Do fb pra cá [fevereiro]

[10/2] Calma, gente.

Tem algo errado em um presidente investigado pela Lava-Jato nomear seu ministro da Justiça para ser revisor da Lava-Jato no STF?

Tem algo errado em um presidente criar um ministério para ser ocupado pelo seu parceiro que é investigado pela Lava-Jato?

Tem algo errado em escolher para relatar a Reforma da Previdência um deputado cuja campanha foi financiada por uma empresa de Previdência Privada?

Tem algo errado em um ministro cujo patrimônio é de 1,8 milhão comprar um imóvel de 28 milhões?

Tem algo errado em escolher um senador enrolado com muitas acusações para presidir a sabatina do candidato a Ministro do STF?

Tem algo de errado em um candidato a Ministro do STF fazer “sabatinas informais” com senadores que terão seu destino julgado por esse mesmo Ministro?

Tem algo errado em um senador megadelatado influenciar a decisão do presidente sobre quem ocupará o Ministério da Justiça e, por acaso, seu indicado ser também delatado na Lava-Jato?

Tem algo errado em uma mensagem do presidente da Câmara perguntando à empreiteira sobre um valor que tinha que entrar na conta de seu pai e, no dia seguinte, esse valor aparecer no extrato da conta?

Tem algo errado numa lei que libera os partidos para funcionarem mesmo que não tenham prestado contas à Justiça Eleitoral?

Vocês estão ficando paranoicos.

Ficam vendo problema em tudo.

Relaxem.

 

[13/2] O país é mais bonito quando visto de dentro de um banco?

«O Brasil tem rumo, o governo tem uma agenda e pela primeira vez em muito tempo as políticas fiscal e monetária combinam. Graças a isso tem sido possível apostar no recuo da inflação e, com segurança, baixar os juros básicos. Há ainda muitos problemas pela frente, mas a sensação de estar num trem desgovernado passou. […] As ideias de uma agenda, de um rumo e de um esforço de articulação de políticas compõem um cenário animador. Nada será fácil, mas a existência de um roteiro sensato e bem definido já é um dado extremamente positivo.» (editorial do Estadão)

 

[14/2] Imagino como nossos senadores ficaram indignados com essa acusação de plágio pesando sobre Alexandre de Moraes. Logo eles…

Imagino como nossos ministros ficaram indignados com essa acusação de copia-e-cola pesando sobre Alexandre de Moraes. Logo eles…

 

[15/2] Quando vejo a surpresa dos amigos (digo: os que já diziam que o golpe era… golpe) com os rumos do noticiário e a atuação de todos aqueles em que Jucá confia, fico me perguntando: será que meus amigos diziam GOLPE sem muita convicção?

 

[16/2] Reviro os jornais diariamente e nunca vi UMA incoerência de Michel Temer: todos seus atos são golpes, inclusive os que não parecem.

 

[16/2] Presta atenção no Epicuro (341-270 a. C.):

《Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. […]

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal. Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. […]

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. […]

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? […]

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.》

“Carta sobre a felicidade (a Meneceu)”, trad. Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore, Ed. UNESP, 2002.

 

[17/2] Dia de chegar em casa, sacar a obra completa do Raduan da estante, colocar num lugar de destaque e aplaudir de pé. Todo mundo querendo saber por que ele escreveu “tão pouco” e agora veio assim a resposta: fazendo falar, pelo fígado, um governo que representa tudo o que sua obra tão vivamente denunciou. Monstro.

PS: dica de leitura: o ensaio inédito no Brasil que está nas obras completas é precioso. Parece feito para ler hoje. Mais tarde vou pegar um pedacinho e dividir com vocês…

 

[17/2] (O ministro achou que ia encontrar escritor Nutella?)

 

[17/2] TEMPOS SOMBRIOS

Em seu discurso já histórico, Raduan Nassar falou em “tempos sombrios”. Lembrei dessa expressão no uso forte que dela fez Brecht no poema “Aos que vierem depois de nós” (em tradução de Manuel Bandeira):

 

“Vós, que surgireis da maré

em que perecemos,

lembrai-vos também,

quando falardes das nossas fraquezas,

lembrai-vos dos tempos sombrios

de que pudestes escapar.”

 

E lembrei também do belíssimo livro de Hannah Arendt, “Homens em tempos sombrios”. No texto que Arendt escreve para receber o Prêmio Lessing, ela diz algo que me parece se encaixar à perfeição na figura de Raduan Nassar hoje:

 

“[…] as homenagens nos dão uma convincente lição de modéstia, pois pressupõem que não nos cabe julgar nossos próprios méritos da mesma forma como julgamos os méritos e realizações de outras pessoas. Em relação a prêmios, o mundo fala abertamente, e se aceitamos o prêmio e expressamos nossos agradecimentos, só podemos fazê-lo ignorando-nos a nós mesmos e agindo totalmente dentro do quadro de nossa atitude em relação ao mundo, em relação a um mundo e a um público a quem devemos o espaço onde falamos e somos ouvidos. Mas a homenagem não só nos lembra enfaticamente a gratidão que devemos ao mundo; também nos obriga a isso num grau altíssimo. Visto sempre podermos recusar a homenagem, ao aceitá-la não só nos fortalecemos em nossa posição no mundo, como também aceitamos uma espécie de compromisso em relação a ele.”

E algo me diz que hoje ficou claro, no caso de Raduan, qual é esse compromisso e também que ele passa a ser de seus leitores.

 

[17/2] “Não existe nada mais belo e comovente do que perseguir utopias”, escreveu Raduan Nassar (desculpem a insistência, mas hoje o dia é dele!), no ensaio “A corrente do esforço humano”, escrito em 1981 e publicado na Alemanha em 1987, mas apenas agora saído em edição brasileira, na sua “Obra completa” (Cia. das Letras, 2016).

 

[17/2] Raduan Nassar levantou e leu o belo discurso. Deu um recado duro. Depois ouviu calado os ataques do “ministro” e mesmo toda a discussão acalorada. É provável que, como em sua obra, estivesse calado por saber que já dissera tudo o que havia de mais preciso para ser dito. (E seria engraçado saber que, por dentro, talvez ele risse de ter ganho 100 mil euros para ler na cara de um representante de Temer o relato do que ele e sua gangue infligem ao país. Ainda mais porque sabe que, provavelmente, foi o último “adversário” a ter uma oportunidade dessas.)

 

[17/2] Dizem que Temer está caprichando nos poemas pra ganhar o Prêmio Camões no ano que vem só pra fazer um discurso desmentindo o Raduan. Veremos.

 

[20/2] Unidos do Nem Me Viu.

Cordão do Deixa Quieto.

Acadêmicos do Vazei.

 

[20/2] A ALERJ acaba de aprovar a venda da CEDAE.

Sabem quem deve comprar?

“O maior grupo privado de saneamento básico atuante no país é o Águas do Brasil, que já demonstrou interesse pela compra da estatal fluminense. Com atuação no estado do Rio, em São Paulo, em Minas Gerais e no Amazonas, a organização foi criada pela união de quatro empresas, das quais três são envolvidas em esquemas investigados na Lava Jato: Developer S.A. do grupo Carioca Engenharia , Queiroz Galvão Saneamento e Cowan S.A.”

 

[22/2] Aplaudir ou vaiar as cenas no Teatro da Legitimação são condutas toleradas e até esperadas do público. Cada palma ou urro, pouco importa, se converte em maquiagem, figurino, cortina, que esconde o que se passa de real no palco, bem à frente dos olhos estupefatos de quem concorda ou discorda da encenação. Pouco importa. Até se admite que o público falte ao Teatro, porque a peça será encenada normalmente. Mas a reação do elenco é violenta quando o público repudia não apenas uma ou outra cena, mas toda a peça, toda a encenação farsesca de “funcionamento normal das instituições”, porque não esquece a forma ilegítima como subiram ao palco e não cansa de exigir que desçam dele sem encenar mais nada.

(Levar Alexandre de Moraes ao STF é apenas a cereja azeda sobre um bolo podre: enquanto nos distraímos com ela, engolimos todo o resto. Não podemos esquecer. Bem mais grave que o problema com o nome escolhido para a vaga de Teori é a forma como esse “governo” chegou ao e se mantém no poder, deixando sequelas que dificilmente o país superará.)

 

[22/2] Recapitulando: Teori Zavascki morreu em 19/1. Temer indicou Alexandre de Moraes para substituí-lo em 6/2. Em 21/2, ontem, ele foi “sabatinado” até o fim da noite pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, conquistando 19 contra 7 votos. Na manhã de hoje, cerca de 12 horas depois, o Senado aprovou em plenário a indicação de Alexandre de Moraes para o STF, por 55 votos a 13. Um outro número merece ser lembrado: o novo ministro ficará no STF por 27 anos. Foi essa a decisão que nossas autoridades tomaram entre dia 19/1 e hoje, 22/2, depois da morte de um ministro e em meio a uma convulsão institucional. Foi essa a decisão que nossas autoridades tomaram sentadas sobre os infinitos abaixo-assinados que receberam contra a nomeação de Moraes. Parece que não ligam muito para outras opiniões. Que tal revermos nossas esperanças? Ou mudarmos de estratégia?

 

[25/2] Políticos que escolhem seus jornalistas de estimação. Jornalistas que escolhem seus políticos de estimação. Num e noutro caso, sabemos bem de quem é a derrota: nossa.

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