Fidel (1926-2016)

Por ocasião da morte de Fidel Castro, republico aqui um texto que publiquei em 2013 na coluna “Batalha das Ideias”, no site da editora Expressão Popular. Por mais que tenha partido de um debate pontual, acho que ele registra bem o que eu penso sobre essa figura gigante do século XX e sobre uma história que vai muito além dele. E deve seguir.

fidel

Cuba, ainda?

A passagem tormentosa da blogueira cubana pelo Brasil, ao mesmo tempo em que serve às altercações eleitorais entre governo e oposição, marca mais um episódio das disputas políticas entre direita e esquerda por aqui. Esta é, a meu ver, a parte interessante do noticiário, mas há também sua parte lamentável: certa esquerda brasileira comportou-se como a anfitriã ideal para quem queria, apenas e tão-somente, chamar atenção para sua “causa”. E chamou.
Não tenho dúvida de que seria importante analisar o comportamento dos políticos e da imprensa brasileira no episódio (a agenda da blogueira teve de comportar quase todos os compromissos que a TV brasileira é capaz de oferecer, desde entrevistas sobre conjuntura política internacional até comentários sobre esporte, cultura etc.), mas certamente essa análise foi soterrada pela discussão sobre o comportamento de quem não queria a blogueira por aqui.
Enfim, quem a convidou não teria tanto êxito na sua turnê por aqui se não fosse a ajuda (involuntária, sei) daqueles que tentaram desconvidá-la… Mas há ainda o que pensar a partir desse episódio: a divisão do campo político entre direita e esquerda, que tantas vezes teve sua morte decretada, mostra-se bem viva. E creio que estará assim por muito tempo, até mesmo porque uma certeza, ao menos, têm aqueles que tentam entender a história dos últimos séculos com olhos um pouco mais livres: a imprensa hegemônica e a “intelectualidade” que a ela corresponde não hesitam em usar e abusar de pesos e medidas diversos quando pretendem atingir determinados resultados.
Quero dizer: para esta parcela majoritária da opinião (eu ia dizer “pública”, mas ela em grande medida é privada ou patrocinada), os erros do capitalismo (guerras, regimes autoritários, exploração, bolsões de miséria, destruição ambiental etc.) são a prova de que o sistema deve ser consertado, corrigido, ajustado, ao passo que os erros do socialismo ou de qualquer outro regime que tente se opor ao do capital (em parte idênticos aos do próprio capitalismo) são sempre a prova cabal de que essas “experiências” são catastróficas e jamais devem ser imaginadas, repetidas, defendidas, devendo-se aniquilar até mesmo qualquer perspectiva de conhecimento da realidade que partilhe de seus pressupostos teóricos e posições políticas.
Não é difícil perceber o viés dessa condenação: o problema não é o erro cometido em nome do (ou mascarado de) socialismo. Com os “erros” acima indicados, repito, o capitalismo já nos habituou a viver. O problema é aceitar que aqueles que percebem esses erros como frutos necessários do funcionamento do capital e, principalmente, não se conformam com a “naturalidade” desse sistema, se movimentem no sentido da superação do capitalismo, pensando alternativas, agindo contra as causas – não apenas contra os efeitos – de tantos problemas, demonstrando as contradições insuperáveis da ordem social vigente.
Com uma maleabilidade incrível, o capital tolera e até mesmo absorve quase tudo, inclusive aquilo que se coloque em frontal ataque aos seus mais importantes fundamentos – mas nem por isso deixa de atacar os focos de possíveis ameaças à sua legitimação ideológica. Se, por um lado, Che Guevara, consagrado como seu crítico, é logo despregado do vigor anticapitalista e vira adesivo, chaveiro, filme nas salas comerciais etc., isto é, o revolucionário é transformado em mercadoria, nem por isso a blogueira deixará de ser usada como “cavalo de troia” para atacar, num golpe (mais imediato), o governo, e noutro (mais mediato), a esquerda e toda a crítica possível ao capital.
O golpe que merece mais atenção, obviamente, é o segundo: os ataques sistemáticos e, mais que isso, a violenta negação de todo e qualquer aspecto positivo que possa ser apreendido dos processos revolucionários socialistas pretendem realizar, de uma vez por todas, o sonho do “pensamento único”, convencendo a todos do bordão de Mrs. Thatcher: “There is no alternative”.
É por esta razão que entendo ser necessário perguntar: Cuba, ainda? Sim, as últimas semanas deixaram claro que Cuba continua no centro das discussões, mas certamente de discussões que vão muito além da ilha. A ilha que não sai do noticiário é apenas em parte aquela que alimentou o sonho de gerações da esquerda ou aquela sobre a qual recaem as acusações de ofensa aos direitos humanos, mas é principalmente aquela do regime que, por seus problemas, não pode ser retirado tão cedo da lista de argumentos que a direita toma a seu favor contra a esquerda. O destino de Cuba, por si só, é insignificante para a direita, mas o que pode ser pensado e feito no mundo – a partir, inclusive, dos erros da revolução cubana – tira o sono de muito capitalista por aí.
A direita há muito se esforça para transformar Cuba em uma falha fatal dos projetos da esquerda, o ponto final da conversa sobre superação do capital – e, de certo modo, conseguiu. Entre os mais novos da esquerda, não é incomum que as críticas à revolução cubana se convertam na aceitação de todos os argumentos que a direita lança sobre a ilha. Ora, há formas e formas de dizer que “Cuba deu errado”: a imensa maioria o diria com prazer, e esta é uma opinião que não me interessa. A que me interessa parte da crítica ao regime cubano para pensar sobre outras formas de intervenção anticapitalista.
Se o mote da vez é o debate sobre a liberdade da blogueira, não podemos esquecer que qualquer “contradição” da esquerda é logo alçada a xeque-mate contra suas aspirações. E “contradição”, nesta passagem, vai entre aspas porque me refiro, principalmente, a ataques caricaturais, como o fato de quem se declara de esquerda desfrutar, em alguma medida, de “confortos” (bens, serviços etc.) que são identificados como privativos do capitalismo. A intenção clara é mostrar que as “contradições” da esquerda são fatais e desabonam todos os argumentos que se fundam nas contradições reais de que é feito o capital.
Que este texto, por exemplo, seja entendido como uma defesa de Cuba ou das atrocidades que, sem dúvida, foram cometidas em nome da revolução, já é um sinal de como foi bem sucedido um embargo mais sutil do que o econômico à ilha, um embargo de seu potencial simbólico para pensar alternativas, se não à política, à economia capitalista. Mas, parafraseando Mészáros, vale dizer que a sociedade que precisamos construir não apenas está para além do capital, como também está para além de Cuba – da real e de sua caricatura.
Não se trata, claro, de agarrar-se à imagem (ou miragem) da ilha para lutar contra o capital, mas de evitar a conclusão fácil, induzida pela ideologia dominante, de que toda ação da esquerda (Cuba, sim, mas também toda e qualquer manifestação anticapitalista) é sempre uma ilha de iniquidades, repleta de “contradições” e cercada pelas maravilhas que apenas o capital é capaz de oferecer. Decerto, não virá do blog dissidente a reflexão que o tema merece.

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Um comentário sobre “Fidel (1926-2016)

  1. Niura Casemiro Simões de Abreu 26 de novembro de 2016 / 15:11

    Ainda não surgiu a resposta correta para qual seria o regime de estado ideal.
    A minha resposta sempre foi e sempre sera:
    Um regime honesto o suficiente para assegurar a um povo o mínimo de bem-estar.
    Não importa direita ou esquerda….
    Como budista recomendo o ”caminho do meio”
    A radicalização das ideias e dos ideais nunca será solução.

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