Chico ri

chico 1966

Chico ri, ri muito, ri largo, desde sempre. Chico está sempre sério. Batendo em coisas sérias, mas ri. A capa antiga que virou meme no nosso tempo tem Chico rindo. Tem Chico sério ao lado, claro, mas a dupla de Chicos – um sério e um rindo – nos faz rir. É uma capa engraçada, enfim. Porque Chico ri e quer fazer rir, rir das coisas sérias, rir nervoso às vezes. Da mesma forma que dá para atravessar os álbuns todos de Chico contando sua relação com sonhos e pesadelos (e que belo trabalho seria!), é possível contar a história de Chico rindo. Desde a primeira música de seu primeiro disco, “A banda”, ele joga com o poder que as “coisas de amor” têm para abrir nosso sorriso, para desfazer a nossa cara fechada. Quando a banda vai embora, voltamos a ser tristes, e é por isso que a banda tem que voltar sempre. É por isso que temos que ir atrás da banda. E todos os discos do Chico, de lá pra cá, nos fizeram rir. Foram “a banda” que passou pela nossa vida. Chico sabe, como os velhos latinos, que rir pode ser a nossa forma mais eficaz de abalar a rigidez dos costumes: “ridendo castigat mores”. Estou tentando parar de falar do disco novo, mas é difícil. Ontem arranquei mais duas ou três camadas de algumas canções enquanto estava no ônibus. Hoje, no banho, me peguei rindo com o Chico. E como o Chico ri em “Caravanas”. Começando pelas imagens divulgadas durante a gravação do disco: Chico ri com o neto, ri com a neta, ri com a banda, ri sozinho. Chico parece se divertir demais enquanto prepara o disco. E tem muitas razões para rir. A cada faixa do disco, enquanto constrói melodias riquíssimas e letras com um acabamento e força admiráveis, no seu mais alto nível, Chico ri. As letras riem, castigam nossos tempos e suas tantas aberrações. E, certamente, Chico ria ao pensar na forma como suas canções seriam recebidas. Faixa a faixa, Chico ri. Já de cara, em “Tua cantiga”, Chico coloca juras exageradas de amor extraconjugal, que culminam em “largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”. Chico sabia que isso ia dar confusão, ainda mais vindo de alguém que passou por algo parecido há pouco. Mas Chico vai lá, rindo, e começa assim o disco mais “família” que já fez, com neto e neta participando com destaque. Em “Blues para Bia”, Chico fala de um cara apaixonado por uma moça cujo coração não tem lugar para meninos, mas promete virar “menina pra ela me namorar”. Daí ele vem com “A moça do sonho”, em que o cantor se apaixona por uma moça que lhe aparece no sonho e não quer mais sair de lá. E o disco segue, passa pela canção que ele dedica ao futebol, “Jogo de bola”, em que brinca com as palavras como quem brinca com a bola no futebol moleque a que a música rende homenagem (“vivas às marias chuteiras cujos corações encandecias/ outrora quando em priscas eras/ um Puskas eras/ a fera das feras da esfera”) e depois, em “Massarandupió”, revira os versos como criança cavucando o mundaréu de areia à beira-mar (“cavuca daqui, cavuca de lá, cavuca com fé”). “Dueto”, então, é uma longa risada: em defesa do amor, Chico e sua neta mandam se danar o calendário, a ciência, o evangelho, os búzios, tudo, se ousarem negar o amor entre os dois que falam na canção. No final, quando fala o nome de diversas redes sociais, Chico ri mesmo ao lembrar do Orkut! Lembram daquela turma que mandava o Chico pra Cuba? Pois bem, ele foi e voltou de lá com “Casualmente”, a sétima faixa, misturando português e espanhol, zanzando pelas ruas de Havana. Mas o Chico ia responder pra esses boçais? Sim, com leveza, falando de amor, falando de amor e rindo. E à turma toda que o chamou de vagabundo e que o atacou nas ruas e em restaurantes? Ele dedicou o tapa suave que é “Desaforos”: “Alguém me disse/ Que tu não me queres/ E que até proferes desaforos pro meu lado/ Fico admirado por incomodar-te assim/ Jamais pensei/ Que pensasses em mim // Nunca bebemos do mesmo regato/ Sou apenas um mulato que toca boleros / Custo a crer que meros lero-leros de um cantor/ Possam te dar tal dissabor // Vejo-te a flanar pela avenida/ Como dama florescida num viveiro/ E em salões que nunca vi/ Serei o primeiro a duvidar/ Que em horas vagas/ Os teus lábios delicados/ Roguem pragas por aí// Ouço dizer, mas deve ser mentira/ Nem a tua ira eu acredito que mereça/ Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu/ Um vagabundo como eu”. E sai assoviando. Pra fechar, ele vem com a mais-que-comentada “As caravanas”, em que escarnece da “gente ordeira e virtuosa” que é a sua vizinhança na zona sul do Rio de Janeiro, apavorada por esses terroristas que descem para o asfalto no domingo ensolarado: “Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ Que estoura as veias, o suor/ Que embaça os olhos e a razão”. E Chico deve rir lá agora no seu canto sabendo que fez boa parte dos seus fãs sisudos sentir a batida do funk forçando o esqueleto. Chico deve rir muito. E a gente precisava tanto desse disco. A gente precisa tanto rir. Obrigado, Chico.

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Chico é isso tudo?

CHICO

Alguém tem que ter coragem de falar algumas verdades sobre esse disco do Chico Buarque. Pode pegar mal diante da empolgação generalizada dos meus amigos, mas alguém tem que ter coragem de dizer: não é isso tudo. Pego uma música ao acaso, “As caravanas”. Já começo a achar estranha a opção pelo “as” no título da canção que não aparece no título do disco. Falta de capricho, quem sabe? Mas vou ouvir a faixa. O violão vai puxando a música e, aos 7 segundos, já entra a voz estranha do cantor. Por que não tem aquele tempinho no início da faixa pra gente relaxar? Por que não cria primeiro o clima, espalha o arranjo com calma, pra depois começar a cantar? Não sei, mas achei que parece que ele quer dar a impressão de que há uma urgência nessa história de caravanas, aliás, nem de caravanas ele está falando: qualquer um percebe que é de arrastões que ele quer falar, mas não tem coragem, talvez. E por isso ele já canta logo, canta rápido, e o violão vai sendo engolido por um monte de instrumentos refinados, uma verdadeira orquestra, que depois sucumbe ao beat-box do mais impuro funk. À sombra dessas sonoridades todas, o que diz a letra? Ora, uma mistureba só! Primeiro, para que essas referências todas ao universo dos muçulmanos (a começar por “caravana”, palavra que vem do árabe; o jogo entre turco e turquesa reforçado pela referência a Istambul, com sua incomparável história de conflitos culturais, políticos etc.; as rimas de “estranhos suburbanos tipo muçulmanos”; até achar uma divindade escondida no Jardim de Alá, entre Ipanema e Leblon)? Será que ele quer dizer que a Zona Sul vê naqueles arrastões o terrorismo que o Ocidente pintou em todas as referências culturais do Oriente Médio? E, depois, por que insistir que os negros de hoje em dia têm a ver com os negros que chegaram aqui escravizados, espalhando pela letra um vocabulário que só faria sentido para falar do Brasil colonial, desde o “realeza” escondido no “real grandeza” do primeiro verso, para depois opor a “gente ordeira e virtuosa” aos “negros torsos nus”, e o exagero de falar que se pede à polícia não apenas que mande o “populacho” de volta para a favela ou para a prisão, mas para Benguela e Guiné, não só outro lugar no mapa, mas também um canto desconfortável da nossa história? Coisa antiga essa de “crioulos empilhados no porão de caravelas”! E essa coisa do “sol [de] torrar os miolos”, de dizer que “a culpa deve ser do sol/ que bate na moleira, o sol/ que estoura as veias, o suor/ que embaça os olhos e a razão”? É pra lembrar aquele debate também colonial sobre a (im)possibilidade de instalar a civilização num país tão quente, a cera das perucas da corte derretendo pra desdourar os bailes? E, de quebra, lembrar aquele poeta ex-estranho, o Paulo Leminski, que, no tortuoso “Catatau”, inventa a história de um Descartes perdido na selva tropical, louco de ervas e fluidos que não se dobram às suas regras e réguas? Não sei, tudo meio confuso, meio atropelado, meio em guerra, ainda mais em guerra na nossa cabeça por conta do que vai acontecendo na música… Repare no vocabulário esquisito para um cantor que até já fez letras refinadas: “pinta”, “bicho”, “buchicho”, “charanga”, “malocam”, “sungas estufadas”, “zoeira”… Até à mítica das “picas enormes” ele se refere (com “sacos [que] são granadas”), parecendo apontar para a conversa desses “supremacistas” que atribuem características “animalescas” aos negros para alimentar suas teses racistas. E há muitas outras insinuações, como se uma outra realidade viesse nessas palavras rasteiras que marcam a geografia do Rio de Janeiro – Arará, Caxangá, Chatuba, Irajá, Penha, Maré – e, no passar da letra, fossem se sobrepondo à bela Copacabana, que, depois da primeira estrofe, é apenas um eco, um som sufocado nas repetições de “caravana”. Na última estrofe, então, parece que ele escorregou mesmo. Além de apelar para um lema exagerado na boca da gente ordeira da zona sul – “tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria” – e de dizer que, nessas pessoas, “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, ele coloca tudo em dúvida ao admitir que talvez o doido seja ele mesmo, que escuta vozes, vê gente insana e até caravanas vindas de lugares com nomes estranhos. Sinceramente, não achei tudo isso, mas não vou falar mais nada para não chatear os fãs.

Carlos Felipe Moisés (1942-2017)

carlão

(1)

Carlos Felipe Moisés foi embora. Foi encontrar novamente Margarida. Hoje cedo, mas eu soube agora. Quando o conheci, ele era um livro, depois outro, depois outros, até virar um amigo que parecia estar desde sempre por perto, uma espécie de mestre, Mestre, um monge dessa religião sem deus chamada poesia, que agora virou livros novamente, infinitos livros e textos e ideias e gestos, muitos gestos de afeto que nada vai apagar. Falamos há algumas semanas e ficou no ar a felicidade com a campanha do Corinthians, o próximo encontro na Urca, um livro novo na sua infinita gaveta. Ele me contou de seu “calo na aorta”, eu disse que não havia nada mais apropriado para um poeta, rimos, mas agora eu queria que aquilo fosse apenas uma metáfora. Ontem, no lançamento do livro de que participamos juntos, sua ausência era o assunto. Sabíamos que estava lutando, mas não havia tristeza porque sabíamos que Carlão era o mais forte de nós. E vai continuar assim, titular absoluto.

 

(2)

NOITE NULA

 

no sonho eu andava

sobre um tapete

que os livros com seu nome formavam pela casa

rebeldes saltados da estante

inconformados com sua morte

 

não havia mais palavras neles

e para onde eu olhava

via correr os seus versos

na pele viva da parede

no mármore da minha pele

no olho intenso do céu

 

e naquele momento

era como se todas as letras já escritas

girassem a milhões de quilômetros

por segundo para dizer

simplesmente: siga

 

seguimos, seus amigos,

e nosso mantra

era um poema-abismo

que roubamos de você:

 

«Eu me arquipélago

tu te maravilhas

ele se istma

nós nos montanhamos

vós vos espraiais

eles se eclipsam. »

 

no sonho não há adeus

não há deus não há dores

e as distâncias do mundo

e do além

cabem todas no abraço

 

não sei se é preciso acordar

 

(3) A gente normal, às vezes com 40, 50 anos, já parece, na vida, aquele funcionário que, 30 minutos antes do fim do expediente, já está arrumando a mesa para sair, fechando as gavetas, desligando o computador. Aos 40, 50 anos, já não atendemos mais as ligações da vida, porque podem atrasar nossa saída. Ontem, no velório do Carlão, falei para vários amigos que ele, aos 75, parecia estar chegando. Carlos Felipe Moisés, com tudo que já tinha trabalhado, parecia estar nas primeiras horas do dia que é nossa vida. Com o cabelo ainda arrumado no espelho da manhã e a leveza de quem teve uma ótima noite de sono. Nesse belo perfil na Revista Caliban, Ronaldo Cagiano fala que Carlão “nos deixa no auge de sua produção e vitalidade” – é exatamente a impressão que eu tinha. Ele tinha muito ainda para nos ensinar, muito mesmo, em todos os campos. Por isso a porta bateu tão forte.

https://revistacaliban.net/depoimento-um-intelectual-agudo-e-um-poeta-refinado-5dac231f467d