Carlos Felipe Moisés (1942-2017)

carlão

(1)

Carlos Felipe Moisés foi embora. Foi encontrar novamente Margarida. Hoje cedo, mas eu soube agora. Quando o conheci, ele era um livro, depois outro, depois outros, até virar um amigo que parecia estar desde sempre por perto, uma espécie de mestre, Mestre, um monge dessa religião sem deus chamada poesia, que agora virou livros novamente, infinitos livros e textos e ideias e gestos, muitos gestos de afeto que nada vai apagar. Falamos há algumas semanas e ficou no ar a felicidade com a campanha do Corinthians, o próximo encontro na Urca, um livro novo na sua infinita gaveta. Ele me contou de seu “calo na aorta”, eu disse que não havia nada mais apropriado para um poeta, rimos, mas agora eu queria que aquilo fosse apenas uma metáfora. Ontem, no lançamento do livro de que participamos juntos, sua ausência era o assunto. Sabíamos que estava lutando, mas não havia tristeza porque sabíamos que Carlão era o mais forte de nós. E vai continuar assim, titular absoluto.

 

(2)

NOITE NULA

 

no sonho eu andava

sobre um tapete

que os livros com seu nome formavam pela casa

rebeldes saltados da estante

inconformados com sua morte

 

não havia mais palavras neles

e para onde eu olhava

via correr os seus versos

na pele viva da parede

no mármore da minha pele

no olho intenso do céu

 

e naquele momento

era como se todas as letras já escritas

girassem a milhões de quilômetros

por segundo para dizer

simplesmente: siga

 

seguimos, seus amigos,

e nosso mantra

era um poema-abismo

que roubamos de você:

 

«Eu me arquipélago

tu te maravilhas

ele se istma

nós nos montanhamos

vós vos espraiais

eles se eclipsam. »

 

no sonho não há adeus

não há deus não há dores

e as distâncias do mundo

e do além

cabem todas no abraço

 

não sei se é preciso acordar

 

(3) A gente normal, às vezes com 40, 50 anos, já parece, na vida, aquele funcionário que, 30 minutos antes do fim do expediente, já está arrumando a mesa para sair, fechando as gavetas, desligando o computador. Aos 40, 50 anos, já não atendemos mais as ligações da vida, porque podem atrasar nossa saída. Ontem, no velório do Carlão, falei para vários amigos que ele, aos 75, parecia estar chegando. Carlos Felipe Moisés, com tudo que já tinha trabalhado, parecia estar nas primeiras horas do dia que é nossa vida. Com o cabelo ainda arrumado no espelho da manhã e a leveza de quem teve uma ótima noite de sono. Nesse belo perfil na Revista Caliban, Ronaldo Cagiano fala que Carlão “nos deixa no auge de sua produção e vitalidade” – é exatamente a impressão que eu tinha. Ele tinha muito ainda para nos ensinar, muito mesmo, em todos os campos. Por isso a porta bateu tão forte.

https://revistacaliban.net/depoimento-um-intelectual-agudo-e-um-poeta-refinado-5dac231f467d

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s