Do fb pra cá

[12/1] Aproveito essa prova do alto nível do “jornalismo” brasileiro para dizer que gostei muito do recente disco da banda desse pobre senhor, “símbolo de uma nova era do trabalho”, que, junto a outro notório inaposentável, Keith Richards, continua trabalhando enquanto vocês só pensam em se aposentar. Shame on you!

 

[12/1] Essa história do Mick Jagger não se aposentar mexeu comigo… pensar que o coitado, desde muito jovem, sempre trabalhou em horários impróprios, fins de semana, locais insalubres, fumaças variadas, ruído excessivo, remuneração variável, contato com público, pressão por resultado, deslocamentos, alimentação fora de casa, privação do convívio familiar. Por isso que ele vive dizendo que não consegue ficar satisfeito. Entendo.

 

[16/1] E o prazer de saber que, ao publicar essa notícia aqui, gero um trânsito de informações que enriquece um pouco mais 2 ou 3 desses senhores da lista? Nada como se sentir participando assim de um momento tão bonito da história da riqueza…

http://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/01/15/oito-pessoas-tem-mesma-riqueza-que-50-mais-pobres-denuncia-oxfam.htm

 

[16/1] No meu perfil, tem uma galera que acha que essas fortunas vieram do “esforço e talento individuais”. E que tamanho acúmulo de riqueza não tem nada a ver com política. Pelo contrário, acham que esses “gênios empreendedores” são vítimas da política… vai entender…

 

[17/1] Preso por desobediência: nada mais digno nesses tempos. Força, Boulos.

 

[17/1] Pipocando aqui fotos de uns rapazes deitando na avenida pra parar os carros. Sem temores, à luz do sol, “perto do Metrô Ana Rosa”, diz a legenda, ou seja, naquela que é a região – digamos – mais bem equipada da cidade. Estou encafifado: será que não se trata apenas de uma ação teatral promovida pelo Doria para espalhar arte e, assim, embelezar a cidade? Ou seria já a campanha do Geraldo pra ganhar as eleições presidenciais de lavada, na mesma proporção de sua reeleição? Deve dar certo.

 

[18/1] MERLÍ. Para quem zapeia por aí procurando o que assistir enquanto o carnaval não chega, passem por uma série catalã chamada “Merlí” (dica da Maria Fernanda, grato!). A receita é simples: um professor de filosofia cercado de adolescentes. Cada episódio tem algum diálogo com um autor ou escola de filosofia, mais como provocação à reflexão do que explicação teórica, apenas para dar vazão aos conflitos todos que se sobrepõem na série: entre o professor e a coordenação, entre os alunos e seus pais, entre alunos e alunos, entre os professores e os alunos, quase tudo dedicado a expor os choques inevitáveis entre – digamos – padrões sociais e paixões pessoais. Dramas, brigas, paqueras, romances, traições, enfim, os mesmos ingredientes das boas e más histórias, mas aqui eles me pareceram muito bem arranjados. Alguém dirá que não passa de uma espécie de “Malhação” com pitadas de filosofia – que seja. Com disposição, no entanto, o professor Merlí pode lhe garantir algumas horas de diversão e boas ideias pra ruminar. De quebra, uma vontade enorme de tomar Estrella Damm comendo fuet…

(Na Netflix já tem a primeira temporada, com 13 episódios, mas lá fora já passou a segunda, com outros 13, que dá pra assistir no site com legendas em catalão… ô língua boa de ouvir!)

 

[19/1] John Douro é gênio: está trocando uma cidade com muros coloridos e desenhados por uma cidade com muros cinzas gritando contra si.

 

[19/1] Uma pulga atrás da orelha chamada Brasil: os homens cujos interesses poderiam ser atingidos pelas decisões do Ministro seriam capazes de (mandar) matar? E aqueles, em especial, que podem influenciar na nova nomeação no STF e, assim, mudar o rumo dos processos de que estão na mira?

 

[20/1] Nooooooooosssssssssaaaaaa!!!

Eis o lema da bandeira nacional.

 

[20/1] Fixe seu pensamento no que realmente é importante. Perceba que a felicidade alheia é a base da sua. Hoje, por exemplo, o MERCADO acordou feliz e otimista com Trump, mortes, quebras. Sorria.

 

[21/1] Se seu coração está apertado porque Trump está trampando (argh!) na Casa Branca, o dia é bom pra pegar uma pipoca, um guaraná e juntar os amigos pra assistir “O invasor americano”. Tem o jeitão do Michael Moore, entre a autocrítica do imperialismo e a esperança orgulhosa nos Estados Unidos, mas abre várias janelas para aquilo que de melhor a inteligência pode construir: generosidade, por exemplo.

 

[23/1] Por que ministros nunca morrem soltando pipa na laje do bairro onde nasceram? Por que filhos de governadores nunca se acidentam no campinho da vila? Por que candidatos a presidente não perdem seus compromissos porque o carro velho deixou na mão? Estamos tão acostumados com essa proximidade entre as altas autoridades e a alta grana, entre quem vive na melhor fatia do serviço público e a turma do suprassumo do luxo, que nem grifamos mais essas credenciais quando aparecem em acidentes como o de Teori Zavascki, o do filho de Alckmin, o de Eduardo Campos. É claro que as autoridades podem ser “amigas” e conviver com quem elas bem entenderem, mas é estranho que passem seu tempo livre – almoços, jantares, viagens… – e troquem gentilezas caras (como emprestar aviões, helicópteros, fazendas) justamente com aqueles que podem se favorecer de arranjos com o Estado. Precisamos falar sobre isso…

 

[24/1] “Os derrotados são aqueles que deixam de lutar”. Volto sempre a esse pequeno depoimento do presidente Mujica, porque ele tem o poder de um grande poema, daqueles que, a cada reencontro, soam ainda maiores, mais profundos, mais completos. Para mim, em especial, as palavras desse humano José parecem enfeixar uma infinidade de ideias que gravitam na cabeça a partir das leituras e vivências mais variadas. Em suma: tá tudo aqui. Em dez minutos incomensuráveis.

 

[24/1] Espero que D. Marisa se recupere logo e bem, como todas as outras pessoas que sofrem neste momento. Mas soube que há “gente” por aí comemorando o AVC, em parte pelo sofrimento que lhe desejam, mas muito mais pelo sofrimento que desejam ao presidente Lula. A estes dedico a foto e peço que aproveitem para desfazer amizade comigo. Não é por ela, não é pelo Lula. É porque não acredito que tenha algo a compartilhar com quem vive nesse grau de embrutecimento.

 

[25/1] «Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.»

http://www.ihu.unisinos.br/564255-achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando

 

[26/1] Um poema traduzido por Joan Navarro:

 

quanto vale a cidade lá fora,

o silêncio dessas colunas que espantam

a praça, quanto vale cada deus,

cada santo colado nessas paredes,

cada banco desses em que a tarde

se acalma, em que se ouve

alguém respirar, em que pensar

é possível, quanto vale essa parte

da máquina que parece descansar,

quanto vale esse relógio

que não se incomoda com as horas,

esse sino a lembrar que – da porta

para fora, do outro lado desses vitrais

que tanto valem – o tempo

é dinheiro e dispara

 

Tarso de Melo, in “TranSPassar”, diversos autores, antologia organizada por Carlos Felipe Moisés e Victor Del Franco, SESI-SP editora, 2016.

 

| quant val la ciutat allí fora, / el silenci d’aquestes columnes que espanten / la plaça, quant val cada déu, / cada sant enganxat en aquestes parets, / cada banc d’aquests on la tarda / s’asserena, on se sent / algú respirar, on pensar / és possible, quant val aquesta part / de la màquina que sembla descansar, / quant val aquest rellotge / que no s’incomoda amb les hores, / aquesta campana recordant que –de la porta / cap enfora, de l’altre costat d’aquests vitralls / que tant valen– el temps / és diner i dispara

 

[27/1] (demolir os muros que há em você | reduzir a velocidade das suas vias internas | colorir os caminhos da vida que resta | sabotar o poder da mídia na sua própria cabeça | inventar uma nova política a cada gesto | e que ela, de tão nova e de tanto não caber no mundo velho, seja a mola do salto de que dependemos)

 

[28/1] (Pensando em montar uma gangue. Esquema simples: cada um pega seus exemplares da Ilíada e da Odisseia, as traduções mais diversas, a gente combina numa praça, lê e debate durante uma ou duas horas, depois volta pra casa registrando os versos mais bonitos de Homero nos lugares mais improváveis. Até o dia em que todos percebam que nunca escapamos daqueles poemas.)

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O lar que nos habita

lar-habita

ÍNTIMO DESABRIGO

daqui ouço a voz dos seus talheres inúteis
seu colchão em que afundo a cabeça que já não me serve
chinelos sapatos passam sapatos chinelos pousam

daqui corto os pulsos em suas tesouras cegas
de suas facas o ferrugem escorre como lava como larvas
de pregos faço o castelo em que vai deitar minha hora

os calendários todos que a água podre funde à pedra
as pedras tortas que desaguam nos calendários podres
os dias todos que as pedras podres rasgam do calendário

o céu de concreto o sal dos afetos o mal o mar de asfalto
é sob eles é sobre eles é deles que tento falar mas não
mas não falo a língua gira em sua sopa rala em sua vala

o zíper de sua mochila oca o caco de seu copo tosco
os tocos de sua voz a foz da minha fala nela desaba
onde guardei minha história onde morei até ontem

 

__________________

Está no youtube o curta-metragem “O lar que nos habita”, que o trio incrível da Mó DocumentalAlexandre, Janaína e Joao – fez para o Canal Futura, dialogando com meu poema acima. Irá ao ar, na tevê, em 16/2, às 19h35, mas já dá pra ver no computador. Por favor, assistam, curtam, compartilhem… que a Mó merece!

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-2KSykF5RXA

Brigadão!

Não se vende

Assistimos, um tanto atordoados, ao assalto que discursos e práticas empresariais fazem sobre o campo da política e da gestão pública. Em resumo, à substituição violenta da lógica do público pela mística da “eficiência, transparência e ética da iniciativa privada”. Bois dormem enquanto isso… e 2017 será ano de notícias diárias sobre esse movimento, não apenas ao nosso redor (com CEOs que se manifestam pelo DO!), mas também na Casa Branca e além. Um exemplo: é essa a razão para que se discuta a Previdência e a Assistência Sociais cada vez mais pelo viés da mais pobre matemática e menos pelo da solidariedade social. Há muitos perigos aí. Pensar os órgãos públicos (das prefeituras aos tribunais, universidades etc.) como empresas privadas, além de radicar numa ilusão, é apostar em algo muito perigoso: o Estado não é nem pode ser “uma empresa qualquer”, assim como os cidadãos não podem ser convertidos em simples consumidores, ainda mais em países tão desiguais como o nosso. Temer tenta convencer o país de que o orçamento público é a mesma coisa que o orçamento de qualquer família. Dória vende a imagem de que administrar São Paulo é convocar a iniciativa privada para parcerias, como faz nos negócios privados que agencia. A exploração de petróleo no país vai sucumbindo rapidamente ao capital internacional. Pelo país, muitos são os passos dados para privatização de serviços públicos essenciais, mas bem sabemos que nem todas as necessidades da população interessam a essas parcerias. E não temos sido sequer convidados para pensar e decidir sobre esses rumos. Não faço, é claro, a defesa do Estado brasileiro “em bloco” com relação ao que veio até aqui: não é de hoje que temos bem mais a consertar do que a conservar no país. Mas acho mesmo que a definição sobre esses consertos não pode ser feita sem uma ampla participação popular. E ninguém vai convidar o povo para decidir essas questões, especialmente porque quem está decidindo por nós são aqueles que mais se beneficiam dos rumos a que nos levam. Sugiro, então, que entremos na festa sem sermos convidados, antes que ela termine.

Do fb para cá

[Mantendo a tradição de recolher aqui, de tempos em tempos, as palavras lançadas ao vento urgente do facebook… é curioso reler.]

 

[3/10] Coisas que uma timeline de esquerda e interestadual nos oferece: em meio à enxurrada de lamentos e xingamentos de vários cantos do país, de vez em quando pinta uma mensagem otimista, pra frente, pra cima, vinda do Rio de Janeiro. Raio de sol entre nuvens.

 

[5/10] NOTA 1

Locomotiva-danação.

País do futúmulo.

Gavião da Constituição.

 

[6/10] NOTA 2

Executivo sem votos.

Legislativo sem escrúpulos.

Judiciário sem Constituição.

E o aplauso ensurdecedor

a escolas sem partido.

 

[19/10] Passando pra dizer que o disco do Sabotage é uma pérola.

 

[19/10] Prazer de afirmar isso a respeito de alguém com quem não tenho a menor afinidade: a prisão de Eduardo Cunha pela Lava-Jato é tão seletiva quanto qualquer outra. Não há nada a comemorar. Pegar Cunha é moleza, pegar Lula é o objetivo, e nada indica que o laço chegará às cabeças que assumiram o país após o golpe, alguns campeões de citações nas delações, como o próprio Temer, Serra, Aécio e outros, que sequer foram incomodados até agora pelos agentes da Curitiba Caneta & Vara Empreendimentos Limitados.

 

[21/10] SHODÔ [é bem provável que você não esteja lendo estas palavras aqui | como é provável que eu não as esteja escrevendo | como rasgos num papel qualquer em abstrato | em ato como frases silenciadas | de um poema político que a ninguém coube escrever | de uma canção de amor que a ouvido algum agrada | de um cansaço entre outros | de um outro mar que se abre sob os pés sobre a cabeça peito adentro | e quando rasgamos o papel não rasgamos o que as palavras já fizeram conosco | e quando sujamos o papel com o que nos suja não há mais retorno | não há retorno em nós | o que há é apenas essa mancha que chamamos nós e que não migra | não há serifa sob a sola das palavras em que nos rasgamos | não há sossego | quando escrevo abismo quando escrevo caio quando desabo desabito-me | não há remate não há piso não há teto | e restamos boquiabertos | e o melhor que dizemos é o que nossas tintas | as tintas que somos | dizem sozinhas contra nossa vontade | contra nós | escapando de nossa inútil vigilância | vazando para a página que ainda não tivemos coragem de abrir | mas se inaugurou sem nos consultar]

 

[22/10] É bem provável que vocês conheçam um japa chamado Oswaldo Akamine Jr. (que não tem fb) por suas reflexões e aulas sobre direito, marxismo, história, mas deviam saber que o entusiasmo dele é tão intenso quanto – ou até mais! – por música. (E também por um pequeno time verde da capital paulista, o que não vem ao caso.) Então, convido vocês para darem uma volta pelo blog dele, que acaba de dar início a um série sobre bandas de rock que não temem assumir sua posição política. Só coisa fina. E, claro, à esquerda! Se vocês entrarem, acho que aumenta a chance do japa cumprir a missão até o fim. Por hoje, Gang of Four!

https://akamine.wordpress.com/2016/10/21/gang-of-four/

 

[23/10] É um poema. Um grande poema. Dos mais fortes do nosso tempo, a meu ver. E parece um estilete rasgando a pele deste país e de outros. A cada repetição (cheiro, dinheiro), leva a lâmina um pouco mais fundo.

 

CONHEÇO VOCÊS PELO CHEIRO

Ricardo Aleixo

 

Conheço vocês

pelo cheiro,

 

pelas roupas,

pelos carros,

 

pelos aneis e,

é claro,

 

por seu amor

ao dinheiro.

 

Por seu amor

ao dinheiro

 

que algum

ancestral remoto

 

lhes deixou

como herança.

 

Conheço vocês

pelo cheiro.

 

Conheço vocês

pelo cheiro

 

e pelos cifrões

que adornam

 

esses olhos que

mal piscam

 

por seu amor

ao dinheiro.

 

Por seu amor

ao dinheiro

 

e a tudo que

nega a vida:

 

o hospício, a

cela, a fronteira.

 

Conheço vocês

pelo cheiro.

 

Conheço vocês

pelo cheiro

 

de peste e horror

que espalham

 

por onde andam

– conheço-os

 

por seu amor

ao dinheiro.

 

Por seu amor

ao dinheiro,

 

deus é um

pai tão sacana

 

que cobra por

seus milagres.

 

Conheço vocês

pelo cheiro.

 

Conheço vocês

pelo cheiro

 

mal disfarçado

de enxofre

 

que gruda em

tudo que tocam

 

por seu amor

ao dinheiro.

 

Por seu amor

ao dinheiro,

 

é com ódio

que replicam

 

ao riso, ao gozo,

à poesia.

 

Conheço vocês

pelo cheiro.

 

Conheço vocês

pelo cheiro.

 

Cheiro um e

cheirei todos

 

vocês que só

sobrevivem

 

por seu amor

ao dinheiro.

 

Por seu amor

ao dinheiro,

 

fazem até das

próprias filhas

 

moeda forte,

ouro puro.

 

Conheço vocês

pelo cheiro.

 

Conheço vocês

pelo cheiro

 

de cadáver

putrefato que,

 

no entanto,

ainda caminha

 

por seu amor

ao dinheiro

 

– – – – –

Esta e outras preciosidades podem ser lidas no ótimo dossiê que está aqui:

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/04/poemas-de-alguns-contraventores-1964.html?m=1

 

[24/10] Já assistiram? Revelador, indispensável, urgente: suporta muitos adjetivos pesados. Para entender a questão racial nos EUA e parte do que está em jogo nas eleições por lá, mas também para pensar sobre o quanto reproduzimos de tudo isso e, claro, lutar contra as formas que o pior do passado encontra para se manter por aqui fazendo vítimas.

 

[24/10] HAJA FÉ

Aumentou a confiança do mercado.

Aumentou a confiança dos investidores.

Aumentou a confiança dos consumidores.

Aumentou a confiança do empresariado.

Aumentou a confiança das instituições.

E vocês aí, mortais, desconfiando de tudo.

_________

E tem tradução da Prisca Agustoni:

 

NEL PAESE DEI BALOCCHI ….

Aumenta la fiducia del mercato.

Aumenta la fiducia degli investitori.

Aumenta la fiducia dei consumatori.

Aumenta la fiducia degli impresari.

Aumenta la fiducia delle istituzioni.

Solo voi, poveri mortali, ad avere sfiducia di tutto.

 

[24/10] Mais de 1000 escolas ocupadas no Brasil e a grande imprensa (“nossas” corporações da mídia) despreza quase por completo o grito dos estudantes. A tomar pelos grandes portais, a divisão dos bens do casal global é mais importante do que toda essa movimentação popular no país. Pois bem, amanhã você pensa sobre as ocupações (e, se quiser, sobre as fofocas do dia), mas hoje todos deveríamos pensar sobre o que o Eduardo Sterzi diz aqui: “De um momento para outro, a grande imprensa, que estava escondendo a imensa manifestação dos estudantes paranaenses, resolveu dar notícias a respeito. Claro: agora, têm o cadáver de um estudante para exibir cinicamente contra os outros estudantes. A imprensa brasileira, com as exceções de sempre, parece estar resumida a repórteres canalhas sob as ordens de editores canalhas a serviço de empresários canalhas mancomunados com políticos canalhas. Aquela história de que não existe democracia sem imprensa me parece, por esses dias, uma piada de péssimo gosto. Com essa imprensa, qualquer democracia para valer é impossível.”

 

[25/10] (O que eu acho mais bonito no ambiente acadêmico é o pessoal lendo livros, carregando livros, conversando sobre livros. Ali, dentro e nos arredores, o mundo até parece outro. E há outra coisa de que gosto muito nesses locais: reparar nas pessoas que falam sozinhas. São muitas, diversas, encantadoras. Com sorte, é ali que estão sendo gestados, inaudíveis e incontroláveis, os livros que em breve vamos ler, carregar, comentar – com os outros ou a sós.)

 

[26/10] Esperneai-vos, descontentes, mas Boni na “Cultura” se encaixa à perfeição com o que Dória prometeu na campanha hipervitoriosa. São Paulo escolheu ser um Projac. Não vai ser, mas escolheu. São Paulo votou no Boni. Votou na cidade que a Globo quer que sejamos. Votou contra a cidade que a Globo não quer que sejamos. Dória apenas está cumprindo o que fez com que fosse eleito rapidamente. A cidade agora vai sofrer com a entrega de suas promessas. Dói, né? E este não é um problema exclusivo de São Paulo, porque diz muito sobre os rumos que as coisas tomaram no País do Congelamento Seletivo Vintenário.

As pontas, cedo ou tarde, se amarram. Da rua pra tevê: um policial prende um ex-presidente da Câmara e, horas depois, o assunto é a aparência física dele, o policial hipster. Da tevê pra rua: alguém que domina a arte da manipulação nas telas é chamado para prestar seus serviços na Secretaria de Cultura da maior cidade do país.

A pequena fenda entre esses dois mundos – o da manipulação política e o da manipulação midiática, que, em verdade, são um só – será cada vez mais estreita e imperceptível, se depender dos esforços dessa turma, de políticos como Dória e empresas como a Globo. Se alguém deve se preocupar com isso e fazer de tudo para abrir a fenda, desmontar o brinquedo, rasgar esses mantos sórdidos, esse alguém é o figurante que foi chamado só pra levar porrada nas piores cenas da novela. O nome dele é Nós.

 

[28/10] Na faculdade a gente aprende a tratar o STF maiusculamente, como Corte Suprema, Órgão Máximo do Poder Judiciário, Última Instância e, mais que tudo, Guardião da Constituição. Diante de decisões recentes – como esse decreto de morte do direito de greve com que a Corte presenteou os servidores públicos no seu dia -, chego a pensar que esse Guardião tem guardado tão bem, mas tão bem e tão escondidinha nossa pobre Constituição, que já nem ele sabe onde ela foi parar. Muito menos nós.

 

[28/10] Uma constatação: quem fica tão convicto contra atitudes que tentam mudar o estado das coisas (ocupações, greves, passeatas, protestos), é porque, nos campos do trabalho, educação, saúde, moradia, política, deve achar que:

– vai tudo muito bem como está

– não importa que tudo vai mal

– tudo melhorará por si só ou pela boa vontade de nossas autoridades

– obedecer é melhor que contestar

Ou seja, quem pensa assim precisa ser mudado também.

 

[28/10] Nada mais adequado e chique do que um chanceler receber uma grana na Suíça. Podem até ser estranhos seus negócios, mas devem ser sempre estrangeiros. Convém ao cargo. Parabéns, Serra.

 

[30/10] Bola pra frente, gente, que a vida da esquerda nunca foi fácil. O que Freixo conseguiu no Rio já foi algo grandioso, com mais de 1,1 milhão de votos contra a máquina da grana, das milícias, da Universal etc. Algo a ser comemorado, mas principalmente a servir de estímulo para as lutas que vão além das urnas, nas ocupações de escolas e prédios, nas greves, nas passeatas, nos protestos, enfim, em toda trincheira que se abre, não de quatro em quatro anos, mas a cada ataque dos poderosos de sempre.

 

[31/10] Está difícil destacar algo nos dias atuais como a mais contundente prova da persistência de um estado de exceção por aqui (ou da instauração de sua nova versão), mas essa é uma matéria absolutamente estarrecedora, pela conjugação de truculência e falta de escrúpulos, sob a capa mais banal, mais trivial possível. Fica evidente até que ponto essa turma está disposta a ir para implantar seus projetos de privatização de serviços públicos fundamentais e subtração de liberdades. Noutro contexto, eu diria que devíamos exigir punições exemplares, mas algo me diz que, hoje em dia, esperar punições nesse caso é excesso de ingenuidade.

http://ponte.cartacapital.com.br/grande-irmao-goias/

 

[1/11] Deplorável. O que um (anti)juiz como esse não sabe é que, quando o sistema permite e/ou exige que juízes ajam assim, estamos às vésperas de não precisar mais de juízes.

http://justificando.cartacapital.com.br/2016/11/01/juiz-autoriza-tortura-para-desocupacao-de-colegio-no-distrito-federal/

 

[2/11] Em tempos assim, em que tantos não sabemos bem quando teremos coragem de reconhecer, ao menos para nós mesmos, a gravidade da situação que enfrentamos e, diante do espelho, dos amigos, de reuniões, dizer bem alto as palavras que temos evitado sacar de nossa memória, cada poema de Brecht é um punhal:

 

QUANDO O FASCISMO SE TORNAVA CADA VEZ MAIS FORTE

 

Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte na Alemanha

E mesmo trabalhadores o apoiavam em massa

Dissemos a nós mesmos: Nossa luta não foi correta.

Pela nossa Berlim vermelha andavam em pequenos grupos

Nazistas em novos uniformes, abatendo

Nossos camaradas.

Mas caiu gente nossa e gente da bandeira do Reich.

Então dissemos aos camaradas do SPD:

Devemos aceitar que matem nossos camaradas?

Recebemos como resposta:

Poderíamos talvez lutar ao seu lado, mas nossos líderes

Nos advertem para não usar terror vermelho contra o branco.

Diariamente, dissemos, nosso jornal combateu os atos de terror

Mas diariamente também escreveu que só venceremos

Através de uma Frente Unida vermelha.

Camaradas, reconheçam agora que esse “mal menor”

Que ano após ano foi usado para afastá-los de qualquer luta

Logo significará ter que aceitar os nazistas.

Mas nas fábricas e nas filas de desempregados

Vimos a vontade de lutar dos proletários.

Também na zona leste de Berlim os social-democratas

Saudaram-nos com as palavras “Frente Vermelha!” e já usavam o emblema

Do movimento anti-fascista. Os bares

Ficavam cheios nas noites de debates.

E então nenhum nazista mais ousou

Andar sozinho por nossas ruas

Pois as ruas pelo menos são nossas

Depois que eles nos roubaram as casas.

 

Bertolt Brecht (trad. P. C. Souza)

[obrigado, Lucas, pela lembrança!]

 

[2/11] O Brasil dos últimos meses – e de modo cada vez mais rápido, atropelado, estonteante – tem revirado o mar das teorias jurídicas e das teorias políticas sobre o direito. Os entusiastas do “estado de direito” já colocam as barbas de molho, diante da fragilidade surpreendente de alguns pilares do seu templo. Os mais otimistas dos críticos do direito (que admitem que ele pode ter algum papel relevante na resistência à imposição nua e crua dos interesses capitalistas sobre a sociedade) estão repensando suas apostas (eu, entre eles, sigo meio envergonhado). E mesmo os mais críticos entre os críticos do direito não se sentem confortáveis diante da demonstração concreta de suas teses mais duras, porque a velocidade do desmanche era inesperada. Enfim, estamos numa espécie de terra arrasada da compreensão dessas transformações, o que pode explicitar as fragilidades dos instrumentos de justificação do direito, mas também de grande parte das ferramentas da crítica. Não é hora de lamentar, no entanto. É hora de aprofundar a crítica.

Neste contexto, tem sido fundamental acompanhar os artigos escritos à queima-roupa, sem aquele peso todo das bibliotecas empoeiradas dos juristas, cujas certezas demoram a ruir porque flutuam no céu das formalidades que o mundo jurídico faz(ia) questão de manter. Enfim, não há agora romano, alemão, francês, inglês, americano que nos socorra diante da forma como o STF tem atuado na relação com os outros poderes, com os outros órgãos do Judiciário e com o próprio texto da Constituição. Vamos ter que explicar a nós mesmos o que temos feito e assistido. E vamos errar (em todos os sentidos) muito nessa missão. Consigo ver os autores campeões de citação nas teses jurídicas olhando em nossos olhos e dizendo assim: “virem-se, não tenho nada a ver com isso”.

Digo tudo isso apenas para indicar, como exemplo desses textos dedicados a enfrentar, no calor da hora, o que tem sido feito do direito por aqui, a recente coluna do prof. Lenio Luiz Streck sobre os desafios do constitucionalismo no momento que vivemos. Se muitos de nós nos formamos estudando exemplos distantes e até mesmo fictícios e, talvez por isso, não sentíamos o bafo da ameaça real, agora os ataques aos pilares da Constituição têm data e hora marcadas e são transmitidos ao vivo na televisão. Se quisermos intervir no rumo dessas “mudanças”, não é um bom momento para distração. E temos que ficar por perto de quem está – digamos – bem ligado nos movimentos.

 

[3/11] Talvez seja importante, mas dá um certo desgosto começar a debater a eleição de 2018 sem termos ainda “resolvido” a de 2014. Sim: se falamos a sério que houve um GOLPE contra mais de 54 milhões de votos da última eleição, temos que insistir que essa ferida estará aberta enquanto um governo ilegítimo continuar dando seus golpes e subgolpes nos brasileiros. Além de soar como excessivo otimismo, toda e qualquer aposta eleitoral da esquerda para 2018 corre o risco de referendar o jogo inimigo. A meu ver, o trabalho de reconstrução deve se pautar pela denúncia radical da ilegitimidade do “governo” atual e por uma boa dose de desconfiança com relação à condução de todo esse processo de “normalização” do país sob ataque. Se há um lado que não deve colaborar para o apagamento das manchas que o golpismo impôs ao país, certamente é o lado esquerdo. É dele que devem vir as coordenadas para sairmos do fosso em que fomos lançados.

 

[4/11] Junto à bela trajetória de conquistas reais e simbólicas que o movimento construiu, a história do MST é uma história de perseguição policial, política, jurídica e midiática, desde a primeira bandeira erguida, desde o primeiro boné vermelho com a imagem de um casal de trabalhadores brasileiros indo à luta para retomar seu território. Quem sempre atacou o MST reconhecia, a seu modo espúrio, a força que as vítimas da concentração de riqueza neste país podem ter se se unirem. Seus ataques, portanto, sempre foram, são e serão medidas violentas de desestímulo à defesa da democracia e da justiça social entre nós. O que aconteceu hoje na Escola Nacional Florestan Fernandes é um novo capítulo dessa história, quando a tendência à concentração de riqueza e supressão de direitos sociais (mas não só) é cada vez mais acelerada. Nada disso se faz sem violência, sem distorção das informações, sem autorização das elites políticas e jurídicas. Fiquemos atentos e juntos. Não comprem as informações que a mídia inimiga de sempre vai vender. Como disse um poeta, vamos de mãos dadas. E de olhos bem abertos. Todo apoio à ENFF.

 

[7/11] “Julgar na rua, condenar na viatura e executar a pena num lixão”. Deve ter sido há quase 20 anos: assisti a um júri popular quando estava na graduação e me lembro do promotor gritar isso, depois de 10, 12 horas de julgamento, para pedir a condenação de dois policiais que haviam matado dessa forma dois rapazes. “A sociedade não pode admitir uma polícia que julgue na rua, condene na viatura e execute a pena de morte num lixão”. Retórica, sei, boa retórica do promotor, que levou à condenação, mas, na verdade, sempre fomos uma sociedade bem mais conivente com esses “poderes” exercidos fora da lei do que aqueles poucos jurados levaram a crer. E é por isso que, de cima a baixo, basta passar uma régua qualquer e fica evidente como andamos longe dos padrões que propalamos e, ainda por cima, aplaudimos as ofensas à lei quando seus resultados nos agradam. Nesse rumo nada vai melhorar.

 

[8/11] Ouvi hoje uma entrevista de João Dória no rádio: foi esclarecedora. É admirável a franqueza com que ele fala de entregar toda a cidade para investidores privados. Anhembi? Vai vender. Ibirapuera? Vai entregar para exploração comercial. Demais parques e outros espaços de lazer e cultura da cidade? A saída é a venda, quando possível, ou a entrega para que “parceiros viabilizem”. Déficit da saúde? Vai resolver pagando para hospitais privados assumirem. Ciclovias? Vai arrumar “parcerias” que explorem publicitariamente. Moradores de rua? Vai tirar das áreas que interessa valorizar. E assim segue, com o aval de sua eleição em primeiro turno.

Em suma, a sua visão de empresário-orgulhosamente-não-político (me engana que eu gosto!), sempre depois de um “vou fazer” repleto de invejável otimismo, reafirma a mesma e insistente ideologia: o Estado é incapaz de cuidar de tudo isso, mas a iniciativa privada, desde que tenha seus lucros garantidos, cuidará com perfeição, e um governo que, em quatro anos, entregue tudo que puder à exploração privada é o melhor que a cidade pode querer. Não tem erro.

Ouvi-lo foi uma espécie de pesadelo. Para alguns, sei que esse canto da sereia privada é um sonho. Quando acordarmos, veremos.

 

[9/11] do PAULO LEMINSKI

podem ficar com a realidade

esse baixo-astral

em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade

eu fico com o cinema americano

 

[9/11] [Não custa lembrar: a vitória de Trump não foi sobre candidatos de esquerda. Nem “à sua esquerda”, porque esse tipo de figura, por mais que venha da direita, flutua como um drone assassino sobre todas as posições da política, sobre todas as cabeças da população, que são apenas potenciais alvos. No entanto, se alguém tem sua sobrevivência atrelada ao dever de combatê-lo, bem como aos clones desse drone que podem se espalhar pelas eleições do mundo como pólvora a partir de hoje, não tenho dúvida – é a esquerda.]

 

[9/11] Na enxurrada de espantos das últimas horas, a frase de uma amiga se destacou para mim: “muitos falam que estamos nos tornando desumanos. a verdade mesmo, minhas caras e meus caros, é que a humanidade ainda nem nasceu” (Maíra Corrêa Machado). Talvez seja porque me lembrou umas palavras famosas de Marx:

“As relações burguesas de produção constituem a última forma antagônica do processo social de produção, antagônicas não em um sentido individual, mas de um antagonismo nascente das condições sociais de vida dos indivíduos; contudo, as forças produtivas que se encontram em desenvolvimento no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo tempo as condições materiais para a solução desse antagonismo. Daí que com essa formação social se encerra a pré-história da sociedade humana” (“Prefácio a Para a Crítica da Economia Política”, 1859).

É bom pensarmos como lidar com isso.

 

[9/11] Em dias assim, nada melhor do que se cercar do admirável, do que as mulheres e homens fizeram de mais admirável com sua inteligência, criatividade, força, sensibilidade, generosidade, paixão. Nas artes, no pensamento, na vida. Cerque-se do que você mais admira, de quem você mais admira. Confie em mim, nossa força vem daí. Só daí.

 

[10/11] do HERBERTO HELDER

«li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:

tinha paixão?

quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:

se tinha paixão pelas coisas gerais,

água,

música,

pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,

pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,

paixão pela paixão,

tinha?

e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,

se posso morrer gregamente,

que paixão?

os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,

os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,

homens e mulheres perdem a aura

na usura,

na política,

no comércio,

na indústria,

dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,

trémulos objectos entrando e saindo

dos dez tão poucos dedos para tantos

objectos do mundo

e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,

pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,

e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,

palavra soprada a que forno com que fôlego,

que alguém perguntasse: tinha paixão?

afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,

ponham muito alto a música e que eu dance,

fluido, infindável,

apanhado por toda a luz antiga e moderna,

os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão

e eu me perdesse nela

a paixão grega»

 

[11/11] Dizem as más e as boas línguas que Leonard Cohen morreu. Impossível. Aqui, onde sua música toca quase diariamente, nada mudou, nada mudará.

 

[11/11] DEPOIS

Manuel António Pina

 

Primeiro sabem-se as respostas.

As perguntas chegam depois,

como aves voltando a casa ao fim da tarde

e pousando, uma a uma, no coração

quando o coração já se recolheu

de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar

com o restolhar de asas no telhado?

A dúvida agita

os cortinados

e nos sítios mais íntimos da vida

acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?

Se ficou por saldar algo

com Deus ou com o Diabo

e se é o coração o saldo

porquê agora, Cobrança,

quando medo e esperança

se recolheram também sob

lembranças extenuadas?

Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,

e de poços, e de portas entreabertas,

e sonham no escuro

as coisas acabadas.

 

[14/11] «escorrem as gotas de orvalho

na esperança de lavar

a sujidade deste mundo»

 

(Matsuo Kinkaku, Munefusa, Sôbô, Tôsei,

ou melhor, Bashô, o Senhor Bananeira,

no português de Joaquim M. Palma,

num tempo em que a sujidade exige

bem mais que gotas – e chove forte)

 

[15/11] A gente sabe de algumas coisas, mas ainda assim se assusta. A gente sabe que a Era (Fora) Temer não teria começado nem se sustentaria nessa corda bamba sem um ajuste bem ajustado com os barões da grande (argh!) mídia daqui. A gente sabe que a cara de pau dessa turma não tem limite. Mas fui ver uns trechos do Roda Viva… Deprimente. O que a gente diz de “jornalistas políticos” que, diante da oportunidade de entrevistar o presidente de um país que enfrenta problemas tão graves, se dedicam mais a homenageá-lo que a questionar e nos informar? Eu começaria dizendo: quando encontrar esses jornalistas por aí se apresentando como a solução para nossa “democracia”, lembre-se que, na verdade, eles são parte fundamental de nossos males.

 

[16/11] No estranho país em que fanáticos por intervenção militar são tietes de um juiz de direito (!?) e ministros do STF batem boca como nem no boteco se toleraria (!?), em que o jornalismo virou, a um só tempo, “profissão perigo” e o peleguismo mais dócil, é um grande alento saber que dois policiais, em meio à repressão aos protestos no RJ, lembraram de sua condição real – povo, cidadão, trabalhador, pobre, servidor público – e abandonaram seus postos. Vão ser exemplarmente repreendidos, claro, mas já plantaram a semente nova nessa terra devastada.

 

[16/11] «Eu li – mesmo que a correr, mesmo que só como visitante ocasional – os mesmos idealistas e os mesmos materialistas que todos leram. E li muita gente que os leu certamente melhor do que eu. Ao longo dos anos, fui lendo todo o tipo de coisas e sido atravessado pelas mais dispersas influências filosóficas e estéticas. Por algum motivo algumas foram ficando mais persistentemente do que outras, e algumas me foram conformando mais do que outras. De qualquer maneira, só a espaços (e às vezes com surpresa) dou conta de quais.

Borges, por exemplo, como talvez também Pound, terão tido na minha literatura (e, em geral, na minha relação com a literatura) uma influência que é para mim mais clara do que a de Pessoa. E um e outro não apenas, nem sobretudo, por si mesmos, mas também por todas as inúmeras outras influências que nas suas vêm diluídas. Pessoa também; mas trata-se de uma situação distinta, porque, entre nós, Pessoa é, frequentemente, o nome que se atribui à modernidade (assim tem sucedido com a minha poesia, onde se tem identificado como “pessoana” muita coisa, até a questão identitária, que é apenas moderna).

Numa primeira versão desta resposta tinha começado por enumerar desordenadamente toda a balbúrdia de leituras (isto é, de influências) que poderiam ter conformado o meu “idealismo”. Para, finalmente, me interrogar sobre a possibilidade prática de distinguir, no resultado final, o que é constitutivo do que é constituído e sobre se tal distinção fará algum sentido. Mas recordei-me de um episódio passado há alguns anos. Eu estava como poeta residente em Villeneuve-sur-Lot, uma pequena cidade do Lot-et-Garonne, quando me telefonou Claude Rouquet, o editor de “L’ Escampette”, insistindo para que fosse a Périgueux, a uma sessão literária marcada para a biblioteca local, que tinha uma surpresa para mim. Na biblioteca, um poeta marroquino, Abdullah Zrika, lia poemas, em árabe e em francês. Era essa a surpresa: eram poemas, os de Zrika, meus que eu não tinha escrito! Até onde conheço a minha poesia, aquela poesia era, inquietantemente, a minha! E, pelos vistos, Zrika tinha tido exactamente a mesma impressão lendo, antes, alguns poemas meus editados por Claude Rouquet. E, no entanto, o poeta marroquino nascera e fora criado num bairro pobre da periferia de Casablanca, só aprendera a ler na adolescência, era um militante islâmico e passara uma boa parte da vida na prisão. Uma existência nos antípodas da minha gerara uma poesia igual ou consanguínea da minha! Terá o episódio alguma relevância em relação à questão das influências? ‘Nós’ e as nossas circunstâncias?

Mas voltemos a Pessoa. Acho eu que só por inacreditável infelicidade é que algum poeta português posterior não terá sido – por acção ou por omissão, por aceitação ou por denegação, mais ansiosamente ou menos ansiosamente – influenciado por Pessoa. A mim, marcou-me profundamente, sobretudo na juventude. Aos 16 anos ganhei, num concurso literário do Liceu de Aveiro, as suas obras editadas pela Ática. “Apanhei” então alguma daquela poesia, principalmente a de Alberto Caeiro e a do ortónimo, como se “apanha” uma doença. Cheguei a escrever um volume (um “falso verdadeiro”, dir-se-ia hoje) de ‘Novos poemas de Alberto Caeiro’…

Actualmente, a minha relação com a multidão pessoana é mais saudável. Até porque, entretanto, fui “apanhando” mais doenças, e tão ou mais graves (logo a seguir, e ainda nos tenros anos adolescentes, o Mário de Sá-Carneiro e o Camilo Pessanha…). Mas não estou completamente imunizado. Por isso frequento Pessoa com moderação. Há poetas e poesias com uma força de gravidade excessivamente grande para a minha pouca massa. Pessoa é um desses poetas (Eliot, por exemplo, é outro); confesso que tenho algum infantil temor de, deixando-me ir, poder esmagar-me contra as suas superfícies.»

— Manuel António Pina, na entrevista infinita a A. A. L. Diogo e O. M. Silvestre, na “Ciberkiosk”, n. 9, julho de 2000.

 

[22/11] Comprei uma caderneta pra anotar notícia boa.

Vendo. Sem uso. Marcas de manuseio nervoso.

 

[23/11] do ROBERTO BOLAÑO

Dentro de mil años no quedará nada

de cuanto se ha escrito en este siglo.

Leerán frases sueltas, huellas

de mujeres perdidas,

fragmentos de niños inmóviles,

tus ojos lentos y verdes

simplemente no existirán.

Será como la Antología Griega,

aún más distante,

como una playa en invierno

para otro asombro y otra indiferencia.

 

[23/11] Anticorrupção

Onde se lê «pacote»

leia-se «capote»

 

[24/11] (O mesmo barco. Furado. Somos o mesmo alvo, acho. Gente, a coisa está grave. Gravíssima. Acho que já é hora de deixar pra lá o lado em que cada um esteve nas eleições de 2014, no processo de impeachment (não vou falar golpe pra não chatear a audiência…), em todas as tretas recentes, pra perceber o que está em jogo neste país. Certamente, aqui no alcance da minha timeline (e imagino que na de vocês também), ninguém está debatendo com a turma que vai se beneficiar desse desmanche. Ou seja, estamos no mesmo lado, objetivamente, mas, enquanto brigamos aqui, o trator passa sobre nossa hortinha. Já passou da hora de acordar. E, quiçá, concordar.)

 

[25/11] coisa de bamba

na black friday:

com mão cheia

ou não de ases,

mandar emails

virgens pra lixeira,

fazer a egípcia

pros cartazes

 

[25/11] “Nós temos crises maiores e temos desafios maiores do que um episódio relativo a um flat longínquo numa praia aí da Bahia”.

Min. Gilmar Peroba Mendes, logo após dizer que um ministro gravar um presidente é um fato que deveria ir para o Guinness Book. Não me lembro bem do que ele disse sobre outros apartamentos e gravações que recentemente balançaram a República…

 

[27/11] O nosso presidento, no dia em que sabe que deve vazar sua pressão sobre um ministro para derrubar proteção ao patrimônio histórico em favor de outro ministro, o máximo que tem a dizer é: “eu jamais gravaria uma conversa minha com Renan Calheiros”.

Só eu fico com dó?!?

 

[28/11] do HERBERTO HELDER

«tranquilas, transversais, transparentes,

intocáveis,

águas que atravessam a manhã inteira,

oh obra-prima de que espécie de ensino

¿que me ensinam elas afinal se as confundo mesmo

(não sei quem nem quanto)?

e a verdade é isto: mistura de exemplos e de enganos

que a mim mesmo infundo»

 

[29/11] CHAPE. E eu fico pensando no roteiro, na trama toda, nos detalhes. Os nascimentos todos. Desde o dia em que cada muleque daquele bateu na bola de um jeito diferente. O primeiro dia em que eles disseram “vou ser jogador quando crescer”. E o que foi a vida de cada um desde então. As famílias, os amigos, os amores. Os jogos e sonhos. As vitórias, as derrotas e os sonhos todos! Até o dia em que se juntam. Os passes encaixam. A bola entra. A trave ajuda. Um pé salva. Já dá pra ver a taça de perto. Já chegam as propostas dos times dos sonhos. Já dá pra tocar com as mãos a matéria dos sonhos. Mas, numa segunda qualquer, tudo que ocorreu até então parece ter sido tão-somente para deixar ainda mais sem sentido o que não tem sentido algum.

 

[29/11] A desgraça da PEC deve passar com ou sem outras tragédias. A PEC é já uma tragédia em si. A PEC é o avião chamado Brasil despencando pela enésima vez e nunca acabamos de recolher os corpos. A imprensa brasileira nunca precisou de queda de avião para esconder o que quer esconder. O Congresso Nacional não tem precisado de outras tragédias para nos impor as tragédias que interessam à maioria dos deputados, senadores e seus patrocinadores. Nosso Congresso trabalha “normalmente” sobre 75 corpos porque está acostumado a trabalhar sobre 200 milhões de corpos. Não precisamos misturar os dois assuntos. Não precisamos deixar de lutar contra uma coisa porque estamos chorando por outra. Muito menos deixar de chorar porque os fiscais de comoção não concordam com nosso comportamento. Luto e luta: sempre.

 

[29/11] (Que a aprovação dessa PEC precise de tanta violência contra os manifestantes e se dê num dia em que há tanta tristeza no país, só serve para não nos deixar esquecer que devemos criar a máquina que transforme tristeza e raiva em potência política.)

 

[30/11] Com qual início de música do Zeca Baleiro você mais se identifica hoje:

(A) “Eu tava triste, tristinho”

(B) “Ando tão à flor da pele”

(C) “Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer”

(D) “Eu quero me esconder debaixo dessa sua saia pra fugir do mundo”

(E) todas as anteriores

 

[1/12] O programa do Caco Barcellos de hoje, fazendo perguntas estupidamente sensacionalistas para os familiares das vítimas de Chapecó, mostra que os manifestantes do RJ, dias atrás, tinham suas razões para identificá-lo com o que há de pior na imprensa brasileira. Lamentável.

 

[1/12] Tenho recebido correntes para exigir do Temer, dos senadores (Renan!), dos deputados (Maia!), que “respeitem a Lava-Jato”… Fico pasmo. Tanta gente assim acreditou que esses senhores queriam mesmo “passar o Brasil a limpo”?

 

[1/12] Outra das crises que arrastamos: que um juiz dê uma decisão dessa somente comprova o abismo entre o ensino jurídico, os instrumentos que utilizamos para avaliá-lo (da OAB aos concursos públicos) e a mentalidade que resiste nas instituições, de um lado, e os valores democráticos de que o sistema depende e declara obedecer, de outro. Quem cai nesse abismo? Adivinhem.

http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1836918-juiz-de-sao-paulo-manda-quebrar-sigilo-telefonico-de-jornalista.shtml

 

[1/12] «Quando estou com mais ódio, passo mais maquiagem» (disse a moça no ônibus, por trás de muita maquiagem).

 

[4/12] Obrigado. Danke. Gràcies. Merci. Thanks. Grazie. Ontem foi dia intenso de receber palavras muito importantes pra mim. Hoje é dia de ler tudo com calma e agradecer. Agradecer muito. Ficar girando essas palavras na cabeça. Arigatô. Gomapseumnida. Tak. Gracias. Ou minha preferida: brigadão!

 

[5/12] Duas notas sobre o domingo.

1) Ferreira Gullar morreu: leiam a poesia de Gullar. É o melhor que ele fez, com certeza. Não perdeu sua força por causa do período em que o poeta se destacou mais como “polemista imortal” do que por seus versos precisos.

2) Essas manifestações de hoje, misturando o grito contra a corrupção, o endeusamento de um juiz e até mesmo o clamor antidemocrático, tudo sob os holofotes da Globo, dão uma ideia de como não temos aprendido nada em meio à tempestade dos últimos anos. Sob a aparência de um protagonismo político que se manifesta em dias decisivos, “pacificamente” e de preferência aos domingos, muitos de nós continuamos aceitando atuar como estranhos figurantes na novela que uma elite cada vez mais mesquinha decide quando, como e por que vai ao ar.

Boa semana a todos.

 

[5/12] Algumas das manhãs de sábado mais bacanas que a poesia me deu foram na saudosa Livraria Duas Cidades, há uns 15 anos talvez, nas leituras de poesia que ocorriam entre aquelas estantes incríveis. Foi ali que encontrei pela primeira vez o Donizete Galvão – só isso já justificaria um lugar bem especial na minha memória (ainda que as datas me fujam…). Mais recentemente, apareceram aqui umas fotos de Roberto Bolaño participando de um bate-papo numa livraria na Catalunha. Não conheço o lugar nem o contexto, mas a impressão que tive é de que se tratava de um encontro parecido com aqueles da rua Bento Freitas. Que seja.

Com isso na cabeça, soube há algum tempo que dois amigos de faculdade, Norton e Melissa, estavam abrindo uma loja a algumas quadras do lugar em que ficava a Duas Cidades. Quando passei por lá, veio o estalo de tentar juntar os poetas e seus leitores para um encontro parecido com aqueles antigos, sem pompa, sem roteiro, sem outra intenção que não seja a de ouvir alguns bons poemas e depois ter a calma do fim de semana para meditar sobre eles, com eles, a partir deles. É o que será.

Assim começa, no próximo sábado, a história desses “Versos, Vozes”, que Heitor e eu pretendemos levar em frente a cada mês. No primeiro encontro, estarão conosco os poetas Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen e Reuben da Rocha.

Vai ser legal, e mais ainda se vocês aparecerem!

 

[5/12] Definitivamente, cientista político brasileiro devia ser bem remunerado. E agora que, no xadrez de Brasília, dizer “Fora Temer” passou a ser o mesmo que “Volta PT”, na pessoa do senador Jorge Viana? Temer deve estar bem chateado com o Min. Marco Aurélio (até porque essa decisão pode travar sua pauta), mas não tanto quanto a turma que gritou ontem “Fora Renan” como se fosse “Volta FHC”. Ai que loucura…

 

[5/12] Linha de sucessão

 

No meio do caminho tinha um petista

tinha um petista no meio do caminho

tinha um petista

no meio do caminho tinha um petista.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de manifestante verde e amarelo.

 

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha um petista

tinha um petista no meio do caminho

no meio do caminho tinha um petista.

 

[6/12] [Boletim Capital] Virada Cultural bem longe do centro da cidade é só um teste. O que John Doria quer mesmo é tirar da vista essa coisa incômoda que em São Paulo tem demais: gente. Gente atrapalha a gestão. Ainda mais gente sem Lacoste.

 

[6/12] O momento é grave. Para que as instituições possam funcionar normalmente, precisamos de uma liderança que tenha a confiança da maioria dos brasileiros; que não esteja enroscada em acusações de corrupção; que garanta a independência do MP, da PF e do Judiciário pra atuarem mesmo contra seus parceiros mais próximos; que não abaixe a cabeça para os ataques; que tenha coragem pra consultar o povo sobre suas questões mais vitais; que saiba respeitar o projeto de país inscrito na Constituição; enfim, uma pessoa muito forte. Tipo a Dilma.

 

[6/12] Dói demais ouvir os discursos (oficiais, oficiosos, chapa-branca, cínicos, ignorantes) sobre a “reforma da Previdência”. A começar pela razão óbvia de que não deveríamos decidir nada sobre as chamadas “gerações futuras” numa época em que não sabemos o que será da manhã seguinte. Mas uma coisa faço questão de anotar: ninguém deveria engolir a seco, como evidências matemáticas, regras que não valem para TODOS os brasileiros. Há uma imensa parcela da população que, precarizada, não terá acesso à Previdência, mas há principalmente uma elite do serviço público que não será atingida por esse “sacrifício” que apresentam como inevitável para todos. Bem sabemos, enquanto “todos” não forem “todos” na parte boa, não há porque fingirmos/aceitarmos que tudo vai bem na parte ruim. E o que vem por aí é bem ruim para muitos – os de sempre -, mas não toca em quem deveria tocar.

 

[7/12] POEMA DO AVISO FINAL

Torquato Neto

 

É preciso que haja alguma coisa

alimentando o meu povo:

uma vontade

uma certeza

uma qualquer esperança.

É preciso que alguma coisa atraia

a vida ou a morte:

ou tudo será posto de lado

e na procura da vida

a morte virá na frente

e abrirá caminhos.

É preciso que haja algum respeito,

ao menos um esboço:

ou a dignidade humana se afirmará

a machadadas.

 

[8/12] «O direito é esse ‘mecanismo subterrâneo de assujeitamento’ tão obscuro e poroso que, mesmo quando nos opomos a ele, é nele e por ele que existimos. Um mecanismo sem sujeito – embora o “sujeito” seja a sua categoria principal –, inserido na própria estrutura social como um de seus elementos fundamentais, e “suportado” pela organização da psique humana, que elabora as condições de sua efetividade. Seria profundamente enganoso supor que a dominação de classe burguesa pudesse se dar por meio somente do exercício da coerção; a ideologia jurídica nos faz viver fora das relações de exploração e subordinação, ela nos faz viver em um outro mundo, que nos aparece como uma formação imaginária que produz uma peculiar distorção, que é, ao mesmo tempo, alusão ao real e ilusão do real, e que, portanto, não pode ser “corrigida” ou “dissolvida” pela exposição à luz da verdade da razão.» (Marcio Bilharinho Naves, “A questão do direito em Marx”)

 

[8/12] do RICARDO DOMENECK: “Os antecedentes de um poema importam, e onde começam? Ontem postei um artigo sobre uma família que vivera perdida na Sibéria por 40 anos. Então, Tarso de Melo recomendou que eu assistisse ao documentário ‘Happy people’, de Werner Herzog. Ao assistir ao documentário, surge na tela por poucos minutos um caçador siberiano chamado Anatoly Tarkovsky, que Herzog anuncia em sua voz esquisita ser parente do “famoso diretor”. Ao terminar o documentário, retorno a poemas de Arseni Tarkóvski e a cenas de Andrei Tarkóvski, e vou pesquisando obsessivamente na rede até cair nesta foto. Ou meu poema capenga começa no dia em que foi feita esta foto? Por esta historieta é que dedico o poema a Tarso de Melo.”

http://ricardo-domeneck.blogspot.com.br/2016/12/carta-de-um-domeneck-aos-tarkovski.html

 

[8/12] LADEIRAS

Heitor Ferraz Mello

 

É tempo de subir

a ladeira – amoldar

o pé que já se esquecia

sentir que a sola

do sapato é um couro

a forma exata do pé

e se ajusta pouco

a pouco à forma antiga

do paralelepípedo

se ajusta como se

encontrasse no chão

o que não mais existia

um certo prazer

irregular de quem anda

se mistura, se funde

 

[9/12] – Diiia!

– Dia.

– Bããão?

– Bão.

 

[9/12] Uma dica natalina procês: se quiserem fazer a alegria de alguém, considerem aproximar de seus ouvidos a voz de António Zambujo cantando Chico Buarque (brigadão, Carolina!) e a de Teresa Cristina cantando Cartola. Coisas preciosas. De nada.

 

[9/12] Os Correios estão dando um apoio fundamental para o incremento do livro eletrônico e do turismo: enviar um livro de papel para fora (e também para dentro) do país daqui a alguns dias vai custar quase o preço de entregá-lo pessoalmente.

 

[10/12] Temer, Renan e Maia na delação bem detalhadinha da Odebrecht, cercados de gente fina por todos os lados. E um silêncio grosso aqui em volta. Só consigo pensar em:

1) o brasil-cbf-paneleiro não liga para corrupção. Não liga e nunca ligou. No geral, ele convive bem com corrupção em todos os níveis, desde a gorjeta pra ser melhor atendido em alguma festa até o político que quebra seu galho. Eu sempre disse isso. O brasil-cbf-paneleiro só odeia o Lula e tudo que lembre o Lula, haja corrupção ou não. Sempre odiará.

2) Imagina a decisão do STF pra justificar tudo isso…

3) Dilma, ah, Dilma…

 

[10/12] O mais catastrófico das conversas sobre aposentadoria é lembrar que, se forem levadas a efeito todas as propostas dos golpistas com relação ao contrato de trabalho, sofrer para aposentar será o menor dos nossos problemas. Quase um luxo.

 

[11/12] Se Temer passar o reveillón como presidente da República, não vão adiantar os desejos de Feliz Ano Novo. Se ele cair antes, temos alguma chance.

 

[11/12] Não conheço bem outros povos. Conheço um pouco melhor o meu, aquele a que pertenço, de dentro. Dos outros povos, o que ouço normalmente é generalização preconceituosa, favorável ou contrária. Do meu povo, também, mas quanto mais o conheço, mais percebo o erro que é afirmar que todo brasileiro é assim ou assado. O brasileiro é vário e imprevisível. Não conte, por exemplo, com o brasileiro “pacífico” em meio ao desmanche do país. Numa sociedade cada vez mais injusta e desigual, as mistificações desabam. E o sossego dos privilegiados é cada vez mais caro. E frágil.

 

[12/12] O rato que está roendo o país sobre a cadeira mais importante de Brasília é só um rato. Tem jeito, ganas, cheiro, modos de rato. Um grito forte é provável que o coloque para correr de lá. Como um rato. De volta para a sombra. Para sempre. Mas devemos ter certeza de que, com o rato, vai embora tudo o que ele representa, o estrago já feito, o caos posto em marcha. Não nos basta um grito qualquer. Ratos deixam rastros.

 

[12/12] Minha opinião sobre Mano Brown vale pouco. Tanto quanto a opinião de qualquer fã sobre qualquer ídolo. Brinco com os amigos que, quando Brown gravou uma música com o Naldo, não mudou minha opinião sobre o Brown, mas sobre o Naldo, que já passou a ser considerado. Coisa besta, gente, injustificável, depois de anos achando que esse cara sabe de coisa que nem suspeito. E tudo isso é pra dizer pra vocês: Boogie Naipe me pegou.

 

[12/12] Quando vai ser a entrega do Prêmio Homem do Ano da Odebrecht pro Temer?

 

[13/12] Salvo pelos livros (ou seria: a salvo pelos livros?), tender a esse minimalismo, colocá-lo no horizonte, almejá-lo – mal não fará.

 

[13/12] Nosso Congresso não liga para a maioria do povo que elegeu Dilma. A maioria do povo que é contra a PEC da Maldade. A maioria do povo que é contra a deforma da Previdência. A maioria do povo que é contra as jogadas para se livrar das acusações de corrupção. A maioria do povo que fala “Fora, Temer” e “Fora, Renan”. A maioria do povo que vai sofrer os efeitos dessas medidas. Nosso Congresso simplesmente não liga. Não está nem aí. Nosso Congresso segue, Activia com Johnny Walker, de costas para essas maiorias. De costas para o povo. Ao menos até o dia em que esse povo cansar e achar um jeito de lembrá-lo de que as coisas não podem ser assim. Quando?

 

[13/12] Querido diário, chega ao fim mais um dia normal no país. Fez calor e quase choveu. A gente trabalhou, leu as notícias, esbravejou. Nossos políticos aprovaram uma medida pra salvar o país. Eles são incríveis: cavaram um fosso ainda mais fundo entre o mundinho que representam e o mundão que desprezam. Quem reclamou, claro, apanhou. Teve mais denúncias e mandados de prisão contra petistas, mas nem todos nossos políticos são assim: os deputados tucanos com a gravata suja de merenda foram inocentados por seus colegas. E o Judiciário está melhorando: Gilmar disse que vazamento pode anular delação. Demorou, mas as regrinhas voltaram à moda.

Amanhã há de ser outro dia. Boa noite.

 

[14/12] «O pato vinha cantando alegremente, quém, quém

Quando a galera flamejante pediu

Pra entrar também no samba, no samba, no samba»

 

[14/12] (O cara da mesa ao lado mente. Mente – e faz do bar & restaurante uma sala de seu escritório. Mente alto. Diz que está na Paulista, mas está bem no miolo de Santo André. Diz que não pode passar, mas é provável que possa. Faz tempo que não vejo uma gravata tão bonita. Uma camisa bem passada. Iniciais bordadas no bolso perto do coração. Ele mente. Sua gravata mente. Sua camisa e suas iniciais mentem. Seu coração talvez também não esteja no lugar em que diz estar.)

 

[14/12] O PMDB quer voltar a chamar MDB, nome que o partido teve entre 1966 e 1979. Devem estar sabendo de algo que ainda não sabemos. Que tucanos tomarão a arena, por exemplo.

 

[15/12] « – Você acredita num papel social da literatura? Escrever é agir?

– Sim. Acredito de maneira geral que a literatura cumpre um papel social essencial, como reflexão sobre o mundo, sobre a realidade, sobre a experiência, e que toda reflexão é necessariamente uma intervenção. Por outro lado penso também que em determinados momentos de convulsão política, de certo caos social, certo desequilíbrio geral de uma sociedade, a literatura tem que se fazer ainda mais contundente e mais incisiva. Essa é a escolha que eu tenho feito e é a literatura que eu tenho valorizado neste momento. Porque essas coisas são muito fluidas, eu não retiraria do contexto essa visão de literatura, mas, ainda sim, hoje me parece que a literatura tem algo a dizer e deve dizer sobre o momento político brasileiro e internacional.»

Não deixem escapar essa preciosa entrevista do grande Julián Fuks:

http://brasileiros.com.br/2016/12/o-sucesso-de-um-fracasso/

 

[15/12] (Já que tudo vaza neste país, vou ficar aqui esperando o dia em que ficaremos sabendo detalhes desse grande esquema entre os deuses para criar Milton Nascimento. A casa vai cair nos céus.)

 

[16/12] Acabou hoje minha história na Facamp. Foram 15 semestres em que, seguramente, aprendi bem mais do que ensinei. Foi bom, sim, enquanto durou, e a vida segue. Segurei bem a onda deste dia estranho, mas senti uma pontada funda, bem no ponto em que guardo os tantos amigos de lá, quando disse tchau pela última vez para o Marcinho.

 

[17/12] A POESIA VAI

Manuel António Pina

 

A poesia vai acabar, os poetas

vão ser colocados em lugares mais úteis.

Por exemplo, observadores de pássaros

(enquanto os pássaros não

acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao

entrar numa repartição pública.

Um senhor míope atendia devagar

ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum

poeta por este senhor?» E a pergunta

afligiu-me tanto por dentro e por

fora da cabeça que tive que voltar a ler

toda a poesia desde o princípio do mundo.

Uma pergunta numa cabeça.

– Como uma coroa de espinhos:

estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

 

[19/12] Queridos,

aprendi com minha filhinha que “presente a gente faz; a gente só compra o que não consegue fazer com as mãos”. E é por isso que ela enche a casa com os papéis que recorta e desenha e decora e grampeia e anota os nomes de quem fará feliz com aquilo que suas mãos puderam fazer. E suas mãos podem cada vez mais, como as nossas também poderão se não pensarmos que elas existem apenas para digitar senhas. Não sei onde ela aprendeu isso, mas sei que ela me ensinou. O caminho é longo, mas vamos um passo por vez.

Minha habilidade é pequena, então começo por bem pouco: um cordão vermelho. E é claro que essa cor não vem por acaso. Infelizmente, vivemos um momento triste em que essa cor de tantos significados voltou a ser perseguida, como se encarnasse uma espécie de mal. Sinal de tempos medíocres. O vermelho. Sangue, fogo, paixão, raiva. A cor do pau-brasil, do “red carpet”, do “red light district”, da Cruz Vermelha. Já significou caçada, fertilidade, conquista. As religiões todas reverenciam a seu modo o vermelho. A cor predileta de Marx, sim, e das bandeiras dos trabalhadores nos mais variados momentos e lugares. Rojo, red, rouge, rosso. Mas também a cor da Coca-Cola, do Bradesco, do Santander! A cor do livro de Mao Tsé-Tung e do sapato Prada do Papa. Enfim, é muito importante notar que vivemos numa época em que toda essa riqueza de significados sucumbe ao ódio cego, ignorante de si e do outro, porque ignorante da história. É muito triste. E temos que lutar vermelhamente contra essa tristeza.

O meu cordão está no pulso esquerdo, em substituição aos relógios que sempre ali estiveram. De certo modo, contra os relógios que ali estiveram, porque quero vê-lo no braço como um lembrete de que a vida pode ser mais simples, mais sensata, menos mecânica, preocupada com outras engrenagens e com outras e novas formas de passar pelo tempo, de viver o tempo. É o que tem me movido, mais e mais.

O seu cordão, se for para o pulso, para uma bolsa ou uma gaveta, tanto faz. O que eu espero apenas é que ele, por um momento, faça lembrar que a vida não pode ser menos que vermelha – briguenta, fértil, apaixonada, brasa que queremos tornar chama. E podemos.

Por essas e outras, seria muito injusto se dissesse que 2016, decerto um ano duro com todos nós, foi um ano a ser esquecido, apagado, um desperdício. Mesmo em meio à tempestade, acho que temos razões para comemorar quando, no pequeno espaço das decisões que nos competem, escolhemos caminhos de que nos orgulhamos. Tenho certeza que, sobre base boa, com a cabeça boa, podemos lutar melhor, mais fortes e felizes, contra tudo que nos aflige. E curtir melhor o que realmente nos importa.

Que 2017 seja um ano de muita batalha e solidariedade,

com toda a felicidade que estiver ao alcance!

 

[19/12] A gente vive por perto desses caras bons de papo, tão bons de papo que a gente esquece o quanto eles são bons de versos, de fotos, das artes todas que fazem por aí. E quando se depara com as obras deles, elas são tão nossas, tão parte daqueles papos sem pompa, sem rota, sem programa, que é quase como se a gente também fosse parte delas. É assim que me chega e reparto com vocês a notícia de que Mario Rui Feliciani e Luiz Gonzaga S. Neto colocaram num livro eletrônico – CAPTURAS – as conversas entre fotografia e poesia que já costuram há um bom tempo. Coisa das mais finas!

Para baixar, entre aqui:

 

[22/12] É um escárnio que Temer e os golpistas chamem de “minirreforma trabalhista” o ataque à Constituição e à legislação trabalhista que estão perpetrando – por decreto. Não é “mini”, porque ataca muitos pontos relevantes da proteção às relações de emprego; não é “reforma”, porque tem o alcance de uma demolição; e está muito, muito longe de ser “trabalhista”. Seu corte é antitrabalhista! Por trás do argumento da “modernização” e da “salvação” para escapar da crise, o que vem é a derrubada de direitos. Quem aplaude? Os de sempre! Do outro lado da balança, é importantíssimo revidar em todos os campos, e isso passa também pela linguagem. Não é “minirreforma”, é de GOLPE que devemos continuar chamando tudo o que for feito sob o manto de Temer, para escancarar a continuidade entre o processo de tomada do poder e a execução dos objetivos dos golpistas, que, aliás, já estavam claramente colocados para quem quisesse ver. Não podemos arredar o pé. Nem a palavra. Nem nada. Não é o condutor do trator que decide como devemos nos comportar sob suas garras.

 

[23/12] (Viver no tempo do papel,

seu ritmo, suas ranhuras,

almejar permanência.)

 

[26/12] SÓ FALTA O LULA. A repórter disse: “O cantor George Michael morreu aos 53 anos. Em 2016, a música perdeu também Prince, David Bowie e Leonard Cohen”. Ato contínuo, o barbeiro disse: “Só falta o Lula”. Meu filho cortava o cabelo, o salão pequeno, quente, a tevê com volume suficiente para evitar qualquer conversa. Era a primeira vez que eu voltava ao salão, num 26 de dezembro, depois de 10, talvez 15 anos. E o barbeiro achou um jeito de dizer, logo após a lista dos quatro grandes artistas mortos, uma referência a Lula. A única resposta de que fui capaz: “Ele não canta tão bem”. Mas veio então um silêncio, a tesoura seguiu trabalhando e fiquei pensando nessa estranha fixação que Lula causa, mais em quem o odeia, creio, do que naqueles que o admiram. O nome de Lula não sai da boca de uma grande parte dos brasileiros. Quase uma nação disposta a ser Dona Marisa: dormir com Lula, sonhar com Lula, acordar com Lula, passar o dia com Lula, falar o nome de Lula até depois da lista de cantores mortos mais ilustres para pessoas que você sequer conhece. Henrique sentenciou, logo que saímos: “que tonto”. Mas logo lembramos que não é apenas no barbeiro que temos tido o susto de ouvir o nome de Lula surgir no meio dos papos mais distantes e amenos. Uma pena tanta paixão assim lançada no lixo do ódio. Só falta o Lula? Não sei. Mas sua morte vai deixar um buraco no coração e na lista de assuntos que ocupa a cabeça de muitas dessas Marisas involuntárias que Luís Inácio conseguiu encantar por aí.

 

[27/12] Não basta que cada um de nós se dedique a não ser – nunca! – o monstro capaz de fazer com outra pessoa aquilo que nos deprime tanto quando explode no noticiário (como esse assassinato terrível no metrô de SP). Cada vez mais temos que ir além, bem além da evolução e do autocontrole individuais, levando muito a sério, em cada gesto ou papo do dia, todos os caminhos que nos levem a avançar conjuntamente para uma sociedade em que a barbárie não se banalize. Taí uma tarefa que, mais do que qualquer desejo vago, pode fazer de 2017 e dos próximos anos, sempre, felizes anos novos. Mãos e mentes à obra!

 

[28/12] «O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou não tenha, é que ela mantém, purificadas das ameaças da confusão, as linhas de força que configuram a equação da consciência e do acto, com suas tensões e fracturas, suas ambivalências e ambiguidades, suas rudes trajectórias de choque e fuga. O autor é o criador de um símbolo heróico: a sua própria vida.» (Herberto Helder, “Photomaton & Vox”)

 

[29/12] do BASHÔ

 

decorações com ramos de pinheiro –

penso no Ano Novo

e trinta anos passam numa noite

*

quando o ano está a acabar

agarro no meu chapéu

e calço as minhas sandálias de palha

*

talvez eu seja

uma dessas pessoas felizes

que vão chegar ao fim do ano

*

esta casa

faz-me esquecer

um ano de problemas

*

o ano e a ave

desapareceram

nas águas do lago

*

peixe? ave?

na festa de fim de ano

onde se escondem os corações?

______________

(alguns haikus de Ano Novo,

trad. Joaquim M. Palma)

 

[31/12] Metas 2017 – Desidiotizar-se: um longo, árduo e necessário caminho para todos nós. Mas ainda mais longo e árduo para quem não o vê como necessário para si.

 

[31/12] Queridos amigos, desejo muita felicidade, saúde, solidariedade e disposição pras lutas da vida. E um monte de boas dúvidas, para que a vida nos surpreenda e em 2017 sejamos cada vez menos “aqueles que”, como aprendi nesse belo poema de Wislawa Szymborska (traduzido por Regina Przybycien). Forte abraço!

 

TEM AQUELES QUE

 

Tem aqueles que executam a vida de modo eficaz.

Põem ordem em si mesmos e ao seu redor.

Têm resposta correta e jeito para tudo.

Adivinham logo quem a quem, quem com quem,

com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,

colocam no triturador os fatos desnecessários,

e as pessoas desconhecidas

em fichários de antemão destinados a elas.

Pensam só o quanto vale a pena,

nem um instante mais,

pois detrás desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,

deixam o posto

pela porta indicada.

Às vezes os invejo

— por sorte isso passa.

 

[31/12] Por definição, nossa liberdade com relação às coisas essenciais da vida é bem pequena, mínima. Mas nossa coragem para repensar o que é essencial pode nos tornar bem mais livres do que imaginamos. Feliz 2017 a todos!

 

[1/1] JÁ É 2017? SEJE MENAS.

 

[2/1] A chacina de Campinas, ocorrida significativamente na virada de ano de 2016, tem sua brutalidade amplificada por uma carta escrita pelo assassino de 12 pessoas, entre as quais seu filho de 8 anos. Não é uma carta qualquer. É um documento contundente do mundo que devemos ultrapassar, por razões bem diversas daquelas explicitadas pelo assassino. Alucinadamente, o assassino via problema onde havia tentativa de solução – e tragicamente viu como solução a exacerbação de seus problemas e o ataque cruel a um círculo de pessoas a que atribuía seus fracassos.

O que nos obriga a pensar a partir dessa barbárie é a semelhança entre as “certezas” de sua carta (sobre política, direitos humanos, feminismo etc.) e um discurso com que nos deparamos trivialmente. Inevitável, para mim, não trazer à memória o texto precioso de Knausgard sobre o atentado que vitimou 69 jovens na Noruega em 2011: o assassino Breivik é um de nós. Não é o “monstro”, tão distante de nós em tudo, que nos confortaria afirmar que é. É a figura com quem cruzamos o tempo todo, o colega ou parente intolerante que deixamos de seguir no facebook, mas não desfazemos a amizade virtual para evitar constrangimentos no dia a dia do trabalho, da família etc.

Lá e cá, na Noruega ou aqui do lado, as proporções do ato final nos chocam, mas chocam ainda mais porque descobrimos que, em sua motivação, estão convicções que muitas pessoas ao nosso redor ostentam, sem qualquer vergonha. Quando uma chacina como essa desata em sangue o que era saliva, é como se sentíssemos a perigosa proximidade que temos mantido com o abismo. E tudo indica que continuaremos mantendo.

 

[3/1] Queria mesmo que em 2017 «reconstrução» fosse uma das palavras fortes do dicionário político dos brasileiros, mas creio que ainda seja cedo. Não se fala em reconstruir quando o terremoto, o bombardeio, a demolição está em curso. Temer ainda está lá tomando sorvete, Doria acaba de estrear sua fantasia de prefeito, a arma do golpe continua mirando firme contra nós. Não dá ainda para reconstruir, muito menos para distrair. Ainda não sabemos como serão as cicatrizes de tudo isso que está acontecendo em nosso país tão intensamente. As feridas estão vivas. Vivíssimas. Por isso creio que é cedo para falar em reconstrução. E temo que seja tarde.

 

[3/1] Há infinitos riscos em cada palavra. Como um artefato explosivo, projetado e produzido sob toda cautela, que sai, do paiol mais solitário, para realizar missões que, no limite, têm sempre algo de incontrolável e imprevisível. Escrever — poesia, filosofia, bilhetes ao acaso e essa espécie de jornalismo que é opinar sobre a vida à queima-roupa — exige o esforço diário de ir ao fundo da língua, mergulho de apneia, e voltar à superfície com o peixe mais exato para as fomes mais incertas. Textos afligem e afagam. Atacam e alimentam. Lançada a bomba ou oferta a caça, tudo escapa às mãos que até ali as levaram. Eis sua angústia. E sua delícia.

 

[5/1] Quando o governador do Amazonas tenta justificar o massacre no presídio dizendo que “não havia nenhum santo lá”, ele está, de um lado, dialogando com um auditório que espera que toda prevenção, repressão e punição a crimes consistam simplesmente em pena de morte, do modo mais informal e imediato possível, nas ruas ou nas cadeias. Do ponto de vista eleitoral, pode ser uma boa jogada para ele. Mas, de outro lado, não podemos deixar de perceber que, quando o governador se arroga no papel de “julgar” para além do direito — admitindo que não se preocupa em cumprir sua obrigação constitucional de garantir que a execução das penas, fixadas por juízes, se dê de acordo com a lei, porque tem opinião diversa sobre o destino que os presos devem ter –, simplesmente damos mais um passo na ruptura institucional que estamos assistindo, entre um projeto de país que inscrevemos na Constituição e o desejo dos agentes políticos sentados nas principais cadeiras do país. Tem sido assim por aqui, dia após dia. Enquanto os atingidos por esses desejos inconstitucionais forem aqueles que a sociedade quer ver mortos, parece que não há grandes perdas. Mas alguém acredita que isso parará por aí?

 

[5/1] Quero ver o dia em que esse João Dória, depois de sua jornada extenuante como gari, chegar na baldeação e tiver que sentir no bolso o que representa cada aumento na passagem do busão.

Como assim “ele não anda de ônibus”!?!?

(E pensar que, dias atrás, peguei o ônibus pra SBC no Sacomã logo atrás do irmão de um ex-presidente…)

 

[6/1] Em 2017 o Alpharrabio completa 25 anos. Um texto que escrevi em 2000: “para todos os lados na vida, vale a sentença de joão cabral: “um galo sozinho não tece a manhã”. e o alpharrabio tem sido o local privilegiado para os galos do ABC se unirem e, com seus gritos, tecerem a teia de manhãs novas, na arte, na cultura, no pensamento. é quase impossível imaginar – mas de certo modo nos alegra – que um dia o país (o mundo?) esteja pontilhado de casas assim vivas (que agrupam, incentivam, editam), somando seus tecidos para fazer por todos o que o alpharrabio tem feito por nós.”

 

[9/1] Se alguém chegando agora neste mundo me perguntasse o que ler para ter ideia do que andam escrevendo os poetas contemporâneos brasileiros, diria sem pestanejar que uma boa mostra do que há de mais forte está no recente número da revista GERMINA. Confiram lá na seção Suplemento Literário: tem Annita Costa Malufe, Ricardo Rizzo, Antonio Moura, Danielle Magalhães, Reuben da Rocha, Júlia De Carvalho Hansen, entre muitos outros muito bons. Não é só uma boa porta para entrar no universo rico e complexo da poesia daqui. É um passeio e tanto por suas sendas.

http://www.germinaliteratura.com.br/index1.htm

Alguns poemas

Advirto: esses poemas nasceram em condições adversas, como me agrada que poemas nasçam. Aliás, acho que são as únicas condições em que consigo dar à luz algo que posso chamar de poema. Nasceram provocados – pelas notícias mais terríveis, por leituras cada vez mais inquietas, pelas conversas mais improváveis. Enfim: pela vida. Saquei-os lá do facebook, do meio de uma enxurrada de outras palavras que, de certa maneira, também tentavam reagir aos mesmos ataques e afagos das últimas semanas. Espero que gostem.


EMENDA

1

Um tiro no pé.
Mas não qualquer tiro no pé.
Tiro de grosso calibre
em pés descalços.
Como sempre. Nas favelas,
no Senado.

2

Tenho medo de dizer
que hoje vivemos o ápice
do golpe, porque talvez
ainda o vejamos subir mais
sobre nossas costas
enquanto caímos.


TARDE

O velho surfista diz
que sentir a onda nascendo
sob a água, ainda longe,
é como sentir pulsar
o coração da terra.

Aqui, sem mar, mergulho
nas ondas do asfalto,
conto as gotas de sangue
anônimas nas calçadas

e é como se o mundo
desistisse de respirar.


MARIA
[para minha tia Socorro,
que se foi hoje, curtir o Natal
noutras estrelas]

Um dia, um dia qualquer,
entrou numa piscina e deixou lá
suas palavras, a voz firme,
a ideia forte e o rito
de lavar louças, que cumpria
veloz, falante, com mão feliz.

Desde então, seus olhos tentavam
dizer o adeus que não queríamos ouvir.

Tinha Socorro no nome,
mas não como quem o pedisse.
Como quem o fosse: coração
-fortaleza (ou melhor: coração
-recife) para quem fica aqui hoje
numa véspera avessa
aplaudindo o quanto deixa
do tanto que foi.


PARA UMA FOTO DE GIL E BITUCA

há muita história nessa foto
mas nela também há muita geografia
uma linha que passa de um sorriso a outro
e ela não nasce há 50 ou 60 anos

é linha que vem da mais funda África
oculta na carne em navios negreiros
e se espalha pelo mundo
subvertendo cada chicote, cada chicotada
em corda de violão acariciada
em mergulho nos sulcos da pele preta
e de todos os discos de que salta
a música negra que a nada se compara
(não é por acaso que a pele dos discos
é preta e canta)

repare: a foto não consegue congelar
os sorrisos, os olhos vivos
o segredo que eles cifraram

tente ver os sulcos na pele preta
se ali algum dia a agulha mais fina correr
a música que virá
a mais generosa resposta
a todo sofrimento dos porões senzalas favelas

você consegue ouvir?


ANARCOMONGE
[para o Carlos Augusto]

não é da boca
pra fora (o corpo tem
mil outras portas,
cada poro é uma janela
em nosso incêndio)

falo pelos cotovelos

mas acredito mesmo
na eloquência
do silêncio


PS: SP

Já sabemos bem
o que esperar na cidade
em que o prefeito janota
se fantasia de gari
para os flashes de um dia.

Queria mesmo era ver
como seria
a cidade em que os garis
varressem dos gabinetes
a elite que os descarta
e ainda tripudia.


JARDIM

o simples
o silêncio
o oco
o sensível

o nada
o pouco
o denso
o delicado

o lento
o singelo
e o modo

de abraçar
do vento
: cultive-os