Alguns poemas

Advirto: esses poemas nasceram em condições adversas, como me agrada que poemas nasçam. Aliás, acho que são as únicas condições em que consigo dar à luz algo que posso chamar de poema. Nasceram provocados – pelas notícias mais terríveis, por leituras cada vez mais inquietas, pelas conversas mais improváveis. Enfim: pela vida. Saquei-os lá do facebook, do meio de uma enxurrada de outras palavras que, de certa maneira, também tentavam reagir aos mesmos ataques e afagos das últimas semanas. Espero que gostem.


EMENDA

1

Um tiro no pé.
Mas não qualquer tiro no pé.
Tiro de grosso calibre
em pés descalços.
Como sempre. Nas favelas,
no Senado.

2

Tenho medo de dizer
que hoje vivemos o ápice
do golpe, porque talvez
ainda o vejamos subir mais
sobre nossas costas
enquanto caímos.


TARDE

O velho surfista diz
que sentir a onda nascendo
sob a água, ainda longe,
é como sentir pulsar
o coração da terra.

Aqui, sem mar, mergulho
nas ondas do asfalto,
conto as gotas de sangue
anônimas nas calçadas

e é como se o mundo
desistisse de respirar.


MARIA
[para minha tia Socorro,
que se foi hoje, curtir o Natal
noutras estrelas]

Um dia, um dia qualquer,
entrou numa piscina e deixou lá
suas palavras, a voz firme,
a ideia forte e o rito
de lavar louças, que cumpria
veloz, falante, com mão feliz.

Desde então, seus olhos tentavam
dizer o adeus que não queríamos ouvir.

Tinha Socorro no nome,
mas não como quem o pedisse.
Como quem o fosse: coração
-fortaleza (ou melhor: coração
-recife) para quem fica aqui hoje
numa véspera avessa
aplaudindo o quanto deixa
do tanto que foi.


PARA UMA FOTO DE GIL E BITUCA

há muita história nessa foto
mas nela também há muita geografia
uma linha que passa de um sorriso a outro
e ela não nasce há 50 ou 60 anos

é linha que vem da mais funda África
oculta na carne em navios negreiros
e se espalha pelo mundo
subvertendo cada chicote, cada chicotada
em corda de violão acariciada
em mergulho nos sulcos da pele preta
e de todos os discos de que salta
a música negra que a nada se compara
(não é por acaso que a pele dos discos
é preta e canta)

repare: a foto não consegue congelar
os sorrisos, os olhos vivos
o segredo que eles cifraram

tente ver os sulcos na pele preta
se ali algum dia a agulha mais fina correr
a música que virá
a mais generosa resposta
a todo sofrimento dos porões senzalas favelas

você consegue ouvir?


ANARCOMONGE
[para o Carlos Augusto]

não é da boca
pra fora (o corpo tem
mil outras portas,
cada poro é uma janela
em nosso incêndio)

falo pelos cotovelos

mas acredito mesmo
na eloquência
do silêncio


PS: SP

Já sabemos bem
o que esperar na cidade
em que o prefeito janota
se fantasia de gari
para os flashes de um dia.

Queria mesmo era ver
como seria
a cidade em que os garis
varressem dos gabinetes
a elite que os descarta
e ainda tripudia.


JARDIM

o simples
o silêncio
o oco
o sensível

o nada
o pouco
o denso
o delicado

o lento
o singelo
e o modo

de abraçar
do vento
: cultive-os

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