Doni: comigo, conosco

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Relendo os livros do poeta Donizete Galvão (1955-2014), para uma tarefa que divido feliz com Paulo Ferraz (em breve!), me peguei fazendo contas: quando nossa amizade começou, eu tinha pouco mais de 20 anos e, portanto, ele tinha pouco mais que a idade que tenho hoje. E desde sempre o interesse e o reconhecimento dele pelo que fazíamos eram admiráveis, verdadeiramente contagiantes, a ponto de nunca ter reparado essa diferença de idade antes. A generosidade dele (somada talvez à minha pretensão…) nunca deixou pousar qualquer distância geracional em nossa conversa. Mas Doni foi embora aos 58 – e como 58 é pouco para alguém como o Doni! Sua presença e sua falta estão ainda emaranhadas na cabeça e na agenda dos amigos que herdei dele, assim como nas minhas. De vez em quando, falamos do Doni ainda no presente. Se distrair, incluo seu email nas conversas coletivas. Nos últimos meses, por exemplo, ando numa febre de interesse por um desses universos que os duendes da leitura parecem deixar reservados para quando estivermos prontos, e tenho certeza que uma ou duas cervejas com o Doni seriam suficientes para que ele me indicasse o que ler nesse universo, assim como fez em tantos outros. Por falar em livros, encontrei aqui agora entre os que ele escreveu alguns que curiosamente não estão autografados para mim. E é estranho demais constatar que continuarão assim. Mas não fico triste, não posso. É um imenso privilégio ter sido amigo de alguém que passou pela vida perseguindo as palavras desses poemas e deixou tanto assim para seus amigos-leitores. Foi sua maneira de ficar um pouco mais. Uma vida entre livros que se eterniza nos livros que só ele poderia ter escrito. Só mais uma de suas generosidades. Comigo, conosco.

>>> E já anotem aí na agenda que, em 29/08, às 19h, na Casa das Rosas, haverá um encontro dedicado à poesia de Donizete Galvão, sob coordenação de Vera Lucia de Oliveirahttp://www.casadasrosas.org.br/agenda/poeta-da-carne-e-do-tempo

Íntimo desabrigo

Leia abaixo o texto de Carolina Serra Azul e Renan Nuernberger sobre meu novo livro de poemas, Íntimo Desabrigo, que sai em breve.

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«Contra nossos dias nebulosos, Íntimo desabrigo propõe um recuo estratégico: muitos poemas da primeira seção, “Não sei”, estabelecem uma rede de afetos, reforçada nas dedicatórias a familiares e amigos, que garante algum alívio e esperança nessas páginas. Há um desejo explícito de restaurar as vidas danificadas (“Eu queria ver as fotos em que Verônica está linda”), de reduzir a poluição sonora (“… acredito mesmo/ na eloquência/ do silêncio”), de transfigurar o cotidiano sufocante (“… a mágica de multiplicar o que importa”) – desejo que se instaura a partir do cultivo de lições simples, com certa feição oriental, como no poema “Nota para quando eu for um sábio chinês de um século distante”.

Por outro lado, esse cultivo da intimidade é atravessado pela violência objetiva, sinalizando o horror já entranhado nos sujeitos (“… soldados inimigos/ patrulhando/ suas veias”). Aqui, os elementos da natureza são corrompidos pelos signos da civilização (“céu de concreto”, “mar de desprezo”, “ondas do asfalto”, “tanto sol na tela fria”), apontando que, nas relações diárias, aquilo que acontece “não é da ordem dos astros. É desastre”. Há, com isso, um questionamento sobre o alcance da própria poesia, talvez escondida “sempre no avesso” dos lugares onde a procuramos – o que revela, ainda, a outra face do almejado silêncio (“soterrada sua pretensão/ de saber dizer tudo”).

Se, no recuo inicial, o sujeito se aparta do mundo (“daqui ouço a voz…”), no decorrer do livro percebe-se o entrelaçamento de ambos (“(e o mundo é mim mesmo)”), engendrando uma concepção de poema que, no limite, ambiciona desaparecer enquanto poema, como em “Feitio de oração”, para revelar a matéria de nosso tempo. Tal gesto fica evidente na seção dois do livro, “Novos poemas [2013-2014]”, e, sobretudo, na seção final, “Outros desabrigos”, nas quais os efeitos reais do horror social (“…Outro país se esvaiu, mais alguns foram linchados”) são reconstituídos esteticamente com incisiva crueza.

Não pense o leitor, entretanto, que o poeta abdica assim de seus instrumentos: o senso construtivo da poesia de Tarso de Melo reaparece, aqui, para ampliar o alcance político de seu gesto. Isso é evidente, por exemplo, na disposição dos versos de “Toda sentença é um antipoema”, cuja dimensão de ready made – trata-se da transcrição literal da sentença condenatória de Rafael Braga – é tensionada pela exposição sombria do funcionamento da justiça. A condenação de Braga, resultado da violência do Estado durante as manifestações de junho de 2013, é um documento revelador do racismo estrutural no Brasil (“a sua personalidade é voltada para a criminalidade”), como os textos do século XIX que justificavam “racionalmente” a escravidão. No futuro, quem sabe, seremos lidos com o mesmo espanto com o qual lemos o passado. Mas também seremos lidos por nossa capacidade de indignação frente à barbárie, como nesse Íntimo desabrigo

 

Para comprar o livro, é só clicar no link a seguir. Os exemplares, numerados e assinados, serão enviados a partir do início de agosto. Coedição Alpharrabio e Dobradura, 104 págs., R$ 25 [+ frete]. Clique aqui: https://pag.ae/bhmd6b2

A CLT e o triplex: notas sobre duas condenações

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O golpe segue golpeando: a vergonhosa publicação da sentença condenando Lula horas depois de ser aprovada a “reforma” trabalhista é apenas e tão-somente a prova escancarada da natureza político-eleitoral da Lava Jato, que tantos perceberam e acusaram desde seu início. Só não vê quem não quer a estratégia grosseira de abafar o noticiário e qualquer mobilização da classe trabalhadora com os plantões espalhafatosos dessa condenação em primeira instância, que, ao punir Lula sem provas, pode ser considerado como o ato final dessa encenação toda. Pouco importa o que virá depois: a condenação, a prisão ou até mesmo a reeleição de Lula, depois de tudo que está sendo feito sob as asas do golpe, passam a ser quase que tão-somente simbólicas. Se os Tribunais mantiverem ou não essa condenação, se Lula, por conta disso, for ou não candidato em 2018, o que temos que manter em mente é que a briga não se resolve mais na solução que vier daí. O buraco é muito mais embaixo, o poço é muito mais fundo e foi cavado com uma velocidade incrível enquanto olhávamos para o “juiz-herói” e o “japonês da Federal”. E continua sendo cavado enquanto ficamos vendo os fantasmas da nossa esperança girarem no ar.

 

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Tenho uma gaveta aqui em que arquivo arrependimentos. Numa das pastas guardo o que deixei de dizer por educação ou, se preferirem, cordialidade besta. Um desses arrependimentos diz respeito ao tempo que perdi, quando começou o processo bizarro que chamavam de impeachment, ouvindo pessoas falarem “veja bem, tem um tripé na acusação, pedaladas, decretos etc., o impeachment é previsto na Constituição, está sendo garantido o direito de defesa etc.” Enquanto eu ouvia isso, meio constrangido diante da fé jurídica (que, eu sei, é um bom lugar para esconder fé e má-fé políticas de todos os tipos) de meus interlocutores, a voz de Jucá saía de um áudio ensurdecedor e tomava os quatro cantos da casa. Na mesma gaveta guardo o que deixei de dizer para os entusiastas da Lava Jato, para o aluno que entrou na sala de aula com uma camiseta “In Moro We Trust”, para quem fala demais sobre uma sentença e calou e calará sobre todas as outras decisões que beneficiam políticos e seus parentes e sócios flagrados em situações absolutamente criminosas, mesmo quando escritas pelo mesmo juiz. O país, que nunca foi grande coisa, vai virando coisa menor ainda, esfregando na nossa cara suas tripas (repito: a sentença de Lula foi publicada horas depois da aprovação da morte da CLT e é impossível separar essas duas coisas e não ver a estratégia partidária/midiática/judicial que move esse moinho podre), e nós vamos ficar discutindo as filigranas disso e daquilo? De minha parte, não. Tudo o que o golpe quer é que eu acorde nesta quinta-feira e fique discutindo os detalhes da decisão. Veja bem isso, veja bem aquilo, veja bem… Do ponto de vista jurídico, o que tenho a dizer é simples: não pode haver sentença sem processo. Se todo o processo é uma farsa, o que resulta dele é farsa também. Mas não espero que da mentalidade majoritária do meio jurídico venha algo além de citações de artigos e brocardos e folhas e teses e todo um leque de mistificações para evitar dizer o nome verdadeiro do jogo que estamos assistindo. Arbustos carcomidos com que nos distraímos para não ver a floresta em que estamos perdidos. Enfim, não vai ser o direito que vai conseguir olhar de modo amplo e complexo para o que estamos vivendo, para colocar as coisas no seu devido lugar, para colocar esse processo e sua sentença e seus atores no lugar nanico que lhes cabe na História. Só um povo que não aceite ser nada menos do que protagonista da sua própria História será capaz de perceber e acabar com a farsa em que o barulho da tevê e a cantilena dos especialistas o enredam. Não quero abrir minha gaveta de arrependimentos hoje. Vou ali tomar um café.

Escreverpublicar

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De tempos em tempos, normalmente em meses um pouco mais tranquilos, lembro que tenho um blog. Então, volto para ver como andam as coisas. Olho para aquela ferramenta com carinho, fico pensando nas possibilidades que existem ali, na calma que aquilo oferece se comparado às redes sociais… e prometo que vou retomar. Ou ao menos cuidar melhor dele, ainda que em paralelo com o desespero do facebook. Daí passo a copiar para o blog as postagens que faço no facebook (a maior parte delas), organizando longos posts que reúnem o que escrevi durante meses (desta vez, fiz um para cada mês, de fevereiro a junho deste ano).

São saladas de assuntos, que eu bem poderia descartar, mas algo que diz que devo conservar todas essas linhas: as oscilações de humor e de opinião, os silêncios que eu posso reconhecer, a forma como me lembram dos fatos vividos em atropelo, as ideias que surgiram a partir dos debates que ocorreram nos comentários de amigos, a mescla-bagunça de preocupações com política, direito, cultura, poesia etc. (em que me reconheço plenamente), as razões de arrependimento e de algum orgulho.

Aliás, jogar fora essa versão transparente que faço de mim mesmo – leitor-vivente no meio do redemoinho – seria aceitar um excesso de orgulho que talvez acabasse me fazendo deixar de escrever ou, ao menos, deixar de expor o que penso/sinto. Isso poderia ser ótimo para os eventuais leitores (e até mesmo para que eu me dedicasse mais a tantas outras coisas que me interessam), mas me faria perder a chance de participar, de alguma maneira, de debates que são cruciais para nossa época. E, quem sabe, perderia também a chance de me autoanalisar a partir do que digo e do que não digo no calor do minuto. E, no fundo, seria também uma traição ao que mais gosto e quero da escrita: escrever é o nó mais forte entre intimidade e sociabilidade, entre controle e descontrole, entre a dor e a alegria mais pessoais e aparentemente intransferíveis e o acervo de dores e alegrias da vida comum. O poema, o conto, o romance, a peça, a crônica, o ensaio… são o lugar em que o “meu mundo” de alguém se desfaz no nosso mundo ou o nosso mundo se revela no “meu mundo” de alguém.

Por isso, escrevo. Por isso, publico. Por isso, cada vez mais repenso as mediações entre escrever e publicar. (E apresso, atropelo, salto sobre elas!) Por isso, aceito com felicidade o risco do ridículo de reler o que acabei de escrever quando outras tantas pessoas já tiveram a oportunidade de ler o meu ridículo. É o risco. Diria: um risco constitutivo. Por quê? Porque acredito que há uma instância da reflexão e da intervenção sobre o presente que tem que ser feita assim. Até pouco tempo, isso se chamava jornalismo, mas agora vai se convertendo cada vez mais numa teia em que temos não apenas a oportunidade, mas a urgência de participar. É uma loucura, é angustiante, triste, mas também excitante viver nessa espécie de sala de redação gigante do Jornal do Mundo, recebendo, checando, produzindo e trocando informações, entre mensagens, telefonemas, furos, cafés e cigarros. É muito otimismo? Talvez seja.

No livro de poemas que lançarei em breve, Íntimo desabrigo, essas ideias foram incorporadas ao processo de escrita. A maior parte dos poemas já foi escritapublicada. Assim, sem um espaço sequer entre os dois momentos. Ou seja, num momento só. Não sei se é o que se espera da poesia, mas, sinceramente, não faço questão de saber. Alguém já disse que poetas não são apenas pessoas que escrevem de uma determinada maneira, mas sim que estão condenados a escrever daquela maneira. Deve ser por aí…

Do fb pra cá (junho)

[1/6] [é sempre bom, vez por outra,

dar um rolê sem rumo

pelos corredores estreitos dessa canção]

 

[1/6] [Sentar um dia desses pra escrever uma tese sobre as vozes de algumas cantoras e o corpo ouvinte. Primeiro capítulo: Elis Regina e a voz que escorre na pele. Segundo capítulo: Elza Soares e a voz que agita a corrente sanguínea. Terceiro capítulo: Joni Mitchell e a voz que chega até o osso. Um dia desses…]

 

[2/6] Toda notícia de Brasília que eu leio só me faz pensar numa coisa: Aécio e seu partido sabotaram o país depois de perder a eleição, Cunha conduziu o “impeachment” em descarada vingança, Temer e sua gangue tomaram o poder para atacar quem os investiga (Alexandre de Moraes, por exemplo, é ministro do STF em razão disso). Depois de tudo que se provou em relação a Aécio, Cunha, Temer e seus principais aliados, vai ficar tudo por isso mesmo? Tudo que têm feito será válido? Vamos fingir que não sabemos de onde vieram os frutos da árvore envenenada?

PS: Aconteça o que acontecer, Alexandre de Moraes, ministro do golpe guindado a ministro do STF por 3 décadas, terá sempre a marca da ilegitimidade na testa, assim como são manchados todos os atos do governo Temer. Diante das provas do golpe, nada pode convalidar o que fizera/em. Retomar o poder em bases democráticas exige desfazer o que foi perpetrado sob as asas do poder ilegítimo. É muito absurdo que Moraes julgue, como qualquer outro ministro, a constitucionalidade (ou os crimes) de qualquer medida do governo de que ele foi parte e agora é representante. E vai ser ainda mais absurdo vê-lo por mais 3 décadas como um braço vivo do governo golpista que continua a golpear.

 

[2/6] só pra lembrar:

 

“quem não tem papel dá o recado pelo muro

quem não tem presente se conforma com o futuro”

 

tá ligado?

 

[2/6] [Rivânia ensina a salvar os livros da enchente. E, principalmente, a salvar quem salva livros da enchente. Rivânia talvez ensine a reconstruir o mundo após a enchente: com livros, com quem os salva, com quem salva quem os salva.]

 

[4/6] Numa tarde de sábado, fui lá pra Zona Norte conversar sobre poesia com o Fabiano Fernandes Garcez na sala de sua casa, que se transformou em Sala de Leitura. Ele encheu duas taças de cerveja, ligou a câmera e…

Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=T5lQHp_Rur0&app=desktop

Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=sVuiNtpB2-s

 

[4/6] Já circula por aí, nas livrarias, o número novo da revista dos livros Quatro Cinco Um. Participo com uma resenha das edições de “Teoria Geral do Direito e Marxismo” do Pachukanis que acabaram de sair. Tem muita coisa boa para orientar a navegação pelo universo dos livros.

 

[5/6] «É justo indagar se essa perda de potência de nosso “contato com a história” não se deve ao fato de estarmos adotando o “contato com a história” de Drummond e, claro, de sua geração, que viu e viveu e escreveu num país que não mais existe, que já foi coberto por novas camadas de mal-estar. Ou mais ainda: se mesmo a um poeta gigante como Drummond, “poeta-síntese”, ainda que somados os livros todos dos gigantes que com ele dividiram a pena e o tempo, não é dado captar completamente o país complexo, desigual, vário, do momento que lhe coube viver, é inevitável que seja problemática e limitante a transfusão de “seu Brasil”, de seu “tempo presente”, para o nosso – igualmente complexo, desigual, vário, mas já outro. É nesse ponto que a figuração potente do país e do que somos, facilmente encontrável na poesia de Drummond, em que a vida é uma espécie terrível de “desacomodação”, pode-se converter na acomodação dos poetas – na forma do poema e no seu alcance crítico – diante da nova “vida presente” que enfrentamos.»

Um punhado de ideias sobre Drummond e nossa poesia.

http://www.suplementopernambuco.com.br/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores/77-capa/1881-tal-qual-uma-l%C3%A2mina,-poeta,-tu-nos-atravessas.html

 

[5/6] O presidente do TST, que não apenas atenta contra a própria existência do tribunal a que pertence quando defende essa “modernização” que extingue os direitos dos trabalhadores, agora persegue pessoalmente dois juízes que se manifestam contra a reforma, qualificando com sua experiência e conhecimento o debate que devemos fazer antes de mexer em qualquer artigo da CLT ou da Constituição. Já não temos razões para duvidar de que, neste momento, o país está sendo comandado por pessoas que preferem decidir nosso destino fora do campo democrático. Quando isso vem do topo dos tribunais (não falo do Gandra Filho, de que não espero atitude melhor, mas da cadeira que ocupa, que é importantíssima), temos todos que gritar bem alto.

 

[6/6] Como chama a doença que faz a gente querer ler de novo, com urgência, todos os livros que indicamos com entusiasmo para alguém?

 

[6/6] (se tudo der certo

que dê tudo errado

pra quem acha

que dar certo é

salvar só a si mesmo

num mundo errado)

 

[6/6] Não sabemos até hoje se vão condenar o Lula, mas fico pensando nas “vantagens”… Primeiro, pra gente discutir os próximos meses e anos deste país de maneira um pouco diferente das últimas sete eleições – isso é urgente! Mas também porque está cansativa demais essa coisa de “reformei o triplex pra ele, mas ele não gostou”, “ofereci o terreno pra ele, mas ele não gostou”, “juntei o dinheiro na conta pra ele, mas ele não sacou”, “comprei o apartamento pra ele, mas ele não quis”, “reformei o sítio pra ele, mas não era dele”, “não perguntei pra ele, mas acho que sim”, “não tenho prova, mas foi ele”… só eu acho que tem coisa mais importante pra debater e fazer nos tribunais, nas instituições, nas mídias, nas ruas todas deste país?

 

[7/6] Eu não canso de lembrar: no mesmo dia em que Michel Temer estava respondendo às perguntas feitas pela Polícia Federal sobre crimes cometidos durante o mandato e o Tribunal Superior Eleitoral julga crimes cometidos durante sua campanha, o grupo ligado ao próprio Michel Temer deu mais um passo rumo à destruição dos direitos dos trabalhadores. Diante de tamanha incerteza institucional, é inadmissível a discussão e a aprovação de questão fundamental para o país. Os senadores disseram várias vezes que não sabem quem estará na cadeira da Presidência no momento da promulgação dessa lei!!! Não bastasse ser vergonhoso e inadmissível a qualquer título, tudo o que for feito por eles deve ser considerado NULO. Simplesmente N U L O.

 

[8/6] «A universidade (Uerj) teve o prazer e a honra de receber um professor negro, um negro de primeira linha vindo de um doutorado de Paris – disse Barroso, em trecho do discurso sobre a trajetória de Barbosa.»

Que coisa triste. A gente pode não esperar nada do Barroso, da Constituição, do STF, do “Estado Democrático de Direito”. Pode muito bem já ter caído a imensa ficha sobre nossa cabeça. Mas o fato – triste – é que, há poucos meses, Barroso era daqueles autores que levavam a brasa do “progresso” no mundinho jurídico. Era o autor que líamos para encontrar um jeito de concretizar a Constituição, de atualizar a vetusta teoria dos manuais clássicos. Pois bem, ele chegou lá, sentou na cadeira que permitiria que suas teorias sobre concretizar direitos e garantias passassem a ser mais que teoria. Seriam, agora, votos, decisões, atos. Já deu pra ver, logo de início, que o caminho não seria por aí, mas ainda assim é chocante quando o racismo explode na fala de alguém que deveria estar fazendo a coisa andar para o outro lado (perdoem meus olhos ingênuos). Não é “gafe”, muito menos “elogio”. Quando Barroso chama Barbosa de “negro de primeira linha” (e, de quebra, deixa claro que a grife vem de um “doutorado em Paris”), ele nos faz lembrar dos tempos em que os negros, como coisas, eram negociados por brancos de ternos e gestos europeus. Se quem tem que defender a “Constituição cidadã” ainda conserva essa mentalidade, não sabemos se começou um outro dia triste em 2017 ou se apenas abrimos uma página a mais nas obras do Machado de Assis.

 

[9/6] Imagina que louco se num país qualquer existisse um ministro das mais altas cortes e ele por acaso se chamasse Gilmar e tivesse coragem de votar, em rede nacional, com a mesma convicção, em teses absolutamente contrárias, porque ora quer punir seus inimigos, ora quer absolver seus amigos. Imagina como ficaria a autoridade dessas cortes para seus próximos julgamentos. Seria um país muito louco.

 

[9/6] “Já tenho escrito muitas vezes que algumas das minhas musas são as coisas terríveis que acontecem. Dante teve Beatriz. Orwell teve Estaline. Não é que goste delas e me sinta agradecida por existirem. Mas são essas coisas más que me inspiram, e os horrores. E isso não me faz querer escrever ficção.”

https://www.publico.pt/2016/04/19/culturaipsilon/noticia/as-minhas-musas-sao-as-coisas-terriveis-que-acontecem-1728584

 

[9/6] UMA EXCELENTE NOTÍCIA!

Muita gente tem tentado comprar o livro “Para a crítica do direito”, que organizei com Celso Kashiura Jr. e Oswaldo Akamine Jr. em 2015, com 30 artigos de fôlego crítico sobre as mais variadas questões teóricas e práticas do direito. Pois bem, os 500 exemplares da primeira tiragem esgotaram rapidamente e o tamanho do volume impediu a reimpressão. Decidimos, então, junto à editora, disponibilizar o pdf integral do livro no site.

É bastante simples: basta acessar o link abaixo, fazer o procedimento de compra com seus dados e aparecerá um link para baixar o livro todo em seu computador. O arquivo é gratuito, mas tem opções de valores para quem quiser ajudar o projeto editorial da Expressão Popular, que merece todo apoio sempre!

Por favor, ajudem a compartilhar!!!

https://expressaopopular.com.br/loja/produto/para-a-critica-do-direito-reflexoes-sobre-teorias-e-praticas-juridicas/

 

[9/6] (As instituições estão fornicando normalmente.)

 

[11/6] Não há muito o que dizer sobre esses “cidadãos de bem” que prenderam, julgaram, condenaram e executaram a pena de um adolescente, tatuando em sua testa a sentença. Só há uma certeza nesse caso: tanto o rapaz que foi tatuado quanto todos que se imaginem possíveis vítimas dessa forma de “reprimenda” passarão a fazer de tudo para que não sejam pegos: contra quem fez isso, contra quem acha certo fazer isso e, infelizmente, também contra quem percebe o absurdo de, sob a alegação de combater a violência, apostar numa brutalidade ainda maior. Descemos outro degrau.

 

[13/6] (12 de junho. Toda uma vida dedicada a lidar com o que os poetas disseram sobre o amor. Mas, quando as crianças perguntam a diferença entre hotel e motel, o máximo que você consegue dizer é que motel é um hotel em que as pessoas ficam pouco tempo.  😉 )

 

[13/6] Vai ser curioso, no mínimo, ver nas próximas eleições um “candidato não político” que ajudou a costurar e se beneficiou de um acordo entre PSDB e PMDB para salvar um senador e um presidente que as colunas policiais tornam cada vez mais insustentáveis. Haja ginástica publicitária…

 

[15/6] Vivemos uma época de notícias que, de tão deprimentes e desesperadoras, conseguem soterrar até o inimaginável, como esses gritos dos servidores públicos do RJ que estão há meses sem salário, vivendo com pequenas parcelas depositadas aleatoriamente. Quando é que isso se tornará grave e insuportável também para quem não é diretamente atingido?

 

[15/6] Na noite fria de ontem, 70 famílias foram despejadas de uma ocupação em que viviam há quase dois anos. Cumprindo ordem da juíza Aline Santos Guaranha, da 7ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre (que recomendou expressamente “o cumprimento da ordem aos feriados e finais de semana e fora do horário de expediente, se necessário, evitando o máximo possível o transtorno ao trânsito de veículos e funcionamento habitual da cidade”), a Brigada Militar cercou o local no início da noite, véspera do feriado religioso de hoje, e soltou bombas contra todos que ali estavam, incluindo as crianças que aparecem nesta foto. Uma verdadeira operação de guerra contra gente pobre, que não tem outro lugar para se esconder do frio, apenas para devolver ao Estado um prédio que, segundo li, deve ser vendido a um banco. A polícia atacou, bateu e prendeu pessoas que se levantaram contra essa injustiça absurda, cruel, asquerosa, ainda mais injusta porque se deu quando os moradores buscavam alternativas para o despejo.

Para mim, ao menos, olhar para essas fotos leva a perguntar: para que serve um Estado que age dessa maneira? Para que serve um sistema em que pessoas são tratadas assim? Para que serve um Judiciário que, diante de tamanha injustiça, acha um jeito de potencializá-la ao invés de coibi-la? Aí não tem “acordo”, “delação premiada”, autorização para viver em Nova Iorque, repatriação de ativos, nada disso. É tiro, porrada e bomba. Rua e frio. Até que nem mais à rua tenham direito. Até que a calçada em que deitarem passe a interessar a outro banco. O velho direito de sempre: fraco contra os fortes, forte contra os fracos.

E estamos falando de Estados cuja ineficiência para tudo o mais é flagrante – desde o pagamento de salários até o cumprimento de todos os seus demais deveres. Camadas e camadas de absurdo, talvez por isso estejamos perplexos, inertes. Mas um dia essa criançada vai crescer e lembrar dessa noite. Espero: vai nos lembrar dessa noite.

 

[16/6] quente sei

que muita gente

congela à sombra

do nosso desprezo

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quentes ainda

não achamos

a coragem de dizer

com toda verdade

no espelho

estamos fodidos

 

[20/6] “Para que poetas em tempos de terrorismos?”, poema-título do livro que Alberto Pucheu lançará hoje no RJ (inveja de quem lá estará!), é, em tudo, a poesia do nosso tempo. Com todos esses plurais já no título – poetas, tempos, terrorismos – dá a dimensão dos nossos desafios múltiplos. Poema-caldeirão. Poema-liquidificador. Poema-turbilhão. Poema-declaração-de-guerra. Aliás, entre a guerra e a barbárie que reproduzimos em todos os níveis, sobreviventes, (auto)terroristas. Com sua extensão incomum em meio aos fragmentos em que temos colhido poesia, mas também com sua forma de desfazer essa extensão, com suas idas e vindas, com a forma como transforma sua extensão em profundidade, com os nós que dá na linguagem. Nós e mais nós. Como uma espécie de “teresa”, aquela corda improvisada de lençóis que nos dá a esperança de chegarmos vivos, em fuga, da janela ao chão, ou da frágil superfície em que estávamos antes de ver o vídeo ao desconhecido fundo do poço que Pucheu escava com suas palavras. Os lençóis das camas que não temos mais. O sossego que perdemos já no primeiro verso – e não queremos recuperar. Passem por lá.

 

[21/6] Vita nuova

 

des(bachare)lizar-se

des(a)mestrar-se

desdou(to)rar-se

 

[23/6] Temer vai sair. Não sei se daqui a pouco ou no final de 2018. Enquanto isso, vai ficando cada vez mais claro como Temer virou presidente e quais os interesses a que seu mandato serve. É justamente por isso que lanço minha preocupação lá pra frente: tudo que está sendo feito neste mandato será engolido como “normal”? Anistiaremos a origem podre de tantas alterações da legislação, deformações da Constituição, desmanche de políticas e instituições públicas? Alexandre de Moraes no STF, Flavia Piovesan na CIDH/OEA, e outros frutos da árvore envenenada? Esqueceremos que todas essas decisões estão sendo tomadas de madrugada, às escondidas, com um olho na porta pra ver se a PF está chegando? Pensando nesse horizonte, sem Temer mas com as marcas deixadas por suas garras… é difícil se conformar!

 

[23/6] Uma pergunta: qual o lugar mais inusitado em que você se flagrou “viajando” ao ler um poema que apareceu no seu facebook? Fila do banco, balcão do fórum, no trem lotado, no dentista? Um poema já desviou seu dia (para onde for)?

[É claro que essa pergunta vai praqueles que têm (temos…) o péssimo hábito de olhar pro celular em lugares variados… e talvez não valha muito para os nóias habituais da leitura de poesia, que andam (andamos!) sempre com um livro ao alcance dos olhos… mas ando pensando muito nessa teia improvável entre versos escritos e lidos em – digamos – condições adversas… falo por mim: saber que o poema vai ser lido sem cerimônia, onde?, a que horas?, por quem?, para quem?, afeta diretamente tudo que cerca o processo de escrita e divulgação dos poemas… e isso, creio, é bem bom.]

 

[23/6] O presidente do Conselho de Ética do Senado, João Alberto Souza (PMDB-MA), arquivou o pedido de cassação de Aécio Neves (PSDB-MG), porque não achou “elementos convincentes para processar o senador”. Eis a prova de que as instituições estão funcionando normalmente – esse é o normal delas!

 

[27/6] Transcriação do meu poema “Metal”:

 

[28/6] Só vão nos restar a desesperança e a ranzinzice? Eu, por exemplo, tenho oscilado entre as duas. Quando leio que Temer, que foi ontem denunciado pelo PGR Janot, hoje nomeou a nova PGR (de brinde, quebrou a ordem de votação interna, ou seja, o tal indicativo democrático), não só oscilo, mas caio em espiral entre a desesperança e a ranzinzice, porque elas se confundem na seguinte questão que me atormenta: tudo o que ele está fazendo será engolido como “legítimo”? Tudo?

 

[29/6] Os quereres dos podres poderes: Temer colocou na PGR a candidata que quis. Eles vão fazer passar a reforma trabalhista da forma que sempre quiseram. Gilmar faz as reuniões que quer com os réus que bem quer. O Brasil vai ganhando a cara que eles sempre quiseram. E ainda não sabemos tudo o que eles querem. Esses quereres não são o que chamamos de “vontade popular”. Talvez sejam a tal “vontade política”, digo, a vontade dos políticos. O que nós, no porão, queremos?

 

[30/6] Aécio está feliz de volta ao cargo: “sempre acreditei na Justiça do país”. Sua irmã e seu primo estão em casa. Rodrigo Loures, o homem da mala de Temer, foi solto também. Aliás, Temer, ao que tudo indica, se safará dando risada. Pois é… O pêndulo entre a excitação do escândalo e a decepção das (in)consequências parece ter sido acelerado para moer algum restinho de ânimo que tínhamos.

Do fb pra cá (maio)

[2/5] O que acontece quando um deputado não quer mais ver os trabalhadores rurais serem tratados como “coitadinhos”? Nilson Leitão (PSDB/MT) propõe: “A proposta permite que as empresas não paguem mais seus funcionários com salário, mas mediante ‘remuneração de qualquer espécie’ – o que pode ser simplesmente fornecer moradia e alimentação-, aumentem para até 12 horas a jornada diária por ‘motivos de força maior’, substituam o repouso semanal dos funcionários por um período contínuo, com até 18 dias de trabalho seguidos, e a venda integral das férias dos empregados que moram no local de trabalho” (matéria do Valor de hoje).

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Li essa matéria e lembrei que uma das realidades históricas com que se deparou o jovem Carlos Henrique, no início dos anos 1840, e que ajudou a fazer dele o Marx de que tanto se fala mal e bem, foi uma lei da Renânia que tornava crime a velha tradição (eu diria: necessidade) de apanhar lenha nas matas e bosques que passavam a ser propriedade privada então (o texto que Marx escreveu para a Gazeta Renana foi publicado por aqui há pouco, pela Boitempo, no livro “Os despossuídos”). A pena prevista para quem cometesse o crime era, entre outras, a de trabalhar de graça para o dono da terra. E Marx, que não era bobo, percebeu logo como essas duas pontas – a da propriedade privada e a do trabalho – se uniam à força do Estado e do direito para enforcar os pobres de sempre, em favor da burguesia. Marx vai passar as próximas décadas de sua vida estudando, escrevendo, lutando contra o monstro cujas garras vislumbrou naquela lei.

Pois bem, daí em diante, por força de autores como Marx e sobretudo das vítimas que o capital não deixa de fazer, podemos dizer que as relações de trabalho mudaram bastante, mas não para todos os trabalhadores. Tanto é que passamos as últimas décadas vendo ações que encontraram muito trabalho escravo em fazendas, fábricas e até em obras públicas em todo o Brasil. Se esse é um sinal de avanço da proteção ao trabalho, temos o dever de destacar que tais avanços nunca foram fáceis ou deixaram de conviver com ameaças e medidas de retrocesso. A época que vivemos, com terceirizações e “reformas”, é evidentemente uma época de retrocesso. Se bobearmos, pode ser a época de maior retrocesso que já se registrou.

Ontem foi 1º de Maio, Dia do Trabalhador. Hoje, à sombra disso que querem que chamemos de “modernização” das leis trabalhistas por aqui e inclui, agora, não pagar salário em dinheiro (bobo quem acha que isso, se aprovado, fica valendo apenas para o trabalhador rural e nunca será proposto para outros trabalhadores), é um bom dia para perguntar: vai ser necessário que tais medidas cheguem a cada um dos trabalhadores brasileiros para que todos percebam que o mundo tem lados e que quem está do lado mais frágil deve se unir para não ser esmagado?

 

[2/5] Dever da poesia, desde então, Platão,

é dar razão a quem nela vê um perigo.

 

[5/5] Hoje falta um ano para Marx completar 200 anos e ele está mais em forma para as lutas do futuro do que nós. Para nossa sorte.

 

[5/5] Quando peguei o primeiro número da Quatro Cinco Um, algo me dizia que uma resenha escrita pelo Leonardo Fróes seria mais um de seus poemas. E é. Confiram lá.

 

[6/5] Vai chegar o dia em que defender os direitos dos trabalhadores vai ser menos importante do que obrigar motorista de ônibus a usar gravata para aparentar profissionalismo? Ops, já chegou! E eu fico matutando: quem atribui qualquer valor positivo ao uso de gravata lembra que todos os nossos deputados, entre outros tantos picaretas, atuam bem arrumadinhos?

 

[9/5] Sempre saio das aulas com mais vontade de estudar. Este não é o objetivo principal, claro, porque o mais importante é que os alunos saiam dali não apenas sabendo algumas coisas novas, mas com vontade de estudar e saber mais, inclusive para contradizer o que costumo defender com alguma ênfase. Alguns alunos chegam a nos dizer isso, que querem ler mais sobre aqueles temas (no caso de hoje, a natureza dos direitos sociais e sua relação com a crítica da economia política) e pedem indicações de autores, obras etc. (Não estou atualmente em cursos de graduação, mas sempre aparece um bom amigo disposto a me deixar falar para turmas de pós-graduação!) Enfim, não conheço forma melhor de terminar uma aula: o aluno querendo ir além da aula, estudar mais e seguir as trilhas que percebeu entre tudo que foi dito, tudo que, sem isso, ficamos com a impressão de que se perdeu no ar. Em tempos de perseguição a professores em sala de aula, é preocupante sentir, bem perto, o clima de polarização que muitas vezes é um obstáculo a reflexões importantes e mesmo à exposição de alguns aspectos técnicos da matéria. No entanto, quando um aluno, ao final da aula, diz que quer estudar mais, saímos com a certeza de que ainda há ouvidos, mentes e corações abertos por aí. São poucos, talvez, mas valem muito. Eles – os que querem estudar mais e mais – são o terror de quem acha que a última e única palavra é a do professor, porque não vão ser doutrinados nem dentro nem fora da sala de aula. E, pela mesma razão, são também a alegria do professor que quer que suas palavras sejam entendidas como as primeiras de outras tantas conversas urgentes.

 

[10/5] Se um político leva outro para o lugar em que exerce também a função de juiz, a sala de audiência se transforma em apenas mais uma arena da política e os atos judiciais são, assim, evidentes atos políticos, aos quais se deve responder no campo largo da política, que inclui o direito, mas a ele não se resume nem submete. Os processos todos são parte de uma luta política bem maior. Neste caso, sua parte mais caricata, mas não a mais ardilosa.

 

[10/5] Lições de outra Curitiba:

 

EN LA LUCHA DE CLASES

TODAS LAS ARMAS SON BUENAS

PIEDRAS

NOCHES

POEMAS

 

Paulo Leminski

 

[10/5] Duas notas: (1) esse “depoimento como qualquer outro” se transformou numa espécie de Fórum Social Mundial em Curitiba – agradeçamos ao juiztuber, que hoje está de gravata vermelha, para combinar com a cor que tomou a cidade. E (2) Dilma está tão feliz, suave, corada, depois que largou aquele emprego, que quase chego a dizer “azar do Temer”, mas o azar tem sido só nosso.

 

[11/5] (Continuem tentando, garotos, que uma hora dessas ele sai menor do que entrou na arena. Se vocês melhorarem, pode ser que ele caia nessas armadilhas. Mas não foi desta vez.)

 

[11/5] Resumão pra quem não viu as 5 horas de depoimento: o apartamento não valia nada e agora vale menos. Quem julga mandato é eleitor, não juiz. Se achar dinheiro por aí com meu nome, é meu. Se não, pergunta pro dono. Papel sem assinatura, boato e acordo de quem está preso valem menos que powerpoint do MPF. Devolve os ipad dos meninos e bate a tampa do caixão. Fim.

 

[12/5] Ontem apareceu alguém pra me chamar de “comunista de merda”. Fiquei orgulhoso. Pelo conjunto da expressão. Ainda que não saiba bem se o “de merda” é uma ofensa ou uma cobrança (ou as duas coisas): na primeira hipótese, meu acusador pode ser daqueles que acham que todo comunista é de merda, mas, noutra hipótese, bem mais interessante a meu ver, pode ser que ele esteja me cobrando ser um comunista melhor, deixar de ser um “comunista de merda”, enfim, tornar-me um verdadeiro comunista. Gostei da cobrança, ainda que deixar de ser “de merda”, em qualquer setor da vida, não seja tão fácil assim. E vou seguir o conselho: tirar um tempo de folga daqui para fazer uns trabalhos que estão com prazo apertado (e tentar deixar de ser um escritor de merda, também) e, se der, ler o livro 3 d´O Capital, cuja edição novinha o correio acaba de entregar. Algo me diz que a solução para nossos males está nessa turma que sempre disse que vivemos entre a merda e o comunismo: se não gostamos daquela, que ajudemos a construir este. Beijabraços!

*** Um PS triste às 9h57: estava saindo daqui quando soube da morte de Antonio Candido. Um gigante: lia e escrevia e ensinava como pouquíssimos. Morreu aos 98 anos. Um dia, quando devia ter uns 85, ele me disse que gostava muito ainda de ler história, mas que andava lendo mesmo era poesia, “porque poesia a gente lê, decora e vai ruminando”. Acho que foi a expressão que ele usou. Acho que é a melhor homenagem que podemos fazer a ele e aos textos que nos ensinou a amar.

 

[16/5] UMA NOVA NORMALIDADE

A gente é da turma que reclama e ouve as reclamações dos outros, mas eu estava ouvindo rádio, passei por perto da televisão, dei uma folheada no jornal etc., e me pergunto: não parece que vai tudo bem? Temer segue a vida normalmente, o Congresso está passando as leis que jamais imaginaríamos que passariam, Doria está vendendo SP lá em Nova Iorque e recebendo prêmios, Moro e Cardoso debatem judicialização na London School of Economics (e Moro, claro, é o campeão de aplausos), Geraldo faz campanha abertamente pela presidência, os governos estão fortalecendo (embrutecendo) suas polícias, a elite do serviço público vai sair ilesa e até beneficiada dessas reformas todas, as universidades públicas vão morrendo caladas, não se fala mais em greve etc. Será que nós – os críticos, os que ainda falam em justiça social – é que estamos totalmente equivocados e exagerando no ataque a esses homens que tanto falam em trabalho, trabalho, trabalho? A conferir.

Temer aprovou hoje novas condições (de vô pra neto) para as dívidas dos municípios e vai aprovar nos próximos dias um “programa de regularização tributária” para empresas… com isso, e com a imprensa-disposta-a-tudo que temos, o apoio que ele terá entre políticos e empresários (que são quase a mesma coisa) será quase absoluto… e o noticiário seguirá na toada do “fim da recessão”, “retomada do crescimento” etc. Se tirarem Lula do páreo (preso, condenado ou absolutamente desgastado, porque continuam a entrar com inquéritos contra ele etc.), aí sim é que nunca mais ouviremos falar da Constituição Federal e daquela ideia de bem-estar que está nela. Mas, com ele no páreo, também não temos muitas razões para crer na reversão dessa tendência. Nasce, assim, uma nova normalidade, de natureza neoliberal, mas indiscutível, insuspeita, acima de toda crítica. Segundo seus entusiastas, que passam a ser os únicos autorizados a falar, essa “normalidade” pode até precisar de ajustes, mas já é vitoriosa. É o rumo certo, porque é afinal o único rumo. De certo modo, nunca foi tão forte por aqui (e talvez no mundo) o lema “There´s no alternative”. Engoli-lo-emos.

No plano internacional, qual será o papel deste triste país que está se “modernizando”, destruindo direitos e políticas públicas, sob a bandeira da competividade? Quem for um pouco atento e um tantinho sagaz não esperará grande coisa (riqueza, se vier, sem distribuição, nunca é grande coisa), ainda mais à sombra de notícias como a da “nova ordem econômica global” lançada pela China, que nos faz lembrar bem daquela história de novas moscas sobre a mesma – para ser delicado – caca.

Digam vocês quais serão os países e, dentro deles, as parcelas da população que farão o papel pouco glorioso de caca.

 

[17/5] «[…] eu não tenho a meu respeito essa segurança que algumas pessoas têm a respeito da validade e da continuidade da minha obra literária. Não posso ter. Porque ela é uma obra de contingência feita por uma pessoa que teve problemas existenciais, problemas internos de adaptação ao mundo, de comunicação com o próximo, de adaptação a uma nova realidade social.» (Carlos Drummond de Andrade, outubro de 1982)

 

[17/5] Tô começando a achar que foi golpe…

 

[17/5] Defendo aposentadoria integral aos 40 anos de idade para cientistas políticos no Brasil. Profissão perigo, condições insalubres…

 

[17/5] A leitura de ninar, hoje, não pode ser outra: a carta que Temer enviou para a Presidenta Dilma em 7 de dezembro de 2015: “[…] sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo. […] Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido. Isso tudo não gerou confiança em mim. Gera desconfiança e menosprezo do governo. […] Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais. Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.”

 

[18/5] Sou do tempo em que áudio, inclusive da presidência, vazava quase ao vivo.

 

[18/5] Alguém tem

o último disco

da dupla

Joesley & Wesley

pra emprestar?

 

[18/5] Na foto, abraçado com o prefeito que diz não ser político, está o homem da mala: o deputado federal Rodrigo Loures (PMDB-PR). Eles estão em Nova Iorque fazendo negócios, que ora eles chamam de política, ora de negócios mesmo, e é por isso que a Polícia Federal não conseguiu encontrar Loures para conversar de pertinho sobre o vídeo em que ele recebe, a mando de Michel Temer, uma mala cheia de dinheiro. Quando eles chegarem de volta, o amigo de Loures talvez não seja mais presidente e o amigo de Dória e presidente de seu partido – Aécio Neves (PSDB/MG) – talvez já esteja preso, mas ainda estarei me perguntando como, diante da evidências de que o empresariado brasileiro está até o pescoço envolvido nos problemas do país, ainda há quem acredite que virá daí, desse mesmo empresariado de que Dória é parte e caricatura, alguma solução. Como?

 

[19/5] Temer entrará para a história. Se não tiver outro motivo, será pelos documentos que tem produzido. Primeiro, a carta de rompe-laços com Dilma. Depois, pelo discurso de posse antes da posse que mandou pelo whatsapp. E, agora, pelo áudio em que conversa com Joesley, da JBS. É um documento histórico. Não me lembro de outra conversa tão esclarecedora da relação entre capital e Estado. A gente imagina essas coisas, mas é muito revelador ver o presidente da República e um dos maiores empresários do país (e do mundo) colocando todas as cartas na mesa. Na calada da noite, diz o capitalista: “Estou pagando pro deputado preso ficar quieto”, ao que responde o chefe do Executivo: “Mantenha isso!” E segue o capitalista listando seus feitos em vários níveis do Estado: tentando trocar o procurador que está investigando suas condutas, “segurando” os juízes, pagando por informações dentro do Ministério Público, pressionando ministros para mudarem as regras, interferindo nas nomeações para os órgãos que podem afetar seus interesses, enfim, moldando o Estado à sua conveniência (empresarial e criminal). E a tudo o presidente assente, com comentários concordantes, mostrando satisfação com o desempenho de seu amigo nas estratégias de defesa contra os órgãos de investigação do próprio Estado! Se tudo isso não for a prova do gangsterismo que marcou todo o processo de tomada de poder por Michel Temer e seus aliados, bem como a prova de quais interesses (empresariais e criminais) estão preocupados em defender, olha, pode fechar a lojinha de ilusões que chamamos de Estado de Direito.

 

[19/5] Conversas de Michel Temer e Aécio Neves com o ministro Gilmar Mendes do STF foram interceptadas. Não gosto de ouvir a voz de Gilmar Mendes, mas dedicaria alguns minutos a ouvir esses áudios… Neles, pelo que diz a imprensa, são feitas negociações políticas do mesmo tipo daquelas gravadas com empresários etc. Numa delas, Aécio (!) pede (!!) a Gilmar (!!!) para pressionar (!!!!) outro deputado (!!!!) na votação da proposta sobre… abuso de autoridade! Se alguém tiver coragem de amarrar essas pontas todas (e Janot às vezes parece ter), Gilmar sobe no mesmo telhado que Temer e Aécio, com os pés igualmente escorregadios. Ou não?

 

[23/5] As imagens da “votação” que fez avançar a deforma antitrabalhista no Senado: mais um elo na corrente de vergonhas que já estamos acostumados a arrastar por aí. Muito, muito deprimente. Politicamente deprimente.

 

[24/5] Quando você vê a grande mídia brasileira indignada contra vazamentos, violação de privacidade etc., é sinal de que chegamos ao fundo do poço. Não porque o fundo do poço seja novidade para nós, mas porque é absoluta novidade essa mídia se indignar com ofensa a direitos. Normalmente, vem dela a violação. Ou o aplauso cúmplice.

 

[24/5] As boas práticas editoriais recomendariam que eu aguardasse momento mais oportuno para divulgar a capa do livro novo. Mas como ele vem chegando assim transparente – a maior parte dos poemas já saiu, de algum modo, aqui e ali -, feito a muitas mãos, a muitos olhos e ouvidos e corações e mentes. E como apareceu aqui essa foto linda do Joao Correia e numa conversa veloz com Luzia Maninha tudo ganhou forma e graça. E como tem outros amigos que têm sido igualmente generosos nesse processo todo: Reynaldo, Dalila, Carolina, Renan. E como eu disse agora há pouco para um amigo que esse talvez seja o meu livro mais “sujo”, mais “errado”, mas que estou bem feliz com isso tudo. E como me empolgo fácil com livros no nascedouro… tudo me diz que agora é hora de mostrar pra vocês a cara que o livro terá e perguntar: não é o caso do autor, besta sempre, ficar mais besta?

 

[24/5] Um presidente que, numa semana, tem suas conversas criminosas expostas, mas diz que não vai renunciar e, noutra semana, convoca as forças armadas para garantir que, enquanto não for retirado do cargo, entregará todas as encomendas (que ele chama de “reformas”) que seus sócios fizeram – é o que temos. Não é possível que aceitemos que nossa realidade passará a ser aquela definida por essas pessoas, nessas condições, desde o processo pelo qual Temer usurpou o poder até esses que parecem ser os atos finais de seu “governo”. Estamos vivendo a situação bizarra de assistir membros do Executivo e do Legislativo (para falar apenas deles) que, enquanto correm da polícia, continuam assinando leis e mudando a Constituição, que ainda assim serão as “nossas” leis e a “nossa” Constituição.

 

[26/5] Claudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, foi absolvida pelo juiz-herói. Há muitas formas de se espantar com essa decisão: a primeira é lembrar que ela já foi submetida, pelos estardalhaços típicos da Lava Jato, a um nível de execração pública que, a rigor, vale como uma condenação. A segunda é que o argumento de que ela foi apenas “negligente” com os gastos – de alguns milhões – incompatíveis com o rendimento do marido deputado é bastante curioso quando sai da boca de um juiz-acusador que vive de ilações, não de provas. E a terceira, creio eu, virá nas próximas semanas, quando pudermos comparar esse entendimento com o das aguardadas sentenças que o mesmo juiz redigirá contra os alvos principais da Lava Jato. Aguardemos. Com tantas ofensas a direitos aqui e ali, no varejo e no atacado, a herança de todo esse estardalhaço tem tudo para ser um traque: um amontoado de delações premiadas, absolvições por falta de provas e condenações que, também por falta de provas (mas não só), os tribunais superiores se verão obrigados a reformar.

 

[26/5] Já sabemos tudo. Como funciona, quanto custa, onde comprar o vibrador bluetooth que faz sucesso nas altas rodas. Joesley, nosso exilado gourmet, recomenda. Precisa mais? E sabemos também que não moramos mais no mesmo país: o país antigo era aquele em que apenas suspeitávamos dos modos, gostos, esquemas e costumes daquela fatia da população que, de tanto se beneficiar, nem “população” parece. Naquele país, tudo levava a crer que as coisas não andavam bem, mas não podíamos afirmar com certeza e, muito menos, confiar na punição dos envolvidos. No nosso novo país, sabemos até o formato daquilo que faz vibrar suas intimidades e também os caminhos nem tão obscuros percorridos pelas moedas sujas todas que acumulam. Grampos, delações, gravações secretas nos contaram uma nova história do Brasil. Um novo Brasil nasceu daí. Escancarado. Mas não se animem: os mesmos de sempre é que continuarão tendo motivos para rir. Ou, se preferirem, suspirar.

 

[28/5] A poesia da vida besta: uma oficina de poesia a partir do cinema recente, que comece por EU, DANIEL BLAKE e termine com UM HOMEM CHAMADO OVE, passando calmamente por PATERSON — eis uma ideia a que se dedicar.

 

[30/5] Bonito isso: Temer nomeou para o Ministério da Justiça seu “amigo fiel” Torquato Jardim, que, cuidando à época do Ministério da Transparência (acho esse nome lindo!), disse que não viu nada demais nas conversas de Temer e Joesley. Espero que o salário de ministro dê para comprar bons óculos. Para que Osmar Serraglio não ficasse desempregado, Temer tentou colocá-lo na pasta da Transparência, mas, como o ex-ministro da Justiça está enrolado noutra operação da Polícia Federal, preferiu voltar a ser deputado federal. Em que cadeira ele vai sentar? Na que estava sendo ocupada por Rocha Loures, o homem da mala de Temer (que fez umas reuniões com o procurador Dallagnol durante aquele processo que eles gostam de chamar de “impeachment”, é isso?). E a novela segue em ritmo acelerado. Aécio, por sua vez, tem praticamente um “núcleo” próprio no Projac da nossa política, com direito a ameaças, malas de dinheiro, drogas, conflitos familiares, “rei do gado” e tudo mais que uma boa novela tem. Daí você olha com atenção para as fotos da posse de Temer: tem um monte de gente ali que mudou de status, desde os que estão correndo da polícia até quem virou ministro do STF. A única legenda possível seria: tá tudo dominado. Mas, estranhamente, não está… o que deu errado no golpe?

 

[30/5] Se o dia hoje tivesse apenas 5 minutos, eu acho que o melhor destino para eles seria ouvir com calma esse áudio. O senador Aécio dá uma bronca no senador Zezé Perrella por falta de solidariedade. O que será que o dono daquele famigerado helicóptero, numa conversa privada, quer dizer com “Eu não faço nada de errado, eu só trafico droga” (aos 3 min.)?

https://soundcloud.com/jornalhojeemdia/zeze-perrella-e-aecio-neves-conversa-telefonica

Do fb pra cá [abril]

[1/4] “Ô, vc viu que o Temer sancionou a terceirização irrestrita?” Chegamos a um 1º de abril sem coragem de brincar com política e direitos. Temos vivido todas as piadas sem graça. Como um pesadelo.

 

[3/4] (Triste demais ver gente querida que tinha no trabalho, além da evidente fonte de sustento, também alguma fonte de orgulho, prazer, amizade etc., perder toda esta parte positiva e ter que se torturar por causa daquela, que por sua vez é a cada dia mais pressionada. Mas é bom me acostumar, porque a tendência das coisas parece ser mesmo por aí. Com sorte.)

 

[3/4] Enquanto Gilmar Mendes dá sequência a seus ataques frontais à democracia e cada vez mais contra os direitos dos trabalhadores (desta vez, afirmou que o TST é um “laboratório do PT e da CUT”…), o que assistimos na realidade passa bem longe de corresponder à sua opinião. Nas palavras do prof. Jorge Souto Maior: “Essa situação de insegurança jurídica dos trabalhadores, proporcionada pelas normas de flexibilização e pela ameaça de desemprego, acompanhadas da impossibilidade de reação institucional dos trabalhadores, dada a fragilização do sindicalismo e da força repressiva estatal, o qual atribuiu para si o papel de levar adiante o projeto neoliberal, conduziu os trabalhadores a um autêntico estágio de submissão e os empregadores à plenitude da soberba. Isso permitiu o advento de uma concepção empresarial no sentido de que deixar de aplicar direitos já não era o bastante, vez que passava a ser possível desenvolver uma forma de tratamento que assumia o caráter descartável do trabalhador.”

 

[4/4] Notícias indesejadas do estranho país em que a política é a mais desacreditada das artes, mas ainda assim pode se sobrepor irresponsavelmente a decisões de caráter técnico, se passando por “gestão inteligente” e não política… O mesmo país em que experiências e inovações importantes (vale para a mobilidade urbana, vale para o Ciência sem Fronteiras, vale para o Mais Médicos, vale para as universidades públicas e tantos outros programas sociais importantes dos últimos anos) são sumariamente desmontadas sob a alegação de que têm este ou aquele problema. Para tudo que é novo, aqui, e quanto mais democrático for, qualquer problema (não nego que existam!) é mortal, mas a tolerância com o rearranjo do que sabemos que não tem conserto, por outro lado, é gigantesca. Não guardem ainda o caderninho de contar os mortos.

 

[4/4] Nunca havia digitado meu nome na Estante Virtual. Fui procurar um exemplar dos “Poemas 1999-2014”, que esgotou totalmente (eram apenas 300), e me deparei com uma coisa curiosa: um exemplar do meu primeiro livro, “A lapso”, de 1999, autografado, por 110 reais. Cento e dez reais! A quem interessar possa, registro que tenho ainda alguns exemplares, uma caneta e sei fazer autógrafos razoáveis, por bem menos que 110, às vezes zero. Fica a dica.

 

[4/4] Em palestra na Hebraica do RJ, um provável candidato à presidência (não faço propaganda de seu nome nem imagem) afirmou: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem pra procriador ele serve mais”. Aproveito o ensejo para pedir UM GRANDE FAVOR. Se, por acaso, você ainda estiver lendo esta minha postagem e consegue concordar com qualquer palavra desse escroto, faça um favor para nós: desfaça a amizade comigo, aqui e onde mais quiser. Não precisa me xingar, me bater, muito menos tentar me convencer. Minhas convicções antifascistas não têm cura. E acho que esse verme e quem “pensa” como ele, por outras razões, também não têm.

 

[4/4] Um vereador de São Paulo está fazendo “fiscalização surpresa” em escolas públicas para verificar a roupa dos professores (obviamente: se é vermelha), exigindo que apresentem seus conteúdos programáticos, inquerindo alunos para saber como os conteúdos são tratados e estimulando nas redes sociais que os alunos “denunciem” seus professores. É uma caça aberta ao que esse imbecil chama de “ideologização”. Pois bem, vereadores têm poder para tanto? Do prefeito e de seus secretários nada espero (só daí para pior), mas o que dirão os diretores de escola, os professores, os pais e os alunos? O que diremos nós? Lembro do tempo em que se dizia que, se um “comunista” fosse eleito presidente, ele colocaria famílias pobres pra morar nas casas da classe média. Mas o que estamos assistindo é uma caçada a “comunistas” que justifica tudo, desde um ministro do STF discursar contra um outro Tribunal inteiro até a suspensão/supressão de direitos que nós, inocentes, julgávamos estabelecidos, passando, é claro, como sempre passa, pela fossa mais fétida, a desses que “fazem justiça com as próprias mãos”, investem-se nas atribuições que eles mesmos inventam, atropelam pessoas, instituições e direitos em nome de uma “causa” que, a seu juízo, tudo justifica. E assim começam a ultrapassar as portas de escolas e atacar professores para, daqui a pouco, derrubar toda e qualquer porta que imaginem esconder um “inimigo”, roupas vermelhas, livros subversivos. Aliás, já entramos na fase em que juízes fundamentam prisões em “curtidas” do facebook. O que falta? Já faz quase 3 anos que Nuno Ramos dizia: “Suspeito que estamos fodidos”. Temos algum motivo para demovê-lo dessa suspeita ou cairemos todos para dentro dela?

 

[4/4] (Fazer de todos os seus gestos uma forma de militância contra as forças que agem para destruir o mundo em que você acredita. Da hora de acordar à de dormir, e até enquanto dorme. Sonhando ou não. O que faz, o que deixa de fazer, o que ajuda a fazer e a desfazer. O que ensina e o que aprende, o que quer e o que não quer, o que aceita e o que não admite. Quando ataca e quando acolhe, no atrito e no carinho. O que come, o que bebe, o que veste. O que fala e o que não fala. Do que ri, do que não ri, o choro que engole ou ostenta. O que dá, o que divide – e tudo tentar dividir. Em cada minuto do dia, de qualquer dia. Custe o que custar, julguem como quiserem julgar. Missão longa, árdua, para a vida toda, cuja recompensa é apenas garantir que você não será o terreno fértil para as sementes que você detesta. Apenas?)

 

[5/4] QUADRILHA

 

Gilmar golpeava Michel que golpeava Eduardo

que golpeava Renan que golpeava Aécio que golpeava Dilma

que não golpeava ninguém.

Sérgio foi pra os Estados Unidos, Rodrigo para o congresso,

Teori morreu de desastre, Alexandre ficou pra ministro,

Carmen aposentou-se e Marcela casou com M. Odebrecht

que não tinha entrado na história.

 

[5/4] Pronto. O STF acaba de decidir, com repercussão geral, que todas as categorias policiais e servidores diretos da Segurança Pública não têm direito de greve. Até hoje, a Constituição Federal dizia: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender” (art. 9º). Mas o entendimento de Alexandre de Moraes, proibindo completamente a greve, venceu o do relator Edson Fachin e foi acompanhado pelos ministros Luis Roberto Barroso, Luiz Fux, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. E enquanto você estiver aí avaliando se a decisão faz sentido, saiba que, na verdade, ela vai servir de modelo para ataques (ainda maiores do que os dos últimos anos) ao direito de greve de muitas outras categorias, públicas ou privadas. O golpe, meus tristes amigos, está ainda nos primeiros passos. Mais um capítulo do “grande acordo nacional” de que falou o vidente Jucá.

PS: só pra lembrar que “direito de greve” não é uma coisa abstrata. Pelo contrário, é aquele direito por meio do qual os trabalhadores conseguem melhorar suas condições de trabalho e impedir que sejam roubados os direitos que já têm. A possibilidade de que haja greve é, simplesmente, o pilar de todos os demais direitos.

PS 2: no caso específico dos policiais, um dos argumentos do STF foi de que “quem porta arma deve se submeter a regime jurídico diferenciado”. Os ministros devem imaginar que “quem porta arma” também pode achar outras formas de defender seus interesses?

 

[6/4] Você aí, meu caro, que acha exagero ou faz pouco caso dos debates que o feminismo tem proposto, basta dar uma olhada com atenção nos casos – do goleiro Bruno, do ator da Globo, do cantor sertanejo, entre tantos outros – e na forma como os acusados se defendem, são defendidos e “punidos”, e vai perceber a gravidade das condições a que as mulheres são submetidas no trabalho, em casa, no estudo, na vida – antes, durante e depois da violência que sofrem. Diante disso, todo grito é justo.

 

[6/4] SÉRIO: creio que já temos inteligência suficiente para perceber quando algum candidato se favorece eleitoralmente do escracho ou má fama que nós ajudamos a alimentar. Má fama é, também, fama. O político escroto não é um produto que todo o eleitorado deixará de comprar. Podemos muito bem contribuir para a demolição de suas “teses” (basta um pouco de informação boa como contraponto) sem divulgar suas fotos e nomes. Se um escroto diz absurdos sobre a história e a realidade do país, o melhor antídoto é pesquisar e divulgar informações, análises, críticas etc. de qualidade. O escroto nada na ignorância, depende dela e de aceitarmos fazer a luta nos limites do seu charco. Fora dele o escroto não respira e morre. Por favor, não façamos parte desse coro involuntário.

 

[6/4] Exercício: temos boas razões para crer que o ator global, na privacidade do seu lar, proferiu palavras de baixo calão quando soube que a figurinista havia publicado uma carta em que o denunciava de assédio. Anote num papel 5 palavras que você imagina que ele disse naquele momento e procure o significado profundo dessas palavras. Não se surpreenda se todas elas (1) forem muito comuns no nosso dia a dia e (2) representarem a cristalização da mesma violência de que ele é acusado.

 

[7/4] Trump faz o que sabíamos que faria: um mundo ainda mais feio, à sua imagem e semelhança. Cerca os EUA e parte para o ataque contra o resto do mundo. Do muro pra lá, o que ele vê é justamente “resto”. Make America great again? Sim, mas a humanidade pagará a conta. Diz que pediu sabedoria a Deus para atacar a Síria: levar, no coração das bombas, “justiça, paz e harmonia”. Sua América – em sua cabeça – é uma ilha cercada de terrorismo por todos os lados. Já ouvimos muito esse discurso. Normalmente, é assim que se inauguram pesadelos.

 

[7/4] Precisamos falar sobre isso. Quando soube da acusação de estupro contra o Rafael Schincariol nos EUA, minha primeira reação foi de perplexidade. Ele estudou comigo na pós-graduação, participou (com sua namorada) de um livro que organizei, convivemos durante um tempo no mesmo grupo de pesquisa sobre Teoria Crítica e Direitos Humanos e, de lá pra cá, o encontrei em alguns eventos de direitos humanos e defesa da democracia. Não sabia o que ele estava fazendo atualmente, porque não éramos próximos, mas era alguém que eu via como sendo “do mesmo campo”. E era. E é – e este é justamente o ponto que me deixa mais perplexo! Com todo respeito à presunção de inocência e ao direito que ele terá de se defender, o fato de que essa acusação se some a tantas outras da mesma natureza, dentro dos ambientes considerados “progressistas”, nos obriga a perguntar com sinceridade e urgência: por que nossas ideias de respeito à dignidade não têm conseguido ser plenamente eficazes nem na fatia minúscula dos militantes e pesquisadores da área? Li a matéria publicada nos EUA e logo depois a sua versão para o Brasil já incluía, com destaque, o fato de Rafael ser “militante de esquerda”, pesquisador dos direitos humanos, contrário ao golpe etc., tudo bem à brasileira, mas não temos razão para esquivar também de debater a cultura do estupro entre nós – “macho adulto branco sempre no comando”, como cantou Caetano Veloso -, porque toda a luta em defesa dos direitos humanos e, em especial, a luta em defesa dos direitos das mulheres como um de seus principais eixos, retrocede absurdamente quando a violência é cometida por quem tem plena consciência dela e, até então, estava entre seus defensores. Não ligo para quem vive esperando algo assim para bater nos direitos humanos, mas penso que se trata de algo grave demais (não só o caso dele, mas as diversas denúncias que se sucedem pelo mundo) para ser circunscrito a mais um “caso isolado” ou soterrado pelos argumentos todos que a cultura do estupro costuma lançar contra as vítimas. Já vimos muitas vezes onde isso termina – e é bem longe do que deveria ser.

 

[10/4] (Não vi nada disso de que estão falando aqui nas últimas horas. E isso é quase a felicidade.)

 

[11/4] Bom demais ver toda essa agitação em torno da obra de Pachukanis. Claro que o Brasil continua sendo o país estranho em que, de uma hora para outra, saltamos da inexistência de uma obra nas livrarias para o lançamento simultâneo de duas traduções… no caso, duas versões diretas do original russo, com aparato variado etc. Esperávamos há tempos por isso e, agora, é hora de torcer para que os esforços se somem e deem visibilidade para estudiosos que vinham, contra todas as dificuldades, batalhando na divulgação das ideias de Pachukanis por aqui. Meu desejo, mais uma vez, é de que, também no pequeno campo que a esquerda ocupa no direito, tais iniciativas se fortaleçam mutuamente. Vai ser muito triste se, por conta de alinhamentos outros (como já tenho ouvido por aí), fraturar-se mais e mais a pequena fatia da crítica marxista do direito, que tem sido cada vez mais necessária. De minha parte, essa união de esforços é uma das lutas a que vou continuar me dedicando.

 

[12/4] Estou vendendo a postagem abaixo. Os 100 primeiros ganham uma camiseta da CBF, um pau de selfie e um pato de borracha.

“Temer, Aécio, Serra, Alckmin, Aloysio, Padilha, Kassab, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Paulinho da Força, Renan, Jucá, Anastasia, Collor, Russomano? Meus exemplos de boa conduta, competência e espírito republicano. Homens que gritaram alto contra as imoralidades deste país e agora estão colocando as coisas no eixo! Esse petista do Fachin deve estar brincando. Tudo mentira. Duvido que meus heróis tenham algo a ver com essa bandalheira.”

 

[12/4] A bancada do PSDB está dizendo que essas acusações não podem travar a “agenda do país”, que eles têm que continuar votando as prioridades etc. Então, fica a dica para você que for preso roubando algum dinheiro por aí: explique ao policial que sua prisão vai bloquear os projetos que tinha para a grana e que “são cruciais para a reativação da [sua] economia”.

 

[12/4] Só mais uma coisinha: a gente está há alguns anos assistindo à depredação escancarada da sigla do PT, na tevê, na capa dos jornais e revistas, na boca de procuradores e juízes etc. Agora, quando o partido queridinho dessas mesmas empresas, instituições e pessoas, o PSDB, é colocado no centro das delações, aparece um discurso para “não partidarizar”, porque “a corrupção está em todos os partidos” etc.? Calma lá… a gente não pode dizer que o PSDB é uma “organização criminosa” e colocar no powerpoint e achincalhar em bloco? Já não basta toda a blindagem que a grande imprensa faz para o PSDB e a lavagem cerebral eficiente que isso implica (a pessoa, por exemplo, pode ter sido assaltada mil vezes nos últimos 20 anos em São Paulo e ainda assim aplaude os discursos numéricos do governador sobre segurança pública), agora vamos embaçar o noticiário para não ver o que salta aos olhos? Quero apostar com vocês: todo esse barulho vai passar, vão pegar os “pegáveis” de sempre e, nas próximas eleições, o PSDB não será atingido por essas denúncias. Se bobear, até Aécio estará vivo politicamente. E nosso desespero será ver Geraldo, Dória e todos esses prefeitos e deputados com suas bem passadas camisas azuis e gravatas amarelas ocupando os mesmos palanques de sempre, como se nada disso tivesse acontecido. Aliás, como se somente tivesse acontecido com relação a seus adversários. Como sempre.

 

[12/4] Um triplex que tem outro dono. Um sítio emprestado. Quarenta milhões que não foram sacados (!?!). Isso é tudo, produção? Definitivamente, já tivemos melhores “chefes de quadrilha”…

 

[13/4] GRANA BRUTA. Diante dessas notícias da Odebrecht, fiquei pensando numa coisa: os valores. A grana toda que circulou por fora dos caminhos oficiais para os próprios empresários, executivos, políticos, intermediários, doleiros etc. E também a grana toda que a empresa ganhou como lucro desses negócios. Tente somar tudo isso e, claro, não esqueça: a Odebrecht era apenas uma das empresas a ganhar e dividir tanta grana dessa forma. Tente somar aí. E agora pense no bolso dessa turma toda e lembre que (1) são esses empresários que dizem que os direitos dos trabalhadores inviabilizam o crescimento do país e (2) são esses políticos que estão mudando leis para tomar direitos trabalhistas e previdenciários, entre outros direitos sociais, porque “custam caro demais”. Todos esses milhões e milhões são o negativo de bolsos esquálidos, panelas vazias, geladeiras tristes. São a face rica de um país coberto de pobres, que vão se tornar ainda mais pobres para pagar essa conta. Ainda que alguns desses políticos e empresários saiam de cena, não temos nada a comemorar enquanto nossas vidas forem decididas (e destruídas) para caber nesse mesmo esquema de concentração de riqueza, ora mais sujinho, ora mais limpinho. Com ou sem delações, o nome disso continua sendo capitalismo.

 

[13/4] Ler sobre rodas. Escrever andando. Por onde você andaria com a bicicleta do Bruce Chatwin? A que lugares você iria depois de ter lido “Um bom par de sapatos e uma caderneta de anotações”, do Tchékhov? Que ruas sua mochila merece? Quantas páginas cabem em cada passo?

 

[16/4] Muito curioso ver a Globo falando de corrupção com tom de surpresa e escondendo, por exemplo, que um de seus xodós, Diogo Mainardi, é acusado de estar na mesa com Aécio na hora de acertar esquemas com empresários. Nóis é tudo tonto?

 

[17/4] De tudo que tem acontecido no Brasil nos últimos anos, uma coisa muito me intriga: quem teve a ousadia de usar a palavra “coxinha” para algo depreciativo? E mais ainda: como é que caímos nessa de acreditar numa oposição entre coxinha e mortadela, se bem sabemos que são complementares nos melhores cardápios rueiros deste pobre país? E hoje, aliás, descobri que a coxinha é “ingourmetizável”, o que só melhora sua reputação nos meus balcões. Vi um programa de um chef gringo que experimenta comidas de rua e depois faz “releituras” requintadas das iguarias que o povão adora. Pois bem, diante das coxinhas, ele se rendeu e admitiu que “não tem o que melhorar”. Eu já sabia. Acho que devíamos fazer um grande ato de retratação por termos envolvido essa instituição nacional em baixarias de virar o estômago. Pode ser num boteco qualquer por aí.

 

[17/4] Vai fazer uma semana que estamos ouvindo detalhes das delações durante todo o dia… e o mais louco é que não há, nisso tudo, uma surpresa sequer. Só um tapa ou outro na nossa cara pálida.

 

[18/4] Segue o pesadelo. Estamos vivendo dentro de um programa de televisão. Péssimo programa. Na semana passada era Silvio Santos “delimitando”, na frente das câmeras, a pauta de uma funcionária. E hoje aparece essa espécie de cover do Silvio Santos com Roberto Justus (que “ameaça” ir embora do país) demitindo uma secretária no youtube (ver no comentário). Luciano Huck ameaça ser candidato. No rádio ouço a notícia do alvoroço que o depoimento de BBBs causou na delegacia. A Globo, que apoiou golpe e ditadura anteriores, lança uma novela sobre ditadura logo após apoiar outro golpe. O presidente golpista dá uma entrevista elegante explicando as razões do golpe. Vazamentos de audiências sigilosas ocorrem ao vivo, sob a vista grossíssima do juiz, no site em que trabalha um dos investigados. Qual a graça dessas piadas todas? Quando é que os telespectadores saem do transe? A cada dia aumenta em mim a impressão de que até nossos desabafos, xingamentos, protestos etc. já fazem parte do cálculo dessa corja. Tudo parece ser já risonhamente esperado por esses donos do circo em que a atração são nossos sucessivos tombos da corda bamba. É urgente darmos passos que eles não esperem, muito menos de que possam rir.

 

[18/4] Nove mentiras e uma verdade sobre nosso presidente:

  1. ele é o autor de algumas das principais obras de Direito Constitucional de todos os tempos
  2. nunca tinha ouvido falar de Odebrecht até o Fantástico do último domingo
  3. a melhor piada de sua vida foi escolher o lema “Ordem e Progresso” para seu governo
  4. jamais manteria no cargo um ministro que fosse investigado por corrupção
  5. é o mais importante poeta brasileiro depois de Drummond, ou melhor, acima de Drummond
  6. nove entre dez mulheres pensam nele quando dizem que preferem homens mais velhos
  7. foi leal à presidenta até ser inevitável assumir o cargo para salvar o país da corrupção e da incompetência
  8. jamais enviou cartas magoadas com expressões em latim
  9. ensaiou discursos de posse no whatsapp, mas não sabia que é impossível desfazer envio
  10. tem medo de fantasmas, em especial o de Eduardo Cunha

 

[18/4] É claro que Luís Inácio é o ‘crush’ dos sonhos lá de Curitiba. Ou vocês conhecem uma cantada mais descarada do que obrigar a participar pessoalmente de 87 oitivas de testemunha?

 

[19/4] SOUTO MAIOR NO CENTRO DO RODA VIVA: na última segunda, o programa Roda Viva entrevistou o relator da reforma trabalhista, dep. Rogério Marinho (PSDB/RN). Em meio aos entrevistadores, a presença do prof. Jorge Luiz Souto Maior chamou atenção, não apenas pelo posicionamento frontalmente contrário à reforma, mas pelo conhecimento profundo da história e da situação atual do Direito e da Justiça do Trabalho, acumulado durante uma vida dedicada ao estudo, docência, pesquisa e magistratura na área. Mas, infelizmente, ele era apenas um dos entrevistadores, foi interrompido várias vezes e não conseguiu desenvolver como se deve sua reflexão e esclarecimentos sobre os diversos temas da reforma. Se a TV Cultura quer, de fato, colaborar com o debate sobre a reforma trabalhista, deve convidar com urgência o prof. Souto Maior para ser o entrevistado do programa. Este será o verdadeiro contraponto, desfazendo os mitos que a grande imprensa alimenta sobre o assunto e, assim, favorece a derrubada de direitos duramente conquistados pela classe trabalhadora. Por favor, ajudem a divulgar essa causa!

 

[19/4] CENSURA NO CULTURA LIVRE: está circulando uma alarmante denúncia de censura ocorrida no programa Cultura Livre, polo importantíssimo para divulgação das mais diversas faces da nossa rica cultura musical. Em 11 de abril, o grupo Aláfia participou do programa e cantou a música “Liga Nas de Cem”, que fala de segregação racial na cidade e denuncia também o papel que o poder público exerce, citando nominalmente o governador e o prefeito de São Paulo. Na versão que foi ao ar, a parte em que os políticos foram citados foi cortada. Sim, cortada, sem o consentimento dos músicos, obviamente, ou da criadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli. O nome disso é um só: CENSURA. Trata-se de fato gravíssimo, num canal público ou privado, seja por ordem dessas autoridades ou por receio de perseguições. A TV Cultura é bancada pelo Governo do Estado, mas não pode ser transformada num órgão de propaganda do partido que manda no Estado e na prefeitura. Ela pertence ao povo de São Paulo e deve ser usada para que o povo se expresse. Não vamos nos distrair com as versões ficcionais do que foi a ditadura anterior enquanto muitas de suas práticas nos cercam e ameaçam. Fiquemos ligados e cobremos das autoridades!

 

[24/4] Não apenas no Brasil, as derrotas de quem defende a ampliação da democracia e os esforços de justiça social têm sido cada vez mais duras, com perspectivas ainda piores logo à frente. Só não vê quem não quer. Por isso, e não só por isso, dia 28/4 é dia de parar a máquina: aderir à GREVE GERAL nos limites da sua força, da sua atuação. Ir para a rua nem que seja para ver quantas pessoas também aderiram. Ou ficar em casa ou num parque, numa praça, lendo a história que as lutas da classe trabalhadora não permitiram que fosse apenas de derrotas. A história dos direitos que estão sendo tomados sem cerimônia. Cruzar os braços na sexta-feira pode ser o recomeço dessa história de vitórias importantíssimas, que só pode ter como protagonistas e guardiões os próprios trabalhadores. Sei, no entanto, de vários amigos que temem ser perseguidos no trabalho se aderirem à greve geral. Entendo. E torço para que, de alguma maneira, consigam parar, nem que seja por dentro, para pensar o que significa essa relação constrangida em que muitos terão que passar o dia fingindo que está tudo bem, que nada está acontecendo com seus direitos, para não perderem seus empregos. Isso tudo tem muito a ver.

 

[24/4] No estranho país que passa os dias em frente à televisão assistindo às delações de empresários sobre como tiram os obstáculos públicos da frente dos seus interesses privados, mas ainda assim acha que a solução é entregar para esses empresários o comando da máquina pública, aviões da FAB são usados para levar “políticos e membros do judiciário” (distinção antiga…) para um encontro organizado pelos filhos (ãhã…) de João Dória, num resort 5 estrelas em Foz do Iguaçu, que inclui “coquetéis, torneios de tênis, golfe e de futebol society, aulas de vinhos, test drive de automóveis Mercedes Benz, degustação de uísques e um show com Sidney Magal no encerramento”. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

 

[25/4] Anote o nome: LAREG EVERG.

 

[26/4] Por que a advocacia também deve aderir à greve geral? Advogados – sejam autônomos ou empregados – normalmente se esquecem de que também são trabalhadores e que, portanto, em sua maioria, dependem dos mesmos direitos que seus clientes. Junto a isso, boa parte da advocacia também tem muitas outras razões para se posicionar contrariamente ao que temos assistido no Brasil: menos direitos e menos respeito aos direitos também significam menos advocacia e menos respeito à advocacia. A advocacia, que tanto se orgulha de estar na Constituição como “indispensável à administração da justiça” (art. 133), não pode perder oportunidades de deixar claro também que os direitos que defende são essenciais à sociedade em que vivemos. Todos à luta!

 

[26/4] (Alguns minutos de TV Câmara ao vivo… e você descobre que a desesperança pode atingir níveis que seu pessimismo ainda insiste em subestimar.)

 

[27/4] John Lacoste, alcaide do burgo principal desta capitania, já se entusiasmou com greve geral para derrubar presidenta, mas agora ficou magoado com greve geral contra derrubada de direitos e, como sói acontecer, buscou “parceiros na (iniciativa) privada” para garantir que tudo siga normalmente no país anormal em seu momento (mais?) anormal. “Não tem busão? Vem de Uber, ora bolas!”, disse o chefe. Tal qual atribuem por aí à distinta Maria Antonieta: se o povo não tem pão, que coma brioches; se não tem água, que tome champanhe.

 

[27/4] Meus malvados favoritos:

 

gente que ameaça ir pra Miami

e diz que grevista é partidário

vê a vida com olho de banqueiro

mas, com sorte, é bancário

 

[27/4] Greve: direito de não ir nem vir. Exerça-o. Respeite que o exerçam.

 

[30/4] Belchior: o sentido do mundo rareia.

 

[30/4] Pra cada 1000 Dorias que nascem, nasce um Belchior. Pra cada 100 Dorias que sobrevivem, sobrevive algum Belchior. Pra cada Doria que existe, 100 Belchiores desistem de existir, desistem da vida, dessa vida. Nossa tarefa é salvar Belchiores. É ter mais Belchiores – cheios de chama, alma, fibra – que Dorias. E hoje é dia disso: ouvir Belchior até não haver mais o mundo de que Belchior desista. Chapar de Belchior.