Chico é isso tudo?

CHICO

Alguém tem que ter coragem de falar algumas verdades sobre esse disco do Chico Buarque. Pode pegar mal diante da empolgação generalizada dos meus amigos, mas alguém tem que ter coragem de dizer: não é isso tudo. Pego uma música ao acaso, “As caravanas”. Já começo a achar estranha a opção pelo “as” no título da canção que não aparece no título do disco. Falta de capricho, quem sabe? Mas vou ouvir a faixa. O violão vai puxando a música e, aos 7 segundos, já entra a voz estranha do cantor. Por que não tem aquele tempinho no início da faixa pra gente relaxar? Por que não cria primeiro o clima, espalha o arranjo com calma, pra depois começar a cantar? Não sei, mas achei que parece que ele quer dar a impressão de que há uma urgência nessa história de caravanas, aliás, nem de caravanas ele está falando: qualquer um percebe que é de arrastões que ele quer falar, mas não tem coragem, talvez. E por isso ele já canta logo, canta rápido, e o violão vai sendo engolido por um monte de instrumentos refinados, uma verdadeira orquestra, que depois sucumbe ao beat-box do mais impuro funk. À sombra dessas sonoridades todas, o que diz a letra? Ora, uma mistureba só! Primeiro, para que essas referências todas ao universo dos muçulmanos (a começar por “caravana”, palavra que vem do árabe; o jogo entre turco e turquesa reforçado pela referência a Istambul, com sua incomparável história de conflitos culturais, políticos etc.; as rimas de “estranhos suburbanos tipo muçulmanos”; até achar uma divindade escondida no Jardim de Alá, entre Ipanema e Leblon)? Será que ele quer dizer que a Zona Sul vê naqueles arrastões o terrorismo que o Ocidente pintou em todas as referências culturais do Oriente Médio? E, depois, por que insistir que os negros de hoje em dia têm a ver com os negros que chegaram aqui escravizados, espalhando pela letra um vocabulário que só faria sentido para falar do Brasil colonial, desde o “realeza” escondido no “real grandeza” do primeiro verso, para depois opor a “gente ordeira e virtuosa” aos “negros torsos nus”, e o exagero de falar que se pede à polícia não apenas que mande o “populacho” de volta para a favela ou para a prisão, mas para Benguela e Guiné, não só outro lugar no mapa, mas também um canto desconfortável da nossa história? Coisa antiga essa de “crioulos empilhados no porão de caravelas”! E essa coisa do “sol [de] torrar os miolos”, de dizer que “a culpa deve ser do sol/ que bate na moleira, o sol/ que estoura as veias, o suor/ que embaça os olhos e a razão”? É pra lembrar aquele debate também colonial sobre a (im)possibilidade de instalar a civilização num país tão quente, a cera das perucas da corte derretendo pra desdourar os bailes? E, de quebra, lembrar aquele poeta ex-estranho, o Paulo Leminski, que, no tortuoso “Catatau”, inventa a história de um Descartes perdido na selva tropical, louco de ervas e fluidos que não se dobram às suas regras e réguas? Não sei, tudo meio confuso, meio atropelado, meio em guerra, ainda mais em guerra na nossa cabeça por conta do que vai acontecendo na música… Repare no vocabulário esquisito para um cantor que até já fez letras refinadas: “pinta”, “bicho”, “buchicho”, “charanga”, “malocam”, “sungas estufadas”, “zoeira”… Até à mítica das “picas enormes” ele se refere (com “sacos [que] são granadas”), parecendo apontar para a conversa desses “supremacistas” que atribuem características “animalescas” aos negros para alimentar suas teses racistas. E há muitas outras insinuações, como se uma outra realidade viesse nessas palavras rasteiras que marcam a geografia do Rio de Janeiro – Arará, Caxangá, Chatuba, Irajá, Penha, Maré – e, no passar da letra, fossem se sobrepondo à bela Copacabana, que, depois da primeira estrofe, é apenas um eco, um som sufocado nas repetições de “caravana”. Na última estrofe, então, parece que ele escorregou mesmo. Além de apelar para um lema exagerado na boca da gente ordeira da zona sul – “tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria” – e de dizer que, nessas pessoas, “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, ele coloca tudo em dúvida ao admitir que talvez o doido seja ele mesmo, que escuta vozes, vê gente insana e até caravanas vindas de lugares com nomes estranhos. Sinceramente, não achei tudo isso, mas não vou falar mais nada para não chatear os fãs.

2 comentários sobre “Chico é isso tudo?

  1. Célia Menezes 28 de agosto de 2017 / 10:49

    Tem razão! Não é tudo isso…rs

  2. PHP Scripts 29 de agosto de 2017 / 14:28

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