Do fb pra cá [março]

[1/3] Tomar um ar lá fora: sempre.

 

[1/3] ÚLTIMO BRINDIS
Nicanor Parra

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó…,
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.

 

[2/3] Demorou, mas Michel Miguel aderiu ao #ForaTemer. Não quer mais morar no Alvorada, vai voltar pro Jaburu. Nostalgia da vice-figuração. Não demora (tomara!), vai pedir para não ser chamado de presidente e voltar a mandar cartas lamuriosas para uma cadeira presidencial vazia que o despreza, que “nunca confiou em mim”, nem coberta de enxofre. Parece piada. E é. Mas é triste.

 

[3/3] Ê Brasilzão véio. Com Aloysio Nunes como chanceler e o goleiro Bruno assediado para selfies, talvez seja o caso de usar a quaresma pra prometer algo mais radical do que não comer carne ou beber. Tem que deixar de fazer algo realmente vital, uma grande provação para nossa fé. 40 dias sem falar palavrões, por exemplo.

 

[4/3] ALPHA 25 Tentando responder às perguntas de um jornalista sobre os 25 anos do Alpharrabio, lá naquela parte das respostas que normalmente ficam de fora da matéria, me ocorreu uma constatação tão óbvia, tão na cara, daquelas que sempre escapam: neste lugar do mundo em que as estações de trem são tão determinantes, tão organicamente responsáveis pelo que a cidade e a região são, o grande modelo para um “centro cultural” só poderia mesmo ser o das estações, lugares de chegadas e partidas, de conhecidos e desconhecidos. E logo começou a tocar na cabeça esse hino que parece ter sido feito para o Alpharrabio: “Mande notícias do mundo de lá diz quem fica me dê um abraço venha me apertar tô chegando coisa que gosto é poder partir sem ter planos melhor ainda é poder voltar quando quero todos os dias é um vai-e-vem a vida se repete na estação tem gente que chega prá ficar tem gente que vai pra nunca mais tem gente que vem e quer voltar tem gente que vai e quer ficar tem gente que veio só olhar tem gente a sorrir e a chorar e assim chegar e partir são só dois lados da mesma viagem o trem que chega é o mesmo trem da partida a hora do encontro é também despedida a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar”. Como é que não pensei nisso antes? Eis o segredo escancarado para que aquela casa da rua Eduardo Monteiro seja uma casa sem fim, sem limites, voando bem além de suas paredes. Pois é: um quarto de século na casa do infinito. É por isso que, em verdade, não conhecemos nem conheceremos completamente o Alpharrabio: pra ser o Alpha de sempre, ele é sempre um novo Alpha. E só temos a agradecer.

 

[4/3] João Victor Souza de Carvalho não vai mais ao Habib’s. O menino pedia dinheiro, como tantos neste país. Os pais são miseráveis, como tantos neste país. A testemunha é nóia, como tantos neste país. Os policiais fingem não enxergar um palmo à frente do nariz, como tantos neste país. Todos os ingredientes da tragédia cotidiana. Carne barata para o banquete da nossa covardia. Estranha sociedade que fica indiferente à morte do menino pobre, como se dissesse que, naquela situação, mais dia, menos dia, logo encontraria seu destino trágico e inevitável. Mais um: menos um. (Vocês já leram o “Mineirinho”, da Clarice Lispector?) Carregado como lixo – ou menos que isso – de um lado para outro da rua. Descartável, descartado. João Victor Souza de Carvalho não vai mais ao Habib’s. E vocês?

 

[5/3] Chegou o dia. Eu tinha certeza de que, em pouco tempo, leria essa manchete: “Flagrado em atos de corrupção, mercado de construção vira alvo de empresas estrangeiras”. Junto ao projeto de bem-estar social inscrito na Constituição, sempre me pareceu que eram o pré-sal e os bilhões das obras de infraestrutura que estavam no alvo do golpe. Eis que, cada vez mais, os frutos vão se escancarando diante da nossa cara triste.

 

[5/3] Participação na semana Marxismo e Direito, da PUC/SP, novembro 2016:

https://www.youtube.com/watch?v=UBnDmWQ7UHI&feature=youtu.be

 

[7/3] A versão judiciária do “a bola é minha, se eu não jogar, ninguém joga”. Vale lembrar, no entanto, que nenhum perna-de-pau foi muito longe agindo assim. Um dia outra bola aparece no campinho.

http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2017/03/faca-concurso-para-juiz-diz-moro-apos-ser-questionado-por-advogado.html

 

[8/3] Uma ideia com meia hora de atraso: acho que o melhor que um homem tem a fazer neste 8 de março é não dizer uma única palavra aqui. Quase tudo que ouvimos e lemos, aqui e além, são vozes e palavras de homem. Que o dia hoje seja apenas dedicado a ouvir e ler o que as mulheres têm a dizer. O meu será.

 

[9/3] Temer devia ter seguido meu conselho e ficado quieto ontem, prestando atenção ao que as mulheres têm a dizer. Mas aí ele não teria sido fiel a si mesmo, porque sua função como presidente sempre foi tripudiar dos direitos mais importantes da população, na prática e no discurso. Aliás, ele nunca alimentou a esperança de que pudesse dizer algo melhor do que disse ontem sobre as mulheres. Um golpista que chegou à presidência apoiado num ataque ao papel que a mulher pode exercer, mantém-se multiplicando esse ataque. Com a coerência de uma ratazana: (cor)roendo tudo.

 

[9/3] A declaração de Rodrigo Maia sobre não dever existir a Justiça do Trabalho (assim como a “homenagem” deplorável de Michel Temer ao Dia da Mulher) está no campo do absolutamente previsível vindo de quem vem. E é muito útil que se exponha assim, para que ninguém mais duvide que a sociedade tem lados (quase escapou um “classes”), que há disputas (quase escapou um “lutas”) entre esses lados e que, neste momento, os políticos nas principais cadeiras representam apenas um desses lados. Vocês sabem qual.

 

[9/3] «Devo seguir até o enjôo? / Posso, sem armas, revoltar-me?»

A gente lê as notícias da USP, da UERJ, da Previdência, do Direito do Trabalho, de tudo… e essas perguntas do Drummond, em “A flor e a náusea”, ficam cada vez maiores e explodem na cabeça.

[10/3] Bom dia. Contam por aqui que os âncoras da grande imprensa estão se esforçando em dar razão (ó que surpresa!) para Rodrigo Maia, afirmando que a Justiça do Trabalho não deveria existir. Vale lembrar, de pronto, que esses âncoras, normalmente, são “pejotas” bem remunerados, então têm essa sensação de que não precisam de direitos, só de dinheiro, e que isso vale pra todo mundo. Tontos e cruéis. Mas o mais importante é lembrar que o que não deveria existir mesmo é essa anomalia antidemocrática: empresas de “jornalismo” gigantes como as que aqui existem, poderosíssimas e associadas aos poderosíssimos para manter seus privilégios a todo custo.

 

[10/3] Li a notícia de que Bruno voltou a ser goleiro e lembrei que meu TCC, no distante ano 2000, foi sobre direitos do preso e ressocialização. Nem lembro bem o que escrevi na época, mas tenho certeza de uma coisa: esse tratamento que Bruno está recebendo não tem nada a ver com “direitos do preso” e “ressocialização”. No caso dele só consigo ver privilégio, ou seja, ele matou a moça que havia engravidado (negou a ela, assim, o direito de continuar viva para lutar pelos direitos de seu filho) e agora tem acesso a um nível de ressocialização que, infelizmente, não conseguimos — como política pública — garantir a ninguém neste país. Por aqui, as políticas públicas tropeçam, mas o futebol, a grana, a fama operam milagres. Milagres e privilégios, bem sabemos, não têm nada a ver com direitos. Nada. Enfim, já que nesta terra temos a cada dia que nos contentar com menos, talvez valha torcer para que os atacantes adversários encerrem a carreira do Bruno logo. Gols valem mais que tudo por aqui, inclusive vidas.

 

[11/3] Acho que foi o prof. Franklin Leopoldo e Silva que disse uma vez: Sócrates é “o patrono da Filosofia”; se visse o que a Filosofia virou, teria vergonha desse título. É bem verdade que, a meu ver, nem toda Filosofia cabe nessa crítica, mas lembrei disso hoje por causa da foto do “pensador” com o “juiz”. Haja aspas. E lembrei porque lembrei de Sócrates, cuja imagem sempre me remete à ideia de que o filósofo talvez fique mais confortável apanhando na praça ou sendo condenado à morte por causa de suas ideias, do que recebendo aplausos por elas ou, ainda menos, por falar bonito. Quem quer mesmo ir até onde a Filosofia pode nos levar não aceita atalhos, nem se deixa levar pelas aparências. Vai até as raízes e — como diria um outro barbudo, já no século XIX, que bem poderia ter sido um parceiro de surras do Sócrates — sangra para levar suas ideias à ação, que é, afinal, o que realmente importa.

 

[13/3] Alegria participar desse dossiê em homenagem a Max Martins, na revista Moara (n. 46), do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPA. Escrevi o artigo há quase 15 anos, quando andava para lá e para cá com um exemplar da poesia reunida do Max Martins (1926-2009) falando pros amigos o quanto aquilo me encantava, e por isso comemoro que, atualmente, haja um dossiê como esse dedicado a Max (bem como o seminário que o precedeu na UFPA) e que a reedição de sua obra livro a livro esteja avançando, sob os cuidados de Age de Carvalho. Passem por lá: Max merece!

http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/moara/issue/view/252

 

[13/3] Algumas linhas para Thiago Ponce de Moraes, conversando sobre “dobres sobre a luz”, seu recente livro de poemas, do inbox para a Revista Caliban.

https://revistacaliban.net/dobres-sobre-a-luz-um-email-e-um-ps-6f5a52fc4b8

 

[13/3] Com a cabeça cheia das notícias sobre as Deformas da Previdência e da legislação trabalhista, avaliando um artigo sobre anarquia e desarticulação do poder e pensando nos murais trazendo revolta a esta tela e nos muros cobertos de tinta cinza e nas outras formas de silenciamento que cada vez se esparramam mais ao nosso redor, as cenas de EU, DANIEL BLAKE bateram forte. O pronome pessoal e o nome próprio, único, em destaque, podem levar a enganos: há outras tantas vidas na trama do desmanche e muitas outras mais a que elas se referem. E tudo vai bem além do nonsense da burocracia em contraposição às formas tímidas de solidariedade e assistência social que pontuam a história. Tem um chamado ali, uma conclamação. Tem a demonstração de um limite. A constatação do labirinto em que estamos. Alguém já decidiu o que as paredes desse labirinto vão significar para nós, em todos os sentidos. Só nos resta não acatar.

 

[14/3] Como é que se quebra a máquina? Pergunto em voz alta em meio ao esforço diário e crescente para não ser vencido pela convicção de que, assim como nossos “não vai ter golpe” não impediram tudo que aconteceu desde então, nenhum “fora Temer” tirará Temer de lá; que nem todos os “sou contra a Reforma da Previdência” barrarão isso que é bem mais que uma reforma; que nossos gritos de “respeitem nossos direitos” continuarão sendo motivo de piada; que a famigerada “delação do fim do mundo” não acabará com o mundo de quem deveria; que nosso repúdio generalizado não fará cócegas no “projeto de país” que está sendo executado com orgulho diante dos holofotes parcialíssimos da grande imprensa. Por quê? Porque do outro lado, de ouvidos e olhos e interesses blindados, vem um trator que já conhece bem nosso comportamento e não liga minimamente para nossos gritos, antes, durante ou depois de nos atingir.

 

[14/3] (Quando entro aqui, tarde da noite, e vejo 5 ou 6 dos meus amigos mais inteligentes e eruditos gastando uma energia incrível para atacarem uns aos outros — e chego a ter medo de dizer que, apesar dos pesares, vejo todos como pertencentes ao mesmo lado na guerra em que estamos metidos –, fico pensando que o Zuckerberg, enquanto achamos que queria apenas soterrar a inteligência sob tanto barulho, na verdade criou o facebook para que as melhores possibilidades de compreensão da realidade se destruíssem mutuamente. Sem outros frutos. Sem os frutos que importam.)

 

[15/3] Aparece a lista do Janot aos poucos. Nela, até onde vi, tem toda a turma do Temer, os presidentes da Câmara e do Senado, diversos outros senadores, deputados, 10 governadores. Mas, em todo lugar em que foi publicada, o primeiro comentário é “Mas o PT isso”, “o PT aquilo”. É a alegria de Renan, Padilha, Aécio, Serra, do PMDB e do PSDB todos, que atingiram um novo tipo de blindagem. Por isso que ninguém se espanta muito com um ministro do STF que diz que há caixas 2 que são crime e outros que não… E eu só queria saber fazer memes com aquele menininho: “Mis i piti qui ribi, i Lili qui tim qui si prisi”…

 

[15/3] Com a maior das boas intenções, creio, está circulando bastante hoje uma postagem que fala de ser “escravo do século XXI no Brasil pós-golpe”. A postagem é irônica, claro, até sarcástica, com dicas para se tornar esse escravo. De todo modo, mesmo com sarcasmo, eu acho problemática a abordagem. Primeiro porque, tragicamente, esse escravo do século XXI aqui no Brasil ainda vai conviver com o escravo dos séculos anteriores, que continua sendo conservado a duras porradas (vide a lista do trabalho escravo que o governo Temer tentou esconder) e, ao lado disso, porque coloca peso demais nas condutas individuais de cada trabalhador (“saque o FGTS”, “torre o dinheiro”, “fique desempregado”, “aceite um trabalho terceirizado”…), como se fossem decisões livres e irresponsáveis dele e não a imposição cruel do sistema capitalista que eu acredito que é. Tenho cá pra mim, por exemplo, que boa parte dessa grana do FGTS vai sair direto da Caixa para outros bancos e operadoras de cartão de crédito, como uma forma de aliviar o massacre dos juros sobre os trabalhadores endividados. E sei da crueldade que isso significa, porque o FGTS dizia respeito ao futuro, mas Temer deu um jeito de fazer com que ele salvasse também o seu presente e reduzisse, se eu estiver certo, boa parte da inadimplência bancária. Todas as minhas acusações se voltam contra esse uso espúrio do FGTS, mas jamais vou criticar o trabalhador que está correndo para sacar o quanto puder e acertar suas contas ou comprar seja lá o que for. Enfim, este é só um exemplo para mostrar porque acho tão complicado tratar essa “escravização do século XXI” como uma espécie de “servidão voluntária” dos trabalhadores. (A expressão “aceite um trabalho” já faz pouquíssimo sentido em geral, mas é ainda pior vê-la relacionada à terceirização.) Podemos até discutir em que medida os trabalhadores contribuíram para chegar até aqui, mas não deixar de problematizar a medida em que essa sua contribuição foi determinada pelas condições de existência a que foram rebaixados e vêm sendo cada vez mais.

 

[15/3] Os protestos de hoje contra os ataques à Previdência Social — melhor dizer: os protestos que começam hoje e que espero que se mantenham, ampliem e intensifiquem — não têm espaço para outras cobranças, disputas e rancores. Não importa sua posição nas manifestações dos últimos anos, é hora de marcar posição contra o que Temer e sua gangue estão fazendo contra todos, não apenas contra quem disse “não vai ter golpe”. Vai muito além de qualquer vingança contra quem nunca o quis como presidente; é um ataque contra quem estava a favor, quem estava em dúvida, quem estava indiferente, contra todo mundo. Claro: contra todo mundo que depende da Previdência Social ou que reconhece sua importância para nosso país. Se não for este o seu caso, Temer talvez não seja problema seu. Por enquanto.

 

[15/3] Não me perguntem a razão, mas professoras e professores têm muita cara de… professoras e professores. Há um certo jeito de colocar os óculos, carregar a bolsa, falar com todo mundo… que só professor tem. A Paulista estava linda, difícil até se mexer (pelos meus cálculos, éramos cerca de 7.365.232 pessoas lá), mas subir a Consolação toda no meio daquele monte de professores foi a parte mais marcante. Quando os PMs passavam com motos e carros voando em meio a pessoas distraídas, em clara intimidação, eu só pensava na absurda gratuidade de fazer aquilo no meio daquela imensa sala dos professores. Li em algum cartaz que “a aula hoje é de cidadania”. Tomara que tenha sido, porque não faltaram professores dessa e de outras matérias lá.

 

[16/3] Dias atrás circulou a notícia de um juiz que cancelou audiência porque o lavrador estava de chinelo. Hoje li sobre uma outra audiência que foi tumultuada porque o juiz se negava a deixar o procurador sentar à mesa sem gravata. (Nos dois casos, pelo que soube, o desfecho acabou sendo positivo, a despeito da vontade dos juízes.) Estamos em 2017. É sério. Direitos são obstruídos pelo fato de usar chinelo ou não usar gravata. Toda vez que leio algo parecido, mais do que notícias que acabam chamando muito mais atenção, bate uma tristeza terrível: se não passamos desse nível mais superficial, mais aparente, mais formal e cosmético, como é que podemos querer que os direitos e suas instituições (não só o Judiciário, mas também o Ministério Público, a Advocacia, as Faculdades, tudo) nos ajudem a fortalecer a cidadania, a democracia, os direitos humanos por aqui? Quero estar vivo para ver isso tudo perder sentido.

 

[16/3] A convite do Alberto Pucheu, escrevi um pouco sobre o livro de Rubens Rodrigues Torres Filho na Coleção Postal, para o blog “O cuidado da poesia”, no site da revista Cult. Passem por lá!

https://revistacult.uol.com.br/home/desde-que-seja-leve/

 

[16/3] TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL. Eu prometo que não vou falar nada sobre o jantar que Gilmar Mendes ofereceu para comemorar o aniversário do José Serra com boa parte dos integrantes da lista do Janot. TUDO NORMAL.

 

[17/3] A gente faz piada, mas só pra lembrar como são graves essas notícias de hoje: JBS e BRF envolvem empresas como Sadia, Perdigão, Qualy, Bertin, Bordon, Friboi, Swift, Maturata, Organic Beef, Seara, Danúbio, Doriana, Faixa Azul, Leco, Serrabella, Vigor, Itambé, Minuano, entre muitas outras… E não temos razões para acreditar que as outras grandes marcas, que conseguem concorrer com esses grupos na alimentação de larga escala, consigam (ou queiram) produzir em condições muito diversas. Na sociedade capitalista, não custa lembrar, comemos comida capitalista, isto é, comida que tem que dar muito lucro. E quem quiser comer melhor, claro, é só pagar mais (e ter fé…). É de virar o estômago, não?

 

[19/3] Pra demonstrar confiança na carne brasileira, Temer levou seus convidados a uma churrascaria que só vende carne importada. Nada demais. Temer é coerente. Antes disso, pra fortalecer a democracia, ele usurpou o voto popular. E pra acabar com a corrupção, vocês sabem, ele dá cada vez mais poder aos investigados. Estamos no rumo certo, não?

 

[20/3] (Um alerta pra quem gosta da culinária japonesa e de tudo que a acompanha: passem longe das séries “Midnight Diner: Tokyo Stories” e “Samurai Gourmet” [acho que havia mil nomes melhores para a série…], da Netflix. As histórias são leves, mas as cenas viciam e você passa a madrugada sonhando com hashis voadores.)

 

[20/3] Rodrigo Maia colocou na pauta de amanhã o PL 4302 da terceirização. É tão grave o ataque aos direitos trabalhistas que, pra boa parte dos trabalhadores, a aprovação dessas mudanças significa não ter mais porque se preocupar com a Previdência, quero dizer, sem ironia, boa parte da mão de obra será negociada bem longe do sistema em que a Previdência se estrutura e justifica. Uma tragédia.
Se for aprovado (e tudo indica que será), o recado é o seguinte: o art. 7º da Constituição pode ficar como está, como peça decorativa, mas o caminho até aqueles direitos vai ficar insuportavelmente árduo e longo. É a anulação prática dos direitos trabalhistas para a imensa maioria dos brasileiros.
Desde o início, quando Temer ainda era interino, uma estratégia já me parecia bastante clara: um ataque múltiplo, veloz, simultâneo, em todos os setores dos direitos sociais, da infraestrutura pública etc., para que a sociedade, mesmo suas parcelas mais organizadas, não tenha tempo de reagir à altura. Vai ficando cada vez mais evidente que o golpismo opera dessa maneira: dá um tranco ou mais por dia na nossa atenção e, enquanto estamos atordoados, realiza seus principais projetos. Vai ser assim até passarem tudo. Informe-se e informe quem estiver por perto.

 

[20/3] Vocês não se incomodam de saber que nossos parlamentares estão aprovando leis e emendas que jamais tiveram ou terão coragem de defender durante suas campanhas eleitorais? Desfazendo em meses, sem debate, uma rede de direitos que resulta de décadas e décadas de muita luta? O MÍNIMO que devemos é deixar claro o quanto de traição há nessas “reformas” e fazer de tudo para que essa corja, se concluírem seus mandatos e o caminho ainda for a urna, nunca mais seja reconduzida — NEM 1 VOTO!

 

[21/3] Como esse lance de defender direitos anda muito incerto, estou bolando uns roteiros para filme de terror. Num deles, Michel Temer nomeia Marcela para substituir Carmen Lúcia no Supremo. Em outro, Capez ganha uma indenização do Estado porque a carne das merendas desviadas não era de boa qualidade.

 

[21/3] Sejamos todos – na miúda, na calada, na larga, nos muros, nas salas, nas mesas, nas redes, no palco, nas páginas – a imprensa que a autoridade não quer deixar falar. Até faltar jaula pra nossa vontade de gritar.

 

[22/3] Advertência: os “recuos” de Temer, Maia ‘et caterva’, assim como seus “avanços”, afagos e tudo mais, NUNCA são confiáveis, muito menos elogiáveis. “Expect poison from the standing water”, sempre.

 

[22/3] Todos os caciques do PSDB aparecem nas delações premiadas e continuam dormindo tranquilamente, o que ajudou, certamente, o PSDB a retomar muitas cadeiras legislativas e executivas nos últimos anos. É mais fácil a Lava-Jato mandar prender blogueiro de esquerda do que incomodar senador que já foi citado dezenas de vezes em delações premiadas sob acusação de receber dezenas e dezenas de milhões de reais.
Pois bem, o procurador Dallagnol estava dando uma entrevista no rádio na semana passada e perguntaram na lata: quando é que vai chegar ao PSDB? Ele falou do PP, do PMDB e, claro, do PT. O jornalista voltou ao ponto: e o PSDB? Ele tomou um gole de água, abaixou a cabeça, gaguejou e começou a explicar que o PSDB não pertencia à base aliada dos governos Lula e Dilma e, portanto, não tinha indicado diretores para Petrobrás etc. Ora bolas: delações não valem mais? Diretores? Alguém ainda circunscreve toda essa avalanche às indicações de diretores de uma estatal? Chega a ser constrangedor ver o rapaz naquela situação, tentando driblar o óbvio.

Uma das primeiras coisas que a gente ouve na faculdade de direito é a máxima: “o que não está nos autos não está no mundo”. Com ela, os juristas se comprazem das limitações do direito para dar conta da realidade, que é sempre mais complexa do que sua expressão judicial. Imaginem, então, quanta realidade fica de fora da cabeça de quem acredita no seguinte: “Quod non est in POWERPOINT non est in mundo”.

EM TEMPO: toda vez que faço a crítica da Lava-Jato por tratar diferentemente (ou proteger cuidadosamente) os políticos do PSDB, logo vem a acusação de que estou defendendo o PT (ou PP ou PMDB…). Nada disso: o buraco é muito mais embaixo. Puna quem tiver que punir, mas não posso me conformar que um partido tão ou mais envolvido com as mesmas denúncias saia fortalecido depois de todo esse barulho que a Lava-Jato causou, porque o PSDB tem suas garras na parcela do Judiciário, do Ministério Público, da imprensa que fez da Lava-Jato essa máquina de moer adversários políticos. É o que parece que vai acontecer.

 

[22/3] Se você, quando ouve a palavra “terceirização”, pensa na figura do terceirizado que já existe (o porteiro, o faxineiro, o segurança), você não entendeu nada do que foi aprovado hoje. O ataque agora é na larga faixa entre aqueles terceirizados de uniforme e os PJs, como médicos, advogados e outros. É na larga faixa em que todos os demais trabalhadores estão: todos aqueles de que a CLT ainda não havia sido roubada. Tanto que o projeto foi ressuscitado de 1998! Se chegamos ou não ao fundo do poço, agora é irrelevante. O poço é cova.

 

[22/3] 22 de março de 2017. No mesmo dia, Alexandre de Moraes chegou ao STF e deram um tiro no coração dos direitos sociais. Não é por acaso. Duas faces do mesmo golpe: desfigurar o Estado previsto na Constituição de 1988 e, para garantir isso, entregar funções estratégicas desse Estado desfigurado a agentes políticos que o mantenham assim. Notícias que nos chegam com um tempero ainda pior: saber que ainda não terminaram o ataque.
(Neste momento, se tenho ainda algum otimismo, se deve à violência, velocidade e covardia com que estão batendo. E fico imaginando que podemos levantar como um Rocky Balboa, no último round, com a cara demolida, para reverter a luta. Mas aqui não é ficção. É a mais cruel realidade.)

 

[23/3] Uma coisa deve ser dita insistentemente: o Brasil como conhecemos deve sua melhor parcela aos direitos trabalhistas. A parte que presta em nossa sociedade (e que deveríamos ampliar, jamais destruir) é fruto de um conjunto de direitos que estamos longe de garantir a todos que vivem do seu próprio trabalho neste país: salário (e, claro, 13º), FGTS, INSS, seguro-desemprego, salário mínimo, irredutibilidade do salário, PLR, jornada de trabalho, gozo de férias sem prejuízo da remuneração acrescida de 1/3, licença à gestante, licença-paternidade, segurança do trabalho, reclamação trabalhista, proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência, entre muitos outros que estão no art. 7º da Constituição e, na prática, vão ser atropelados pela terceirização aprovada hoje. E não pára por aí: nesse debate, num país em que tantos desempregados e subempregados são obrigados a partir para o “empreendedorismo”, não podemos esquecer que “empreender” só é viável porque a distribuição de riqueza é garantida por aqueles direitos. Ou seja, simplificando bastante: se eu decidir produzir e vender marmitas, vou depender em grande medida de trabalhadores com ocupações regulares para comprar minhas marmitas. É uma cadeia de consequências muito diversas, como pedras de dominó derrubando umas às outras velozmente. Portanto, o alcance desse desmanche é muito maior e socialmente perverso do que aparenta numa visão superficial. Vai ter muita gente engolindo o “não é da minha conta” muito antes do que imagina, mas nem imagina…

 

[23/3] Se você for procurar um emprego, vão investigar as suas condições financeiras. Se passar nessa peneira, o emprego passa a ser a referência de quase tudo na sua vida. Se você for alugar uma casa, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for financiar um apartamento, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for comprar um carro, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for visitar outro país, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for adotar uma criança, vão investigar as condições do seu emprego. Se você e seu parceiro decidirem ter filhos, vocês mesmos vão investigar as condições do seu emprego. Se você for abrir uma conta no banco ou na quitanda da esquina, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for fazer uma matrícula na escola ou na faculdade, vão investigar as condições do seu emprego. Se você for pedir um empréstimo, vão investigar as condições do seu emprego. As pessoas ao seu redor, de um modo ou de outro, vão investigar as condições do seu emprego. Os bancos sempre vão te ferrar, mas vão ferrar mais ou menos em razão do seu emprego. Digo isso para esclarecer, com o perdão das palavras: empregos de merda geram vidas de merda numa sociedade de merda. Se você está acima disso, é minoria neste país e no mundo. Se está abaixo disso, saiba que em breve terá muita gente na mesma condição que você. Esteja onde estiver, tem razões para lutar. Lutemos juntos. Todos. Com urgência. O espelho do que vai faltar para a maioria é o que vai sobrar para poucos, muito poucos. E não acho que conheço alguém que estará entre esses poucos.

 

[24/3] Olhem para a UERJ. Informem-se. Depois de estrangular a universidade, Pezão anuncia corte de 30% nos salários. Cada vez vai ficando mais claro que a UERJ é o laboratório do desmanche que outras universidades públicas vão enfrentar em breve. Em várias, os primeiros passos já foram dados. Rumo ao abismo.

 

[24/3] TIRE O SEU SORRISO DO CAMINHO. Anotei umas datas aqui. 2 de dezembro de 2015: Eduardo Cunha abriu o processo de impeachment contra Dilma. 30 de março de 2016: Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr. foram explicar aos deputados a gravidade das pedaladas fiscais. 17 de abril: os deputados aprovaram o prosseguimento do processo, num domingo todo dedicado não apenas a votar, mas a declarar seu amor ao país, à democracia e a suas famílias… No dia seguinte, Eduardo Cunha passou o processo para Renan Calheiros. 6 de maio: a comissão especial no Senado aprovou o parecer do Anastasia. 12 de maio: Dilma foi afastada da Presidência. 10 de agosto: o plenário do Senado decidiu levar Dilma a julgamento. 31 de agosto: Dilma perdeu definitivamente o cargo e Temer assumiu a Presidência. Entre a primeira e a última dessas datas, boa parte dos brasileiros viveu um crescendo de empolgação: com a queda de Dilma e a derrocada do PT, claro, mas também com o fim da corrupção e a volta da prosperidade. Mais de meio ano depois, ainda consigo ouvir os gritos de comemoração, ao longe, enquanto o som de outros gritos – de dor, de desespero, de luta – se avolumam. Mas algo me diz que, em breve, só vão restar estes.

 

[24/3] (A maldição do didididididiê: alguém canta isso e você passa dias sendo surpreendido por essas sílabas até nos sonhos. E, no meu caso, o mais preocupante é que foi meu filho de 10 anos que trouxe essa contaminação pra casa.)

 

[25/3] Imagina que louco se a gente fizesse um mundo – em cada mínimo recinto, em cada mínimo encontro – em que quem está errado se sentisse constrangido, e não a gente?

 

[26/3] Estranho isso de chegar a 5000 amigos aqui. E não ter mais a oferecer do que ideias tortas, desabafos, versos obscuros, fotos do já visto e o talento alheio. Por exemplo, fiquem com esse recado do Gonzaguinha, que diz muito do que pretendo continuar dizendo, enquanto vou procurar um boteco em que caibamos todos, pra conversarmos pessoalmente sobre essas paradas. Bora?

https://www.youtube.com/watch?v=Cokqqpb8fCE

 

[26/3] Gosto de fazer listas: das coisas que vou fazer durante o dia, do que tenho que fazer nos próximos, dos livros que quero ler, discos para ouvir, filmes para assistir, mas também das angústias e ansiedades que rondam a cabeça. Se as primeiras são listas pra não esquecer, estas últimas cumprem uma estranha função: quando coloco no papel o que está me preocupando e organizo em lista um punhado de ideias (sobre as questões mais variadas da vida), é como se aquilo tudo se organizasse também dentro da minha cabeça. É meio mágico isso. De uns tempos pra cá, fuçando nos cadernos do Renato Russo, descobri um verdadeiro maníaco por listas de todo tipo, desde melhores canções até amigos prediletos. E estava aqui agora pensando nisso: ver as listas que as pessoas fazem talvez seja a forma mais interessante de desvendá-las. E o melhor: ver suas próprias listas é uma forma muito eficaz de desvendar-se, de ver a si mesmo num espelho que vai além da pele. Vocês fazem listas?

 

[27/3] Taí, gente: troquei meia dúzia de palavras com o Sergio Maciel sobre poesia e agora elas estão no escamandro. Se não valer grande coisa, ao menos tem lá o poema do Ricardo Aleixo e essa montagem engraçadíssima. Entrem, por favor.

https://escamandro.wordpress.com/2017/03/27/entrevista-com-tarso-de-melo/

 

[27/3] A Cris Venntura está fazendo uma série de leituras de poemas muito bacana lá no Soundcloud. E eu tive a sorte de entrar nesse barco com o poeminha “Escritas”. Oiçam:

https://soundcloud.com/cris-ventura-6/escritas-em-antologia-1999-2014-de-tarso-de-melo

 

[28/3] Anota aí: os Correios morreram. A Globo está lendo o rascunho bem avançado da certidão de óbito. E não é só morte, não. É o laboratório, mais um, de um jeito de se livrar de serviço público e pavimentar a fatia boa pra exploração privada. Não se anime: os bancos vão dar um jeito dos boletos continuarem chegando até seus destinatários.

 

[28/3] Sentado meio de banda, o chapéu surrado, o casaco no ombro. A fala-canto saindo quase sem esforço. Como alguém que estivesse passando, encostasse no cara do violão e falasse nas frestas dos acordes para não atrapalhá-lo. Coisa de gigante: tudo parece acontecer naturalmente. Porque, no seu caso, é bem naturalmente que acontecem.

https://www.youtube.com/watch?v=eV_astp3BjM

 

[28/3] A gente ainda nem tinha saído da fase precária anterior (com instituições que ainda só registram seus professores na marra; quando o fazem, cobrem tudo de maquiagem e, claro, sequer pagam plano de saúde aos professores) e demos uma salto para uma fase pior ainda: em que tudo isso continuará acontecendo, poderá ser aprofundado e, detalhe dos detalhes, não poderá mais ser levado à Justiça do Trabalho ou aos sindicatos para cobrança. Vamos bem assim… imaginem que lindo, durante algum tempo, as salas dos professores e as salas de aula sendo compartilhadas por professores desses dois “regimes”: o antigo ganhando X + benefícios (sabendo que isso vai desabar) e o novo ganhando 1/3 de x, quando muito (e também sabendo que isso, rente ao chão, ainda desaba). A gente não ouve por aí que a Educação é a solução? Então tentem pensar o que é o contrário disso…

 

[28/3] A Folha escalou hoje um de seus colunistas para fazer um discurso contra “os direitos”. O colunista, que se apresenta como “palestrante ativo do movimento liberal brasileiro” (WTF?), faz poucas firulas e, falando em nome do que chama de “política menos moralista (e portanto mais democrática) e mais atenta às demandas da realidade”, propõe “abolir os direitos da discussão”. Isto é, se quisermos resolver os problemas do país, não podemos nos deixar limitar por “direitos”, porque “não dá para dar tudo a todos”. Quase ia concordando com ele, quando achei que esses “direitos” a que se referia eram do porte do direito de propriedade privada, direito de herança, os direitos que os mais ricos usam pra proteger a multiplicação de seu patrimônio, os direitos que os banqueiros usam pra voar por cima de outros direitos, todos esses direitos intocáveis. Achei que era essa briga de cachorros grandes que ele estava comprando, mas não era nada disso. Era só mais um desses jovens senhores, “palestrantes ativos”, cuja razão sempre leva – imparcialmente – ao ataque dos mesmos alvos: os direitos que a sociedade tem que prover para os mais pobres, os direitos que dependem de recursos, o “desequilíbrio fiscal”, aposentadorias, a “lei trabalhista”… E o jornal, é claro, para não deixar dúvidas, também faz sua parte e ilustra a coluna com uma foto do ato contra as deformas da Previdência e da legislação trabalhista. Nesse arroubo para trocar os direitos por um discurso gerencial sobre prioridades e recursos, dá para perceber a excitação do texto quando ele diz “a conta não fecha”. Pois é… é uma conta que vai dizer para nós que país queremos e podemos ter. Mas acho que ainda temos o direito (hehehe…) de perguntar: por que não fecha? Quem fez as contas? Quem vai decidir o que cortar dessa conta? Por que, se esses direitos agora passaram a ser um “conto de fadas”, vamos aceitar que quem sempre nos contou outros tantos contos de fadas decida que não quer contar mais aquele e nos envolva com outros?

 

[29/3] Folheando aqui diversas edições artesanais recentes de poesia (recolhidas pela Luzia), admirando os formatos, os papéis, os textos, tudo, fico pensando na importância de fazer essa beleza caber em preços mais baixos. O preço das coisas, na sociedade das mercadorias, é o lugar do encontro, e principalmente do desencontro. Sem considerar isso, podemos estar reproduzindo um modelo de fracasso comercial, de um lado, e de fracasso cultural, de outro, no papel que, muitas vezes, apenas as pequenas editoras sabem desempenhar. Há um abismo – e em grande parte o compreendo – entre o preço de venda dessas edições e o bolso do leitor, e isso é problema sério para quem sabe da importância de fazer os textos chegarem aos seus improváveis e indispensáveis destinatários, aqui neste estranho país em que o acesso a qualquer livro começa na casa dos 5% do salário mínimo. Não o digo como ataque a ninguém, mas com a preocupação de imaginar que tantos textos bons podem ficar reféns do preço do objeto em que foram impressos, portanto inalcançáveis à maioria dos leitores (e existem, sim, os leitores e eles têm bolsos e desses bolsos nem sempre sai toda a grana que gostariam de ter para chegar até os textos). Atacar isso, na medida do possível, me parece mesmo uma boa causa.

 

[29/3] Morre João Gilberto Noll, de quem li tão pouco e gostei muito. Daí fico vendo as postagens entusiasmadas de alguns dos melhores leitores que conheço e bate aquela sensação de ter deixado de ler exatamente o que não devia. Vida dura essa de caçar palavras.

 

[31/3] No país em que, como poucos, os grandes problemas são criados e/ou alimentados por uma empresa de televisão, há quem acredite que a solução desses problemas vai vir de figuras construídas por essa mesma empresa de televisão. Tão compreensível quanto deprimente.

 

[31/3] (No palco principal do festival de música das outras esferas entram Sérgio Sampaio e Raul Seixas. E, claro, o Belchior, que deve ser o único que entra e sai de lá quando quer.)

[31/3] Várias pessoas publicando que Pepe Mujica morreu. Calma lá! Até onde pude investigar, a notícia é falsa. De todo modo, aconteça o que acontecer, esse vídeo aqui continua muito vivo e não tem morte que o apague da minha memória. José fica!

https://www.youtube.com/watch?v=FpfsXQKG8vY&feature=youtu.be

 

[31/3] “na noite desta sexta-feira”: esta é a frase mais importante dessa matéria. Temer calcula o momento em que aplicará suas rasteiras. Não é esperteza, é covardia. Ele sabe que, no momento em que sancionou o fim da CLT, boa parte dos brasileiros está nas ruas rejeitando sua presença e suas medidas na presidência. E quem não está lá está ocupado com outras coisas (do trabalho e estudo aos happy-hours). Mas principalmente, na sexta à noite, todos estamos esgotados após mais uma longa semana de trabalho, busca de trabalho, ansiedade, indefinição, indignação. É assim que Temer nos quer: quebrados. É assim que Temer tem coragem de nos atacar. E com isso fica claro que algum medo de nós ele ainda tem. Devemos honrar isso.

http://m.folha.uol.com.br/mercado/2017/03/1871722-para-evitar-retaliacoes-temer-sanciona-proposta-que-regulamenta-a-terceirizacao.shtml?cmpid=facefolha

 

[31/3] A fama do Paraguai por aqui é de falsificação e baixa qualidade. Mas hoje, depois de queimarem o Congresso por causa da aprovação da reeleição presidencial, se compararmos a forma como nossas sociedades reagem às manobras antidemocráticas dos políticos, nós é que ficaremos no papel de bugiganga…

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