Excelência

A criança morreu. O juiz, no entanto, quando chamado de “você”, exige o “vossa excelência”. Ele nunca teve tempo para receber a advogada. Você aí pode até achar que, com aquele auxilião gostoso, ele tem mais motivos para ficar em casa do que no fórum. Mas a nota dos magistrados esclarece: ele é dos mais produtivos, como o CNJ adora. Por isso quer que a advogada seja apenas técnica, não se envolva, não chore. Não venha lembrar que crianças morrem, que crianças apanham e morrem, morrem porque apanham e, por isso, não conseguem esperar juízes muito ocupados com suas metas. O que se espera do advogado, diante disso, é que transforme o “você” que a criança grita em um “vossa excelência” entre tantos que vão esperar pacientemente a atenção — técnica — do juiz dentro de um processo quietinho. Do contrário, o advogado se queima, providências serão tomadas, broncas serão dadas… se a advogada ousou colocar-se diante da excelência com a emoção de uma criança que foge da surra e da morte, será tratada como essa criança “imatura e ingênua”, debaixo de vara, até parar de gritar. A técnica sempre vence. Às vezes, uma criança morre.

https://www.jota.info/justica/juiz-diz-em-audiencia-que-advogada-e-desqualificada-imatura-e-ingenua-26022018

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Poesia e política no SESC

Curso sobre poesia e política que darei no SESC entre 8/3 e 5/4, cinco quintas-feiras, das 15h às 17h, para ler poesia contemporânea, pensar sobre como as diversas questões políticas de nossa época aparecem nos poemas, ler o que tem sido escrito sobre esses poemas e essas questões por ensaístas de várias áreas. Vamos lá!

http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/poeticas-do-politico-politicas-da-poesia

Vem aí!

Livro novo de poemas chegando na Luna Parque, na coleção de duplas. Dois camaradas de longa data, dois mil e quatrocentos quilômetros entre eles, vinte e dois poemas e uma editora espetacular. Já vai estar à venda na Desvairada, a feira de livros de poesia que acontece em São Paulo em 9 e 10 de março, na Aldeia 445 (rua Lisboa, 445). Acompanhe pelo site da editora: http://www.lunaparque.com.br/. 🙂

2400 km

Oficina de poesia crossfit

pilha livros

Fiquei olhando hoje uns alunos de crossfit (aquela turma que levanta pneu de caminhão etc.) na rua logo cedo e tive uma ideia: uma oficina de poesia crossfit. A gente invade umas bibliotecas boas, sai lendo tudo, subindo e descendo escadas, grita os poemas da janela, carrega pilhas de livro pra lá e pra cá, joga os livros de mão em mão, vai pra rua recitar os poemas como se fossem aquelas músicas de corrida do exército. Entre um exercício e outro, toma uns litrões de cerveja. Mais ou menos como já fazemos. Vai ser sucesso.

Vozes Versos 2018

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O primeiro VOZES VERSOS de 2018, ontem, foi uma grande alegria, dando sequência à alegria que têm sido todos os encontros até aqui e, mais que tudo, dando força para um ano que está só começando. A Tapera Taperá lotada, bem lotada mesmo!, e, do vidro para fora, quase a mesma quantidade de pessoas ouvindo, pelos alto-falantes, a leitura de poemas e a conversa incrível entre Joana Barossi, Marília Garcia e Paulo Ferraz, à sombra da figura espantosa de Nicanor Parra, nosso homenageado de ontem. Quanta força em tudo que foi lido ali ontem! (E ainda ficou no ar essa espécie de abraço que demos na coincidência de Joana e Marília, ambas, estarem vivendo ali entre o sexto e o sétimo mês de suas gestações nada metafóricas!) As plaquetes lindas da Editora Quelônio esgotaram, vi um monte de rostos amigos que não cheguei a cumprimentar, teve a visita-leitura de Marcelo Labes com seu “enclave”, os que vieram pela primeira vez e prometeram voltar sempre, os que vieram desde o início e se espantaram com tantos ouvidos abertos para as vozes e os versos numa manhã ensolarada de sábado no centro de São Paulo. Aliás, a primeira coisa que Heitor me disse quando acabou: “o que aconteceu?” Não sei, não sabemos, mas vamos seguir tocando o barco, porque com esse apoio todo é bem mais fácil navegar. Muito obrigado!

 

Notícias do front

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ex-alunos percorrem os corredores com seus rifles
o som dos disparos assustou até os alunos que estavam armados
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima
consigo ouvir o hino da maior nação do mundo
nossas armas são a garantia de nossa propriedade
nossas propriedades são a garantia de nossa liberdade
nossas liberdades são a garantia de nossa democracia
e por isso somos a maior democracia do mundo
e entre nossas propriedades estão infinitas armas
metade das armas particulares do mundo estão aqui
há 88 armas para cada 100 cidadãos nos Estados Unidos
a sensação de segurança que temos é das mais altas
ainda morremos mais em suicídios mas também matamos os outros
uma igreja vai benzer fuzis em nome da Paz Mundial
professores aprendem a esconder seus alunos quando ouvirem os primeiros tiros
se nada der certo devem instruir as crianças a lançarem livros contra o agressor
em breve os professores poderão deixar armas ao lado de seus tablets
os alunos poderão trajar coletes balísticos sob o blusão do colégio
os corpos podem ajudar a travar as portas e proteger os sobreviventes
não cai bem falar mal de armas no Congresso
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima
não cai bem falar mal de armas em nossas ruas
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima
não cai bem dizer o que devemos fazer com nossas armas
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima