Não se vende

Assistimos, um tanto atordoados, ao assalto que discursos e práticas empresariais fazem sobre o campo da política e da gestão pública. Em resumo, à substituição violenta da lógica do público pela mística da “eficiência, transparência e ética da iniciativa privada”. Bois dormem enquanto isso… e 2017 será ano de notícias diárias sobre esse movimento, não apenas ao nosso redor (com CEOs que se manifestam pelo DO!), mas também na Casa Branca e além. Um exemplo: é essa a razão para que se discuta a Previdência e a Assistência Sociais cada vez mais pelo viés da mais pobre matemática e menos pelo da solidariedade social. Há muitos perigos aí. Pensar os órgãos públicos (das prefeituras aos tribunais, universidades etc.) como empresas privadas, além de radicar numa ilusão, é apostar em algo muito perigoso: o Estado não é nem pode ser “uma empresa qualquer”, assim como os cidadãos não podem ser convertidos em simples consumidores, ainda mais em países tão desiguais como o nosso. Temer tenta convencer o país de que o orçamento público é a mesma coisa que o orçamento de qualquer família. Dória vende a imagem de que administrar São Paulo é convocar a iniciativa privada para parcerias, como faz nos negócios privados que agencia. A exploração de petróleo no país vai sucumbindo rapidamente ao capital internacional. Pelo país, muitos são os passos dados para privatização de serviços públicos essenciais, mas bem sabemos que nem todas as necessidades da população interessam a essas parcerias. E não temos sido sequer convidados para pensar e decidir sobre esses rumos. Não faço, é claro, a defesa do Estado brasileiro “em bloco” com relação ao que veio até aqui: não é de hoje que temos bem mais a consertar do que a conservar no país. Mas acho mesmo que a definição sobre esses consertos não pode ser feita sem uma ampla participação popular. E ninguém vai convidar o povo para decidir essas questões, especialmente porque quem está decidindo por nós são aqueles que mais se beneficiam dos rumos a que nos levam. Sugiro, então, que entremos na festa sem sermos convidados, antes que ela termine.

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