Do fb pra cá (novembro 2017)

[1] O som do lápis no papel: música.

 

[2] Descondecorações

(com a Dalila: contra)

 

aos ilustríssimos canalhas

e seu séquito decrépito

do fundo do meu fígado

dedico tudo isso:

antitítulo de descidadão

desonra ao demérito

contramedalha de desdouro

menção desonrosa

votos de profundo desprezo

e respeito algum

 

[3] Muito legal esse conceito de transparência: “A Transparência não divulga os nomes, alegando sigilo”. E segue a luta de Temer contra a corrupção, ops, contra a investigação da corrupção…

 

[7] “Judith Butler vá para o inferno” num cartaz para protestar contra sua vinda ao Brasil é, neste contexto, bem contraditório. O inferno é aqui (não só aqui). O inferno da intolerância, da ignorância, do fascismo. O inferno dos ouvidos tapados e das bocas ligeiras. E, se deixarmos, essa turma da bíblia & bumbo aprofundará o triste inferno que tem sido este país. Há pouco tempo seria inimaginável um protesto público contra uma palestra de filosofia, seja de que tema for, simplesmente porque, em regra, se despreza a contribuição da filosofia, mesmo em circuitos acadêmicos mais amplos. Mas de uns tempos para cá o inimaginável tem sido estampado nos jornais todo dia. O inimaginável está na nossa testa. Há pouco, não havia o risco de alguém juntar sua turma numa terça de manhã para protestar contra alguma programação do SESC, muito menos contra as ideias de filósofos normalmente citados em círculos muito restritos, especializados e, não raro, herméticos. Essa parecia ser uma fronteira que se sustentava, infelizmente, pelas diversas razões do afastamento entre a produção intelectual e a maioria da população no Brasil. Se, na melhor das perspectivas, lutávamos e lutamos para acabar com esse abismo, sempre foi acreditando que a ponte inevitável seria democratizar o acesso a essas ideias, com muita leitura, debate etc., para fortalecê-las e, com isso, avançar concretamente nas políticas públicas. Mas, aqui no inferno, demos um salto sobre o abismo: a disputa em torno dessas ideias se dá entre um grupo que as conhece (ainda não que não as defenda, coisa natural no – e apenas no – campo democrático) e um que as despreza, na linha do “não vi, não gostei e tenho raiva de quem viu e/ou gosta”. Com essa barricada de ignorância se erguendo nas ruas, confesso, é cada vez mais difícil enxergar algum aspecto positivo. Aliás, como disse Judith Butler numa entrevista recente: “Me sinto muito triste com tudo isso, já que a postura de ódio e censura está baseada no medo, medo das mudanças, medo de deixar os outros viverem de uma maneira diferente da sua. Porém, é essa habilidade de viver com a diferença entre todos nós o que irá nos sustentar a longo prazo”. Ou seja: apesar de tantos pesares, temos que seguir. Não temos opção.

 

[9] Sonhei que tinha um canal na TV em que assistíamos, 24 horas por dia, a tudo – TUDO! – que não vai ao ar na Globo.

 

[9] “Coisa de preto”, aliás, só faz sentido como ofensa na cabeça de gente muito ignorante, porque grande parte das “coisas” mais admiráveis que conhecemos são, por assim dizer, “de preto”. E não estou falando de artes e esportes, porque aí já seria humilhação.

 

[10] SONETO-ABORTO

(ou 18 razões para você entender

que nem tudo deve vir à luz)

 

Antônio Jácome (Podemos-RN)

Diego Garcia (PHS-PR)

Eros Biondini (PROS-MG)

Evandro Gussi (PV-SP)

 

Flavinho (PSB-SP)

Gilberto Nascimento (PSC-SP)

Jefferson Campos (PSD-SP)

João Campos (PRB-GO)

 

Joaquim Passarinho (PSD-PA)

Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP)

Leonardo Quintão (PMDB-MG)

 

Marcos Soares (DEM-RJ)

Pastor Eurico (PHS-PE)

Paulo Freire (PR-SP)

 

CODA:

 

Alan Rick (DEM-AC)

Givaldo Carimbão (PHS-AL)

Mauro Pereira (PMDB-RS)

Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ)

 

[11] uen iu gat nafin

iu gat nafin tu luze

 

[11] 《Pelo bem do País, Lula deve morrer.》Eu não sei quem é esse Mario Vitor Rodrigues, tampouco deveria divulgar sua demonstração constrangedora de desespero (muito menos o nível de escrotidão a que essa revista está disposta para vender mais alguns exemplares). Mas ainda acho que, toda vez que a imprensa consegue ser mais podre que as piores conversas de bar, temos o dever de acusar. Além disso, me parece haver uma espécie de elogio às avessas e declaração de amor ao Lula num texto assim. Se eu fosse o Lula, pediria para o Mario Vitor praguejar mais. “Pragueja, Mario Vitor, pragueja, mas não morre, não, pra ver como sua opinião (não) importa”.

 

[12] Gente, vou insistir nisso aqui… comprem, leiam e divulguem o livro. São 60 reais, mas tem quase 700 páginas repletas de reflexões sobre cada aspecto da legislação trabalhista (individual, coletiva, processual) atacada pela “reforma”. Como digo no texto da orelha do livro, “não é um livro para ser lido e colocado na estante, longe dos novos conflitos que os trabalhadores enfrentarão a partir de agora. É um livro vivo, um livro para ser lido e relido e carregado para todos os lados. Um livro a ser reescrito pelos seus leitores diante de cada ofensa aos direitos dos trabalhadores. Um livro para ser multiplicado pela ação combativa de todos aqueles e todas aquelas que entendem a importância dos direitos sociais.”

https://expressaopopular.com.br/loja/produto/resistencia-aportes-teoricos-contra-o-retrocesso-trabalhista/

 

[12] E ontem também nasceu outro livrão vermelho fundamental para o nosso tempo: “Golpe: antologia-manifesto”. Grande-grande trabalho de Ana Rüsche, Carla Kinzo, Lilian Aquino, Lubi Prates e Stefani Marion, reunindo trabalhos de mais de 100 autores, com apresentação de Marcia Tiburi e orelha de ninguém menos que Dilma Rousseff. Para comprar, procure a nosotros, editorial.

 

[12] Vocês repararam que CRIME cometido por amigo do Gilmar Mendes é sempre um ERRO (do amigo dele ou, principalmente, de quem o acusa)? Bonito isso.

 

[13] Li a notícia sobre a doença (profissional?) de Alexandre Frota e já ia fazer piada… mas não se brinca com essas coisas. Frota não pode mais endurecer as críticas, levantar suas bandeiras, erguer-se contra injustiças. Sem ele, o poder de penetração do MBL é bem menor. Não dá pra fazer piada.

 

[14] O STF decidiu hoje que quem é acusado de crimes junto com Aécio Neves não apenas tem direito à prisão domiciliar gourmet, mas também tem foro privilegiado top/vip. Por quê? Porque tem. Segundo esse entendimento, nenhum juiz de camisa preta em Curitiba poderia julgar ninguém que cometeu crimes em conexão com quem tem foro privilegiado no STF? Não. Por quê? Porque sim. Bom feriado.

 

[16] Noite perfeita para o Corinthians é aquela em que quase tudo dá errado. O Grêmio bate o São Paulo e faz a alegria de todos que, com o campeonato 99% definido, ainda assim queriam o adiamento do título para outra rodada. O Fluminense entra em campo e faz um gol no primeiro lance do jogo, diante de 45 mil corintianos, jogando água na cerveja sem álcool da moçada. E todo o primeiro tempo se arrasta sem outro gol, para alegria dos comentaristas que ficaram lembrando as limitações do time para criar, atacar, reagir etc. Mas começa o segundo tempo e é um outro time que vem dos vestiários, capaz de sufocar quem parecia que ia estragar a festa. Parecia. E, no fim da noite, toda aquela possibilidade de dar errado foi engolida pelo grito enlouquecido de quem não sabe nem quer explicar o que sente por esse time, pelo único Timão.

 

[17] Imagina que louco se toda, toda, toda prisão ou qualquer punição tivesse que ser confirmada pelos brothers do acusado? Pois é…

 

[18] CONTRA(GANDRA)

 

(não sou) negro

(não sou) homossexual

(não sou) índio

(não sou) assaltante

(não sou) guerrilheiro

(não sou) sem terras

 

como faço para não

morrer (viver?) no Brasil

nos dias atuais?

 

[18] “Canto” em catalão, por Joan Navarro:

 

CANTO

 

com os pés descalços sobre o país em que nasci

arrasto ideias como correntes de um canto a outro do território

que cabe em minha mente e caio caio caio

arrasto o peito nas inscrições que o passado deixou em cada pedra

espalho o sangue dos ancestrais que desconheço

escrevo inscrevo gravo guardo os segundos nas mangas de mágico

da camisa intocável que resiste ao arrasto

pela geografia desses solavancos em que meu canto quieto pasto

 

Tarso de Melo, “Íntimo desabrigo”, Dobra Editorial & Alpharrabio Edições, 2017.

 

CANT

 

amb els peus descalços sobre el país on vaig nàixer

arrossego idees com corrents d’un costat a l’altre del territori

que cap en la meva ment i caic caic caic

arrossego el pit per les inscripcions que el passat deixà en cada pedra

escampo la sang dels avantpassats que desconec

escric inscric gravo guardo els segons en les mànigues del mag

de la camisa intocable que resisteix al ròssec

per la geografia d’aquestes sotragades on el meu cant quiet pasturo

 

[20] Nunca imaginei estar no mesmo volume dos poetas que estão em “50 poemas de revolta”, mas agora em dezembro terei um poema atrás dessa capa: se não tiver outra razão, revolta tem de sobra.

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14437

 

[21] O comando da Polícia Federal foi definido não apenas por Michel Temer e Romero Jucá, que bem deveriam estar do outro lado da relação polícia/ladrão. Além deles, o chefão da PF teve o aval de José Sarney. Sim, Sarney, aquele poeta que dá suas ordens em Brasília desde 1955. Ponte para o futuro.

 

[22] Três poemas na revista Gueto:

https://revistagueto.com/2017/11/22/tres-poemas-28/

 

[22] Liquidação. Não se assuste se Temer aproveitar a black friday para pechinchar uns deputados e passar a “reforma” da Previdência.

 

[22] (Pensando à toa com meus botões… seria muito interessante se as fotos dos autores, nas capas ou dentro dos livros, fossem da época em que os livros foram escritos. Mario Quintana, por exemplo, que escreveu e publicou desde muito novo, aparece nos livros, normalmente, com a figura do velhinho poeta: não duvido que, por causa das fotos, exista quem imagine que toda a obra de Quintana foi escrita por aquele velhinho simpático e chegue a ouvir a voz do velho Quintana em cada poema da juventude e de outras fases da sua longa vida. Outro exemplo: Marx e Engels escreveram o “Manifesto Comunista” quando não tinham nem 30 anos, mas na maioria das edições vem em destaque a imagem dos dois barbudos já com mais de 50, 60 anos. Com vários outros autores tem sido assim. Acho curioso isso, cria algum estranhamento: “ele é o autor desse livro?”… Mas deixem pra lá, avisei que estava pensando à toa… boa noite!)

 

[23] Governos mentem. Propagandas, em geral, mentem. Sempre mentiram, continuarão mentindo. Não foi Temer quem inventou. Mas a propaganda do “governo Temer” sobre a “modernização trabalhista” e o “fim dos privilégios na Previdência” é um soco no estômago. Seu discurso sobre as vantagens dessas medidas — lá, gerar mais e melhores empregos; aqui, sobrar mais dinheiro para investir em saúde e educação — é tão distante da realidade que… faltam palavras! Quem está atento e honesto sabe que: (1) não, não virão empregos melhores daí; (2) nenhum verdadeiro privilégio será atingido com esses cortes na Previdência; e (3) nada disso afetará os compromissos desse “governo” quanto ao sucateamento da saúde e da educação públicas. É contra essas constatações que se esforça a propaganda de Temer, Maia et caterva. É a partir delas que devemos julgá-los: canalhas.

 

[23] Quando o Estadão alcança o absurdo de divulgar, na manchete, os números da aprovação do apresentador Luciano Huck como se fossem números de sua aprovação como candidato à presidência, não é apenas uma forma marota e escrota de fazer jornalismo. É a expressão de um desejo profundo de que a imagem construída no programa de tevê passe diretamente para as urnas, sem qualquer questionamento a respeito da capacidade e, principalmente, dos compromissos políticos e empresariais que a candidatura de Huck representa. Não é conveniente lembrar que Huck, muito mais do que o cara que coloca dinheiro em cima de um pau de sebo para que endividados tentem alcançar para pagar seus boletos vencidos exibidos ao vivo na tevê, é o parça de Cabral, Aécio e, claro, agente da própria Globo. Não resisto: loucura, loucura, loucura! O jornalismo dessas manchetes, bem sabemos, é porco. Não há surpresa nisso. Mas já é também o indicativo dos níveis de mistificação a que essas empresas de comunicação continuam dispostas e, claro, explorarão doentiamente em 2018, em favor de seus candidatos de estimação. Deu certo com Doria, mas campanha e mandato estão bem longe de ser a mesma coisa (aliás, alguém viu o Doria vestido de gari nos últimos meses?). É a partir da análise do mandato de Doria, por exemplo, que podemos começar a crítica do projeto político que é defendido por famílias como as do Estadão e da Globo. Se souberem de algo que eles defendem que não sejam seus próprios interesses, talvez exista algum motivo para respeitar as opiniões que emitem (enquanto omitem tantas outras…), com mais ou menos maquiagem de notícia. Sabem?

 

[24] Alucinação: o programa do PMDB diz que o “governo Temer” já conseguiu deixar mais barato “viver, comer e morar”. Na sequência, entra o programa do Solidariedade e Paulinho da Força critica a “reforma” da Previdência “em defesa do povo”. Se existisse detector de mentira para comercial, o aparelho explodia.

 

[28] se o fogo comesse

todos seus livros

qual seria o primeiro

da nova coleção?

 

[28] Ritmo

 

morar no mato

da mente

rolar nos rios

do corpo subir

o morro

da alma ver tudo

lá de cima

 

[29] Todo ano tem a festa dos livros na USP: uma espécie de cracolândia para os biblioadictos. Durante dois, três dias, ficamos como zumbis disputando ombro a ombro (literalmente) aquelas pilhas de livros, sem ligar para nada: para quem nos olha com desprezo e parece perguntar “vai ler tudo isso?”, para a realidade dos extratos bancários e das faturas de cartão de crédito, para o suor intenso, para as cotoveladas nas costelas, para a fome, a sede, o cansaço. Quase todo bom senso e quase toda dignidade sucumbem diante daquelas bancas. Não duvido, aliás, que naquele tempo e espaço se concentrem as principais atividades físicas realizadas por estudantes, pesquisadores e professores durante todo o ano: caminhadas extenuantes e halterofilismo com obstáculos, práticas raras na vida ociosa dos leitores. De uns anos pra cá, talvez porque olhe com algum desgosto para livros bestas que comprei lá na empolgação, cheguei até a faltar numa ou outra edição. Na do ano passado, se bem me lembro, comprei apenas 2 livros. Voltei de lá com a sensação de que era possível ser senhor do próprio desejo no meio daquelas tentações todas. Mesmo quando encontrei aquele amigo que, abrindo um pouco a sacola abarrotada, mostrou um livro e perguntou com voz de aliciador: “comprou esse aqui? tá 10 reais!” Dureza. Enfim, prometi não ir em 2017. Não pretendo descumprir a promessa, mas vocês ficam postando fotos das pilhas de livros que compraram… vocês não prestam!

 

[29] Dias atrás, quando soube que o poesia.net estava completando 15 anos, escrevi uma mensagem para o Carlos Machado (abaixo): mais que parabenizar, eu agradecia pelos serviços prestados. Além da alegria de ter lido seus boletins durante todo esse tempo, tive outra: ter poemas publicados no boletim 31, em 2003. E, para minha surpresa, hoje tive mais uma: o boletim 390 de poesia.net traz novamente a carinhosa atenção de Machadinho com 5 poemas meus. Entre 2003 e 2017, só aumentou a honra de contar com a amizade de um leitor e poeta tão especial – e especialmente generoso. Visitem:

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet390.htm

 

PS: «Machado: é bem provável que eu conheça o poesia.net desde o primeiro número. Estou puxando aqui da memória e acho que seu trabalho vem junto com meus primeiros momentos de utilização cotidiana do e-mail. Desde aquela época, já era normal contar com o ouro dos poemas bem selecionados e apresentados por você caindo na tela junto com a infinidade de outras mensagens, correntes e propagandas que migravam para o mundo eletrônico. E tanta coisa se sobrepôs de lá pra cá: chegaram as redes sociais, os computadores foram parar dentro do bolso, a quantidade de informação que chega é cada vez mais uma avalanche… e ainda assim o poesia.net resiste como um oásis de qualidade e confiança na edição carinhosa que você faz. Exemplifico: vira e mexe, procuro poemas na internet para enviar a alguém, usar em oficinas, republicar aqui e ali… A maior parte do que encontro nas primeiras buscas vem cheia de erros… mas, quando me deparo com esse poema publicado por você, acabou imediatamente a busca: sei que ali está a versão mais cuidadosa do poema. Parece pouco, mas é para mim o indicativo da importância do trabalho que você tem feito com distinção nesses 15 anos. Há muita gente embalando no (e amplificando o) barulho da internet com poemas (e isso vale para muitas outras coisas), mas meus heróis são aqueles que conseguem aproveitar o ritmo e as facilidades da internet sem abrir mão do carinho, do cuidado, da precisão editorial que a leitura dos poemas exige. Muita gratidão e desejos de vida longa ao poesia.net!»

— para ler outros depoimentos de leitores do poesia.net, entre aqui: http://www.algumapoesia.com.br/15anos/leitores1.htm

 

[30] BIBLIO. Alguém me contou do amigo que arrancava páginas do João Cabral em papel-bíblia para fumar um baseado. Pirei. Não era o papel, muito menos a “bíblia”, mas o aguilhão do eterno retorno aos poemas adorados: como faz pra viver, um dia que seja, sem as pedras de Cabral perto da mão? E esse nó só se apertou desde então: os livros, não por eles, mas pelo que, neles, nos leva além deles, cada vez mais além. Falei outro dia aqui sobre incêndio de livros e recomeçar a biblioteca pessoal. Falei ontem da tara pelos livros com desconto. Fiquei pensando na reação dos amigos e caí para dentro da memória. Anos 1990. Já tinha ouvido falar desse lance de poesia, mas o papo agora chega de outro jeito. Sem aula, sem prova, sem prosa. Curtir os poemas. Ponto. Ler e, ao final, dizer: foda! Juntar as peças de um quebra-cabeça infinito, sem bordas, sem moldura. A fome era grande e a receita era simples: correr atrás. E correr para todos os lados. Passar todas as horas livres dentro de sebos, livrarias e bibliotecas, tirar xerox dos livros que os amigos carregavam, encomendar os livros de que ouviu falar. Ter sempre uma fita cassete para pedir a alguém que gravasse aquela poesia toda de que lançava fragmentos no ar. Pegar o vírus sem cura do preciso-ler-ver-ouvir-isso. Feliz-triste condenação. Transformar os bares, cafés, restaurantes em salas de aula da universidade desconhecida. Ficar famoso na porta dos lugares em que havia livros. Louco do bairro. Ver nos sebos, livrarias e bibliotecas um parque de diversões difícil de explicar aos demais (mergulhar, por exemplo, durante semanas, no porão da hemeroteca pública para copiar todas as resenhas que Leminski assinou numa revista que ainda hoje, por trás do mesmo nome, se arrasta com cheiro de podre). Querer conhecer os livros de que as pessoas falavam. Querer conhecer as pessoas de que os livros falavam. Tudo que ler, ver, ouvir, viver, fazer: tudo passa a ser parte de uma espécie de treinamento maluco para ler de modo mais completo e livre. Completo porque livre. E vice-versa. Ficar uma madrugada tentando entender porque alguém disse que tudo existe para acabar num livro. Ficar outra madrugada pensando que, na verdade, tudo parece ter começado num livro. E, depois, passar todas as outras madrugadas acreditando que nem livro nem nada começa nem termina. Que tudo existe. E vai passando. Os livros e a vida. Uns para a outra. E vice-versa. Sempre. Cada vez mais apaixonado por livros. Cada vez menos bibliófilo.

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