso, qualquer defesa dos mecanismos de promoção de justiça social consagrados na Constituição brasileira.

E é aí que as pontas se amarram para a esquerda: com a demonização de Lula e de tudo que ele representa, resta demonizada também uma perspectiva de transformação do país de que o PT era ~parte~, mas foi alçado a ~todo~ no imaginário político atual, o que talvez explique o sucesso da visão gerencial da política nas urnas municipais, em que foi possível até mesmo a suprema ironia de um notório patrão vender-se com o jingle em que se apresenta como “João trabalhador”…

Pois bem, até aí as favas estão mais que contadas, mas nem por isso nossa vertiginosa espiral descendente chegou ao fim. O destino de Lula, a qualquer hora dessas, vai dizer muito sobre o destino da esquerda nos próximos anos e gerações. Quem está a caminho das grades, neste momento, é bem mais que o maior líder popular do país. Sim, atribua-se o valor que quiser a isso, mas Lula é o maior líder popular que este país já teve e sua figura vai estar sempre refletida, de alguma maneira, em qualquer bandeira vermelha que por aqui levantarem; ainda que quem empunhe a bandeira não o admita, quem olhar para ela estará vendo Lula ali por perto. E isso, mais que um grande elogio para o que Lula fez pelo país, é um indicativo do tamanho desafio que a melhoria social deste país terá pela frente.

Num contexto assim, a única nota positiva que consigo sustentar é meio torta: Dilma já foi arrancada da cadeira, o fosso entre Lula e uma nova eleição é cada vez mais profundo, o PT foi atropelado nas eleições municipais, ou seja, está chegando ao seu limite concreto o discurso do Bem contra o Mal, em que o Mal é o PT e, consequentemente, o Bem é todo e qualquer ataque ao PT. Se esse discurso tem justificado tudo de uns tempos pra cá, quando seus objetivos forem atingidos e não houver mais um “inimigo número 1” para atacar, vai faltar tinta ideológica para mascarar a verdadeira natureza do golpe e de todos os regressos políticos e econômicos que vão sendo admitidos sob o estardalhaço da caçada ao homem em que fizeram colar a imagem do Mal como em nenhum outro. Finda a caçada, com o alvo caído cai também a adoração cega aos caçadores. E é daí em diante que poderemos começar a conversar a sério sobre o que vai ser do país no futuro bem próximo.

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Um comentário sobre “O futuro de Lula e o nosso

  1. Célia Menezes 17 de outubro de 2016 / 12:51

    Todo dia me pergunto “como chegamos a isso?” e não encontro uma única resposta, talvez porque ainda estou em choque, perplexa, como alguém que está no meio de um fogo cruzado.
    Os últimos 20 anos da vida vi este país tomar um rumo, que se perdeu completamente em pouco tempo…parecemos uma carro (des)governado na ladeira, pronto pra dar de cara no muro da derrota de tudo que conquistamos. Não havia perfeição, não havia paraíso no Brasil de antes, mas, o de agora com certeza será o Brasil da história que vivemos e pensávamos ter ficado pra trás. Lamentável…mas vamos adiante!!!

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