Presentes

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Nessa época de tamanha euforia por compras, me lembrei de uma das minhas histórias prediletas sobre o gesto de presentear. Quem conta é Marshall Berman (1940-2013), famoso autor de “Tudo que é sólido desmancha no ar”, na introdução de “Aventuras no marxismo” (Cia. das Letras, 2001, trad. Sonia Moreira).
Marshall tinha por volta de 18 anos, havia perdido seu pai há pouco tempo e vivia cheio de inquietações profundas sobre a vida em meio aos alunos e professores na Universidade de Columbia. Até que um dia um professor indica a ele um livro escrito por Marx “ainda garoto, antes de ser o grande Marx”.
Ele pega o metrô num sábado e vai procurar o livro numa grande livraria de Nova Iorque, mas no caminho se depara com uma pequena livraria, a Four Continents, distribuidora oficial de publicações soviéticas. (Pela forma como ele a descreve, me lembrei da livraria da Expressão Popular em São Paulo.) Na Four Continents, Marshall não apenas encontra o exemplar dos “Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844” que estava buscando, mas começa a folhear e ler passagens do livro que o arrebata imediatamente: “Fui abrindo as páginas ao acaso, aqui, ali, mais adiante – e de repente me vi suando, derretendo, arrancando roupas e vertendo lágrimas, acometido por arrepios de frio e calor”. A empolgação foi tamanha que, quando Marshall percebe que poderia comprar muitos exemplares com os poucos dólares que tinha no bolso, ele sai dali carregando um pacote com 20 exemplares dos “Manuscritos” do garoto Marx.
Depois de gastar 11 dólares, os dias de Marshall Berman são assim: “eu ia para todo canto com uma pilha de livros debaixo do braço, animadíssimo por estar distribuindo aqueles tomos a todas as pessoas que faziam parte da minha vida: minha mãe e minha irmã, minha namorada, os pais dela, vários amigos velhos e novos, dois ou três de meus professores, o homem da papelaria, um líder sindical, um médico, um rabino. Eu nunca dera tantos presentes antes (e nunca voltei a dar)”. Junto com o presente que entregava, Marshall Berman aquietava os olhares perplexos de quem recebia aquele pequeno livro soviético com a promessa de que estaria sempre ao lado para ler junto e ajudar a entender – “me ligue em qualquer horário que eu explico tudo”.
Adoro essa pequena história. Muitas décadas depois, quando já havia lido o livro de Marshall Berman, eu encontrei num sebo em São Paulo o exemplar dos “Manuscritos” que está nessa foto, também impresso na União Soviética e muito parecido com a descrição que Marshall faz dos exemplares que comprou lá no final dos anos 1950 em Nova Iorque. De alguma maneira, esse livro me prende àquela história. E à ideia fixa de que devemos fazer o que estiver ao nosso alcance – um livro, 11 dólares, um gesto – para mostrar a quem menos espera que há outros sentidos para a vida, como o jovem Karl e o jovem Marshall sempre fizeram.

Versos, Vozes: leituras de poesia

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Algumas das manhãs de sábado mais bacanas que a poesia me deu foram na saudosa Livraria Duas Cidades, há uns 15 anos talvez, nas leituras de poesia que ocorriam entre aquelas estantes incríveis. Foi ali que encontrei pela primeira vez o Donizete Galvão – só isso já justificaria um lugar bem especial na minha memória (ainda que as datas me fujam…). Mais recentemente, apareceram aqui umas fotos de Roberto Bolaño participando de um bate-papo numa livraria na Catalunha. Não conheço o lugar nem o contexto, mas a impressão que tive é de que se tratava de um encontro parecido com aqueles da rua Bento Freitas. Que seja.
Com isso na cabeça, soube há algum tempo que dois amigos de faculdade, Norton e Melissa, estavam abrindo uma loja a algumas quadras do lugar em que ficava a Duas Cidades. Quando passei por lá, veio o estalo de tentar juntar os poetas e seus leitores para um encontro parecido com aqueles antigos, sem pompa, sem roteiro, sem outra intenção que não seja a de ouvir alguns bons poemas e depois ter a calma do fim de semana para meditar sobre eles, com eles, a partir deles. É o que será.
Assim começa, no próximo sábado, a história desses “Versos, Vozes”, que Heitor e eu pretendemos levar em frente a cada mês. No primeiro encontro, estarão conosco os poetas Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen e Reuben da Rocha.
Vai ser legal, e mais ainda se vocês aparecerem!

PS: você encontra as fotos do Bolaño aqui:

https://tarsodemelo.wordpress.com/2014/04/14/uma-nota-a-toa-sobre-bolano/