Do fb pra cá [abril]

[1/4] “Ô, vc viu que o Temer sancionou a terceirização irrestrita?” Chegamos a um 1º de abril sem coragem de brincar com política e direitos. Temos vivido todas as piadas sem graça. Como um pesadelo.

 

[3/4] (Triste demais ver gente querida que tinha no trabalho, além da evidente fonte de sustento, também alguma fonte de orgulho, prazer, amizade etc., perder toda esta parte positiva e ter que se torturar por causa daquela, que por sua vez é a cada dia mais pressionada. Mas é bom me acostumar, porque a tendência das coisas parece ser mesmo por aí. Com sorte.)

 

[3/4] Enquanto Gilmar Mendes dá sequência a seus ataques frontais à democracia e cada vez mais contra os direitos dos trabalhadores (desta vez, afirmou que o TST é um “laboratório do PT e da CUT”…), o que assistimos na realidade passa bem longe de corresponder à sua opinião. Nas palavras do prof. Jorge Souto Maior: “Essa situação de insegurança jurídica dos trabalhadores, proporcionada pelas normas de flexibilização e pela ameaça de desemprego, acompanhadas da impossibilidade de reação institucional dos trabalhadores, dada a fragilização do sindicalismo e da força repressiva estatal, o qual atribuiu para si o papel de levar adiante o projeto neoliberal, conduziu os trabalhadores a um autêntico estágio de submissão e os empregadores à plenitude da soberba. Isso permitiu o advento de uma concepção empresarial no sentido de que deixar de aplicar direitos já não era o bastante, vez que passava a ser possível desenvolver uma forma de tratamento que assumia o caráter descartável do trabalhador.”

 

[4/4] Notícias indesejadas do estranho país em que a política é a mais desacreditada das artes, mas ainda assim pode se sobrepor irresponsavelmente a decisões de caráter técnico, se passando por “gestão inteligente” e não política… O mesmo país em que experiências e inovações importantes (vale para a mobilidade urbana, vale para o Ciência sem Fronteiras, vale para o Mais Médicos, vale para as universidades públicas e tantos outros programas sociais importantes dos últimos anos) são sumariamente desmontadas sob a alegação de que têm este ou aquele problema. Para tudo que é novo, aqui, e quanto mais democrático for, qualquer problema (não nego que existam!) é mortal, mas a tolerância com o rearranjo do que sabemos que não tem conserto, por outro lado, é gigantesca. Não guardem ainda o caderninho de contar os mortos.

 

[4/4] Nunca havia digitado meu nome na Estante Virtual. Fui procurar um exemplar dos “Poemas 1999-2014”, que esgotou totalmente (eram apenas 300), e me deparei com uma coisa curiosa: um exemplar do meu primeiro livro, “A lapso”, de 1999, autografado, por 110 reais. Cento e dez reais! A quem interessar possa, registro que tenho ainda alguns exemplares, uma caneta e sei fazer autógrafos razoáveis, por bem menos que 110, às vezes zero. Fica a dica.

 

[4/4] Em palestra na Hebraica do RJ, um provável candidato à presidência (não faço propaganda de seu nome nem imagem) afirmou: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem pra procriador ele serve mais”. Aproveito o ensejo para pedir UM GRANDE FAVOR. Se, por acaso, você ainda estiver lendo esta minha postagem e consegue concordar com qualquer palavra desse escroto, faça um favor para nós: desfaça a amizade comigo, aqui e onde mais quiser. Não precisa me xingar, me bater, muito menos tentar me convencer. Minhas convicções antifascistas não têm cura. E acho que esse verme e quem “pensa” como ele, por outras razões, também não têm.

 

[4/4] Um vereador de São Paulo está fazendo “fiscalização surpresa” em escolas públicas para verificar a roupa dos professores (obviamente: se é vermelha), exigindo que apresentem seus conteúdos programáticos, inquerindo alunos para saber como os conteúdos são tratados e estimulando nas redes sociais que os alunos “denunciem” seus professores. É uma caça aberta ao que esse imbecil chama de “ideologização”. Pois bem, vereadores têm poder para tanto? Do prefeito e de seus secretários nada espero (só daí para pior), mas o que dirão os diretores de escola, os professores, os pais e os alunos? O que diremos nós? Lembro do tempo em que se dizia que, se um “comunista” fosse eleito presidente, ele colocaria famílias pobres pra morar nas casas da classe média. Mas o que estamos assistindo é uma caçada a “comunistas” que justifica tudo, desde um ministro do STF discursar contra um outro Tribunal inteiro até a suspensão/supressão de direitos que nós, inocentes, julgávamos estabelecidos, passando, é claro, como sempre passa, pela fossa mais fétida, a desses que “fazem justiça com as próprias mãos”, investem-se nas atribuições que eles mesmos inventam, atropelam pessoas, instituições e direitos em nome de uma “causa” que, a seu juízo, tudo justifica. E assim começam a ultrapassar as portas de escolas e atacar professores para, daqui a pouco, derrubar toda e qualquer porta que imaginem esconder um “inimigo”, roupas vermelhas, livros subversivos. Aliás, já entramos na fase em que juízes fundamentam prisões em “curtidas” do facebook. O que falta? Já faz quase 3 anos que Nuno Ramos dizia: “Suspeito que estamos fodidos”. Temos algum motivo para demovê-lo dessa suspeita ou cairemos todos para dentro dela?

 

[4/4] (Fazer de todos os seus gestos uma forma de militância contra as forças que agem para destruir o mundo em que você acredita. Da hora de acordar à de dormir, e até enquanto dorme. Sonhando ou não. O que faz, o que deixa de fazer, o que ajuda a fazer e a desfazer. O que ensina e o que aprende, o que quer e o que não quer, o que aceita e o que não admite. Quando ataca e quando acolhe, no atrito e no carinho. O que come, o que bebe, o que veste. O que fala e o que não fala. Do que ri, do que não ri, o choro que engole ou ostenta. O que dá, o que divide – e tudo tentar dividir. Em cada minuto do dia, de qualquer dia. Custe o que custar, julguem como quiserem julgar. Missão longa, árdua, para a vida toda, cuja recompensa é apenas garantir que você não será o terreno fértil para as sementes que você detesta. Apenas?)

 

[5/4] QUADRILHA

 

Gilmar golpeava Michel que golpeava Eduardo

que golpeava Renan que golpeava Aécio que golpeava Dilma

que não golpeava ninguém.

Sérgio foi pra os Estados Unidos, Rodrigo para o congresso,

Teori morreu de desastre, Alexandre ficou pra ministro,

Carmen aposentou-se e Marcela casou com M. Odebrecht

que não tinha entrado na história.

 

[5/4] Pronto. O STF acaba de decidir, com repercussão geral, que todas as categorias policiais e servidores diretos da Segurança Pública não têm direito de greve. Até hoje, a Constituição Federal dizia: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender” (art. 9º). Mas o entendimento de Alexandre de Moraes, proibindo completamente a greve, venceu o do relator Edson Fachin e foi acompanhado pelos ministros Luis Roberto Barroso, Luiz Fux, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. E enquanto você estiver aí avaliando se a decisão faz sentido, saiba que, na verdade, ela vai servir de modelo para ataques (ainda maiores do que os dos últimos anos) ao direito de greve de muitas outras categorias, públicas ou privadas. O golpe, meus tristes amigos, está ainda nos primeiros passos. Mais um capítulo do “grande acordo nacional” de que falou o vidente Jucá.

PS: só pra lembrar que “direito de greve” não é uma coisa abstrata. Pelo contrário, é aquele direito por meio do qual os trabalhadores conseguem melhorar suas condições de trabalho e impedir que sejam roubados os direitos que já têm. A possibilidade de que haja greve é, simplesmente, o pilar de todos os demais direitos.

PS 2: no caso específico dos policiais, um dos argumentos do STF foi de que “quem porta arma deve se submeter a regime jurídico diferenciado”. Os ministros devem imaginar que “quem porta arma” também pode achar outras formas de defender seus interesses?

 

[6/4] Você aí, meu caro, que acha exagero ou faz pouco caso dos debates que o feminismo tem proposto, basta dar uma olhada com atenção nos casos – do goleiro Bruno, do ator da Globo, do cantor sertanejo, entre tantos outros – e na forma como os acusados se defendem, são defendidos e “punidos”, e vai perceber a gravidade das condições a que as mulheres são submetidas no trabalho, em casa, no estudo, na vida – antes, durante e depois da violência que sofrem. Diante disso, todo grito é justo.

 

[6/4] SÉRIO: creio que já temos inteligência suficiente para perceber quando algum candidato se favorece eleitoralmente do escracho ou má fama que nós ajudamos a alimentar. Má fama é, também, fama. O político escroto não é um produto que todo o eleitorado deixará de comprar. Podemos muito bem contribuir para a demolição de suas “teses” (basta um pouco de informação boa como contraponto) sem divulgar suas fotos e nomes. Se um escroto diz absurdos sobre a história e a realidade do país, o melhor antídoto é pesquisar e divulgar informações, análises, críticas etc. de qualidade. O escroto nada na ignorância, depende dela e de aceitarmos fazer a luta nos limites do seu charco. Fora dele o escroto não respira e morre. Por favor, não façamos parte desse coro involuntário.

 

[6/4] Exercício: temos boas razões para crer que o ator global, na privacidade do seu lar, proferiu palavras de baixo calão quando soube que a figurinista havia publicado uma carta em que o denunciava de assédio. Anote num papel 5 palavras que você imagina que ele disse naquele momento e procure o significado profundo dessas palavras. Não se surpreenda se todas elas (1) forem muito comuns no nosso dia a dia e (2) representarem a cristalização da mesma violência de que ele é acusado.

 

[7/4] Trump faz o que sabíamos que faria: um mundo ainda mais feio, à sua imagem e semelhança. Cerca os EUA e parte para o ataque contra o resto do mundo. Do muro pra lá, o que ele vê é justamente “resto”. Make America great again? Sim, mas a humanidade pagará a conta. Diz que pediu sabedoria a Deus para atacar a Síria: levar, no coração das bombas, “justiça, paz e harmonia”. Sua América – em sua cabeça – é uma ilha cercada de terrorismo por todos os lados. Já ouvimos muito esse discurso. Normalmente, é assim que se inauguram pesadelos.

 

[7/4] Precisamos falar sobre isso. Quando soube da acusação de estupro contra o Rafael Schincariol nos EUA, minha primeira reação foi de perplexidade. Ele estudou comigo na pós-graduação, participou (com sua namorada) de um livro que organizei, convivemos durante um tempo no mesmo grupo de pesquisa sobre Teoria Crítica e Direitos Humanos e, de lá pra cá, o encontrei em alguns eventos de direitos humanos e defesa da democracia. Não sabia o que ele estava fazendo atualmente, porque não éramos próximos, mas era alguém que eu via como sendo “do mesmo campo”. E era. E é – e este é justamente o ponto que me deixa mais perplexo! Com todo respeito à presunção de inocência e ao direito que ele terá de se defender, o fato de que essa acusação se some a tantas outras da mesma natureza, dentro dos ambientes considerados “progressistas”, nos obriga a perguntar com sinceridade e urgência: por que nossas ideias de respeito à dignidade não têm conseguido ser plenamente eficazes nem na fatia minúscula dos militantes e pesquisadores da área? Li a matéria publicada nos EUA e logo depois a sua versão para o Brasil já incluía, com destaque, o fato de Rafael ser “militante de esquerda”, pesquisador dos direitos humanos, contrário ao golpe etc., tudo bem à brasileira, mas não temos razão para esquivar também de debater a cultura do estupro entre nós – “macho adulto branco sempre no comando”, como cantou Caetano Veloso -, porque toda a luta em defesa dos direitos humanos e, em especial, a luta em defesa dos direitos das mulheres como um de seus principais eixos, retrocede absurdamente quando a violência é cometida por quem tem plena consciência dela e, até então, estava entre seus defensores. Não ligo para quem vive esperando algo assim para bater nos direitos humanos, mas penso que se trata de algo grave demais (não só o caso dele, mas as diversas denúncias que se sucedem pelo mundo) para ser circunscrito a mais um “caso isolado” ou soterrado pelos argumentos todos que a cultura do estupro costuma lançar contra as vítimas. Já vimos muitas vezes onde isso termina – e é bem longe do que deveria ser.

 

[10/4] (Não vi nada disso de que estão falando aqui nas últimas horas. E isso é quase a felicidade.)

 

[11/4] Bom demais ver toda essa agitação em torno da obra de Pachukanis. Claro que o Brasil continua sendo o país estranho em que, de uma hora para outra, saltamos da inexistência de uma obra nas livrarias para o lançamento simultâneo de duas traduções… no caso, duas versões diretas do original russo, com aparato variado etc. Esperávamos há tempos por isso e, agora, é hora de torcer para que os esforços se somem e deem visibilidade para estudiosos que vinham, contra todas as dificuldades, batalhando na divulgação das ideias de Pachukanis por aqui. Meu desejo, mais uma vez, é de que, também no pequeno campo que a esquerda ocupa no direito, tais iniciativas se fortaleçam mutuamente. Vai ser muito triste se, por conta de alinhamentos outros (como já tenho ouvido por aí), fraturar-se mais e mais a pequena fatia da crítica marxista do direito, que tem sido cada vez mais necessária. De minha parte, essa união de esforços é uma das lutas a que vou continuar me dedicando.

 

[12/4] Estou vendendo a postagem abaixo. Os 100 primeiros ganham uma camiseta da CBF, um pau de selfie e um pato de borracha.

“Temer, Aécio, Serra, Alckmin, Aloysio, Padilha, Kassab, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Paulinho da Força, Renan, Jucá, Anastasia, Collor, Russomano? Meus exemplos de boa conduta, competência e espírito republicano. Homens que gritaram alto contra as imoralidades deste país e agora estão colocando as coisas no eixo! Esse petista do Fachin deve estar brincando. Tudo mentira. Duvido que meus heróis tenham algo a ver com essa bandalheira.”

 

[12/4] A bancada do PSDB está dizendo que essas acusações não podem travar a “agenda do país”, que eles têm que continuar votando as prioridades etc. Então, fica a dica para você que for preso roubando algum dinheiro por aí: explique ao policial que sua prisão vai bloquear os projetos que tinha para a grana e que “são cruciais para a reativação da [sua] economia”.

 

[12/4] Só mais uma coisinha: a gente está há alguns anos assistindo à depredação escancarada da sigla do PT, na tevê, na capa dos jornais e revistas, na boca de procuradores e juízes etc. Agora, quando o partido queridinho dessas mesmas empresas, instituições e pessoas, o PSDB, é colocado no centro das delações, aparece um discurso para “não partidarizar”, porque “a corrupção está em todos os partidos” etc.? Calma lá… a gente não pode dizer que o PSDB é uma “organização criminosa” e colocar no powerpoint e achincalhar em bloco? Já não basta toda a blindagem que a grande imprensa faz para o PSDB e a lavagem cerebral eficiente que isso implica (a pessoa, por exemplo, pode ter sido assaltada mil vezes nos últimos 20 anos em São Paulo e ainda assim aplaude os discursos numéricos do governador sobre segurança pública), agora vamos embaçar o noticiário para não ver o que salta aos olhos? Quero apostar com vocês: todo esse barulho vai passar, vão pegar os “pegáveis” de sempre e, nas próximas eleições, o PSDB não será atingido por essas denúncias. Se bobear, até Aécio estará vivo politicamente. E nosso desespero será ver Geraldo, Dória e todos esses prefeitos e deputados com suas bem passadas camisas azuis e gravatas amarelas ocupando os mesmos palanques de sempre, como se nada disso tivesse acontecido. Aliás, como se somente tivesse acontecido com relação a seus adversários. Como sempre.

 

[12/4] Um triplex que tem outro dono. Um sítio emprestado. Quarenta milhões que não foram sacados (!?!). Isso é tudo, produção? Definitivamente, já tivemos melhores “chefes de quadrilha”…

 

[13/4] GRANA BRUTA. Diante dessas notícias da Odebrecht, fiquei pensando numa coisa: os valores. A grana toda que circulou por fora dos caminhos oficiais para os próprios empresários, executivos, políticos, intermediários, doleiros etc. E também a grana toda que a empresa ganhou como lucro desses negócios. Tente somar tudo isso e, claro, não esqueça: a Odebrecht era apenas uma das empresas a ganhar e dividir tanta grana dessa forma. Tente somar aí. E agora pense no bolso dessa turma toda e lembre que (1) são esses empresários que dizem que os direitos dos trabalhadores inviabilizam o crescimento do país e (2) são esses políticos que estão mudando leis para tomar direitos trabalhistas e previdenciários, entre outros direitos sociais, porque “custam caro demais”. Todos esses milhões e milhões são o negativo de bolsos esquálidos, panelas vazias, geladeiras tristes. São a face rica de um país coberto de pobres, que vão se tornar ainda mais pobres para pagar essa conta. Ainda que alguns desses políticos e empresários saiam de cena, não temos nada a comemorar enquanto nossas vidas forem decididas (e destruídas) para caber nesse mesmo esquema de concentração de riqueza, ora mais sujinho, ora mais limpinho. Com ou sem delações, o nome disso continua sendo capitalismo.

 

[13/4] Ler sobre rodas. Escrever andando. Por onde você andaria com a bicicleta do Bruce Chatwin? A que lugares você iria depois de ter lido “Um bom par de sapatos e uma caderneta de anotações”, do Tchékhov? Que ruas sua mochila merece? Quantas páginas cabem em cada passo?

 

[16/4] Muito curioso ver a Globo falando de corrupção com tom de surpresa e escondendo, por exemplo, que um de seus xodós, Diogo Mainardi, é acusado de estar na mesa com Aécio na hora de acertar esquemas com empresários. Nóis é tudo tonto?

 

[17/4] De tudo que tem acontecido no Brasil nos últimos anos, uma coisa muito me intriga: quem teve a ousadia de usar a palavra “coxinha” para algo depreciativo? E mais ainda: como é que caímos nessa de acreditar numa oposição entre coxinha e mortadela, se bem sabemos que são complementares nos melhores cardápios rueiros deste pobre país? E hoje, aliás, descobri que a coxinha é “ingourmetizável”, o que só melhora sua reputação nos meus balcões. Vi um programa de um chef gringo que experimenta comidas de rua e depois faz “releituras” requintadas das iguarias que o povão adora. Pois bem, diante das coxinhas, ele se rendeu e admitiu que “não tem o que melhorar”. Eu já sabia. Acho que devíamos fazer um grande ato de retratação por termos envolvido essa instituição nacional em baixarias de virar o estômago. Pode ser num boteco qualquer por aí.

 

[17/4] Vai fazer uma semana que estamos ouvindo detalhes das delações durante todo o dia… e o mais louco é que não há, nisso tudo, uma surpresa sequer. Só um tapa ou outro na nossa cara pálida.

 

[18/4] Segue o pesadelo. Estamos vivendo dentro de um programa de televisão. Péssimo programa. Na semana passada era Silvio Santos “delimitando”, na frente das câmeras, a pauta de uma funcionária. E hoje aparece essa espécie de cover do Silvio Santos com Roberto Justus (que “ameaça” ir embora do país) demitindo uma secretária no youtube (ver no comentário). Luciano Huck ameaça ser candidato. No rádio ouço a notícia do alvoroço que o depoimento de BBBs causou na delegacia. A Globo, que apoiou golpe e ditadura anteriores, lança uma novela sobre ditadura logo após apoiar outro golpe. O presidente golpista dá uma entrevista elegante explicando as razões do golpe. Vazamentos de audiências sigilosas ocorrem ao vivo, sob a vista grossíssima do juiz, no site em que trabalha um dos investigados. Qual a graça dessas piadas todas? Quando é que os telespectadores saem do transe? A cada dia aumenta em mim a impressão de que até nossos desabafos, xingamentos, protestos etc. já fazem parte do cálculo dessa corja. Tudo parece ser já risonhamente esperado por esses donos do circo em que a atração são nossos sucessivos tombos da corda bamba. É urgente darmos passos que eles não esperem, muito menos de que possam rir.

 

[18/4] Nove mentiras e uma verdade sobre nosso presidente:

  1. ele é o autor de algumas das principais obras de Direito Constitucional de todos os tempos
  2. nunca tinha ouvido falar de Odebrecht até o Fantástico do último domingo
  3. a melhor piada de sua vida foi escolher o lema “Ordem e Progresso” para seu governo
  4. jamais manteria no cargo um ministro que fosse investigado por corrupção
  5. é o mais importante poeta brasileiro depois de Drummond, ou melhor, acima de Drummond
  6. nove entre dez mulheres pensam nele quando dizem que preferem homens mais velhos
  7. foi leal à presidenta até ser inevitável assumir o cargo para salvar o país da corrupção e da incompetência
  8. jamais enviou cartas magoadas com expressões em latim
  9. ensaiou discursos de posse no whatsapp, mas não sabia que é impossível desfazer envio
  10. tem medo de fantasmas, em especial o de Eduardo Cunha

 

[18/4] É claro que Luís Inácio é o ‘crush’ dos sonhos lá de Curitiba. Ou vocês conhecem uma cantada mais descarada do que obrigar a participar pessoalmente de 87 oitivas de testemunha?

 

[19/4] SOUTO MAIOR NO CENTRO DO RODA VIVA: na última segunda, o programa Roda Viva entrevistou o relator da reforma trabalhista, dep. Rogério Marinho (PSDB/RN). Em meio aos entrevistadores, a presença do prof. Jorge Luiz Souto Maior chamou atenção, não apenas pelo posicionamento frontalmente contrário à reforma, mas pelo conhecimento profundo da história e da situação atual do Direito e da Justiça do Trabalho, acumulado durante uma vida dedicada ao estudo, docência, pesquisa e magistratura na área. Mas, infelizmente, ele era apenas um dos entrevistadores, foi interrompido várias vezes e não conseguiu desenvolver como se deve sua reflexão e esclarecimentos sobre os diversos temas da reforma. Se a TV Cultura quer, de fato, colaborar com o debate sobre a reforma trabalhista, deve convidar com urgência o prof. Souto Maior para ser o entrevistado do programa. Este será o verdadeiro contraponto, desfazendo os mitos que a grande imprensa alimenta sobre o assunto e, assim, favorece a derrubada de direitos duramente conquistados pela classe trabalhadora. Por favor, ajudem a divulgar essa causa!

 

[19/4] CENSURA NO CULTURA LIVRE: está circulando uma alarmante denúncia de censura ocorrida no programa Cultura Livre, polo importantíssimo para divulgação das mais diversas faces da nossa rica cultura musical. Em 11 de abril, o grupo Aláfia participou do programa e cantou a música “Liga Nas de Cem”, que fala de segregação racial na cidade e denuncia também o papel que o poder público exerce, citando nominalmente o governador e o prefeito de São Paulo. Na versão que foi ao ar, a parte em que os políticos foram citados foi cortada. Sim, cortada, sem o consentimento dos músicos, obviamente, ou da criadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli. O nome disso é um só: CENSURA. Trata-se de fato gravíssimo, num canal público ou privado, seja por ordem dessas autoridades ou por receio de perseguições. A TV Cultura é bancada pelo Governo do Estado, mas não pode ser transformada num órgão de propaganda do partido que manda no Estado e na prefeitura. Ela pertence ao povo de São Paulo e deve ser usada para que o povo se expresse. Não vamos nos distrair com as versões ficcionais do que foi a ditadura anterior enquanto muitas de suas práticas nos cercam e ameaçam. Fiquemos ligados e cobremos das autoridades!

 

[24/4] Não apenas no Brasil, as derrotas de quem defende a ampliação da democracia e os esforços de justiça social têm sido cada vez mais duras, com perspectivas ainda piores logo à frente. Só não vê quem não quer. Por isso, e não só por isso, dia 28/4 é dia de parar a máquina: aderir à GREVE GERAL nos limites da sua força, da sua atuação. Ir para a rua nem que seja para ver quantas pessoas também aderiram. Ou ficar em casa ou num parque, numa praça, lendo a história que as lutas da classe trabalhadora não permitiram que fosse apenas de derrotas. A história dos direitos que estão sendo tomados sem cerimônia. Cruzar os braços na sexta-feira pode ser o recomeço dessa história de vitórias importantíssimas, que só pode ter como protagonistas e guardiões os próprios trabalhadores. Sei, no entanto, de vários amigos que temem ser perseguidos no trabalho se aderirem à greve geral. Entendo. E torço para que, de alguma maneira, consigam parar, nem que seja por dentro, para pensar o que significa essa relação constrangida em que muitos terão que passar o dia fingindo que está tudo bem, que nada está acontecendo com seus direitos, para não perderem seus empregos. Isso tudo tem muito a ver.

 

[24/4] No estranho país que passa os dias em frente à televisão assistindo às delações de empresários sobre como tiram os obstáculos públicos da frente dos seus interesses privados, mas ainda assim acha que a solução é entregar para esses empresários o comando da máquina pública, aviões da FAB são usados para levar “políticos e membros do judiciário” (distinção antiga…) para um encontro organizado pelos filhos (ãhã…) de João Dória, num resort 5 estrelas em Foz do Iguaçu, que inclui “coquetéis, torneios de tênis, golfe e de futebol society, aulas de vinhos, test drive de automóveis Mercedes Benz, degustação de uísques e um show com Sidney Magal no encerramento”. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.

 

[25/4] Anote o nome: LAREG EVERG.

 

[26/4] Por que a advocacia também deve aderir à greve geral? Advogados – sejam autônomos ou empregados – normalmente se esquecem de que também são trabalhadores e que, portanto, em sua maioria, dependem dos mesmos direitos que seus clientes. Junto a isso, boa parte da advocacia também tem muitas outras razões para se posicionar contrariamente ao que temos assistido no Brasil: menos direitos e menos respeito aos direitos também significam menos advocacia e menos respeito à advocacia. A advocacia, que tanto se orgulha de estar na Constituição como “indispensável à administração da justiça” (art. 133), não pode perder oportunidades de deixar claro também que os direitos que defende são essenciais à sociedade em que vivemos. Todos à luta!

 

[26/4] (Alguns minutos de TV Câmara ao vivo… e você descobre que a desesperança pode atingir níveis que seu pessimismo ainda insiste em subestimar.)

 

[27/4] John Lacoste, alcaide do burgo principal desta capitania, já se entusiasmou com greve geral para derrubar presidenta, mas agora ficou magoado com greve geral contra derrubada de direitos e, como sói acontecer, buscou “parceiros na (iniciativa) privada” para garantir que tudo siga normalmente no país anormal em seu momento (mais?) anormal. “Não tem busão? Vem de Uber, ora bolas!”, disse o chefe. Tal qual atribuem por aí à distinta Maria Antonieta: se o povo não tem pão, que coma brioches; se não tem água, que tome champanhe.

 

[27/4] Meus malvados favoritos:

 

gente que ameaça ir pra Miami

e diz que grevista é partidário

vê a vida com olho de banqueiro

mas, com sorte, é bancário

 

[27/4] Greve: direito de não ir nem vir. Exerça-o. Respeite que o exerçam.

 

[30/4] Belchior: o sentido do mundo rareia.

 

[30/4] Pra cada 1000 Dorias que nascem, nasce um Belchior. Pra cada 100 Dorias que sobrevivem, sobrevive algum Belchior. Pra cada Doria que existe, 100 Belchiores desistem de existir, desistem da vida, dessa vida. Nossa tarefa é salvar Belchiores. É ter mais Belchiores – cheios de chama, alma, fibra – que Dorias. E hoje é dia disso: ouvir Belchior até não haver mais o mundo de que Belchior desista. Chapar de Belchior.

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