Rodrigo Campos, “São Mateus”

rodrigo

«na quarta-feira
cantando a canção derradeira
sem a beleza da vida no nosso lugar»

“São Mateus não é um lugar assim tão longe”, primeiro disco de Rodrigo Campos, saiu em 2009. Vai fazer 10 anos (e Rodrigo tem apenas 40). Já contei aqui como fiquei sabendo dele no final do ano passado, quase por acaso, mas o que importa é que tenho ouvido bastante este e os discos mais recentes de Rodrigo desde então. Passei o Carnaval de 2018 ouvindo e reouvindo suas canções, e algumas vezes me perguntei se faria sentido indicar agora um disco que já vai completar uma década. Pensei nos tristes distraídos como eu, que correm o risco de deixar passar essa pérola no meio das infinitas pérolas de que é feita a música brasileira. Não somos poucos os tristes distraídos, creio eu. E o disco merece nossa melhor atenção. A forma como Rodrigo costura os elementos do cotidiano de bairros periféricos de São Paulo é única. O jogo de bilhar, o futebol de várzea, o trabalho no banco, a professora que se desdobra entre a casa e a escola, as estações de metrô/trem longe do centro: desde seu título, “São Mateus não é um lugar assim tão longe” é um convite para olhar para o que teimamos em empurrar para os cafundós da nossa memória, por mais próximos que continuemos ainda de tudo isso. Estão ali, perpassando sutilmente as faixas, a sombra da pobreza, da violência, dos diversos abandonos, mas o primeiro plano quer mesmo é chamar nossa atenção para o quanto há de vida nas histórias da gente que passa por nós vestindo o “jaco califórnia azul” ou dos Fabrícios, Lúcias, Isacs que nos escapam anônimos. Quanto mais ouço, mais vou ficando admirado com a força das personagens que essas canções encontram lá na vida mais simples, na vida aparentemente menos “interessante”. Rodrigo não é o primeiro nem será o último a cantar as vidas que, por serem idênticas a infinitas outras que se passam quietas nas áreas menos iluminadas da cidade, ficam soterradas no nosso desprezo. Mas Rodrigo parece construir, com os mesmos elementos geográficos/culturais/políticos/sociais com que outros tantos artistas de sua geração fizeram rap, uma outra musicalidade. E eu queria ser capaz de comentar como tudo isso que acontece nas letras é também acompanhado de arranjos igualmente potentes, lindos, precisos. Dá gosto ficar pensando sobre esse disco de 2009 já antecipando a “abertura” que o rap vai viver tão fortemente nos últimos anos, desde o disco de samba do Criolo (parceiro de Rodrigo, aliás) ao disco de baile do Mano Brown, passando pelos passeios do Emicida e tantas outras vozes do rap com a MPB. Que fique claro: Rodrigo Campos não fez um disco de rap, assim como “Espiral da ilusão” e “Boogie Naipe” também estão longe de ser discos de rap “tout court”! Mas, de alguma maneira, consigo vê-lo tão próximo do lugar a partir do qual o rap fala e, portanto, vejo que seu trabalho integra esse esforço – em que até gigantes do rap estão engajados – de fazer as periferias falarem de outras formas, abrir outras janelas e, mais que tudo, mentes. Enfim, daqui até o aniversário de 10 anos de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, espero colocar no papel um pouco mais do que o disco me diz. Enquanto isso, peço que corram lá para ouvir. Dá uma alegria tremenda saber que está assim tão perto dos ouvidos a melhor trilha sonora que uma época pode ter.

[fb 14/02/2018]

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