Escreverpublicar

kane

De tempos em tempos, normalmente em meses um pouco mais tranquilos, lembro que tenho um blog. Então, volto para ver como andam as coisas. Olho para aquela ferramenta com carinho, fico pensando nas possibilidades que existem ali, na calma que aquilo oferece se comparado às redes sociais… e prometo que vou retomar. Ou ao menos cuidar melhor dele, ainda que em paralelo com o desespero do facebook. Daí passo a copiar para o blog as postagens que faço no facebook (a maior parte delas), organizando longos posts que reúnem o que escrevi durante meses (desta vez, fiz um para cada mês, de fevereiro a junho deste ano).

São saladas de assuntos, que eu bem poderia descartar, mas algo que diz que devo conservar todas essas linhas: as oscilações de humor e de opinião, os silêncios que eu posso reconhecer, a forma como me lembram dos fatos vividos em atropelo, as ideias que surgiram a partir dos debates que ocorreram nos comentários de amigos, a mescla-bagunça de preocupações com política, direito, cultura, poesia etc. (em que me reconheço plenamente), as razões de arrependimento e de algum orgulho.

Aliás, jogar fora essa versão transparente que faço de mim mesmo – leitor-vivente no meio do redemoinho – seria aceitar um excesso de orgulho que talvez acabasse me fazendo deixar de escrever ou, ao menos, deixar de expor o que penso/sinto. Isso poderia ser ótimo para os eventuais leitores (e até mesmo para que eu me dedicasse mais a tantas outras coisas que me interessam), mas me faria perder a chance de participar, de alguma maneira, de debates que são cruciais para nossa época. E, quem sabe, perderia também a chance de me autoanalisar a partir do que digo e do que não digo no calor do minuto. E, no fundo, seria também uma traição ao que mais gosto e quero da escrita: escrever é o nó mais forte entre intimidade e sociabilidade, entre controle e descontrole, entre a dor e a alegria mais pessoais e aparentemente intransferíveis e o acervo de dores e alegrias da vida comum. O poema, o conto, o romance, a peça, a crônica, o ensaio… são o lugar em que o “meu mundo” de alguém se desfaz no nosso mundo ou o nosso mundo se revela no “meu mundo” de alguém.

Por isso, escrevo. Por isso, publico. Por isso, cada vez mais repenso as mediações entre escrever e publicar. (E apresso, atropelo, salto sobre elas!) Por isso, aceito com felicidade o risco do ridículo de reler o que acabei de escrever quando outras tantas pessoas já tiveram a oportunidade de ler o meu ridículo. É o risco. Diria: um risco constitutivo. Por quê? Porque acredito que há uma instância da reflexão e da intervenção sobre o presente que tem que ser feita assim. Até pouco tempo, isso se chamava jornalismo, mas agora vai se convertendo cada vez mais numa teia em que temos não apenas a oportunidade, mas a urgência de participar. É uma loucura, é angustiante, triste, mas também excitante viver nessa espécie de sala de redação gigante do Jornal do Mundo, recebendo, checando, produzindo e trocando informações, entre mensagens, telefonemas, furos, cafés e cigarros. É muito otimismo? Talvez seja.

No livro de poemas que lançarei em breve, Íntimo desabrigo, essas ideias foram incorporadas ao processo de escrita. A maior parte dos poemas já foi escritapublicada. Assim, sem um espaço sequer entre os dois momentos. Ou seja, num momento só. Não sei se é o que se espera da poesia, mas, sinceramente, não faço questão de saber. Alguém já disse que poetas não são apenas pessoas que escrevem de uma determinada maneira, mas sim que estão condenados a escrever daquela maneira. Deve ser por aí…

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