Do fb pra cá

[6/2] ROMERO E MACHADO

[esta é uma obra de ficção, baseada num suposto diálogo entre um senador e um empresário, num hipotético país chamado Brasil, em março de 2016: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.]

 

— Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima. Eu ontem fui muito claro. Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Tem que ter um impeachment. Não tem saída. E quem segurar, segura. Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar. Odebrecht vai fazer. Seletiva, mas vai fazer. Queiroz não sei se vai fazer ou não. A Camargo vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho. Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. Tem que ser política. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria. Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra. É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Com tudo, aí parava tudo. É. Delimitava onde está, pronto. O Renan é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não. Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem. A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com isso. E pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já. Caiu. Todos eles. Aloysio, Serra, Aécio. Caiu a ficha. Tasso também caiu? Também. Todo mundo na bandeja para ser comido. O primeiro a ser comido vai ser o Aécio. Todos, porra. E vão pegando e vão… O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? Amigo, eu preciso da sua inteligência. Não, veja, eu estou à disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar. Porque se a gente não tiver saída… Porque não tem muito tempo. Não, o tempo é emergencial. É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês. Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? Eu acho que você deve procurar o Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar. Acha que não pode ter reunião a três? Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é… Depois a gente conversa os três sem você. Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande. É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma… Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não. O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições sem ela. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar. Eu acho o seguinte, a saída para ela é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento… E burro. Tem que ter uma paz. Eu acho que tem que ter um pacto. Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem ninguém. Não tem. É um cara fechado, foi ela que botou. Um cara burocrata.

FIM?

 

[6/2] Parei com as notícias. Fui ver o filme do Gandhi pra mudar de ares. Começa com ele tomando 3 tiros no peito. Não está sendo fácil.

 

[7/2] Em 2030, se ainda existir STF, Gilmar Mendes se aposentará. Da composição atual, estarão lá ainda Barroso e Fachin (ambos, então, com 72 anos) e os jovens Toffoli e Alexandre de Moraes (ambos, então, com 63 anos). O Mario Rui tem razão: é bom fazer essas contas. Mas cruel é imaginar quem estará sentado nas outras 6 cadeiras aguardando o substituto de Gilmar. Cruel é constatar que, em 2033, o STF terá Toffoli, Moraes e outros 9 que nem (ou bem?) imaginamos como chegarão lá. E ainda mais cruel é pensar em quantas petições online teremos feito até lá.

Vou comprar um cubo mágico pra me distrair.

 

[7/2] Gosto de reler a carta de Temer a Dilma, de dezembro de 2015. Encadernei e coloquei na prateleira entre “O Príncipe” e a “Teoria do Medalhão”. Cada vez que releio, mais fico impressionado. Hoje destacarei o seguinte trecho: “sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção”. E Michel diz isso logo depois de se queixar porque Dilma perseguia seus aliados, em especial Moreira Franco e Eliseu Padilha. Dilma sabia das coisas, pelo jeito. E aproveito para lembrar que a gente pode até perder um tempão chorando e gritando e rindo de nervoso porque Alexandre de Moraes no STF é uma tragédia, mas não pode jamais esquecer que a grande tragédia é ter Michel Temer solto, na cadeira presidencial, decidindo seja lá o que for, ainda mais o que nos afetará por décadas e décadas.

 

[8/2] Beleza de texto. Homenagem a Ricardo Benzaquen de Araújo, professor de História da PUC-Rio e do IUPERJ, que faleceu na semana passada. Em tempos de exigências cada vez mais deprimentes sobre a atividade docente (perseguições ideológicas surrando as cabeças e o açoite das “metas e parâmetros” batendo nas costas), o texto do Fred Coelho tem o peso de um manifesto. Difundam!

 

ANÔNIMOS E ETERNOS

Fred Coelho

 

O trabalho intelectual é silencioso. Ele é feito, quase sempre, face a face. Um corpo a corpo de quem se olha — seja em uma sala, em uma conversa de orientação, em um papo no bar depois das aulas ou em outros momentos de encontro entre as pessoas. É uma tarefa que nunca para. Não há corte no pensamento. Não há cartão batido que desligue a cabeça cismada com um problema, uma hipótese, uma raiva que move, um amor que mesmeriza uma pesquisa. Quando um professor e pensador morre, só quem esteve perto dele sabe o que um país perde. E, na última semana, um dos grandes de sua geração se foi.

Ricardo Benzaquen de Araújo era parte de um grupo de pesquisadores que, hoje, são cada vez mais raros dentre as novas gerações. Talvez tenha sido a última leva de pensadores do século XX que ainda colocaram o Brasil e seus problemas profundos no centro de suas preocupações e delírios. A tradição dos “intérpretes” vem desde o fim do século XIX, mas, nos últimos tempos, perdeu força — não como produção, ainda robusta, mas como pauta central de pesquisadores cujas transversalidades contemporâneas do mundo em rede deslocaram radicalmente o tema do nacional em prol de ideias mais ligadas ao sujeito e suas rupturas com as grandes narrativas hierarquizantes do Ocidente. Estudar o Brasil, sua história, suas derrotas, suas esperanças e suas frustrações era a especialidade de Benzaquen.

Esta coluna não deseja ser um necrológio ou uma apresentação infelizmente póstuma sobre uma carreira acadêmica exitosa e brilhante. Poderia gastar todos os caracteres para apresentar apenas alguns dos livros e trabalhos de Ricardo. Mesmo sem nunca ter sido próximo ou íntimo, eu repetiria o que pessoas muito mais preparadas do que eu já fizeram e farão. Quero justamente falar com quem nunca conheceu Ricardo Benzaquen. É porque não conhecemos aqueles que, em salas de aula, escrevem com as palavras e os gestos um saber abstrato, que não fica para além de quem ouve. No final das contas, não são os livros e artigos que sobrevivem ao corpo que se vai, mas sim o que afetou de alguma forma uma série de vidas ao seu redor. Ser professor, orientador, palestrante, participante de bancas é ser, enfim, uma fala constante sobre temas que atravessam escutas em diferentes momentos da vida. Professores são passagens, um momento em que algo a mais se inscreve na formação alheia. Alguns, claro, permanecem entre nós para além de um único momento de aula ou escrita.

Quando um professor morre, o que lemos como homenagens e lembranças são as marcas que ele deixou nas pessoas, e não seus feitos individuais. Um intelectual, um escritor, um professor, no fundo, não “faz” nada. Ele não faz matéria, não faz coisa ou objetos de consumo. Como o poeta, ele funda mundos invisíveis, porém de alto impacto comunitário. Abre sendas no escuro dos dias. Sua utilidade, ao contrário do que equivocados de escolas sem partido pensam, é justamente o dissenso. Pensar. PENSAR. E não passar mecanicamente conteúdos pré-definidos, seja de que matriz ideológica for. Nenhum professor que realmente seja importante na trajetória de um aluno ou de um colega de profissão se torna importante por suas ideologias. Eles ficam para além da vida porque transcendem o particular em prol de um encontro amplo e geral com as ideias. O professor “desencaminha” porque é muito fácil escolher caminhos que já estão preconcebidos. E, mesmo para escolhê-los, vale sempre saber o porquê de suas opções.

Ricardo Benzaquen ficará — como muitos outros que, infelizmente, nos deixaram tão jovens. E isso corre a despeito de seu trabalho silencioso e sua dedicação quase anônima. O trabalho de pesquisa é solitário e anônimo. Escrever — um artigo, uma dissertação, uma tese, um livro — é solitário. Às vezes, muitos nessa posição se ressentem disso durante o processo, mas no fim entendem que (talvez) aquela solidão silenciosa seja um dos poucos momentos na vida em que você teve de lidar frente a frente com você mesmo, suas conquistas e seus limites. O pesquisador, o pensador dos problemas públicos, o interessado nas ideias que circulam e nos formam, está nesse momento existindo aos milhares: mal pagos, dedicados, mal vistos, empenhados, mal lidos, insistentes. Sempre há, porém, a sala de aula, o momento em que a solidão se encontra com as outras solidões e todos se tornam uma única grande solidão povoada.

Homenageio aqui Ricardo Benzaquen, na certeza de que muitos, talvez a amplíssima maioria dos leitores, não saiba de quem estou falando. Assim, homenageio todos os professores, pesquisadores, alunos e pessoas que optaram por viver na troca diária e anônima de ideias e desejos ao redor de uma aula. O mais trágico de tudo é que o país que ele tanto estudou não tem ideia do que perdeu com sua morte. E, em tempos em que perdemos tanto, a dor cava desse registro anônimo só pode servir de sol para que iluminemos todos que, como Ricardo, vivem em prol do ensino e da pesquisa. Obrigado a todos.

 

[8/2] De um dia para o outro, para todo lado que a gente vira aparece uma propaganda de um certo Banco Original. Eu já fico com o cabelo em pé quando vejo uma empresa, que se gaba de 2,2 bilhões de patrimônio e 7,4 bilhões de ativos, dizer que é “100% digital”, ou seja, os clientes farão o trabalho que poderia gerar alguns empregos por aqui. Mas tem algo ainda mais intrigante, que talvez vocês já saibam. São Google me acudiu e descobri uma curiosidade: ele nasceu da cabeça de Henrique Meirelles, nosso Ministro da Fazenda, com grana pesada do grupo JBS. Meirelles, aliás, trabalhava lá até assumir a pasta de Temer. Mundo pequeno, viu? Olhos abertos.

 

[8/2] O Senado que aprovou hoje a “reforma” do Ensino Médio é o mesmo para o qual estamos pedindo cordialmente que rejeite Alexandre de Moraes? A Câmara que aprovou ontem um salvo-conduto para os partidos não prestarem contas é a mesma para a qual temos pedido que proteja os interesses do país? O presidente que criou um ministério para proteger seu amigo e indicou outro amigo para protegê-lo no STF é o mesmo de que temos cobrado respeito à Constituição? Sinceramente, depois de todos os tapas na cara que levamos de uns anos pra cá, acho que só teremos alguma esperança verdadeira quando conseguirmos arrancar de nossos horizontes qualquer esperança de que essa mesma corja tenha pudor em fazer mais do que já tem feito bastante. Quem sabe, então, no lixão nasçam flores.

 

[9/2] Toda minha solidariedade e admiração à juíza Kenarik Boujikian, que foi punida por parte dos seus pares no TJ-SP porque determinou a soltura de presos cujas penas já estavam excedidas. Todos aqui temos na memória casos escabrosos de juízes que cometeram crimes e foram aposentados sem perder um centavo. Em todo boteco da Praça da Sé circulam histórias que provam a flexibilidade dos critérios do Tribunal para definir o que é admissível ou não na conduta dos juízes. Parece, enfim, que a regra geral é punir apenas quem abusou demais… No entanto, no caso da Kenarik o que vemos é de um rigor extraordinário (descumpriu o princípio da colegialidade!?), aquele rigor que o direito costuma invocar quando quer perseguir alguém. Não por acaso, é uma juíza numa instituição dominada por juízes. Não por acaso, é uma militante pela democratização do Judiciário e do país num ambiente reacionário. Não por acaso, é uma mente progressista numa estrutura arcaica. Mas a luta não acaba aí. Força, Kenarik!

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