Do fb pra cá (julho 2017)

[4] Vou me convencendo cada vez mais de que o saldo de tantas operações e delações será algo ainda mais triste do que já estávamos acostumados aqui na periferia tropical do capitalismo: as tripas do sistema ficarão expostas aos nossos olhos, mas não virá nenhum grande aprendizado e muitos menos transformação a partir disso. Em breve, tudo se reorganizará, com alguns personagens fora e outros dentro, com outras regras e outros discursos, para seguir a trilha de corrupção (que é público-privada por definição, vale lembrar) e injustiça social que sempre pisamos.

O “em breve”, acima, é a ponta de otimismo.

 

[12] DESERTO

 

ao contrário

do que quer

o otimismo

dos poetas

 

nem todo

país

rima com

feliz

 

alguns

(chão baldio)

rimam com

pariu

 

[12] O golpe segue golpeando: a vergonhosa publicação da sentença condenando Lula horas depois de ser aprovada a “reforma” trabalhista é apenas e tão-somente a prova escancarada da natureza político-eleitoral da Lava Jato, que tantos perceberam e acusaram desde seu início. Só não vê quem não quer a estratégia grosseira de abafar o noticiário e qualquer mobilização da classe trabalhadora com os plantões espalhafatosos dessa condenação em primeira instância, que, ao punir Lula sem provas, pode ser considerado como o ato final dessa encenação toda. Pouco importa o que virá depois: a condenação, a prisão ou até mesmo a reeleição de Lula, depois de tudo que está sendo feito sob as asas do golpe, passam a ser quase que tão-somente simbólicas. Se os Tribunais mantiverem ou não essa condenação, se Lula, por conta disso, for ou não candidato em 2018, o que temos que manter em mente é que a briga não se resolve mais na solução que vier daí. O buraco é muito mais embaixo, o poço é muito mais fundo e foi cavado com uma velocidade incrível enquanto olhávamos para o “juiz-herói” e o “japonês da Federal”. E continua sendo cavado enquanto ficamos vendo os fantasmas da nossa esperança girarem no ar.

 

[13] Tenho uma gaveta aqui em que arquivo arrependimentos. Numa das pastas guardo o que deixei de dizer por educação ou, se preferirem, cordialidade besta. Um desses arrependimentos diz respeito ao tempo que perdi, quando começou o processo bizarro que chamavam de impeachment, ouvindo pessoas falarem “veja bem, tem um tripé na acusação, pedaladas, decretos etc., o impeachment é previsto na Constituição, está sendo garantido o direito de defesa etc.” Enquanto eu ouvia isso, meio constrangido diante da fé jurídica (que, eu sei, é um bom lugar para esconder fé e má-fé políticas de todos os tipos) de meus interlocutores, a voz de Jucá saía de um áudio ensurdecedor e tomava os quatro cantos da casa. Na mesma gaveta guardo o que deixei de dizer para os entusiastas da Lava Jato, para o aluno que entrou na sala de aula com uma camiseta “In Moro We Trust”, para quem fala demais sobre uma sentença e calou e calará sobre todas as outras decisões que beneficiam políticos e seus parentes e sócios flagrados em situações absolutamente criminosas, mesmo quando escritas pelo mesmo juiz. O país, que nunca foi grande coisa, vai virando coisa menor ainda, esfregando na nossa cara suas tripas (repito: a sentença de Lula foi publicada horas depois da aprovação da morte da CLT e é impossível separar essas duas coisas e não ver a estratégia partidária/midiática/judicial que move esse moinho podre), e nós vamos ficar discutindo as filigranas disso e daquilo? De minha parte, não. Tudo o que o golpe quer é que eu acorde nesta quinta-feira e fique discutindo os detalhes da decisão. Veja bem isso, veja bem aquilo, veja bem… Do ponto de vista jurídico, o que tenho a dizer é simples: não pode haver sentença sem processo. Se todo o processo é uma farsa, o que resulta dele é farsa também. Mas não espero que da mentalidade majoritária do meio jurídico venha algo além de citações de artigos e brocardos e folhas e teses e todo um leque de mistificações para evitar dizer o nome verdadeiro do jogo que estamos assistindo. Arbustos carcomidos com que nos distraímos para não ver a floresta em que estamos perdidos. Enfim, não vai ser o direito que vai conseguir olhar de modo amplo e complexo para o que estamos vivendo, para colocar as coisas no seu devido lugar, para colocar esse processo e sua sentença e seus atores no lugar nanico que lhes cabe na História. Só um povo que não aceite ser nada menos do que protagonista da sua própria História será capaz de perceber e acabar com a farsa em que o barulho da tevê e a cantilena dos especialistas o enredam. Não quero abrir minha gaveta de arrependimentos hoje. Vou ali tomar um café.

 

[13] No noticiário:

Noite de terça: Senado aprova fim da CLT.

Tarde de quarta: Moro condena Lula.

Tarde de quinta: CCJ absolve Temer.

Noite de quinta: Temer aprova fim da CLT.

Nas ruas:

“Cê viu? O Lula foi condenado! Bem feito!”

 

[13] Chico Alvim revisitado:

 

MAS

 

ninguém pedala

 

[14] Covardia é uma palavra de mil faces. É covardia bater em quem está caído, mas também deitar-se para fugir da luta. É covarde quem exagera suas forças para atacar quem é fraco, mas também é covarde quem cultiva fraquezas para se esconder atrás delas. Há covardia em dizer a verdade para machucar, mas também em mentir para evitar a dor. Covardes são todos aqueles que unem suas forças para esmagar o adversário, mas também aqueles que não se juntam para resistir e vencer o inimigo. Uma dessas faces é nossa. No mínimo. Sempre. Por isso, lutar contra a covardia é sempre lutar contra duas de suas faces: aquela que move nosso inimigo e aquela que nos paralisa.

 

[14] LARA. Na maior parte dos dias, sorte pode ser chegar na livraria e o livro que você procura estar com 30% de desconto. Mas, num dia triste do país, pode ser uma menina de 5 ou 6 anos, com o nome bem parecido com o da sua filha, escolher você para dizer: “tio, compra um livro pra mim? Eu gosto muito de pintar”. E lá se foi com a Cinderela embaixo do braço, deixando aqui uma outra espécie de ânimo. Grato.

 

[15] Liquidação total: eis o clima em Brasília. E não apenas lá. Não basta acabar com os direitos trabalhistas. A destruição da previdência social também é urgente e está logo aí. A mudança dos critérios das áreas de proteção ambiental (APA) também é urgente: florestas, índios, quilombolas são entraves à modernização. Tem também que desfazer as universidades públicas: uma emenda aditiva a uma medida provisória que trata de outro assunto é o suficiente para desfigurar a UNILA e, assim, encaminhar seu fim. E, claro, tem que dar um jeito de parar com essa perseguição toda aos políticos, como disse Jucá, “delimitar bem”: daí acaba a grana para passaporte e o povo que quer passaporte não vai ligar se a gente tirar grana seja de onde for para normalizar a expedição; e se faltar grana para comprar tornozeleiras eletrônicas, ninguém vai nem ficar sabendo; e se faltar grana para a investigação dos crimes, a Globo vai falar rapidinho do assunto; e se nos demais ministérios a lógica for a mesma, desarticulando políticas e instituições públicas para favorecer parcerias privadas, ninguém vai ter nem tempo de entender tudo o que acontece. No Brasil novo, moderno, aliás, pra que serve entender o que acontece?

 

[17] Quem não usava a palavra golpe? Quem ainda não usa? Quem usava sem refletir bem sobre seu significado? Quem ainda imagina (ou tem esperança de) que não será tão grave assim? O que falta para convencer que uns 99% dos brasileiros vão se dar mal, muito mal com as ideias dessa corja que decide o que vai ser do Brasil?

 

[18] PAÍS EMPREENDE DOR

Esperança é coisa do passado?

Nostalgia é o melhor do futuro?

 

[18] DARDOT & LAVAL

Já publiquei aqui na semana passada essa entrevista de Pierre Dardot e Christian Laval (dica do prof. Rubens Sawaya). Voltei a ela algumas vezes desde então, porque acho que é rica demais em questões que são importantes para nós, aqui, nem tão à margem das preocupações deles (que são autores do ótimo “A nova razão do mundo”, que a Boitempo lançou aqui em 2016; aliás, a editora deve lançar em breve outro livro da dupla, “Comum: ensaios sobre a revolução no século XXI”). Tomo a liberdade de selecionar alguns trechos, mas ao final vai o link para a íntegra da entrevista:

«[…] aqui está o coração da lógica neoliberal: colocar as grandes orientações da política econômica acima de qualquer controle democrático, de maneira que, independentemente das alternâncias eleitorais, todos os governos fiquem atados. O que o neoliberalismo não tolera é simplesmente a democracia eleitoral em sua forma mais elementar, assim como a divisão dos poderes, já que ambas supõem um obstáculo para essa “constitucionalização” da política econômica. Isto é o que encontramos hoje sob as mais diversas formas: um processo já bastante avançado de saída da democracia liberal-representativa, em benefício de um sistema de governança informal que envolve atores privados e estatais.

[…] É preciso de uma vez por todas tomar consciência deste fato: a socialdemocracia deixou de existir e nada poderá ressuscitá-la já que o sistema destruiu todo espaço e toda margem de manobra para que se possa operar uma força contrária em seu interior. Sob a palavra de “socialdemocracia” o que existe de fato são esquerdas neoliberais que, já de entrada, inscrevem sua ação no mesmo marco que as direitas neoliberais. Eis aqui porque nos parece mais correto falar de uma “razão política única”, no lugar de “um partido único”.

[…] Mais vale pôr em questão a possibilidade de reconstituir uma verdadeira socialdemocracia nas condições de transformação neoliberal das instituições estatais. A realidade é que essa transformação, devido ao seu caráter irreversível, impede definitivamente toda volta atrás: pura e simplesmente, as margens de manobra que permitiram historicamente a socialdemocracia jogar seu papel deixaram de existir.

[…] As instituições não são neutras, assim como o Estado em geral. Consequentemente, a questão não é entrar nas instituições para fazer delas armas no combate à oligarquia neoliberal, mas fazer das instituições um novo terreno de luta. Concretamente, se trata de trabalhar ativamente, desde o interior e ao mesmo tempo desde o exterior, para subverter a lógica do Estado e de suas instituições — que é no fundo uma lógica proprietária e monopolizadora.

[…] O que nós entendemos por “governar contra o Estado” não é nada mais nada menos que isso: o Estado neoliberal não é o aliado natural de um governo democrático, mas sim um adversário cuja resistência só poderemos superar nos apoiando nas mobilizações e nas experiências advindas da própria sociedade.»

https://movimentorevista.com.br/2017/07/neoliberalismo-trump-marxismo-le-pen/

 

[19] JORNAL. Depois de ler que “Moradores de rua em São Paulo são acordados com jatos de água fria”, “Cidade gaúcha pune 14 pessoas por beber em local público após 3 dias com nova lei”, “Meninas fazem cirurgia estética na vagina ainda virgens; Brasil é líder”, “Recepcionista é demitida de salão em Ipanema por não ter opinião sobre condenação de Lula” e “Número de mortes no trânsito de SP sobre 24% em junho”, é muito cruel saber, em seguida, que “Anvisa suspende lote de Lexotan”.

[19/07/2017] Moro mandou bloquear bens pertencentes a Lula. Encontrou dinheiro e outros bens que Lula sempre disse que tinha; nenhum dinheiro incompatível com a renda dele ou os bens que o acusam de ter recebido, no Guarujá, em Atibaia, seja lá onde for. Tirar o acesso de Lula a suas contas pessoais faz parte da tortura. Mas não vai funcionar: tenho certeza de que Lula terá sempre alguém disposto a ajudá-lo a se manter enquanto Moro se diverte com decisões judiciais calculadas para virar manchete. A despeito de toda a demonização, Lula ainda tem mais amigos e admiradores do que seus perseguidores são capazes de entender. Eu, por exemplo, moro bem perto. Se quiser colar em casa pra ver o jogo do Timão e tomar uma, Presidente, manda inbox. É por minha conta.

 

[20] “Em São Paulo, Deus é uma nota de 100”, canta o Mano Brown para nos lembrar que só o dinheiro pode tudo por aqui. Mas o fascismo subverte até as “verdades” do dinheiro, como um comerciante que prefere deixar de vender a ver seus clientes doando comida para pessoas que sobrevivem na rua. Na cidade que acorda com jatos de água quem dormiu na madrugada gelada das calçadas. Rua Domingos de Morais, 26, Vila Mariana. Anotem aí um bom lugar para não ir.

 

[21] Menos direitos e mais impostos: é assim a vida embaixo da “ponte para o futuro”?

 

[23] Deve ser isso que chamam de “modernizar as relações de trabalho”: professores descartáveis, sob demanda, convocados por aplicativo para dar “aula” (aliás, para alunos que provavelmente estarão entretidos com outros aplicativos durante a “aula”). Não é só Uber, é meio Tinder. A aula é casual dating, o teacher vira crush e, se der match, todos se f…

 

[25] Efeméride importantíssima que nosso jornalismo cultural não deveria deixar passar: 20 anos do lançamento da revista Inimigo Rumor. Muita gratidão desde então ao que Carlito Azevedo e todos os seus parceiros, durante dez anos, fizeram pelos leitores de poesia em cerca de 3000 páginas.

 

[26] Doação de “Íntimo desabrigo”: se souberem de bibliotecas públicas, comunitárias, itinerantes, de movimentos sociais, ocupações etc., qualquer lugar em que o livro fique acessível gratuitamente a leitores, por favor me mandem o endereço (inbox) e será um prazer enviar o livro novo sem qualquer custo. Grato!

 

[27] Gustavo Silveira Ribeiro tem sido um crítico da poesia contemporânea tão próximo dos movimentos diários dos próprios poetas que, por vezes, ele até se confunde com esse, digamos, universo criativo. Não consigo pensar uma posição melhor para um crítico ocupar. Talvez por isso ele tenha tanto a dizer sobre o emaranhado de versos que cresce ao seu redor. Vale ler!

https://escamandro.wordpress.com/2017/07/25/entrevista-com-gustavo-silveira-ribeiro/

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