Do fb pra cá (janeiro 2018)

[3] CONVÉM DIZER

 

se eu tivesse um cachorro

o nome dele seria Uai Fai

 

[3] Pouco mais de uma década atrás, Roberto Jefferson era notícia ao abrir a caixa preta dos esquemas do “Mensalão”. Uns meses atrás, a filha de Roberto Jefferson, Cristiane Brasil, era notícia porque apareceu nas delações da Lava Jato reclamando da câmera instalada na sala em que, segundo o delator, recebeu 200 mil reais em dinheiro. Hoje, a notícia é bem diferente: Cristiane será ministra de Temer, indicada pelo pai, que, assim, pretende “resgatar o nome da família”. Não que isso assuste: a nova ministra estará completamente ambientada entre os diversos ministros de Temer que já foram delatados, denunciados, processados, presos etc. Tudo em casa, tudo deles. Não haverá protesto, não haverá nada parecido com a reação à famigerada nomeação de Lula como ministro de Dilma. Mas, a cada piada sem graça de Temer, uma coisa fica ainda mais evidente: o golpe não foi apenas dado em prol da corrupção, mas contando com a encenação empolgada de uma grande parcela da população brasileira que não liga, nem um pouquinho, para corrupção. Nunca ligou, não liga, não ligará. Quando pode – e muitas vezes pode – tirar proveito da corrupção, tira. Sem remorso. Mas, apesar disso, essa parcela fez as vezes de indignada com a camiseta da insuspeita CBF para dizer que o país estava sendo… passado a limpo. Entre eles, a deputada Cristiane Brasil, que foi votar pelo impeachment de Dilma com a camiseta da CBF, pouco depois de ter feito campanha para Aécio (chegou a ser detida em boca de urna) e pouco antes de votar a favor de Temer nas denúncias feitas pela JBS… enfim, pacote completo: Cristiane tem todas as credenciais de indignada contra a corrupção. Não é por acaso que, hoje, o nome do país se confunde com o sobrenome da filha de Roberto Jefferson.

 

[4] Escrevi ontem sobre a nomeação da nova ministra de Temer mais ou menos no mesmo clima de outros textos que faço aqui: para não engasgar com as notícias. Tão logo publiquei, fui assistir uma série gravada na Islândia, cheia de corrupção, morte e violências. Igual ao Brasil, mas com roteiro mais inteligente e, claro, neve por cima. Dormi com frio só de olhar tanta neve na tela. Hoje acordei e vi que meu textinho sobre a filha de Roberto Jefferson estava circulando bastante por aí.

Agradeço as curtidas e compartilhamentos, porque preciso mesmo desse ânimo para continuar ajudando na tarefa de entender e, se possível, enfraquecer essas figuras que ocupam posições de poder no Brasil. Não é absurdo almejar isso: se todos que se indignam tiverem coragem de romper – no discurso e na prática – com a lógica de que essas figuras se beneficiam, algum enfraquecimento da posição deles pode vir daí.

Não se trata apenas do jogo eleitoral, obviamente, mas há algo curioso aí: Cristiane Brasil foi eleita vereadora 3 vezes no Rio de Janeiro e, na eleição para o primeiro mandato como deputada federal, já em 2014, teve 81.817 votos. Quem são essas pessoas? Não sei, mas elas estão por aí (ou por aqui, já que, segundo dizem, mais da metade dos brasileiros tem facebook!). Bem sei que a máquina que elege os políticos é bem blindada contra as poucas armas “democráticas” que temos ao nosso alcance, mas temos que continuar tirando leite de pedra: buscando se informar da melhor maneira, escrevendo aqui, xingando ali, denunciando acolá, debatendo onde for possível.

Muita gente compartilhou meu texto dizendo “só mesmo no Brasil”, “este país não tem salvação”… mas estamos longe de ser exceção. O que vemos na política em todo o mundo não é mais do que diferentes configurações (institucionais, culturais etc.) para a mesma tentativa de lidar com a força do capital e seus caprichos. Às vezes fede mais, às vezes fede menos, mas é sempre bastante podre. Sob sol ou neve, aqui ou na Islândia, quem ganha o jogo é sempre o mesmo time, bem restrito, que não mora nem aqui nem lá, porque flutua pelo mundo corrompendo bem mais do que figuras como Michel Temer, Roberto Jefferson e Cristiane Brasil. Temos que lidar com aqueles, temos que lidar com estes. Temos que aproveitar a energia desses desejos de início de ano para lutar da melhor maneira possível contra aqueles e contra estes. Enquanto desejamos, bastante desconfiados, que nossos amigos tenham um 2018 feliz, essa turma toma medidas muito concretas para garantir um 2118 ou até um 2218 igualmente privilegiado para “os seus”, sem ligar muito para o que sobrará do mundo até lá. Não devemos aprender com eles: devemos fazer com que aprendam conosco. Mãos à obra.

 

[6] Temer vai mudar a Constituição para pedalar impunemente (lembram quando “pedaladas fiscais” eram imperdoáveis?). É mais um indicativo de que, neste ano decisivo, Temer, Maia e seus sócios vão bater todos os recordes de descaramento para blindar tudo que fizeram até aqui e, claro, o que pretendem continuar fazendo. Hoje ainda é 6 de janeiro e o noticiário de Brasília já tem tanta sujeira que não resta dúvida: o grande voto de ano novo para 2018 devia ter sido “Feliz ano novo e um estômago de aço”. Tim tim.

 

[8] (Escrever a partir do ponto em que se fundem a tensão da reportagem, o vigor do testemunho, a potência da filosofia e o salto da poesia. Não saber exatamente: explorar. Não definir: expor. Estranhar, entranhar. Escrever para desentranhar. Escrever.)

 

[9] Há Silvas e Silvas, bem sabemos. Há o Luís Inácio, mas apareceu aqui agora, para minha infelicidade, um tal de Aguinaldo, “telenovelista”. Ele aproveitou o Dia do Livro (?) para perguntar ao mundo se “alguma vez na vida ele leu algum livro?”. Adivinhem a quem Aguinaldo, do alto dos livros que deve ter lido, se refere? Ao outro Silva, o Luís Inácio, claro, que ele reconhece ser o “favorito nas pesquisas”. Nem vou entrar nessa discussão sobre identificar a leitura de livros com uma espécie de virtude (algumas das pessoas mais admiráveis que conheço leram muito, mas talvez menos do que alguns dos maiores escrotos que conheço). Só quero fazer um registro: entre os tantos méritos de Lula, que nenhuma sentença tem conseguido manchar, um dos mais destacados é o de fazer Aguinaldos perderem toda a compostura e gritarem seus preconceitos aos quatro cantos. “Quantos livros ele leu?”, pergunta Aguinaldo ao público que ele cativou não com livros, mas com telenovelas… para quê? Vocês sabem: para dizer que o lugar de quem não lê livros, seja Lula ou o telespectador da novela das 8, deve ser sempre subalterno no campo político. Da boca de Aguinaldo sai a voz de quem nunca foi subalterno ou, se foi, já engoliu este papel na triste novela que é a política brasileira. Simples assim. Faz 40 anos que Lula é notícia, aqui e no mundo. De uns 15 anos pra cá, sua figura se tornou ainda mais central, por força tanto de seus admiradores quanto de seus detratores, mas principalmente por força de sua atuação política. O que transtorna completamente os Aguinaldos é o fato de que Lula, depois de tanto trabalho midiático, judicial, político etc. para demoli-lo, chegue a 2018 com tanta força, como, nas palavras de Aguinaldo, “favorito nas pesquisas para futuro Presidente do Brasil”, depois de sair vencedor nas últimas quatro eleições… Por isso, o ano apenas começou e todas as esperanças dos Aguinaldos são antidemocráticas: que um processo judicial deixe na urna apenas os nomes dos candidatos de que Aguinaldos gostam. Vamos ver. Como não tem plena certeza dessa hipótese, Aguinaldo já aproveita para requentar os preconceitos que nunca diminuíram Lula (alguém já votou ou deixou de votar em Lula por causa dos livros que ele leu ou deixou de ler?). Enfim, alguns Silvas não apenas escrevem bons roteiros, mas fazem História com H maiúsculo. É o que veremos nos próximos capítulos.

 

[20] UM ROTEIRO

 

cruzar a linha do tempo no fio da navalha

 

entre os assuntos sobre os quais não tenho nada a dizer

e os assuntos sobre os quais passo bem sem dizer nada

entre as informações de que certamente não preciso

e as informações de que provavelmente não preciso

 

sair vivo e, quem sabe?, mais vivo

 

[20] (Os diários de Ricardo Emilio Piglia Renzi são melhor lidos como um livro de poemas, em que os poemas se encadeassem como as partes de um romance, mas fossem suficientes como diversos contos sobre o mesmo personagem ou vários textos críticos sobre o mesmo livro ou o diário de um crítico sobre os poemas que não consegue entender.)

 

[23] Dizem que Parra se foi. Parra nunca vai. Parra era foda. Continua sendo e será. Morreu aos 103 anos e, na saída, fez com que o algoritmo do facebook reunisse quase vinte postagens seguidas lamentando sua morte na linha do tempo deste seu leitor, na hora do almoço numa cidade da América Latina. Deve ter sido seu primeiro antipoema póstumo. O primeiro de muitos, infinitos. Viva Parra.

 

[23] A gente não sabia que ele pensava em fugir antes, mas o fato é que já estava no forno o primeiro VOZES VERSOS de 2018, tendo como homenageado justamente… Nicanor Parra! A Editora 34 lançará em breve uma antologia de poemas de Parra. Convidamos, então, a Joana Barossi para ler na Tapera Taperá algumas de suas versões para poemas de Parra, ao lado dos poetas Marília Garcia e Paulo Ferraz, que lerão seus poemas e, quem sabe?, traduções de outros poetas. Não bastasse tudo isso, devo lembrar que teremos, como de costume, as arquicobiçadas plaquetes artesanais da Editora Quelônio, desta vez com Parra/Joana, Marília e Paulo. Vai ser no dia 24/2, a partir das 11h. Já achou a agenda aí?

 

[23] ceifadeira, isso não se faz:

o parra podia ficar mais!

mas se precisar de poetas

para ajudar nas suas metas

temer e sarney cá estão

e falta, você sabe, não farão

 

[24] Aconteça o que acontecer, a luta continua. Deve continuar. O ano não acaba hoje, nem o Lula nem a história. Aliás, Lula e a história já “acabaram” tantas vezes… e não acabaram! Quem insiste nessa narrativa do “Dia D de Lula” é justamente quem quer que Lula acabe hoje, ou melhor, quem queria que Lula nem tivesse existido. Nunca, nunquinha. E, infelizmente, quem apoia Lula – e também quem sabe que está em jogo nesses processos bem mais do que Lula – embarca na polarização que, hoje, só deu mais um passo e que, creio eu, está longe de ser o último. Vamos seguir. Não nascem abacates nos pés de laranja… então é mesmo difícil que o Judiciário venha a ser a garantia da democracia, do povo, de tudo que não é o próprio Judiciário, sua (falta de) lógica e seus compromissos de classe. Mas isso também já não importa muito, porque ninguém mais acredita nesse processo enquanto questão puramente judicial. É política desde o início e foi se tornando cada vez mais escancaradamente política, a pior política, a mais rebaixada. Pergunte ao seu amiguinho que quer ver Lula condenado: não tem nada a ver com os atos cometidos até aqui. Seu desejo de punição olha para o futuro, para a eleição deste ano e para as próximas e para bem mais do que eleições. A imprensa fez e faz um esforço gigantesco para que a cara de Lula seja identificada apenas e tão-somente com crimes, corrupção etc., mas não colou e não parece que vai colar. Tanto é que foram precisos tantos processos judiciais para chegar até aqui, até a possibilidade de uma eleição sem a imensa sombra de Lula. Para a maioria dos candidatos, uma notinha de rodapé no jornal é o suficiente para desmontar qualquer pretensão eleitoral. No caso de Lula, a dose tem que ser gigantesca. E a cada mandato dos seus adversários, tantos são os ataques que cometem aos interesses do país e do povo, parece que Lula sai ainda maior. Temos que ir além de Lula, temos que construir outra esquerda, outras lutas, mas a bola da vez ainda é ele. Gostemos ou não.

 

[24] Vejo os amigos aqui, os “não jurídicos”, chocados com o baixo nível da linguagem, dos argumentos, do raciocínio no teatro judicial do dia. Sinto em informar, mas, dada a repercussão desse espetáculo, todos ali estão até caprichando. Podem crer. No dia a dia, a máquina tritura sem tanta cerimônia e num nível muito mais baixo do que todos estão vendo hoje.

 

[24] Quando o Corinthians perde, às vezes me dou ao trabalho de assistir à reapresentação do jogo para ver se sai um resultado diferente e chego a vibrar à espera de um gol nas jogadas que sei que, horas antes, deram errado. Pois bem, depois de ler que a Bandeirantes noticiou às 10h18 da manhã de hoje o resultado do julgamento de Lula, fico pensando se vale a pena continuar perdendo tempo com esse jogo…

 

[24] Às 10h18, a Bandeirantes divulgou o resultado do “julgamento”: 3 a 0. Agora, às 17h40, o terceiro desembargador confirma a manchete. Como sabíamos, desde o início, essa imprensa e várias instituições trabalham juntas na condenação de Lula. Venceram mais uma etapa, mas a luta — que não é “a favor de Lula”, mas contra o arbítrio daqueles que na imprensa e nas instituições defendem sem trégua e pudores os interesses dominantes e antidemocráticos — continua. Nas ruas. Sempre.

 

[25] Tudo tem um lado bom. O facebook, por exemplo, tem o botão “desfazer amizade”.

 

[26] O curioso caso dos militantes que acham que a filósofa deveria conversar com o fascistinha de meia tigela, mas não conseguem dialogar sem romper nem mesmo dentro do campo mais restrito a que pertencem… mais um indício, entre tantos desta semana, de que nós, da ampla esquerda, de vez em quando até saímos juntos à rua para lutar contra os inimigos, mas gostamos mesmo é de brigar dentro de casa. O fascistinha agradece, enquanto seus sócios ocupam posições de poder, perseguem as ideias alheias e aniquilam seus adversários. Sem dó, sem diálogo, sem trégua.

 

[27] Não foi só o Roberto Jefferson que conseguiu um emprego para a filha no “governo” Temer. Lembram do deputado Wladimir Costa, aquele que tatuou o nome de Temer no ombro, entre outras estripulias (confetes, desvios de verbas, nudes etc.)? Pois bem, o filho dele, Yorran Christie, estudante de 22 anos, acaba de ser nomeado gestor da Secretaria Nacional do Desenvolvimento Agrário. Vai ganhar uns 10 mil reais para cuidar de um orçamento na casa dos 100 milhões. Duvido que uma tatuagem de henna já tenha rendido tanto assim aos verões de vocês…

 

[29] Manhã de segunda-feira e já temos a grande notícia da semana ou do ano! Preciso estudar os detalhes, mas está aí um movimento muito significativo de correção dos estragos do neoliberalismo num dos seus principais laboratórios. Depois de tornar o ensino superior inviável para a maior parte dos chilenos e endividar uma boa parte das famílias, o Chile recorre à universalização do ensino superior público e gratuito. É muito importante refletir sobre isso tendo em mente os rumos que a educação superior (e também a saúde) tomou por aqui nos últimos anos, inchando a parcela privada e sufocando a pública. Um dia vamos ter que desfazer seus estragos também…

 

[29] Escárnio. Num só dia, somos expostos à radiação do vídeo do presidente num programa de auditório fazendo piada com dinheiro enquanto defende o desmanche da Previdência; do vídeo da ministra do trabalho desse mesmo presidente atacando a Justiça do Trabalho ao lado de amigos empresários num iate; e do deboche de um juiz que conseguiu no próprio Judiciário (ora bolas!) garantir o recebimento de dois auxílios-moradia (um seu e um de sua esposa, também juíza, num total de R$ 8.000,00 mensais) para morar na casa que é deles! Eu sei que a coisa por aqui sempre foi bagunçada, mas num dia assim a cota de desesperança bate recordes. E a luz no fim do túnel parece ser cada vez mais um trem vindo na nossa direção. Sem freio.

 

[30] Lembro sempre da biografia da Elza Soares: “Cantando para não enlouquecer”. Quando leio as manchetes dos jornais, as palavras grudam na minha cabeça: chacina epidemia corrupção acusação prisão doença abandono aumento crise eliminação ataque bomba demissão denúncia discriminação mal desconfiança dívida febre injustiça tensão ofensiva inflação vítima terror absurdo atentado boato morte guerra facção tiro infarto tiro ódio tiro. E você, que não canta como a Elza, o que tem feito?

 

[30] A contraofensiva de comunicação de Temer, definitivamente, vai passar pelo SBT. Temer foi ao show de calouros do Silvio Santos. Foi também ao programa do Ratinho. Se ainda existir a Banheira do Gugu, por favor, me protejam dessa informação.

 

[31] É normal essa euforia, à direita e à esquerda, dos “cenários sem Lula” para a eleição presidencial, mas é cedo demais para dizer que Lula está fora da eleição de outubro. Os tribunais podem até decidir qual será seu papel direto na eleição, mas não podem conter sua influência, que se dá não apenas na forma da chamada “transferência de voto”, porque se soma a outras reações populares ao descalabro que o país enfrenta e deve se agravar daqui até outubro. Na verdade, chego a crer que, dependendo do que acontecer nos tribunais e do que Temer conseguir destruir daqui até lá, a influência de Lula pode se tornar maior ainda. As pesquisas de hoje indicam que Lula, em diversos cenários, cresceu ou se manteve consistente depois da decisão do TRF. Também é cedo para dar peso demais a essas pesquisas, mas o fato é que Lula está longe de cair no abismo que tantos – há tanto tempo – cavam para ele.

 

[31] CANÇÃO DO AMOR ACADÊMICO

[para o Heitor, entre coisas imediatas]

 

rasguei o Lattes, meu amor

que já andava bem chinfrim

briguei na Capes, perdi o rumo

errei a ABNT do início ao fim

na minha cabeça nada de Qualis

até você voltar pra mim

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