Íntimo desabrigo

Leia abaixo o texto de Carolina Serra Azul e Renan Nuernberger sobre meu novo livro de poemas, Íntimo Desabrigo, que sai em breve.

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«Contra nossos dias nebulosos, Íntimo desabrigo propõe um recuo estratégico: muitos poemas da primeira seção, “Não sei”, estabelecem uma rede de afetos, reforçada nas dedicatórias a familiares e amigos, que garante algum alívio e esperança nessas páginas. Há um desejo explícito de restaurar as vidas danificadas (“Eu queria ver as fotos em que Verônica está linda”), de reduzir a poluição sonora (“… acredito mesmo/ na eloquência/ do silêncio”), de transfigurar o cotidiano sufocante (“… a mágica de multiplicar o que importa”) – desejo que se instaura a partir do cultivo de lições simples, com certa feição oriental, como no poema “Nota para quando eu for um sábio chinês de um século distante”.

Por outro lado, esse cultivo da intimidade é atravessado pela violência objetiva, sinalizando o horror já entranhado nos sujeitos (“… soldados inimigos/ patrulhando/ suas veias”). Aqui, os elementos da natureza são corrompidos pelos signos da civilização (“céu de concreto”, “mar de desprezo”, “ondas do asfalto”, “tanto sol na tela fria”), apontando que, nas relações diárias, aquilo que acontece “não é da ordem dos astros. É desastre”. Há, com isso, um questionamento sobre o alcance da própria poesia, talvez escondida “sempre no avesso” dos lugares onde a procuramos – o que revela, ainda, a outra face do almejado silêncio (“soterrada sua pretensão/ de saber dizer tudo”).

Se, no recuo inicial, o sujeito se aparta do mundo (“daqui ouço a voz…”), no decorrer do livro percebe-se o entrelaçamento de ambos (“(e o mundo é mim mesmo)”), engendrando uma concepção de poema que, no limite, ambiciona desaparecer enquanto poema, como em “Feitio de oração”, para revelar a matéria de nosso tempo. Tal gesto fica evidente na seção dois do livro, “Novos poemas [2013-2014]”, e, sobretudo, na seção final, “Outros desabrigos”, nas quais os efeitos reais do horror social (“…Outro país se esvaiu, mais alguns foram linchados”) são reconstituídos esteticamente com incisiva crueza.

Não pense o leitor, entretanto, que o poeta abdica assim de seus instrumentos: o senso construtivo da poesia de Tarso de Melo reaparece, aqui, para ampliar o alcance político de seu gesto. Isso é evidente, por exemplo, na disposição dos versos de “Toda sentença é um antipoema”, cuja dimensão de ready made – trata-se da transcrição literal da sentença condenatória de Rafael Braga – é tensionada pela exposição sombria do funcionamento da justiça. A condenação de Braga, resultado da violência do Estado durante as manifestações de junho de 2013, é um documento revelador do racismo estrutural no Brasil (“a sua personalidade é voltada para a criminalidade”), como os textos do século XIX que justificavam “racionalmente” a escravidão. No futuro, quem sabe, seremos lidos com o mesmo espanto com o qual lemos o passado. Mas também seremos lidos por nossa capacidade de indignação frente à barbárie, como nesse Íntimo desabrigo

 

Para comprar o livro, é só clicar no link a seguir. Os exemplares, numerados e assinados, serão enviados a partir do início de agosto. Coedição Alpharrabio e Dobradura, 104 págs., R$ 25 [+ frete]. Clique aqui: https://pag.ae/bhmd6b2

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